570: Carga viral na saliva pode determinar a vida ou a morte do infectado

 

SAÚDE/COVID-19/CARGA VIRAL

A quantidade de vírus na saliva de um doente infectado com o novo coronavírus, pode ajudar a prever o seu futuro. Um estudo da Universidade de Yale conclui que a carga viral na boca está associada à gravidade da doença e pode ajudar a personalizar os tratamentos

© OSCAR DEL POZO / AFP

Os primeiros resultados de um estudo da Yale University (EUA) indicam que a quantidade de vírus na saliva pode ajudar a prever as consequências da doença no infectado com Covid-19.

“A carga viral na saliva nos primeiros momentos está correlacionada com a gravidade da doença e com a mortalidade”, diz a equipa da imunologista da Yale Akiko Iwasaki, que analisou exaustivamente 154 pacientes com Covid-19 no hospital universitário da cidade de New Haven.

De acordo com o El País, a análise destes investigadores mostra que os níveis virais aumentam progressivamente, de um mínimo em pacientes com sintomas leves, a um máximo em pacientes gravemente doentes e em pessoas que morreram de COVID.

A carga viral mais alta na saliva parece estar associada a factores de risco conhecidos, como idade avançada, sexo masculino, cancro, insuficiência cardíaca, hipertensão e doenças pulmonares crónicas.

“Se tirássemos amostras de saliva e analisássemos a carga viral – principalmente no início da infecção, quando a pessoa chega ao hospital – poderia ajudar muito os médicos a prever o prognóstico do paciente e a escolher os tratamentos”, diz o microbiologista espanhol Arnau Casanovas , que participou do novo estudo, que ainda aguarda revisão para ser publicado numa revista especializada.

A equipa liderada por Iwasaki argumenta que a saliva ajuda a prever a progressão da doença muito melhor do que amostras colhidas com um cotonete nasofaríngeo – a já conhecida zaragatoa inserida pelo nariz .

Estes investigadores defendem que estas amostras recolhidas com a zaragatoa apenas refletem a multiplicação do vírus no trato respiratório superior, enquanto a saliva também mostra a situação nos pulmões.

De acordo ainda com o artigo publicado no diário espanhol este sábado, algumas pesquisas mostram que a maior carga viral na saliva também está associada a uma maior quantidade de biomarcadores no sangue da reacção inflamatória característica dos casos graves Covid. Essa carga viral mais alta está ligada a níveis mais baixos de plaquetas, leucócitos e anticorpos específicos contra o coronavírus.

Conclusão prematura?

Elisabet Pujadas , patologista espanhola e pesquisadora da Escola de Medicina Icahn do Hospital Mount Sinai, em Nova York, aplaude o novo estudo. “Traz uma perspectiva valiosa: que a saliva pode ter um valor maior do que se pensava para diagnóstico e prognóstico”, sublinhou ao El País.

A equipe do Pujadas já publicou em Agosto a relação entre a maior carga viral analisada em amostras de nasofaringe e a mortalidade por Covid-19. “É possível que a saliva reflita melhor a infecção do trato respiratório inferior”, afirma.

Pujadas, que trabalha nos Estados Unidos há mais de 15 anos, realça, porém, que a nova análise inclui apenas 154 pacientes, por isso seria “prematuro” concluir que a saliva deveria agora ser usada em vez das amostras nasofaríngeas.

Para Pujadas, a principal lição é que não se devem classificar pacientes Covid apenas com um simples positivo ou negativo. É preciso medir a respectiva carga viral. “Para certos vírus, como o HIV, o padrão de qualidade é a carga viral, porque anos de pesquisa mostraram que ela tem implicações importantes para o risco do paciente e afecta a estratégia de tratamento. O mesmo deve acontecer com a Covid-19 “, afirma Pujadas.

