717: Alemães acreditam ter encontrado causa dos efeitos secundários das vacinas da AstraZeneca e Janssen

 

SAÚDE(COVID-19/VACINAS/EFEITOS SECUNDÁRIOS

Vacinas produzidas pela AstraZeneca e Johnson & Johnson têm causado raros mas graves casos de coágulos sanguíneos

© EPA/Gustavo Amador

Investigadores alemães acreditam, com base em investigações laboratoriais, ter encontrado a causa dos raros mas graves casos de coágulos no sangue entre algumas pessoas que receberam as vacinas contra a covid-19 produzidas pela AstraZeneca e Johnson & Johnson.

Num estudo que ainda não foi revisto por especialistas, os investigadores referem que as vacinas usam vectores de adenovírus que enviam parte da sua carga viral para o núcleo das células, onde algumas das instruções para produzir proteínas de coronavírus podem ser mal interpretadas. As proteínas resultantes podem desencadear distúrbios de coagulação do sangue num pequeno número de receptores, sugerem os especialistas, citados pela Reuters.

Rolf Marschalek, um professor da Goethe University, de Frankfurt, acredita que as vacinas podem ser reformuladas para contornar o problema e que a Johnson & Jonhson está já em contacto com ele. A companhia “está a tentar optimizar a vacina”, afirmou. “Com os dados que temos nas nossas mãos, podemos dizer às companhias como fazer a mutação dessas sequências, codificando a proteína spike de forma a prevenir reacções indesejadas”, acrescentou.

Por outro lado, os investigadores alemães ainda não foram contactados pela AstraZeneca. “Se eles o fizerem, posso dizer-lhes o que têm de fazer para aperfeiçoar a vacina”, frisou ao Financial Times.

Cientistas e entidades reguladoras de medicamentos na Europa e nos Estados Unidos têm procurado explicação para a causa dos raros mas fatais casos de coágulos sanguíneos que levaram alguns países a suspender ou a limitar o uso das vacinas da AstraZeneca e da Johnson & Johnson.

A 23 de Abril, a EMA defendeu a administração da segunda dose da vacina contra a covid-19 da AstraZeneca, mesmo com os riscos associados à possibilidade de ocorrência de coágulos sanguíneos raros após a vacinação. De acordo com a agência europeia, os benefícios da vacinação continuavam a superar os riscos.

A Dinamarca decidiu em meados de Abril abandonar a AstraZeneca, o primeiro país da Europa a desistir, seguida em maio pela Noruega. A maioria dos países europeus que continuam a usar a vacina limitaram a sua administração com condicionantes relacionados à idade. Em Portugal, a administração da vacina da AstraZeneca é recomendada para as pessoas com mais de 60 anos.

A Bélgica anunciou esta quarta-feira que suspendeu a utilização da vacina da Johnson & Johnson em pessoas menores de 41 anos depois da morte de uma mulher dessa faixa etária a quem foi administrado esse fármaco.

Por essa razão, a Bélgica solicitou um “conselho urgente” à Agência Europeia de Medicamentos, o regulador de medicamentos da União Europeia (UE), antes de considerar levantar a suspensão, informou ainda.

A 20 de Abril, a Agência Europeia do Medicamento concluiu que há uma possível relação entre a formação de coágulos sanguíneos e a vacina da Janssen, na sequência de terem sido registados oito casos de pessoas que desenvolveram coágulos sanguíneos em quase sete milhões de pessoas vacinadas nos EUA.

Diário de Notícias
DN
27 Maio 2021 — 08:26

 

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590: É preciso rever o papel das superfícies na transmissão da covid-19, diz investigador

 

SAÚDE/COVID-19/INVESTIGAÇÃO

Belova59 / Pixabay

O investigador Henrique Barros considera que se tem dado “demasiado ênfase” à transmissão da covid-19 pessoa a pessoa, esquecendo o papel das superfícies, defendendo a revisão desta posição porque pode estar aí “o insucesso” no combate à pandemia.

