625: O vírus veio para ficar? Sim. E as vacinas protegem mesmo? Há uma forte possibilidade

 

SAÚDE/SARS-CoV-2/COVID-19

Mais de um ano depois de se começar a ouvir falar da chegada à Europa do novo coronavírus, que tinha sido detectado no final de 2019 na cidade chinesa de Whuan, ainda há muitas dúvidas por esclarecer.

© Diana Quintela / Global Imagens

Desde Março de 2020 que a atenção dos portugueses tem sido focada nas consequências do vírus SARS-CoV-2. Com muitas questões ainda por resolver, o DN colocou a três especialistas algumas dúvidas — as mesmas questões a cada um — que ainda existem na sociedade sobre este vírus, a sua evolução e as vacinas.

Manuel Santos Rosa

Imunologista, professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra

O SARS-CoV-2 veio para ficar?

Os vírus podem manter-se longo tempo, dependendo da existência de hospedeiros que lhes permitam a replicação e propagação. Os coronavírus têm mostrado aspectos erráticos na sua adaptação ao hospedeiro, mas o SARS-CoV-2 tem, de alguma forma, surpreendido pelo sucesso mutacional, pelo que pode ter vindo para ficar.

O vírus pode enfraquecer e evoluir para uma “gripezinha” ou as novas estirpes podem torná-lo mais perigoso?

Sim, pode acontecer, seria bom que acontecesse, que o vírus pudesse modificar-se por forma a tornar-se menos patogénico e a ter menos capacidade de infecção. Muitas mutações poderão mesmo ser suicidas, ou muito enfraquecedoras da sua capacidade agressora, mas outras (e muitas já foram detectadas) permitem uma melhor adaptação do SARS-CoV-2 ao ser humano, com a consequente facilitação da entrada no nosso organismo e do aumento da patogenicidade.

As vacinas são eficazes para interromper a transmissão comunitária ou apenas para prevenir as formas mais graves da doença e/ou mortes?

Tudo depende da eficácia vacinal, da capacidade de vacinação (percentagem da população vacinada e rapidez de vacinação), do tempo de manutenção da imunização (tempo em que o indivíduo vacinado se mantém protegido), das mutações do vírus e de um conjunto vasto de factores que podem influenciar a relação vírus-hospedeiro. De qualquer forma, parece ser definitivo que haverá uma forte capacidade para prevenir as formas mais graves de doença e/ou as mortes.

E se as vacinas não forem suficientes para atingir a tão desejada imunidade de grupo no tempo que seria desejável? Há algo mais que se possa fazer?

Muito se poderá, se pode, fazer. Por exemplo, se a imunidade de grupo estiver ameaçada pela capacidade mutacional do vírus, novas vacinas direccionadas para essas variantes poderão ajudar significativamente. Por outro lado, estamos longe de esgotar as capacidades de defesa contra o SARS-CoV-2: parece-nos fundamental evoluir no processo vacinal para o estímulo da imunidade inata, especialmente através da capacidade de a treinar a melhor responder face a agressores como o SARS-CoV-2. Também entendemos ser fundamental o desenvolvimento de terapias que possam complementar a profilaxia vacinal. Muitos fármacos têm sido propostos e inclusive alguns na área da imunoterapia, como é o caso do EXO-CD24, que poderão representar uma nova capacidade de impedir a agressividade do vírus e uma resposta imunitária desajustada.

O SARS-CoV-2 pode contribuir para que o sistema imunitário dos humanos reforce as suas defesas para enfrentar futuras pandemias?

Não me parece. Embora os estudos ainda não sejam suficientes, alguns apontam para, depois de infecção pelo SARS-CoV-2, a resposta imunitária ter falhas de coordenação, especialmente entre as vertentes de imunidade por anticorpos e celular, e também entre as formas inatas e adquiridas. Também é factual que distintos patogénicos (vírus ou outros) têm um grau elevado de especialização (quer dos receptores, que lhes permitem a entrada nas nossas células, quer de sinalização imunitária) e por isso não conferem reforço significativo face a outras agressões. Veja-se, por exemplo, a gripe sazonal, que ao longo dos anos em nada melhorou a nossa capacidade de resposta. Por outro lado, sabe-se que estímulos/agressões imunitárias por via respiratória são muito pouco educativos para a nossa imunidade, contrariamente ao que acontece com estímulos/agressões por via digestiva, esses, sim, podem ser fortemente protectores e educativos, reforçando a nossa capacidade de resposta e de resistência.

Margarida Saraiva

Presidente da Sociedade Portuguesa de Imunologia e investigadora do i3s (Porto)

O SARS-CoV-2 veio para ficar?

Muito provavelmente sim, mas associado a formas menos graves de doença. Claro que isto vai depender muito da imunidade atingida, quer por infecção natural quer por vacinação. Os outros quatro coronavírus que causam as constipações são “bem tolerados” pela população, não exigindo confinamentos, distanciamento social, máscaras, etc.

O vírus pode enfraquecer e evoluir para uma “gripezinha” ou as novas estirpes podem torná-lo mais perigoso?

