697: É doente crónico? E se os medicamentos lhe fossem entregues em casa?

 

SAÚDE/MEDICAMENTOS

O projecto estava delineado há tempos, mas a pandemia veio acelerar a sua aplicação. O objectivo era reduzir as idas de doentes ao hospital só para levantar medicação de continuidade. Em poucos dias, uma equipa do serviço de farmácia organizou tudo e as entregas começaram logo em Março de 2020. O resultado está à vista: 15 mil entregas a seis mil doentes, o que equivale a muitos milhares de medicamentos. “É o futuro”, diz o director do serviço.

Há seis mil doentes que já recebem os medicamentos em casa, mas ainda há muitos que se dirigem à farmácia hospitalar para levantar a medicação presencialmente.
© Gerardo Santos Global Imagens

Depois da consulta com o pai no Hospital de Santa Maria, Manuel Carlos aproveita para ir à farmácia da unidade e ver se é possível levantar a medicação de continuidade para, pelo menos, três meses. O pai sofre de uma doença de sangue e é acompanhado na consulta de hematologia. Há muito que a sua rotina é a mesma de 50 em 50 dias. Sair do distrito de Setúbal, onde vive com o pai, para vir a Lisboa buscar uma caixa de 50 comprimidos. “Ele tem de tomar um comprimido diário, mas só podemos levantar uma caixa de mês e meio em mês e meio. Muitas vezes não tem consulta e tenho de vir sozinho a Lisboa só para isso. Hoje queria ver se consigo levar duas caixas. Começa a ser muito complicado no trabalho”, conta ao DN.

Manuel Carlos teve de mudar o turno no trabalho para conseguir acompanhar o pai naquela manhã de terça-feira às análises, depois à consulta e por fim à farmácia hospitalar. É quase hora de almoço e ainda aguarda a sua vez para ser atendido. Pelo meio, conta até dez para acalmar o stress, o mesmo de sempre, ri-se, que surge quando pensa nas voltas que ainda tem de dar até chegar ao trabalho sem prejudicar o turno. Mas tudo é melhor do que ter de voltar daí a dias para passar pelo mesmo. Mas quando chega ao guichet é surpreendido e solta um grande: “Uau, a sério? Isso é possível? E basta pedir os medicamentos só três a quatro dias antes?”

Manuel Carlos não queria acreditar no que a funcionária lhe dizia. “Sabe que há um programa de entrega de medicamentos em proximidade? O seu pai reúne os requisitos e pode passar a receber a medicação em casa ou na farmácia mais próxima. Vai à Internet, entra na nossa plataforma e antes de acabar a medicação preenche o formulário com os dados dele. Depois será contactado por um administrativo do hospital para marcar o dia e a hora da entrega e ainda vai receber o telefonema de um farmacêutico que vai avaliar a condição do seu pai para ver se há necessidade de ajustes à medicação ou até de falar com o médico dele.”

Mais uma vez, Manuel Carlos não queria acreditar que tal fosse possível. Aceitou de imediato, pelo pai e por ele. O “uau” que lhe saiu não o foi único que os profissionais do serviço de farmácia do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, que inclui o Hospital de Santa Maria, registaram durante este ano, de cada vez que falaram do programa a um doente, a familiares ou até a médicos, sobretudo àqueles que estão mais envolvidos com o tipo de doentes a que o programa se destina, doentes hematológicos, de reumatologia, nefrologia, neurologia, infecciologia, etc.

Aliás, têm sido muitos os “uaus” ouvidos. Talvez por isto mesmo, e ao fim de um ano, o Programa de Acesso ao Medicamento em Proximidade tenha recebido nota dez dos utentes no inquérito de satisfação realizado pelo serviço de farmácia. “O hospital tem cerca de 17 mil doentes que necessitam de dispensa de medicação. Todos estes doentes tinham de vir várias vezes à unidade só para levantar a medicação. Com este programa não precisam de o fazer”, explica o director do serviço de farmácia, João Paulo Cruz.