O presidente da direcção do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto afirmou na audição por videoconferência na Comissão Eventual para o acompanhamento da aplicação das medidas de resposta à pandemia da doença covid-19 que o instituto pretende continuar a trabalhar em três aspectos ligados ao risco.

“O primeiro, que se confunde muitas vezes com os factores de risco, que é a compreensão dos mecanismos de transmissão de infecção e particularmente de doença”, disse o epidemiologista, lamentando que se tenha trabalhado muito pouco sobre isto em Portugal, porque “é essencial perceber o que se está a passar”.

“Sabemos que não há infecção sem pessoas que transmitam, acreditamos que se tem posto demasiado ênfase na transmissão de pessoa a pessoa por via aérea, esquecendo o papel das superfícies e é preciso rever esta posição porque parte do insucesso também pode estar por aí”, salientou o também presidente do Conselho Nacional de Saúde.

Por esta razão, Henrique Barros considerou ser fundamental compreender também os contextos da infecção: “defendemos sempre muito a realização de estudos que nos permitissem dizer, informar qual era a natureza dos contextos e que proporção é atribuível a cada um desses contextos”.

Chamou a atenção para um aspecto que “continua extraordinariamente evidente”, que é “a natureza heterogénea” da infecção pelo SARS-CoV-2, que provoca a covid-19.

O epidemiologista salientou que, “apesar de Portugal ser um país geograficamente pequeno, na sua extensão em termos de distâncias, tem sido particularmente evidente a heterogeneidade da infecção”.

“Daí que falar da infecção em Portugal seja provavelmente um erro porque o tempo da infecção, o espaço da infecção, o momento da sua evolução dinâmica nas populações é completamente distinto nas várias regiões e importa não só identificar isso, compreender isso e agir em conformidade com isso”, defendeu Henrique Barros.

Segundo o epidemiologista, esta heterogeneidade é marcada também na evolução ao longo do tempo, que “é especialmente relevante” para se conseguir perceber “algumas das perplexidades” com que os investigadores se deparam.

Para Henrique Barros, é importante serem capazes de entender “o que está verdadeiramente a agir, o que está verdadeiramente a acontecer, para que em determinados momentos a infecção tenha uma expressão tão marcada e noutros essa expressão seja tão diversa”, no mesmo momento, em locais diferentes, e sob as mesmas medidas gerais aplicadas.

Salientou ainda a importância de investigar e estudar a evolução dos doentes com esta infecção e de “uma forma rápida sublinhar a importância daquilo que se chama” a doença long covid, ou seja, “a persistência de sintomas depois da recuperação“, muitos meses após aquilo que se podia considerar o desaparecimento da infecção”.

“É muito debilitante”. O que já se sabe sobre os efeitos a longo prazo da covid-19

Quase um ano depois do aparecimento do novo coronavírus, ainda há muitas dúvidas acerca da recuperação dos pacientes após a…

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ZAP // Lusa

Por ZAP
30 Janeiro, 2021

 

 

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493: Comer alimentos picantes reduz risco de morte prematura em 25%

 

SAÚDE/ALIMENTAÇÃO

Hans / Pixabay

Os indivíduos que consomem alimentos picantes, sobretudo malagueta, podem viver mais e ter um risco significativamente reduzido de morrer de doenças cardiovasculares ou cancro, de acordo com uma pesquisa que será apresentada nas American Heart Association’s Scientific Sessions 2020.

De acordo com uma pesquisa levada a cabo por investigadores norte-americanos, divulgada no Science Daily, a ingestão abundante do ingrediente picante pode reduzir o risco de morte precoce em 25%.

A investigação revela que os consumidores frequentes apresentam uma predisposição entre 26 a 23% menor de morrerem vítimas de doenças cardiovasculares ou de cancro, respectivamente.