Se conseguirmos atingir um nível de imunidade (por infecção natural e vacinação) que permita uma protecção de manifestações severas da doença, sim, a pandemia pode evoluir para uma situação de vírus endémico, sem causar os problemas actualmente conhecidos. Algumas das mutações que o vírus adquire podem traduzir-se numa vantagem competitiva para o vírus, que normalmente assenta numa maior transmissão e, eventualmente, maior replicação. Isto explica a predominância de algumas estirpes relativamente a outras. No entanto, a relação entre mutação/transmissão e gravidade da doença não é directa.

As vacinas são eficazes para interromper a transmissão comunitária ou apenas para prevenir as formas mais graves da doença e/ou mortes?

Os dados que temos até ao momento permitem concluir uma eficácia na prevenção de formas mais graves da doença, mas ainda não são suficientes para concluir definitivamente sobre a questão da transmissão. Com o aumento e follow up do número de pessoas vacinadas, vamos começar a ter uma melhor ideia do que acontece em termos de transmissão. De qualquer forma, para já pelo menos, é imperativo que as regras e os comportamentos preventivos individuais se mantenham, mesmo para quem já foi vacinado.

E se as vacinas não forem suficientes para atingir a tão desejada imunidade de grupo no tempo que seria desejável? Há algo mais que se possa fazer?

A imunidade de grupo resulta em princípio da vacinação e também da infecção natural. O tempo que demorará a atingir depende obviamente do progresso/taxa de vacinação. O que podemos fazer enquanto sociedade é manter uma atitude colectiva com comportamentos individuais adequados, de forma a contribuir para a manutenção de um baixo número de casos, alívio do SNS e, consequentemente, a mínima disrupção.

O SARS-CoV-2 pode contribuir para que o sistema imunitário dos humanos reforce as suas defesas para enfrentar futuras pandemias?

Há sempre uma co-evolução do sistema imune com os patogénos, no sentido de haver uma certa adaptação mútua. É difícil prever até que ponto esta pandemia poderá ter um impacto no sistema imunitário, sendo certo que dependerá também do tipo de “pandemia futura”.

Luís Graça

Imunologista, professor da Faculdade de Medicina de Lisboa e investigador no iMM

© Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

O SARS-CoV-2 veio para ficar?

O SARS-CoV-2 já está disseminado por todo o mundo e é certo que ficará connosco. É muito raro conseguir-se erradicar um vírus com uma disseminação tão grande. Aconteceu uma vez, com o vírus da varíola, e o vírus da poliomielite está perto de ser erradicado. Contudo, mesmo para vírus em que se atinge a imunidade de grupo, como o vírus do sarampo, não é possível a sua erradicação. Deste modo, teremos de viver com o SARS-CoV-2, embora com um novo equilíbrio, menos grave, próximo do que sucede com outros vírus endémicos.

O vírus pode enfraquecer e evoluir para uma “gripezinha” ou as novas estirpes podem torná-lo mais perigoso?

É pouco provável assistirmos a uma mudança muito profunda da biologia do vírus. A mudança que vai fazer que o SARS-CoV-2 cause menos problemas de saúde dependerá, sobretudo, da alteração da nossa resposta imune ao vírus, e não de uma mudança do vírus. Estamos a caminhar, fruto da vacinação, para um estado em que a generalidade da população estará protegida contra doença grave. Com o tempo, a circulação do vírus, mesmo entre pessoas vacinadas, reforçará essas defesas, de um modo semelhante a uma nova dose da vacina. Deste modo, a percepção será que o vírus enfraqueceu, mas na realidade as nossas defesas é que se adaptaram. Isto é o que sucede quando um vírus deixa de ser pandémico. Um bom exemplo deste fenómeno foram as doenças que os navegadores europeus levaram para o Novo Mundo: os vírus eram os mesmos, mas a adaptação do sistema imunitário dos europeus e dos americanos a esses vírus era diferente.

As vacinas são eficazes para interromper a transmissão comunitária ou apenas para prevenir as formas mais graves da doença e/ou mortes?

Já temos uma resposta a esta pergunta baseada em factos. As vacinas conseguem reduzir, mas não eliminar completamente a capacidade de transmissão do SARS-CoV-2. Também é importante lembrar que nenhuma vacina tem eficácia de 100%. Sabe-se, por isso, que haverá pessoas vacinadas, ainda que poucas, que ficarão doentes, embora a probabilidade de desenvolver doença grave seja muito reduzida.

E se as vacinas não forem suficientes para atingir a tão desejada imunidade de grupo no tempo que seria desejável? Há algo mais que se possa fazer?

É mais importante centrar a atenção na protecção de toda a população, e especialmente as pessoas mais vulneráveis, contra as formas mais graves da doença, do que na imunidade de grupo. Desse modo, estando todos protegidos das formas graves da doença, será mais fácil retomar as actividades sociais mesmo que a imunidade de grupo ainda não tenha sido plenamente atingida.

O SARS-CoV-2 pode contribuir para que o sistema imunitário dos humanos reforce as suas defesas para enfrentar futuras pandemias?

Não. A história de infecções passadas não permite ao sistema imunitário adquirir protecção contra infecções futuras (excepto em casos muito especiais de vírus com muitas semelhanças com vírus de infecções passadas).