É do armazém da farmácia que saem todos os medicamentos para os doentes, quer os que levantam presencialmente, quer os que recebem em casa.
© Gerardo Santos Global Imagens

Milhares de medicamentos entregues em casa

O resultado está à vista: 15 mil entregas a seis mil doentes em todo o país, incluindo Madeira e Açores. A grande maioria das entregas foi ao domicílio, uma pequena percentagem em farmácias comunitárias e em instituições, como lares. No caso das ilhas, as entregas foram feitas em farmácias hospitalares. “Isto significa que foram entregues muitos milhares de medicamentos, tendo em conta que cada entrega a um doente envolve um, dois, três ou mais medicamentos”, acrescenta o médico, aproveitando para reforçar os resultados obtidos no inquérito de satisfação. “Tivemos quase todas as questões com a nota máxima, desde a qualidade do serviço à segurança e ao tempo de espera.”

João Paulo Cruz sorri, satisfeito, quando o afirma. Tem os resultados do inquérito impressos em papel em cima da sua secretária, não os deixou apenas informatizados, e mostra-os com o orgulho, porque, no fundo, é o resultado do trabalho de toda uma equipa, de um serviço e de todo o hospital. “Têm sido muitos os profissionais que se têm empenhado neste projecto, começando logo pela nossa equipa, do conselho de administração até ao motorista que entrega o medicamento em casa ao doente. E a recompensa é esta: a satisfação dos doente.” É mais do que isso, como diz, afinal, a recompensa pode mesmo ser “o futuro”.

O projecto estava delineado há um tempo por ser o desejo de alguns doentes e da equipa do serviço de farmácia, mas sem data marcada para avançar, embora conjugasse à partida vários objectivos: facilitar a vida aos doentes e aos médicos, agilizar os serviços, aumentando a sua eficácia, evitar o desperdício de medicamentos e “tentar acabar com uma certa dependência do hospital, que deve ser um centro só para cuidados diferenciados” , defende João Paulo Cruz.

Tudo objectivos que enquanto o programa não foi aplicado se mantiveram na gaveta. Mas nem tudo o que a pandemia trouxe atrás foi mau, este programa de proximidade é exemplo disso, porque teve de avançar forçosamente para dar resposta aos doentes, evitando ao máximo as idas ao hospital. “No primeiro confinamento, chegámos a ter num só dia mais de 600 doentes na farmácia a querer levantar medicamentos, com o receio de poderem ficar com medicação em falta e isto não podia continuar”, explica o director de serviço.

A proposta desenhada foi levada ao conselho de administração, que deu luz verde, e em poucos dias o programa estava a funcionar com eficácia e segurança. “É preciso não esquecer que é um programa de cedência de medicamentos que envolve muito dinheiro, são medicamentos muito caros, e o programa tinha de assegurar a sua rastreabilidade, desde que sai embalado da farmácia do hospital até à entrega ao doente. E isso é feito.”

A par, e como forma de reforçar o acompanhamento ao doente, foi criada uma consulta farmacêutica, agora feita ou presencialmente ou por telefone, mas que esperam poder vir a ser por Zoom. Esta é feita por um farmacêutico que tem como objectivo aferir os efeitos da medicação, para saber se esta deve ser ou não ajustada ou até se há alguma sintomatologia que deva ser referida ao médico assistente.

“O que estamos a fazer agora é muito importante, permite controlar o que é prescrito ao doente e se esta prescrição é a adequada à sua condição, porque estamos a falar de doentes com VIH/sida, artrite reumatóide, psoríase, espondilite anquilosante, fibrose quística, hepatites, esclerose múltipla, doentes hematológicos e oncológicos, com hipertensão pulmonar e até de alguns doentes pediátricos.” Um controlo que faz parte da prática de um farmacêutico hospitalar, já que toda a medicação prescrita e a sua posologia tem de ser validada por estes profissionais. Como diz João Paulo Cruz, “é um serviço de retaguarda fundamental”.