Para analisar os efeitos da malagueta na mortalidade, os cientistas analisaram 4.729 estudos de cinco bancos de dados de saúde globais (Ovid, Cochrane, Medline, Embase e Scopus). Os registos de saúde e dieta de mais de 570.000 indivíduos nos Estados Unidos, Itália, China e Irão foram usados para comparar os resultados daqueles que consumiram malagueta com aqueles que raramente ou nunca comeram.

O estudo descobriu que as pessoas que comiam malagueta tinham uma redução relativa de 26% na mortalidade cardiovascular; de 23% na mortalidade por cancro; e de 25% na mortalidade por todas as causas.

“Ficamos surpreendidos ao descobrir que, nestes estudos já publicados, o consumo regular de malagueta foi associado a uma redução geral do risco de morte por todas as causas, doenças cardiovasculares e cancro”, reagiu o autor Bo Xu, cardiologista da Cleveland Clinic’s Heart, Vascular & Thoracic Institute em Cleveland, Ohio.

As razões e os mecanismos que explicam esta descoberta são, no entanto, desconhecidos.

ZAP //

Por ZAP
14 Novembro, 2020

 

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413: Nanocorpo de alpaca é capaz de bloquear infecção por covid-19

 

SAÚDE/COVID-19

(CC0/PD) NickyPe / Pixabay

Cientistas do Instituto Karolinska, na Suécia, identificaram um pequeno anticorpo neutralizante – nanocorpo – que consegue bloquear a entrada do Sars-CoV-2 nas células humanas.

Uma equipa de investigadores suecos, do Instituto Karolinska, descobriu que um nanocorpo consegue bloquear a entrada do novo coronavírus  nas células humanas. O novo artigo científico foi publicado na Nature Communications no início de Setembro.

Os nanocorpos são restos de anticorpos presentes na família de animais dos camelídeos (como alpacas ou lamas) e podem ser adaptados e usados nos seres humanos. Esta equipa de cientistas decidiu então injectar a proteína spike, usada pelo novo coronavírus para invadir as células saudáveis , numa alpaca.

Depois de 60 dias, as amostras de sangue recolhidas do animal revelaram uma forte reacção imunológica. “Esperamos que as nossas descobertas possam contribuir para a melhoria da pandemia de covid-19, encorajando um exame mais aprofundado deste nanocorpo como um candidato terapêutico contra a infecção viral”, disse Gerald McInerney, em comunicado.

De acordo com o Raw Story, dos nanocorpos, o Ty1 – baptizado em homenagem à alpaca Tyson -, foi o que revelou uma maior capacidade de neutralizar o SARS-CoV-2.

Os cientistas explicaram que o Ty1 associa-se à parte da proteína spike que se conecta ao receptor celular ACE2, usado pelo novo coronavírus para infectar as células. Desta forma, como o espaço passa a estar “ocupado” pelo nonocorpo, o patógeno não consegue entrar na célula e infectá-la.

“Os nossos resultados mostram que o Ty1 se pode ligar potentemente à proteína spike do SARS-CoV-2 e neutralizar o vírus, sem actividade fora do alvo detectável. Estamos agora a embarcar em estudos pré-clínicos em animais para investigar a actividade neutralizante e o potencial terapêutico de Ty1 in vivo“, adiantou o cientista Ben Murrell.

ZAP //

Por ZAP
25 Setembro, 2020

 

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“Uma vacina que não seja segura e eficaz não deve sequer ser contemplada”

SAÚDE/COVID-19/VACINAS

No Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, Miguel Castanho dirige o Laboratório de Bioquímica de Desenvolvimento de Fármacos e Alvos Terapêuticos, onde estuda moléculas capazes de inactivar o SARS-CoV-2. Ao DN fala das incógnitas que persistem sobre a covid-19, da preocupação que lhe inspiram vacinas feitas à pressa e de como isso pode vir a impulsionar os movimentos anti-vacinação.