Diário de Notícias
05 MAR 2021

 

 

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566: COVID-19: Encontradas evidências de memória imunológica de longo prazo graças às células B

 

SAÚDE/COVID-19

Uma equipa de investigadores procurou preencher as lacunas na compreensão da memória imunológica após uma infecção por SARS-CoV-2. A sua acção levou-os a mergulhar profundamente na resposta com factor imune dos pacientes. Para tal, os cientistas mediram vários componentes do sistema imunológico, incluindo anticorpos circulantes, células B de memória e células T específicas para o novo coronavírus, em pacientes com vários níveis de doença, até oito meses após a infecção.

A boa notícia é que foram encontradas evidências de memória imunológica de longo prazo graças às células B.

Há imunidade para COVID-19 além dos anticorpos

A equipa colaborativa do La Jolla Institute for Immunology (LJI) e do departamento de microbiologia da Icahn School of Medicine em Mount Sinai estudou as respostas das células imunológicas e de anticorpos em mais de 180 homens e mulheres que se recuperaram da COVID-19.

Conforme foi relatado, a memória imunológica destes pacientes ao vírus – em todos os tipos de células imunológicas estudados – era mensurável até oito meses após o aparecimento dos sintomas.

Segundo os autores, os resultados indicam “que a imunidade durável contra a doença secundária COVID-19 é uma possibilidade na maioria dos indivíduos”.

Os nossos dados mostram que a memória imunológica em pelo menos três compartimentos imunológicos foi mensurável em ~ 95% dos indivíduos cinco a oito meses após o início dos sintomas.

Escreveram os autores do estudo.

Como o número de casos diários de COVID-19 em todo o mundo continua a aumentar, se uma infecção inicial com SARS-CoV-2 leva a imunidade protectora de longa duração contra COVID-19 permanece uma questão.

O estudo da natureza da resposta humoral ao vírus, que inclui uma resposta de anticorpos, e da resposta imunitária celular, que inclui células B e células T, ao longo de períodos de seis meses após o início dos sintomas poderia ajudar a informar a duração da imunidade protectora.

Para tal, Jennifer Dan, investigadora na LJI, e os seus colegas recrutaram mais de 180 homens e mulheres dos Estados Unidos que recuperaram da doença. A maioria tinha tido sintomas ligeiros que não exigiam hospitalização, embora 7% tivessem sido hospitalizados.

A memória das células

A maioria dos sujeitos forneceu uma amostra de sangue num único momento, entre seis dias e oito meses após a ocorrência dos sintomas, embora 43 amostras tenham sido fornecidas aos seis meses ou mais após o início dos sintomas.

Em 254 amostras totais de 188 casos COVID-19, a equipa localizou anticorpos, células B, e dois tipos de células T. O anticorpo (IgG) para a proteína Spike foi relativamente estável durante mais de 6 meses e exibiu apenas declínios modestos com seis a oito meses após o início dos sintomas.

As células B de memória específica da proteína Spike eram mais abundantes aos seis meses do que a um mês após o início dos sintomas. As células T, entretanto, apresentavam apenas uma ligeira decadência no corpo. Mais especificamente, as células T CD4+ específicas da SARS-CoV-2 e as células T CD8+ declinaram com uma meia-vida de 3 a 5 meses.

Embora os autores advirtam que “as conclusões directas sobre a imunidade protectora não podem ser feitas com base [nas suas conclusões] porque os mecanismos de imunidade protectora contra a SARS-CoV-2 ou COVID-19 não estão definidos nos humanos”, também dizem que várias “interpretações razoáveis” podem ser feitas a partir do seu estudo.

Estas incluem o apoio a compartimentos de memória imunitária em repouso, contribuindo potencialmente “de formas significativas para a imunidade protectora contra pneumonia ou COVID-19 secundária severa”, escreveram os investigadores.

O trabalho é publicado no portal Science no jornal “Immunological memory to SARS-CoV-2 assessed for up to eight months after infection“.

Pplware
Autor: Vítor M.
08 Jan 2021

 

 

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559: Nem todas as pessoas vacinadas vão ficar imunizadas, avisa DGS

 

SAÚDE/VACINAS/IMUNIZAÇÃO/COVID-19

Tiago Petinga / Lusa

A directora-geral da Saúde avisou esta terça-feira que nem todas as pessoas vacinadas contra a covid-19 vão ficar imunizadas, uma vez que a vacina administrada não é 100% eficaz e ainda não há imunidade de grupo.

Graças Freitas falava na habitual conferência de imprensa na Direcção-Geral da Saúde (DGS), em Lisboa, sobre a evolução da pandemia da covid-19 em Portugal.

Vacinar não quer dizer abandonar critérios de protecção“, frisou, advertindo que “nem todas” as pessoas vacinadas “vão ficar imunizadas”. “A vacina não é 100% eficaz e nós não temos ainda imunidade de grupo”, justificou.

Graça Freitas reforçou, por isso, a necessidade de se manterem medidas de protecção até se atingir a imunidade de grupo, como o uso de máscaras, a higienização das mãos, a ventilação de espaços e o distanciamento físico.

A campanha de vacinação contra a covid-19 iniciou-se em Portugal em 27 de Dezembro com a inoculação de profissionais de saúde nos hospitais.

Na segunda-feira, foi alargada aos lares de idosos.