Iwasaki, Casanovas e outros colegas já publicaram um estudo em Setembro que sugeria o potencial da saliva para diagnosticar novas infecções por coronavírus. Uma revisão sistemática de 37 investigações acaba de mostrar que as amostras de saliva podem substituir as amostras nasofaríngeas para o diagnóstico de covid, com a mesma precisão e menor preço.

“Há muito que dizemos que seria melhor usar a saliva como amostra prioritária. É muito mais fácil recolher saliva do que um cotonete nasofaríngeo. Não é preciso uma equipa de enfermagem. Cada pessoa pode cuspir em casa num pequeno tubo. E ainda se evita o risco associado à recolha de uma amostra com o cotonete, porque às vezes as pessoas espirram ou tossem e geram aerossóis “, argumenta Casanovas.

Diário de Notícias
DN
16 Janeiro 2021 — 11:06

 

 

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376: Portugueses estão a desenvolver teste de saliva para a covid-19

SAÚDE/COVID-19

Resultados da equipa liderada por Nuno Rosa, da Universidade Católica Portuguesa, mostram que a ideia funciona. Os investigadores estão agora à procura de parcerias para produzir o futuro teste que, se tudo correr bem, poderá estar disponível em meados do próximo ano.

O investigador Nuno Rosa
© Miguel Pereira da Silva / GLOBAL IMAGENS

E se bastasse uma pequena gota de saliva para verificar se alguém está, ou já esteve, infectado com o novo coronavírus? Pode parecer futurista, mas em Portugal um grupo de médicos e investigadores liderados por Nuno Rosa, professor da Universidade Católica Portuguesa (UCP) e investigador de um dos seus laboratórios, o Saliva Tec, sediado no campus de Viseu da UCP, está a trabalhar no desenvolvimento de um teste desse tipo. E os resultados não podiam ser mais promissores.

“Estamos ainda a recolher os últimos dados, mas os nossos resultados mostram que a ideia funciona, a prova de conceito está feita”, garante Nuno Rosa, sublinhando que o grupo está agora “na fase de encontrar parceiros para desenvolver e criar um teste miniaturizado para aplicação em larga escala”.

O caminho até lá é complexo, mas o objectivo é ter o teste disponível, “talvez, em meados do próximo ano, se tudo correr bem”.

A ideia de criar um método para detectar, não só a presença de partículas do SARS-CoV-2, mas também de anticorpos contra ele, usando apenas uma amostra de saliva, surgiu de forma natural entre os investigadores do Saliva Tec. Afinal o que ali fazem é isso mesmo: investigação sobre este fluido biológico, que é muito rico em informação, para aplicação ao diagnóstico em saúde.

“Trabalhamos nesta área há anos, e em 2014 ganhámos um financiamento do Portugal 2020 para montar este laboratório, o único no país especificamente criado para a investigação fundamental nesta área”, diz Nuno Rosa. E explica: “Usamos a saliva como fluido informativo sobre a saúde e a partir daí desenvolvemos estratégias de diagnóstico para diferentes patologias, nomeadamente a diabetes, para a qual já temos vários estudos publicados.”

Ao contrário do que acontece com as análises sanguíneas que são hoje rotina no diagnóstico em saúde, a saliva, apesar de ter muita informação biológica – contém mais de quatro mil moléculas diferentes e outros tantos microrganismos que, no seu conjunto, são o microbioma oral -, está muito pouco explorada nesse sentido. “É necessário fazer essa investigação fundamental, estudar e estabelecer os parâmetros que para cada molécula definem a diferença entre a saúde e a doença, para se poder operacionalizar ferramentas de diagnóstico a partir da saliva. É isso que fazemos no Saliva Tec “, explica Nuno Rosa.

Entretanto, surgiu a pandemia. Com todas as suas vítimas, os pesados problemas económicos e as muitas restrições sociais que gerou, a covid-19 acabou por ser também uma oportunidade de desenvolver investigação inovadora, que poderá agora ter um impacto positivo na saúde da comunidade, num momento difícil e cheio de incertezas.