O investigador Miguel Castanho
© Filipa Bernardo/ Global Imagens

Em entrevista ao DN, o cientista Miguel Castanho fala das incógnitas que ainda persistem sobre o novo coronavírus e a covid-19. Uma delas é a da duração da imunidade. Casos confirmados de reinfecção, embora em número muito reduzido e sem impacto na saúde pública, mostram que ainda não passou o tempo suficiente para haver certezas sobre isso. O investigador, que está a estudar moléculas que possam inactivar o SARS-CoV-2 , acompanha com preocupação a corrida às vacinas e alerta para a necessidade de não se queimarem etapas no seu desenvolvimento. O que vê, diz, é que os políticos falam numa vacina para o novo coronavírus como a salvação, num momento em que ainda há muitas incertezas no ar. “Vejo com alguma preocupação o alastrar da ideia de que a ciência pode ser abreviada para dar essa resposta urgente”, diz.

Passado pouco mais de meio ano do início da pandemia, que incógnitas persistem sobre o novo coronavírus e a covid-19?
Sobretudo os seus efeitos de médio e longo prazo, que são ainda desconhecidos. Não passou ainda tempo suficiente. E isso é ainda mais notório na duração da imunidade ao vírus, que é uma grande interrogação, e está agora de novo em foco por causa dos recentes casos confirmados de reinfecção. Antes eram casos muito duvidosos, porque poderiam ser falsos positivos. Mas agora foi feita a sequenciação dos vírus da primeira e da segunda infecções e verificou-se que não eram exactamente o mesmo vírus. Apesar de tudo, o número de pessoas com reinfecção confirmada é muito baixo em relação ao total de casos de covid-19, portanto não tem expressão na saúde pública. Mas devem ser analisados porque nos podem dizer alguma coisa sobre os mecanismos do vírus.

Esses casos poderão aumentar?
É uma incógnita. Não sabemos se mais à frente, daqui a meses, um ano, ou dois, começamos a ter isto numa escala maior. Isso pode fazer parte de uma sazonalidade do vírus que, a acontecer, dará maior dimensão ao problema e tem implicações nas vacinas. Se as vacinas funcionarem, e esse é um ponto de interrogação muito grande, não se sabe quanto tempo durará a imunidade. Mas há outras incógnitas.

Quais são?
Por exemplo, as diferenças na resposta ao vírus, que não sabemos porque acontecem. Há pessoas que têm uma resposta imunitária muito exacerbada que desencadeia uma desregulação completa do organismo, e as pessoas morrem mais por causa disso do que por uma acção muito agressiva do vírus. Não se sabe exactamente qual é aí o factor-chave. Era extremamente importante percebê-lo, porque se pudéssemos identificar em cada pessoa se esse elemento está presente ou não, poderíamos saber quem está em alto risco, e desenvolver estratégias terapêuticas. Por outro lado, houve coisas que não se confirmaram, como a da transmissão através das superfícies. Isto é importante porque derramaram-se toneladas de desinfectantes no planeta, sem que isso tivesse impacto na evolução da situação. Devemos aprender qualquer coisa com o facto de não termos conseguido fazer uma leitura correta de alguns estudos científicos feitos em laboratório, que não têm automaticamente uma tradução para a nossa vida do dia-a-dia.

Com uma pandemia a acontecer em directo, isso não era um pouco inevitável?
Essa é uma discussão interessante e importante. Para a ciência, esta pandemia não é a primeira nem será a última. A ciência tem uma imagem pública de uma actividade muito ponderada, linear e consensual, mas isso não corresponde à ciência tal como ela se faz. Temos uma pandemia em directo e toda a gente está a olhar para a ciência e espera uma solução rápida e eficaz. E, de repente, as pessoas descobrem com alguma perplexidade que a ciência não é um mundo linear, está cheio de avanços e recuos, nem sempre os cientistas concordam uns com os outros, e há muita discussão. Nada é consensual até que várias fontes independentes, várias técnicas e vários laboratórios cheguem a um mesmo resultado. Seja em tempo de pandemia ou não, a ciência é feita da mesma maneira, e tem de ser assim. Não é admissível atropelar o método científico porque está toda a gente à espera de uma solução rápida. Vejo com alguma preocupação alastrar a ideia de que a ciência pode ser abreviada para dar essa resposta urgente.