A vacina que está a ser administrada é a do consórcio Pfizer-BioNTech, para cujo uso de emergência foi aprovada em 21 de Dezembro pela Agência Europeia do Medicamento.

Até à data foram dadas em Portugal 32 mil doses.

Em Portugal, morreram 7.286 pessoas dos 436.579 casos de infecção de covid-19 confirmados, de acordo com o boletim mais recente da DGS. O país contabilizou esta terça-feira mais 90 mortes e 4.956 novos casos de infecção pelo novo coronavírus.

Em declarações ao jornal Observador, o especialista Carlos Antunes considerou que Portugal já entrou numa terceira vaga da doença, alertando ainda que as novas infecções registadas diariamente podem “chegar a valores insuportáveis”.

ZAP // Lusa

Por ZAP
6 Janeiro, 2021

 

 

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Imunidade: “Se tudo correr bem, penso que voltaremos ao normal em meados do próximo ano”

 

SAÚDE/COVID-19/IMUNIDADE

A vacina tão esperada contra a covid-19 está a chegar. E todos querem acreditar que a chamada imunidade de grupo vai começar a existir para se conseguir atenuar o impacto da doença. Mas como se constrói esta imunidade, de que estará dependente? Que estratégia de vacinação e que grupos-alvo devem ser prioritários para se atingir imunidade de grupo? O imunologista Manuel Santos Rosa, professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, explica ao DN os cenários que ainda podem surgir.

© Fernando Fontes/Global Imagens

No espaço de uma semana foram anunciadas duas vacinas de combate ao SARSCoV-2, a da Pfizer e a da Moderna. A União Europeia já negociou milhões de doses para que todos os Estados membros as recebam em simultâneo para começarem a vacinar as populações. Cada um terá direito a doses proporcionais à sua população, porque nunca seria possível um cenário de vacinação em massa numa primeira fase, nem as empresas teriam capacidade para tal.

O imunologista e professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra Manuel Santos Rosa quer acreditar que o mundo está a ir na direcção certa, com a descoberta de uma vacina para travar a doença e também, daqui a uns tempos, com a descoberta de um fármaco que melhor tratará quem ficar infectado.

Mas até se perceber que eficácia terão, de facto, as vacinas, quando forem transpostas para a população em geral e se as estratégias de vacinação estão a ser as mais corretas, ainda há muitas incertezas e questões ligadas ao SARS-CoV-2, o coronavírus que invadiu o mundo há quase um ano, que têm de ser esclarecidas. O importante é que todos, governos e povos, percebam que a imunidade conquistada tem de ser a nível mundial, e não país a país, pois a mobilidade, um factor que hoje é incontornável, pode reacender a transmissão. Em entrevista ao DN, Manuel Santos Rosa explica a necessidade de um conceito de imunidade de grupo alargado e os vários cenários que as sociedades ainda podem ter de enfrentar.

Muito se tem falado de imunidade em relação ao SARS-CoV-2. Fala-se muito de imunidade de grupo: como se constrói e que impacto pode ter na transmissão do vírus?
A imunidade pode ser importantíssima no atenuar ou, se quisermos, na quase erradicação, ou mesmo erradicação, de uma doença. Ao longo da história temos vários sucessos vacinais que levaram à erradicação de algumas doenças – é o caso da varíola e da poliomielite. Mas também há situações em que se criou uma imunidade tão forte e duradoura que, desde que a pessoa seja vacinada uma vez, praticamente não precisa de reforços vacinais – é o caso do tétano. O conceito de imunidade é exactamente este: o de estarmos livres de doença, mas na prática tem muito que se lhe diga.

Porquê?
Vou começar por dizer uma coisa que me parece ser um ensinamento muito importante dos últimos anos em relação à imunidade e que tem a ver com o sarampo. Ou seja, a cobertura vacinal do sarampo foi razoavelmente boa, as pessoas estavam vacinadas, desenvolveram imunidade e deixou de haver surtos. Se estivermos vacinados, o agente patogénico, o agente agressor, muito dificilmente irá incomodar um não vacinado, e mesmo que o encontre, este não vacinado estará em contacto com pessoas vacinadas e o sucesso de poder infectar outros está limitado. Isto é imunidade de grupo. É um conceito muito importante porque significa que, mesmo que não estejamos todos vacinados, todos estamos relativamente protegidos.

Mas em relação ao sarampo têm existido ultimamente alguns surtos no mundo, Portugal registou casos nos últimos anos…
É um facto. O que se verificou em relação ao sarampo foi que, em primeiro lugar, a mobilidade actual das pessoas faz que seja fácil importar uma doença. Em Portugal, por exemplo, estávamos tranquilamente sem sarampo, até que vieram pessoas contaminadas de fora. Tivemos casos importados, e isto aplica-se claramente à situação pandémica que vivemos neste momento.