O director do Serviço de Farmácia, João Paulo Cruz, diz que projecto iniciado com a pandemia é o futuro.manifesta-se
© Gerardo Santos Global Imagens

Um desejo dos doentes e dos profissionais

A coordenadora do programa, Marisa Rodrigues, uma jovem farmacêutica, como a maior parte dos colegas que integram o serviço, confirma ao DN que a ideia de o criar e de o levar para a frente surgiu muito por influência dos doentes, embora “só tenha surgido agora em contexto de pandemia, mas era um desejo de muitos doentes, sobretudo dos que têm maior vulnerabilidade e dificuldade em se deslocarem de forma regular ou para os que geograficamente estão mais distantes e têm incapacidade económica. Muitos, cada vez que aqui vinham para levantar a sua terapêutica, acabavam por nos pedir algo que os aliviasse. E ao longo do tempo fomos delineando este projecto, que acabou por se catapultar há um ano”, explica.

Hoje, a sua satisfação também é grande, e manifesta-a na visita que fazemos à farmácia hospitalar, onde em seis postigos, rigorosamente divididos, com funcionários de máscara e de luvas, se dirigem, um a um, doentes que têm de levantar a sua medicação presencialmente. Na sala de espera, aguardam cinco pessoas, o máximo que é permitido em tempo de pandemia, os restantes no espaço exterior, mesmo assim, diariamente, ainda há dias com 200 ou mais doentes.

“O programa de proximidade também abrange o funcionamento deste serviço, porque quanto menos pessoas vierem buscar a medicação presencialmente, mais será possível melhorar o atendimento”, argumenta. Marisa Rodrigues explica que o programa começou com uma dimensão pequena de doentes, mas, agora, já vai em seis mil e, em breve, espera que sejam muitos mais. “Acreditamos que o programa vai continuar. Aliás, quando o lançámos foi logo com essa lógica e perspectiva e, ao longo deste ano, temos vindo a ajustar e a melhorar algumas situações, quer a nível de condições quer de acompanhamento do doente“, reforça, exemplificando: “A consulta de seguimento farmacêutico que fazemos em simultâneo com a entrega da medicação, quer seja presencial quer seja por telefone, dá-nos maior proximidade ao doente e uma informação muito mais robusta sobre o seu estado e sobre a medicação que lhe é mais adequada. Uma das grandes mais-valias deste programa, que conjuga a entrega em proximidade e a presencial, também é esta.”

Uma consulta que, em termos de informática, “já está interligada com o sistema de consultas médicas para que o colega possa ir acompanhando o efeito da medicação e o estado do doente. No limite, tanto nós como o médico assistente ficamos com informação just in time sobre o doente em alguns aspectos que podem ser muito importantes”, pormenoriza João Paulo Cruz.

No início, “ainda houve doentes que resistiram à mudança, sobretudo doentes com VIH/sida, pensamos que talvez pela estigmatização que a doença ainda tem. Não queriam aceder ao programa por receio de os medicamentos lhes chegarem ao domicílio ou à farmácia comunitária, alguém que não eles poder ver o que era e ficarem a saber sobre a sua doença”, justifica o médico. Agora, já não é assim, “os doentes com VIH estão em quarto lugar na adesão ao programa”. Mas muitos aderiram de imediato e outros foram eles próprios a pedir para o integrarem e temos cada vez mais médicos a aconselharem os seus doentes para o fazerem. É que “o programa não veio só aliviar os doentes. Veio também agilizar a prática clínica e o funcionamento dos serviços hospitalares, nomeadamente no que toca a consultas que tinham de ser agendadas só para pedir medicação”, argumenta ainda. Por isso, repete, “isto é o futuro”.

As deslocações contínuas foram substituídas. Primeiro, bastava um e-mail, agora por um pedido na plataforma do hospital destinada à cedência de medicação, onde o doente apenas tem de preencher o formulário com os seus dados para a equipa de farmacêuticos a trabalhar no projecto ter acesso à medicação que está a tomar – e basta fazer isto três a quatro dias antes de a medicação acabar. O farmacêutico valida a medicação e faz seguir o processo para que o doente a receba onde pretende. “Quando se trata de um doente que não se entende com a Internet, funciona-se com o sistema clássico, o pedido é feito via telefone à nossa equipa.” Até agora, as entregas têm sido para períodos controlados, “para dois a três meses ou, se possível, entre consultas, para quatro a cinco meses, mas o objectivo é alargar esta cedência e obter um impacto mais significativo”.