Onde é que isso está a acontecer?
No debate sobre as vacinas, que tem sido enviesado, com base na ideia de que é preciso queimar etapas porque a vacina é muito necessária. Há uma obsessão pela vacina, como se não houvesse mais nada para fazer, o que é extremamente perigoso porque faz divergir atenção, e consequentemente os recursos, da investigação nos medicamentos. As terapêuticas de anticorpos, por exemplo, podem vir a dar mais resultados contra o SARS-CoV-2. Isto está a começar a ser explorado, nomeadamente pela Universidade de Oxford, mas se se deslocarem todos os recursos para a vacina, isso poderá prejudicar o desenvolvimento deste campo. Outra coisa que a obsessão da vacina pode levar a que não seja desenvolvida tão rapidamente como seria desejável é a área de diagnóstico e detecção. Se conseguíssemos ter testes mais fiáveis, mais baratos e mais rápidos do que os actuais, o mundo mudava. Se em cada aeroporto pudesse haver esse teste rápido, as ligações aéreas poderiam ser retomadas. Ir atrás da vacina de forma obsessiva retira a atenção de outras áreas, e quando isso acontece caem os recursos disponíveis para outras questões, que poderiam ter um impacto muito grande na pandemia. De alguma maneira, o discurso político sobrepôs-se ao discurso científico, e a questão política afunilou para a vacina, com os chefes de Estado a falar dela como quem fala da salvação.

Tornou-se uma obsessão negativa, a vacina?

Sim. Não digo obviamente que não se deve fazer, mas não devíamos esgotar tudo na vacina.

A corrida às vacinas para a SARS-CoV-2 tornou-se frenética, como nunca se viu. A Rússia até já aprovou uma, o que levantou um coro de preocupações. Quais são os potenciais problemas de uma vacina desenvolvida à pressa?
A vacina russa usa o mesmo princípio de acção da vacina de Oxford, mas os primeiros resultados da vacina russa não foram publicados, e isso faz toda a diferença. A Rússia aprovou a vacina, mas não está mais à frente no seu desenvolvimento, embora dê essa aparência. Foi uma decisão política, uma jogada de antecipação. Chamam-lhe Sputnik V, com um sentido político e uma carga histórica, como nunca tinha acontecido antes com uma vacina. Mas há várias vacinas e fornecedores, e convinha saber que critérios ditam a escolha de uma ou de outra. Isso tem sido comunicado de forma muito confusa.

Nesta altura, as vacinas ainda não estão terminadas.
Pois, mas já estão a ser feitos acordos. Ainda não se sabe o que vai sair dali, mas não sabemos com que critérios estão a ser feitos esses acordos, para se ter a garantia de que se vai comprar algo eficaz e seguro. Nunca se comunicou com grande clareza qual é o princípio desses acordos. E quando se fez uma micro-discussão pública sobre se a vacina vai ser universal e gratuita, quando do primeiro acordo, continuámos todos sem perceber em que circunstâncias a vacina será universal e gratuita. Houve até declarações, não só confusas mas um pouco preocupantes, de que se a vacina for eficaz e segura, a vacinação será universal e gratuita. Mas se não for, não devemos sequer contemplar a hipótese de estar disponível. Por outro lado, se queremos apostar na vacinação para controlar a pandemia, não vejo como isso pode ser feito sem vacinação universal. Se metade das pessoas não se quiser vacinar, então não atingimos a imunidade de grupo, a menos que ela seja muito menor do que estamos à espera.