“Quando surgiu a pandemia pensámos logo em fazer este estudo”, conta Nuno Rosa. A criação de um programa especial de apoio financeiro à investigação em covid-19 por parte da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), logo em Abril, foi a oportunidade certa para avançar.

Nuno Rosa reuniu uma equipa entre o seu próprio grupo no Saliva Tec, o Instituto Politécnico de Viseu e o centro hospitalar da cidade, concorreu ao programa da FCT e ganhou um financiamento de 30 mil euros para o projecto.

A primeira fase do trabalho, que implicou acompanhar a evolução de mais de 20 doentes de covid-19 no centro hospitalar de Viseu, avaliar a par e passo a sua carga viral e os seus níveis de anticorpos, determinar todos esses parâmetros e padrões em amostras de saliva de todos os doentes, e estabelecer as comparações, está praticamente concluída – e com bons resultados.

“Estamos muito satisfeitos, as nossas expectativas confirmaram-se, é possível fazer um teste deste tipo, e agora podemos ir melhorando o método, nomeadamente para obter um teste rápido”, explica o investigador.

A técnica desenvolvida pela equipa permite determinar com exactidão os níveis virais e os anticorpos presentes em amostras de saliva dos doentes. E essa dupla capacidade é justamente uma das mais-valias do futuro produto que, assim, poderá servir não só para o diagnóstico da doença, mas também para verificar quem já esteve infectado e ficou imunizado – pelo menos temporariamente, uma vez que não se sabe ainda qual é a duração dessa imunidade.

“Além das partículas do vírus, com o nosso método detectamos dois anticorpos, o IGM e o IGG, que nos mostram fases distintas da infecção”, explica Nuno Rosa.

O primeiro desses anticorpos, o IGM, é produzido pelo sistema imunitário logo na fase inicial da infecção, e o segundo (IGG) permanece no organismo por mais tempo, após a recuperação, e confere a tal imunidade duradoura. A possibilidade que a breve prazo se abre de detectar esses anticorpos num simples teste de saliva poderá tornar-se um contributo importante na gestão de futuras vagas da pandemia.

Mas esta não é a única vantagem de um teste de saliva para a infecção pelo coronavírus. Outra é a sua fácil aplicação, que é simples, indolor e não invasiva, ao contrário do que acontece com actuais testes de diagnóstico que são feitos com recurso a uma zaragatoa, introduzida no interior das fossas nasais

“Os testes de zaragatoa são muito desagradáveis, e há doentes que têm de os repetir muitas vezes”, explica o líder do projecto.

De resto, a ideia de usar a saliva para testes de diagnóstico da covid-19 não é um exclusivo dos investigadores do Saliva Tec. “Há outros grupos no mundo a trabalhar”, afirma Nuno Rosa.

Nos Estados Unidos acaba, aliás, de ser aprovado um primeiro teste de saliva para a covid-19. O SalivaDirect, como se chama, foi desenvolvido por investigadores da Universidade de Yale e já testado com sucesso em jogadores de basquetebol da NBA, a National Basketball Association.

Concebido como um teste rápido e barato, que pode usar diferentes reagentes, ele poderá sobretudo agilizar o diagnóstico, alargando o número de pessoas testadas de forma a identificar mais doentes assintomáticos, que são uma fonte silenciosa de contágio, como explicaram os cientistas que o desenvolveram.

Já o teste que a equipa de Nuno Rosa pretende criar tem as duas valências: a de diagnóstico e a serológica. Trabalhar para chegar a um produto final é agora o que se segue. Mas no caminho feito há algo mais que já se consolidou: a plataforma de trabalho entre todas as instituições da zona de Viseu que integram o projecto. “Isto fica para o futuro e tornará mais fácil a resposta a outras situações de emergência em saúde”, garante Nuno Rosa.

Este artigo faz parte de uma série dedicada aos investigadores portugueses e é apoiada por Abbvie.

Diário de Notícias
23 AGO 2020