Do ponto de vista de logística e para satisfazer as necessidades dos doentes, “o programa foi pensado para fazer a cedência de um medicamento a temperatura ambiente e a temperatura refrigerada, incluindo medicamentos biológicos que são muito sensíveis, o que só é possível porque temos um circuito de avaliação de qualidade montado e nunca houve problemas. Os medicamentos têm chegado sempre em condições ao doente”. Mais do que isso, têm chegado. Esta é a garantia para fechar cada pedido. “O processo só fica concluído quando o doente, a farmácia comunitária ou a instituição onde o doente está confirmam terem recebido a entrega. Foi por isso que tivemos de integrar um processo de rastreabilidade muito grande para garantir a segurança do processo. Em caso de extravio o impacto económico seria um peso muito grande para o hospital”, justifica João Paulo Cruz.

O programa de acesso ao medicamento em proximidade envolve uma dezena de profissionais, seis farmacêuticos, dos administrativos, um técnico e a coordenadora do projecto, também farmacêutica.
© Gerardo Santos Global Imagens

Dez profissionais para colocar tudo a mexer

Para avançar com o programa foi necessário contratar mais profissionais. A logística pode ser simples para o utente, mas para os serviços acaba por ser mais complexa do que a cedência presencial. “Pudemos contratar alguns farmacêuticos no âmbito da pandemia e esperamos que estes possam continuar connosco”, comenta João Paulo Cruz, desabafando: “Se não continuarem será muito difícil manter o que temos, esta é a nossa grande dúvida neste momento.”

Ao todo, entraram mais cinco farmacêuticos, quatro ficaram no projecto e um teve de ir para a área de produção, onde precisávamos muito de pessoas. Há um que já teve o seu contrato revalidado, faltam os outros que estão a terminar.” João Paulo Cruz manifesta-se: “Nem me diga nada. Já tivemos duas colegas que com o receio de os contratos não serem revalidados foram para outros hospitais e eles são precisos aqui.” No global, explica, “estão neste projecto seis farmacêuticos, dois administrativos, um técnico e a coordenadora do projecto”, confirma.

Quando batem à porta e é o motorista dos medicamentos

Mas a verdade é que o projecto envolve muitos outros profissionais. Uns foram alocados através da reorganização do hospital perante a pandemia e o confinamento, outros voluntariaram-se. “Um dos primeiros a dar o exemplo foi o presidente do conselho de administração, que disponibilizou o seu motorista para este projecto, que depois se empenhou e se voluntariou para o continuar a integrar”, mas o mesmo aconteceu com outros profissionais.

Programa de entrega de medicamentos destina-se a doentes hematológicos, oncológicos, com artrite reumatóide, esclerose múltipla, fibrose quística e outras patologias graves e crónicas. com
© Gerardo Santos Global Imagens

“As pessoas empenharam-se todas muito no projecto. Acabaram por nos dizer que a gratidão que os doentes mostram quando eles chegam a suas casas com os medicamentos é uma grande recompensa”, conta ao DN. Mas a entrega também está cargo de uma empresa de distribuição de medicamentos certificada pelo Infarmed. “Era uma das condições das farmácias comunitárias para integrarem o projecto e tivemos de contratar uma empresa para o efeito, que continua.”

A pandemia surgiu. Foi um obstáculo ao serviço que prestavam, uma dificuldade maior para os utentes, mas a farmácia do Hospital de Santa Maria olhou para tudo como uma oportunidade. “Aproveitámos”, confessam os médicos. “Tivemos de nos reorganizar e fazer que a tecnologia fosse posta ao dispor do hospital e dos doentes, o que nem sempre é fácil, mas acho que conseguimos”, diz João Paulo Cruz.