São demasiados ses?
Para conseguirmos uma vacinação eficaz, é necessário que as pessoas estejam convencidas de que a vacinação é eficaz e segura e de que ela é necessária para todos. Mas para isso é preciso apresentar factos e ter uma comunicação baseada na clareza. Faria parte dessa estratégia conseguir explicar hoje quais são os critérios para aceitar, ou não, tomar uma determinada vacina destas todas que estão em desenvolvimento. Vemos os políticos a apresentar as vacinas de forma muito linear, como se elas fossem uma certeza que vai fazer a grande diferença.

Mesmo em situação de pandemia, o que é que não devia acontecer?
Mesmo no meio de uma pandemia, devia ser seguido todo o procedimento normal para o desenvolvimento de uma vacina. Há muito que se persegue uma vacina para a dengue. Vivemos numa permanente epidemia de dengue em África, na Ásia e na América Latina, e a doença começa agora a surgir na Europa e nos Estados Unidos, mas nunca passou pela cabeça de ninguém atalhar o caminho para se ter uma vacina para a dengue, ou para a sida. Neste último caso, houve candidatas que chumbaram na última fase de testes, porque se descobriu nos ensaios clínicos de larga escala que afinal não conferiam protecção adicional ou, nalguns casos, tinham problemas de segurança para determinados grupos. Uma das críticas aos testes que estão a ser feitos para estas candidatas a vacinas, embora as pessoas tendam a desvalorizar as críticas porque querem a vacina, é que eles não contemplam a diversidade étnica, geográfica e populacional, que normalmente é necessária no desenvolvimento de medicamentos e vacinas, e que poderia haver problemas com esses grupos sub-representados. Tudo o que se conhece são testes de fase 1, que são preliminares e feitos em indivíduos saudáveis para avaliar se há efeitos adversos graves. Sabe-se que houve uma resposta imunitária, mas não se sabe se ela é do tipo e da intensidade suficiente para conseguir combater uma potencial infecção. Isso só se saberá com os testes que estão agora a ser feitos. Os resultados dos testes de fase 1 foram anunciados com muitos adjectivos, mas, olhando para o que foi publicado, veem-se alguns efeitos adversos que, não sendo muito graves, são os que normalmente precisam de ser trabalhados mais à frente no desenvolvimento da vacina, como febres, desmaios, indisposições ou dores de cabeça. Neste caso, não sabemos se serão trabalhados, porque já tivemos notícia de que não vai haver atraso na produção e distribuição das vacinas.

Isto pode ter consequências adversas, nomeadamente no fortalecimento da corrente anti-vacinas?
O que o mundo científico arrisca é a credibilidade. As pessoas são levadas a ter uma fé quase cega na vacina e a ciência não se coaduna com isso, ainda que toda a expectativa tenha sido criada mais pelo mundo político. Mas foi exportada para o mundo científico, e este não conseguiu comunicar com clareza que o que lhe estava a ser imputado não era da sua essência. Caso exista algum problema com as vacinas, isso impulsionará as correntes anti-vacinação, que estavam muito activas antes da pandemia e agora estão em silêncio. Pode ser que corra tudo muito bem, mas estamos um pouco a brincar com o fogo.

Há muitas candidatas a vacinas contra o SARS-CoV-2. Apesar disso, poderemos chegar a não ter uma vacina?
Se a questão da vacina não tivesse sido politizada, eu diria que sim. Vimos isso acontecer muitas vezes, por exemplo no caso do VIH. Mas neste momento, para o mundo político, já não é comportável que não haja pelo menos qualquer coisa, que pode ser uma vacina imperfeita. Estou convencido de que alguma coisa vai ser apresentada.