Quer dizer que o problema é a mobilidade?
Também, porque se não resolvermos o problema da imunidade no mundo vamos ter sempre a possibilidade de ter casos importados, dado a mobilidade que existe hoje, e que é incontornável. É importante perceber isto até para a recuperação da economia e do bem-estar da população. Há um certo cansaço das pessoas à cessação da mobilidade. No dia em que seja possível readquirir a mobilidade plena todos vamos querer viajar, porque estamos desejosos de o fazer. Quando o fizermos haverá um reacender de situações a nível mundial que podem não ter sido devidamente controladas. Este é outro ensinamento importante. Ou seja, o primeiro é percebermos que não podemos funcionar como quintas – estou vacinado e não me interessa o que se passa nos vizinhos -, quer seja em relação ao sarampo quer seja em relação ao SARS-CoV-2, temos de perceber que a transmissão é um problema mundial devido à mobilidade das pessoas. O segundo é verificarmos que a imunidade induzida nas pessoas é suficientemente forte para não permitir que, apesar de tudo, haja disseminação do agente infeccioso.

O imunologista Manuel Santos Rosa defende que temos de ter uma estratégia muito equilibrada e oleada para que vacinação corra bem.
© Fernando Fontes/Global Imagens

Não basta a construção de imunidade de grupo ou comunitária num país, terá de ser a nível mundial?
Sem dúvida, embora o processo de mobilidade não seja homogéneo. Há países onde se viaja mais do que outros. Por outro lado, não sei até que ponto é que a mobilidade continuará a ser exactamente como foi até agora, o hábito que adquirimos de reuniões à distância pode levar a mudanças, mas, seja como for, haverá sempre mobilidade e será muito mais forte nalguns países do que noutros, o que quer dizer que não podemos isolar o problema e pensar que estamos tranquilos se a situação for resolvida na Europa. Aqui pode ficar tudo bem, mas noutros locais não.

A vacinação não vem ajudar?
Vem, mas a situação pode ser morosa, e ainda há muitas dúvidas. Por exemplo, há muitas dúvidas quanto às actuais disponibilidades das vacinas para que se consiga atingir uma imunidade individual e de grupo tão forte, que praticamente não possa haver casos importados. Para isto acontecer era preciso termos uma cobertura vacinal e um sucesso da imunização muito elevado. E não sabemos se o vamos conseguir

Por exemplo, em relação a Portugal, sabe-se quantas pessoas seria necessário vacinar para se criar uma imunidade de grupo?
É difícil dizer. Primeiro porque as percentagens de eficácia conseguidas nos ensaios não são totalmente reprodutíveis na população. Habitualmente há uma queda – que pode ser mais ou menos significativa – quando a vacina é disponibilizada para a população em geral. Obviamente que é um bom sinal que nesta fase avançada do ensaio clínico as vacinas manifestem uma eficácia elevada, não se pode ter a ideia de que não haverá uma quebra. Em segundo, porque a cobertura vacinal vai depender do que falámos anteriormente, da mobilidade. Se estivermos a falar só de Portugal, e tendo em conta que estamos num circuito em que estamos em condições para utilizar qualquer uma das duas vacinas, é uma coisa, mas a estratégia de vacinação vai ter de ser adaptada para se chegar a uma cobertura comunitária elevada. Pode dizer-se que é um número completamente variável, mas sabendo nós que quanto mais melhor, se aproximarmos a taxa de vacinação dos 90% ou mais teremos a certeza quase absoluta de que vamos ter imunidade de grupo.

Diz que a estratégia tem de ser adaptada. O que quer dizer especificamente?
Que temos de saber em primeiro lugar como é que as pessoas vão reagir à vacina. Há algumas informações de que pessoas com mais idade têm vindo a responder bem, mas também sabemos que os idosos têm uma capacidade de resposta menor, como acontece em relação à vacina da gripe, porque estamos a falar de vacinas que precisam de uma resposta eficaz, que destrua o vírus. Por outro lado, temos de saber também como vai reagir todo um grupo de pessoas com outras doenças e debilidades no sistema imunitário. Refiro-me, por exemplo, ao grupo de pessoas imune-deprimidas, quer por doença quer porque já estão a fazer outras terapêuticas. Depois, temos também um outro grupo, que é o das pessoas mal nutridas, tipicamente com debilidades no sistema imunitário. E não podemos esquecer as grávidas, para as quais poderão ter de existir precauções específicas.

Há uma série de grupos sobre os quais ainda não se sabe como vão reagir à vacina e se permitem a imunidade de grupo?
Sem dúvida. Há muitos grupos em que não temos a certeza se a vacina vai ter o mesmo tipo de capacidade de resposta, o que quer dizer que a sua eficácia na população em geral, provavelmente, vai ser menor do que no ensaio clínico. E se chegarmos à conclusão de que 10% a 20% dos idosos não respondem à vacinação, já dificilmente conseguiremos imunidade de grupo.

Mesmo com vacina, o SARS-CoV-2 deixa muitas incertezas…
Incertezas e problemas que se colocam e que é importante que sejam esclarecidos. Por exemplo, não temos a certeza se a imunidade que estamos a induzir é uma imunidade que nos assegure a não transmissão do SARS-CoV-2. Em relação a outras vacinas que conhecemos sabemos isso, temos a certeza de que um indivíduo vacinado não vai transmitir a doença, é o caso do sarampo, mas neste caso não sabemos. A dúvida persiste, tanto mais que há muitas pessoas assintomáticas, e não sabemos se estão assintomáticas porque não responderam ao SARS-CoV-2 ou porque conseguiram neutralizar facilmente o vírus.