Do lado dos doentes, não têm dúvidas de que este procedimento os tornou mais próximos e lhes trouxe mais questões e mais dúvidas por parte destes a que têm de responder. “Não sabemos se é por causa das vacinas, mas o que os doentes mais querem saber agora são os efeitos adversos que os medicamentos que estão a tomar podem gerar.” Ou seja, mais um ganho: mais literacia em saúde através da ambulatorização dos cuidados.

Diário de Notícias

 

© ® inforgom.pt e apokalypsus.com são domínios registados por F. Gomes

[ratingwidget_toprated type=”posts” created_in=”all_time” direction=”ltr” max_items=”5″ min_votes=”1″ order=”DESC” order_by=”avgrate”]

 

605: Doentes com enfartes agudos chegam tarde ou não vão ao hospital

 

SAÚDE/ENFARTES

Números oficiais sobre o impacto da covid-19 nas doenças coronárias ainda não há, mas quem está nos hospitais sabe que a pandemia agravou a sua mortalidade e a sua morbilidade. A situação é preocupante até porque é a doença que mais mata em Portugal.

Em 2018, as doenças coronárias foram responsáveis por mais de 32 mil mortes em Portugal.

A pandemia não travou as doenças cardiovasculares. Pelo contrário, o coordenador do Programa Nacional para as Doenças Cérebro Cardiovasculares, Filipe Macedo, diz mesmo que quem está nos hospitais sabe que houve um agravamento na mortalidade, porque os doentes não chegam e quando chegam já é tarde para os tratar, mas também na morbilidade. “A nossa percepção é a de que os doentes ficam com mais complicações após serem tratados a um enfarte do miocárdio” e isso deve-se ao facto de que vão para o hospital “tardiamente”.

Por isto, no Dia Nacional do Doente Coronário que hoje se assinala, uma data definida pela Fundação Portuguesa de Cardiologia, faz três alertas: “O primeiro vai para o facto de os portugueses terem de estar atentos aos sinais do que pode ser uma suspeita de um enfarte do miocárdio e o segundo tem a ver com o uso dos meios adequados. É fulcral que liguem para o 112 para serem diagnosticados, e não desvalorizarem a dor e irem pelos próprios meios, porque isso faz perder tempo”.

Filipe Macedo, médico cardiologista no Centro Hospitalar Universitário São João, no Porto e professor, sublinha: “Embora ainda não haja números oficiais sobre o impacto da pandemia nas doenças coronárias, uma coisa que já se sabe é que o INEM tem sido muito pouco solicitado pelos portugueses para estas situações”. Segundo refere, foi chamado em menos de 40% das situações, “o que é francamente muito pouco”, sublinhando que, em tempos de pandemia, este dia é um marco, sobretudo para se deixar algumas das mensagens que podem salvar vidas.

A doença cardiovascular continua a ser a primeira causa de morte em Portugal e no mundo ocidental. Foi neste sentido que se criou “uma organização de socorro – designada como Via Verde – através do INEM que permite salvar vidas. Um doente com 50 ou 60 anos que tem uma dor no peito e suspeita de que pode estar a fazer um enfarte deve ligar para o 112”, reforça. “Refere os sintomas e o INEM envia alguém a casa ou onde o doente se encontrar, e se for mesmo um enfarte, é de imediato encaminhado para o hospital, sem ter necessidade de passar pela inscrição ou pela triagem dos serviços de urgência. Isto permite ganhar tempo”, explica o cardiologista, afirmando que uma das grandes mensagens deste dia e que os portuguesas precisam de saber é: ” A Via Verde dá acesso aos melhores tratamentos, aos mais adequados e mais rápidos.”

A questão é que ainda são poucas as situações que chegam aos hospitais encaminhadas pelo INEM, pois a maioria dos doentes ainda vai pelos próprios meios e alguns já muito tarde. “É uma situação que já acontecia antes da pandemia e que acontece ainda mais desde Março até agora. As pessoas acabam por revelar que têm medo de ir ao hospital porque julgam que não é seguro, ou que uma dor no peito não justifica essa ida, porque há outras situações mais importantes para tratar, mas um ataque cardíaco (ou um enfarte agudo do miocárdio), deve ser tratado nos primeiros 90 minutos, se a pessoa fica em casa, se bebe um chá ou toma uns comprimidos para atenuar a dor ou a má disposição, deixa passar a janela terapêutica ideal, que lhe pode salvar a vida ou até deixar com menos complicações”.