A Organização Mundial da Saúde já admitiu que esta pandemia pode durar cerca de dois anos, talvez um pouco menos, numa perspectiva optimista. Como vê esse prazo?
Se estamos a falar de uma situação em que a pandemia desaparece na sua configuração actual, diminui o seu impacto e entra numa espécie de estado estacionário a um nível bastante mais baixo do que temos hoje, tornando-se endémico e persistente, mas como um problema relativamente menor, acho que sim. Mas, menos do que isso, não me parece plausível.

Tem estudado os eventuais efeitos de algumas moléculas sobre o SARS-CoV-2. Já tem resultados?
Estudamos antivirais há muito tempo, para vírus como o VIH, a dengue e o zika. Para nós, o SARS-CoV-2 era só uma questão de transposição do que já estávamos a fazer, porque os vírus têm semelhanças estruturais. Temos um projecto europeu para desenvolver formas de levar fármacos até ao cérebro, para protecção dos efeitos neurológicos do zika, e incluímos o SARS-CoV-2 no projecto, porque se confirmou que este coronavírus em muitos casos tem efeitos no sistema nervoso central. Descobriu-se que as pessoas com uma forma moderada de covid-19 podem desenvolver sequelas ao nível do sistema nervoso. A inclusão do SARS-CoV-2 no projecto foi acordada com a Comissão Europeia. Neste momento, já demonstrámos que se consegue levar até ao cérebro as moléculas que estamos a usar. Por outro lado, demonstrámos também que as que lhes agregamos para obter uma atividade antiviral, as porfirinas, inactivam o vírus in vitro. Falta-nos conjugar as duas coisas e demonstrar que isso acontece em modelo animal. Ou seja, que essas moléculas conjugadas chegam ao cérebro e conseguem inactivar o SARS-CoV-2 se aí o encontrarem.

Quando vão avançar para essa fase do estudo?
Para o zika tencionamos ter o modelo animal pronto para ser usado até final do ano. Para o SARS-CoV-2, pensamos já estar em condições de iniciar os testes em modelo animal no princípio do próximo ano.

Este artigo faz parte de uma série dedicada aos investigadores portugueses e é apoiada por Abbvie.

Diário de Notícias
30 AGO 2020

 

365: Estudo português dá nova vida a velhos fármacos para combater a covid-19

SAÚDE/INVESTIGAÇÃO/COVID-19

O Departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (LAQV-REQUIMTE), em colaboração com o Grupo de Investigação 3B”s da Universidade do Minho, acredita que o impacto deste estudo – em que se mostra que a dexametasona pode actuar nas lesões pulmonares dos doentes mais graves com covid-19. Entrevista a Ana Rita Duarte, coordenadora do trabalho.

© Orlando Almeida / Global Imagens

O Departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (LAQV-REQUIMTE), em colaboração com o Grupo de Investigação 3B”s da Universidade do Minho, acredita que o impacto deste estudo – em que se mostra que a dexametasona pode actuar nas lesões pulmonares dos doentes mais graves com covid-19 – tem relevância não só em Portugal como a nível mundial. “Em Portugal temo-nos tornado pioneiros no estudo de misturas eutécticas para várias aplicações, entre as quais aplicações biomédicas, e a investigação que se faz é muitíssimo reconhecida a nível internacional”, afirma Ana Rita Duarte, coordenadora do trabalho.

Qual a conclusão deste estudo?
Este estudo, tal como outros que temos vindo a realizar com misturas eutécticas para fins farmacêuticos, tem como objectivo melhorar a disponibilidade dos fármacos actualmente disponíveis. Neste estudo demonstramos que a solubilidade da dexametasona num meio aquoso, como o do nosso organismo, aumenta 65 vezes em relação ao fármaco puro; para além disso a sua permeabilidade duplica.