O grupo dos doentes assintomáticos tem de ser mais estudado?
São um grupo que terá de ser devidamente estudado e acompanhado para se ter a certeza de que estas pessoas estão imunizadas e não vão propagar o vírus. Outra dúvida que existe é sobre o tempo que irá durar a imunidade. Em relação a outros coronavírus, o que se sabe é que a imunidade não é muito duradoura. Dizendo de outro modo: provavelmente o SARS-CoV-2 irá continuar a existir e vamos ter uma vacinação anual… Não se sabe.

Isso quer dizer que poderemos ter de uma vacina semestral?
Exactamente. Na gripe, e como é um vírus sazonal, todos sabemos qual é o período do ano em que surge e vacinamo-nos preventivamente. O SARS-CoV-2 já mostrou muito claramente que não é sazonal e que pode persistir em qualquer época do ano. A sua persistência poderá levar a que, se não conseguirmos perceber qual é a duração da imunidade num grupo, as pessoas percam a imunidade e sejam de novo infectadas. Esta é uma hipótese, mas há outra muito mais optimista: o SARS-CoV-2 irá desaparecer e não é preciso aumentar a imunidade, porque a que existe é suficiente para globalmente travar o vírus, tal como aconteceu com o anterior coronavírus, que ficou apenas em certos pontos geográficos do globo. Mas pode dar-se o caso mais pessimista de que, mesmo com a vacina, nada seja seguro.

Os critérios de vacinação vão ter de ser revistos?
Esse é um passo muito importante. Vai ser moroso, porque não é possível vacinar uma população na sua quase totalidade de um dia ou de um mês para o outro. Tem de haver uma estratégia de vacinação, mas diria que o primeiro critério iria para a vacinação dos profissionais mais expostos, depois seguir-se-iam os grupos mais transmissores, quer o sejam por mobilidade elevada quer por outros factores.

Está a querer dizer que os critérios para esta vacinação devem ser diferentes dos que têm sido referidos, como profissionais de saúde, doentes crónicos, imuno-deprimidos, idosos, etc.?
Numa primeira fase é fundamental proteger sempre os profissionais de saúde. É uma estratégia de defesa, é uma população que não pode cair em combate. E também grupos-alvo específicos, pela sua fragilidade. Numa segunda fase, vêm as pessoas ligadas à produtividade quotidiana. Estas pessoas são fundamentais para que o país continue a funcionar.

A população activa é um grupo a proteger de imediato?
É fundamental que seja, como a população de grande mobilidade, a população escolar, sobretudo a do ensino superior. São populações que têm de estar na vacinação prioritária. Depois é fundamental que se vá adaptando a estratégia conforme o próprio êxito de imunização. Se o êxito for muito bom, já quase não será preciso uma estratégia, mas ir vacinando. Se o êxito for limitado, temos de ser muito selectivos e estratégicos com o que fazer em cada fase.

Professor catedrático da Faculdade de Medicina de Coimbra sublinha que conceito de imunidade tem der ser alargado, não pode ser a nível nacional ou europeu, mas mundial.
© Fernando Fontes/Global Imagens

A União Europeia já anunciou ter comprado milhões de doses de vacinas que estão para entrar no mercado já no início do ano. Portugal irá receber proporcionalmente à população, seis a nove milhões de doses, o que representa vacinas para 3,4 milhões de pessoas. Será suficiente nesta primeira fase para se criar imunidade?
Acredito que para uma primeira fase será, mas temos de ter em atenção dois cenários completamente opostos. Primeiro: conseguimos montar uma boa estratégia de vacinação e que tudo corre bem. Segundo: havendo uma estratégia muito equilibrada e oleada para que tudo funcione bem, penso que será suficiente e vamos conseguir bloquear uma série de cadeias de transmissão do vírus.

E se as coisas não correrem bem?
Se a estratégia vacinal falhar, ou porque o número de vacinas não foi suficiente ou porque os grupos-alvo que se incluíram na vacinação não resultaram em eficácia, em termos de não transmissão, é evidente que a única hipótese que nos restaria era a da vacinação em massa. Ainda há um grau de incerteza enorme, portanto a única coisa que nos é útil pensar é que a vacinação vai ter eficácia e que a estratégia vai funcionar.

É neste sentido que o mundo está a ir, mas tem havido países que têm preferido outras estratégias, como a Suécia. O que pensa destas estratégias?
Às vezes, é preciso ser demasiado directo nas afirmações para que as pessoas percebam. É evidente que se deixarmos os idosos todos infectarem-se e uma percentagem muito elevada morrer, que daqui a uns meses não teremos problemas com um grupo frágil – porque, infelizmente, uns morreram e outros podem ter desenvolvido imunidade. É falsa a ideia de que se pode viver uma pandemia no século em que vivemos de igual forma a outras que se viveram noutros séculos. Ou seja, quase que se optássemos por uma selecção natural, os mais fracos morriam e os mais fortes resistiam. Isto hoje não é admissível. Mas, vejamos, a Suécia também tomou a posição inicial de perceber se conseguiria criar imunidade de grupo, o que teria sido muito bom, porque tem outros hábitos quotidianos e que são muito diferentes dos dos latinos. O tipo de interacção das pessoas é muito mais limitado do que o nosso, eles quase que não precisavam de confinamento obrigatório porque eles próprios têm uma atitude natural de confinamento, bem diferente da nossa.