O coordenador do Programa Nacional acredita que o hábito de as pessoas irem pelos próprios meios para as unidades de saúde quando têm uma dor suspeita de enfarte tem a ver com o facto de não conhecerem detalhes da doença e de não conseguirem identificar os sinais. “Em Portugal, há claramente uma falta de cultura e de literacia na área das doenças cérebro cardiovascular. Uma das prioridades do programa nacional é exactamente essa, melhorar a literacia em saúde de forma a poder contribuir-se para um melhor esclarecimento”.

Dor no peito e indisposição

A dor no peito é um sinal vital da doença cardiovascular. “Uma pessoa que tem, de repente, uma dor no peito acompanhada por suores, uma dor que, muitas vezes, tem radiação para o pescoço ou para os braços, deve ter a noção de que isto é muito relevante de um enfarte, sobretudo no sexo masculino”, aponta. A doença atinge mais os homens do que as mulheres, mas nestas os sinais não são tão clássicos. “As mulheres podem sentir uma dor no peito, mas esta não é um dos sinais tão característicos, é mais uma pequena indisposição geral”, acrescentando: “Se for uma mulher com mais de 50 anos, na menopausa e fumadora, é importante que ligue para o 112 atempadamente para ser socorrida e tratada adequadamente”.

Basta referir que, e segundo os últimos dados oficiais, a doença coronária, em 2018, foi responsável por 32 731 mortes no nosso país. A esta causa seguiram-se os tumores, 28 451 mortes, e as doenças do aparelho respiratório, 13 217 mortes. O médico explica ainda que é preciso saber-se que quando falamos de doenças coronárias estamos a falar de doenças relacionadas com problemas cardíacos, cerebrais, pulmonares, vasculares e outros. Os problemas cardíacos podem ter causas relacionadas com as coronárias (as artérias que irrigam o músculo cardíaco), com as válvulas cardíacas, com o ritmo cardíaco, com insuficiência cardíaca e outros. A doença das coronárias, conhecida como Doença Cardíaca Isquémica, é, de entre todas, a que causa o maior número de óbitos no grupo das doenças do aparelho circulatório.

Segundo explica ao DN, a Doença Cardíaca Isquémica ocorre quando as artérias coronárias deixam de cumprir a sua função de irrigarem partes do coração, podendo no limite provocar a morte de uma parte do músculo cardíaco (uma zona do coração), que é a situação mais conhecida, o enfarte agudo do miocárdio.

Embora seja a primeira causa de morte no país, os dados oficiais indicam também que as mortes têm vindo a diminuir, em parte devido aos “avanços clínicos alcançados nos últimos anos”, como o método de tratamento que é hoje considerado o mais eficaz: a angioplastia coronária (desobstrução das artérias). ” Existe evidência científica de que se o doente for tratado, através deste método, nos primeiros 90 minutos, a taxa de mortalidade por enfarte cai significativamente”.

Desgosto de amor é um risco

Filipe Macedo, e por ser também o Dia dos Namorados, lembra que um dos factores importantes que evitam as doenças cardiovasculares “é a pessoa sentir-se feliz, estar bem-humorada, fazer caminhadas – os portugueses são, em regra geral, muito sedentários – e desenvolver um estilo de vida saudável que contribua para a eliminação dos factores de risco – como a obesidade, o tabaco, o colesterol elevado, a hipertensão arterial e, por último, a diabetes. “Todos estes factores, de forma isolada ou em conjunto, podem accionar as doenças coronárias”, afirma.

Mais. “Hoje sabemos que as pandemias e as guerras, um desgosto de amor ou a perda de um familiar, podem agravar a doença cardiovascular”, dando como exemplo o síndrome do coração partido, o Síndrome de Takotsubo, que pode desencadear uma doença coronária.