De que forma?
Ou seja, com esta abordagem podemos dar nova vida a fármacos existentes. Uma das principais desvantagens dos medicamentos é o facto de se dissolverem muito pouco em água, o que faz que seja preciso tomar uma dose muito mais elevada do que a necessária para ter o efeito pretendido, aumentando por consequência os efeitos secundários. Com esta tecnologia podemos aumentar a sua eficácia sem ter que aumentar a concentração tomada pelos pacientes tornando os fármacos mais eficazes e mais seguros. Para além disso usando solventes eutécticos, seguimos uma abordagem muito mais simples do que as formulações típicas para este tipo de medicamentos, reduzindo ao mesmo tempo os custos e o impacto ambiental.

O que é a dexametasona e de que forma pode aumentar a sobrevivência dos doentes (graves) com covid-19?
A dexametasona é um fármaco glucocorticoide, da categoria dos corticosteroides (versão sintética de hormonas produzidas pelas glândulas supra-renais), com elevado poder anti-inflamatório e imunossupressor, que tem indicação em diversas patologias. A patologia covid-19 está associada a lesões pulmonares difusas. Os glucocorticoides, e concretamente a dexametasona, podem modular o processo inflamatório subjacente, diminuindo a extensão dessas lesões e, consequentemente, reduzindo a progressão para insuficiência respiratória e morte. É de salientar que no estudo reportado pela Universidade de Oxford se conclui que a administração da dexametasona reduziu em 35% o risco de morte em doentes ventilados, e em 20% em doentes oxigenados, não havendo, no entanto, melhorias significativas em pacientes com sintomas ligeiros.

O vosso estudo é de 2018. Isso quer dizer que foi feito a pensar noutras doenças?
Sim, o nosso estudo foi planeado no âmbito do trabalho de investigação em engenharia de tecidos e medicina regenerativa, realizado no grupo 3B”s. O objectivo inicial era a preparação de um implante para regeneração óssea, no âmbito da engenharia biomédica. A combinação de ácido ascórbico com dexametasona é normalmente utilizada para promover a transformação de células estaminais em células osteogénicas (de osso), pelo que desenvolvemos um biomaterial à base de polímeros naturais impregnado com uma combinação de cloreto de colina com ácido ascórbico e dexametasona.

Qual a importância de estudos como estes para o avanço no uso de fármacos em Portugal e no mundo?
A grande maioria dos fármacos actualmente desenvolvidos pelas farmacêuticas têm problemas de solubilidade e/ou permeabilidade, o que quer dizer que a eficácia quando administrados é relativamente baixa. Daí surge a necessidade de encontrar veículos alternativos que permitam melhorar estes parâmetros. Esta vertente da química verde aliada à farmácia pode permitir novos desenvolvimentos em terapêuticas para as quais os fármacos disponíveis apresentam estas desvantagens.

E qual será o impacto, em termos gerais?
O impacto deste estudo tem relevância não só em Portugal como a nível mundial. Em Portugal temo-nos tornado pioneiros no estudo de misturas eutécticas para várias aplicações, entre as quais aplicações biomédicas, e a investigação que se faz é muitíssimo reconhecida a nível internacional.

Quem é a equipa responsável por este trabalho? Quando tempo demorou a fazê-lo?
A equipa responsável por este trabalho é liderada por mim, Ana Rita Duarte e Alexandre Paiva da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Da equipa fazem ainda parte a Dra. Joana Silva e o Prof. Rui L. Reis, do grupo de investigação 3B”s da Universidade do Minho. O trabalho decorreu durante sensivelmente um ano.

Qual o investimento aplicado neste trabalho e de onde provém?
O investimento vem principalmente de fundos públicos, através de concursos nacionais e/ou internacionais altamente competitivos. Nomeadamente este projecto foi co-financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, através da bolsa de pós-doutoramento da Dra. Joana Silva, do projecto DESzyme, e pela Comissão Europeia através da bolsa ERC Consolidator DES Solve do European Research Council (Conselho Europeu para a Investigação), financiada em 1,87 milhões de euros, em 2017.

Este artigo faz parte de uma série dedicada aos investigadores portugueses e é apoiada por abbvie