Mas já se percebeu que essa atitude não resultou.
Sim, passado algum tempo percebeu-se que não estava a surtir efeito. Agora, já fazem a apologia da protecção, do uso de máscara e de outras medidas. Penso que a Suécia acreditou que o seu sistema funcionaria, senão seria um sistema criticável, diria mesmo repudiável.

Com a esperança da vacina, como olha para o futuro?
É chamada a pergunta do milhão. Na minha modesta opinião, acho que, como em tudo na vida, estamos numa encruzilhada, tanto pode ser o caminho para a direita que está certo como pode ser o da esquerda, porque não sabemos onde vão dar. Quero acreditar que vamos pelo caminho que me parece o mais certo e o mais provável, que é o de se alcançar com a vacina uma eficácia relativa e conseguir-se moderar significativamente a capacidade de infecção do vírus. E se conseguirmos que a distribuição geográfica da vacina seja feita pelos vários continentes, diria mesmo que a vida voltava ao normal em meados do próximo ano. Mas, como imunologista, tenho de dizer também que temos de perceber que é uma possibilidade nunca mais voltarmos a uma situação de tranquilidade em relação a este tipo de agressores, vírus como o SARS- CoV-2, ou bem diferentes dele que poderão surgir, enfim é o inexorável avanço dos tempos.

Diário de Notícias

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São precisos quatro a seis meses até ter “níveis significativos de vacinação”, alerta a OMS

 

SAÚDE/VACINAS/COVID-19

Responsável pelo programa de emergências sanitárias da OMS avisa que as vacinas contra a covid-19 não devem ser vistas como uma solução mágica nesta segunda vaga da pandemia.

O director executivo do programa de emergências sanitárias da Organização Mundial da Saúde (OMS), Michael Ryan
© Christopher Black / World Health Organization / AFP

O director executivo do programa de emergências sanitárias da Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou, esta quarta-feira, que as vacinas não chegam a tempo de derrotar a segunda onda da pandemia de covid-19.

Michael Ryan afirmou que as vacinas não devem ser vistas como uma solução mágica e que os países que lutam contra o ressurgimento do vírus têm de combater esta segunda vaga de infecções sem elas, mesmo que ainda sejam disponibilizadas durante este inverno.

“Acho que são precisos pelo menos quatro a seis meses antes de termos níveis significativos de vacinação em qualquer lugar”, afirmou o responsável da OMS durante uma sessão pública de perguntas e respostas ao vivo nas redes sociais.

Apesar dos recentes anúncios promissores sobre a fase final dos ensaios clínicos de vacinas, nomeadamente a da Pfizer e da Moderna, Ryan alertou: “Ainda não chegámos lá com as vacinas. Chegaremos, mas ainda não estamos lá”

Enfatizou que muitos países vão ter de enfrentar esta segunda onda da pandemia sem as vacinas. “Temos de entender e interiorizar isto, e perceber: desta vez, temos que escalar esta montanha sem vacinas.”

Esta quarta-feira, a Pfizer referiu que o resultado final do teste clínico da vacina mostra eficácia de 95%, enquanto a Moderna disse esta semana que sua própria candidata era 94,5% eficaz contra a infecção pelo novo coronavírus. Já a Rússia afirma que a sua vacina, Sputnik V, tem mais de 90% de eficácia.

Apesar das boas notícias para o combate à pandemia, Ryan alertou para a possibilidade de se abrandar no que se refere à vigilância individual contra o novo coronavírus, tendo a percepção errada de que as vacinas resolveriam agora o problema.

Algumas pessoas acham que uma vacina será, em certo sentido, a solução: o unicórnio que todos nós temos perseguido. Não é”, disse o irlandês.

“Se adicionarmos vacinas e esquecermos as outras coisas, a covid-19 não fica reduzida a zero.”

Número de casos diminui na Europa, mas mortes continuam a subir

O número de novos casos de covid-19 na Europa diminuiu na semana passada pela primeira vez em mais de três meses, mas as mortes na região continuaram a subir, segundo dados da OMS.

Pelo menos 55,6 milhões de casos em todo o mundo foram registados desde o início da pandemia na China, onde foram detectados as primeiras infecções em Dezembro do ano passado. Mais de 1,3 milhões de pessoas já morreram devido à covid-19, de acordo com um balanço feito pela AFP, tendo como base dados oficiais.

Preocupação no impacto das restrições nas crianças

Ryan expressou preocupação sobre como a pandemia deixou muitos netos enlutados que não conseguiram passar pelo processo normal de luto devido às restrições impostas para combater o vírus. “Muitas crianças perderam avós”, disse. “Existe um grande trauma entre as crianças”, considerou.

Para o responsável da OMS, o processo de luto para as crianças foi interrompido devido às medidas restritivas, que impossibilitaram as pessoas de se despedirem dos entes queridos. Manifestou preocupação pelo impacto que isto teve nos mais jovens, o de “lamentar a perda de um avô que foi interrompida”. “Tem um impacto para toda a vida”, reforçou.