A pandemia não veio fazer alterações no modo como os doentes são tratados, mas veio permitir que “se reforçasse o SNS quer em recursos humanos quer em equipamento. Por exemplo, a tele-medicina é uma forma expedita de se acompanhar estes doentes”. Mas o mais importante, diz, “é a divulgação dos sinais de alerta para que todos estejam melhor esclarecidos sobre estas doenças”.

Diário de Notícias
14 FEV 2021

 

 

[ratingwidget_toprated type=”posts” created_in=”all_time” direction=”ltr” max_items=”5″ min_votes=”1″ order=”DESC” order_by=”avgrate”]

 

580: Conheça as novas recomendações da OMS para doentes com sintomas persistentes

 

SAÚDE/OMS/RECOMENDAÇÕES

OMS recomenda uso de anticoagulantes em baixas doses para prevenir o risco de tromboses graves.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou esta terça-feira recomendações para doentes de covid-19 com sintomas persistentes, mesmo após a sua recuperação, e que incluem a medição do oxigénio no sangue e o uso de anticoagulantes de baixa dosagem.

Nestas novas recomendações, que estão em revisão contínua, a OMS salienta que os doentes de covid-19 “devem ter um fácil acesso aos cuidados de saúde se apresentarem sintomas persistentes, novos ou em mudança”.

A agência com sede em Genebra aconselha os doentes de covid-19 que estão nos seus domicílios a usar oxímetros de pulso – dispositivos de medição de oxigénio e não invasivos -, juntamente com o monitoramento regular de sua situação clínica.

Para os casos de pacientes hospitalizados, a OMS recomenda o uso de anticoagulantes em baixas doses para prevenir o risco de tromboses graves.

Ainda no caso de pacientes hospitalizados que necessitem de oxigenação suplementar ou ventilação não invasiva, a organização da ONU indica nas suas recomendações que a melhor postura para aumentar o fluxo de oxigénio é deitado de bruços com a cabeça para o lado.

A OMS adiantou também que está a analisar sintomas de longo prazo de covid-19, entre os quais os frequentemente identificados como fadiga extrema, tosse persistente e intolerância ao exercício.

A OMS vai realizar consultas com especialistas em Fevereiro, contando também com grupos de doentes, e poderá categorizar a covid-19 como uma nova doença.

Diário de Notícias
DN/Lusa
26 Janeiro 2021 — 17:12

 

 

[ratingwidget_toprated type=”posts” created_in=”all_time” direction=”ltr” max_items=”5″ min_votes=”1″ order=”DESC” order_by=”avgrate”]

 

498: Novos dados indicam que imunidade à covid-19 pode durar anos

 

SAÚDE/COVID-19

Amostras de sangue de pacientes recuperados sugerem uma resposta imunológica poderosa e duradoura, relataram os investigadores

© EPA/STR

Mais um sinal de que há luz ao fundo do túnel em relação à pandemia de covid-19. Um novo estudo sugere que a imunidade à covid-19 possa durar anos e talvez até décadas, dando assim a esperança de que a vacina possa colocar termo ao novo coronavírus, avança o New York Times.

Segundo os novos dados, a maioria das pessoas que recuperou da infecção apresenta células imunológicas suficientes para afastar o vírus e prevenir doenças oito meses após a infecção e ao que tudo indica essas células podem persistir no corpo durante muito mais tempo.

A investigação, publicada online, não foi revista por pares nem difundida numa revista científica, mas é o estudo mais abrangente sobre a memória imunológica em relação ao coronavírus feito até hoje.

“Essa quantidade de memória provavelmente evitará que a grande maioria das pessoas contraiam doenças graves durante muitos anos”, disse Shane Crotty, virologista do Instituto de Imunologia La Jolla, dos Estados Unidos, que co-liderou o novo estudo.

As descobertas provavelmente poderão aliviar os especialistas preocupados com a possibilidade de a imunidade ao vírus poder ter vida curta, o que significaria que as vacinas teriam de ser administradas repetidamente para manter a pandemia sob controlo.