Diário de Notícias
DN/AFP
18 Novembro 2020 — 21:37

Entretanto, Portugal tem mais 5.891 casos e 79 mortes nas últimas 24 horas
No dia em que a ministra da Saúde diz esperar ter tudo a postos para distribuir as primeiras doses de vacinas em Janeiro, regista-se um total de 3632 mortos e 236015 infectados por covid-19.

 

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498: Novos dados indicam que imunidade à covid-19 pode durar anos

 

SAÚDE/COVID-19

Amostras de sangue de pacientes recuperados sugerem uma resposta imunológica poderosa e duradoura, relataram os investigadores

© EPA/STR

Mais um sinal de que há luz ao fundo do túnel em relação à pandemia de covid-19. Um novo estudo sugere que a imunidade à covid-19 possa durar anos e talvez até décadas, dando assim a esperança de que a vacina possa colocar termo ao novo coronavírus, avança o New York Times.

Segundo os novos dados, a maioria das pessoas que recuperou da infecção apresenta células imunológicas suficientes para afastar o vírus e prevenir doenças oito meses após a infecção e ao que tudo indica essas células podem persistir no corpo durante muito mais tempo.

A investigação, publicada online, não foi revista por pares nem difundida numa revista científica, mas é o estudo mais abrangente sobre a memória imunológica em relação ao coronavírus feito até hoje.

“Essa quantidade de memória provavelmente evitará que a grande maioria das pessoas contraiam doenças graves durante muitos anos”, disse Shane Crotty, virologista do Instituto de Imunologia La Jolla, dos Estados Unidos, que co-liderou o novo estudo.

As descobertas provavelmente poderão aliviar os especialistas preocupados com a possibilidade de a imunidade ao vírus poder ter vida curta, o que significaria que as vacinas teriam de ser administradas repetidamente para manter a pandemia sob controlo.

Esta investigação foca-se ainda em outra descoberta recente: os sobreviventes da SARS, causada por outro coronavírus, ainda carregam certas células imunológicas importantes 17 anos após a recuperação.

Investigadores da Universidade de Washington, liderados pela imunologista Marion Pepper, já haviam mostrado que certas células de “memória” que foram produzidas após a infecção pelo coronavírus persistem no corpo durante pelo menos três meses. E um estudo publicado na semana passada também chegou à conclusão que as pessoas que recuperaram da Covid-19 têm células imunes que são poderosas e protectoras mesmo quando os anticorpos não são detectáveis.

Estes estudos “estão todos a pintar o mesmo quadro, de que após umas primeiras semanas críticas, a resposta imunológica parece bastante convencional”, disse Deepta Bhattacharya, imunologista da Universidade do Arizona.

Akiko Iwasaki, imunologista da Universidade de Yale, disse que não ficou surpreendida com o fato de o corpo ter uma resposta duradoura porque “é isso que deve acontecer”. Ainda assim, ficou animada com a investigação: “Esta é uma notícia empolgante”.

Um pequeno número de pessoas infectadas no novo estudo não tinha imunidade duradoura após a recuperação, talvez por causa das diferenças nas quantidades de coronavírus a que foram expostas. Mas as vacinas podem superar essa variabilidade individual, disse Jennifer Gommerman, imunologista da Universidade de Toronto. “Isso ajudará a focar a resposta, para que não se obtenha o mesmo tipo de heterogeneidade que se vê numa população infectada”, referiu.

Estes novos dados contrariam a preocupação causada nos últimos tempos pelos relatos de que a diminuição dos níveis de anticorpos pudesse fazer com que a imunidade desaparecesse ao fim de alguns meses, deixando assim as pessoas vulneráveis a uma reinfecção.

No entanto, muitos imunologistas frisam que é natural que os níveis de anticorpos caiam, pois são apenas uma pequena parte do sistema imunológico. E, embora sejam necessários para bloquear o vírus e prevenir uma segunda infecção – algo conhecido como imunidade esterilizante -, as células imunológicas que se “lembram” do vírus com mais frequência são responsáveis ​​pela prevenção de doenças graves.

“A esterilização da imunidade não acontece com muita frequência – essa não é a norma”, disse Alessandro Sette, imunologista do Instituto de Imunologia La Jolla.

O que acontece mais frequentemente nas re-infecções é o sistema imunológico reconhecer o invasor e extinguir rapidamente o vírus, até porque a covid-19 é particularmente lento a causar danos, dando assim ao sistema imunológico tempo suficiente para entrar em acção.

Para este estudo, Alessandro Sette e seus colegas recrutaram 185 homens e mulheres, com idades entre 19 e 81 anos, que se recuperaram da covid-19. A maioria apresentou sintomas leves, que não exigiram uma hospitalização. E a maior parte das pessoas envolvidas no estudo forneceu apenas uma amostra de sangue, enquanto 38 forneceram várias amostras ao longo de muitos meses.

A equipa acompanhou quatro componentes do sistema imunológico: anticorpos, células B que produzem mais anticorpos conforme necessário; e dois tipos de células T que matam outras células infectadas. A ideia era construir uma imagem da resposta imunológica ao longo do tempo, observando os seus constituintes. “Se se olhar apenas para um, podemos estar a perder o quadro completo”, disse Crotty.

O estudo é o primeiro a mapear a resposta imunológica a um vírus em detalhes tão granulares, dizem os especialistas.

Diário de Notícias
DN
18 Novembro 2020 — 09:54

 

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