Esta investigação foca-se ainda em outra descoberta recente: os sobreviventes da SARS, causada por outro coronavírus, ainda carregam certas células imunológicas importantes 17 anos após a recuperação.

Investigadores da Universidade de Washington, liderados pela imunologista Marion Pepper, já haviam mostrado que certas células de “memória” que foram produzidas após a infecção pelo coronavírus persistem no corpo durante pelo menos três meses. E um estudo publicado na semana passada também chegou à conclusão que as pessoas que recuperaram da Covid-19 têm células imunes que são poderosas e protectoras mesmo quando os anticorpos não são detectáveis.

Estes estudos “estão todos a pintar o mesmo quadro, de que após umas primeiras semanas críticas, a resposta imunológica parece bastante convencional”, disse Deepta Bhattacharya, imunologista da Universidade do Arizona.

Akiko Iwasaki, imunologista da Universidade de Yale, disse que não ficou surpreendida com o fato de o corpo ter uma resposta duradoura porque “é isso que deve acontecer”. Ainda assim, ficou animada com a investigação: “Esta é uma notícia empolgante”.

Um pequeno número de pessoas infectadas no novo estudo não tinha imunidade duradoura após a recuperação, talvez por causa das diferenças nas quantidades de coronavírus a que foram expostas. Mas as vacinas podem superar essa variabilidade individual, disse Jennifer Gommerman, imunologista da Universidade de Toronto. “Isso ajudará a focar a resposta, para que não se obtenha o mesmo tipo de heterogeneidade que se vê numa população infectada”, referiu.

Estes novos dados contrariam a preocupação causada nos últimos tempos pelos relatos de que a diminuição dos níveis de anticorpos pudesse fazer com que a imunidade desaparecesse ao fim de alguns meses, deixando assim as pessoas vulneráveis a uma reinfecção.

No entanto, muitos imunologistas frisam que é natural que os níveis de anticorpos caiam, pois são apenas uma pequena parte do sistema imunológico. E, embora sejam necessários para bloquear o vírus e prevenir uma segunda infecção – algo conhecido como imunidade esterilizante -, as células imunológicas que se “lembram” do vírus com mais frequência são responsáveis ​​pela prevenção de doenças graves.

“A esterilização da imunidade não acontece com muita frequência – essa não é a norma”, disse Alessandro Sette, imunologista do Instituto de Imunologia La Jolla.

O que acontece mais frequentemente nas re-infecções é o sistema imunológico reconhecer o invasor e extinguir rapidamente o vírus, até porque a covid-19 é particularmente lento a causar danos, dando assim ao sistema imunológico tempo suficiente para entrar em acção.

Para este estudo, Alessandro Sette e seus colegas recrutaram 185 homens e mulheres, com idades entre 19 e 81 anos, que se recuperaram da covid-19. A maioria apresentou sintomas leves, que não exigiram uma hospitalização. E a maior parte das pessoas envolvidas no estudo forneceu apenas uma amostra de sangue, enquanto 38 forneceram várias amostras ao longo de muitos meses.

A equipa acompanhou quatro componentes do sistema imunológico: anticorpos, células B que produzem mais anticorpos conforme necessário; e dois tipos de células T que matam outras células infectadas. A ideia era construir uma imagem da resposta imunológica ao longo do tempo, observando os seus constituintes. “Se se olhar apenas para um, podemos estar a perder o quadro completo”, disse Crotty.

O estudo é o primeiro a mapear a resposta imunológica a um vírus em detalhes tão granulares, dizem os especialistas.

Diário de Notícias
DN
18 Novembro 2020 — 09:54

 

[ratingwidget_toprated type=”posts” created_in=”all_time” direction=”ltr” max_items=”5″ min_votes=”1″ order=”DESC” order_by=”avgrate”]

 

356: Cientistas estão a tentar reverter a diabetes com edição de genes

CIÊNCIA/SAÚDE

8385 / Pixabay

Naquele que poderá ser um adeus às injecções de insulina, uma equipa de investigadores está a tentar reverter a diabetes através de uma nova técnica de edição de genoma baseada na CRISPR.

Na diabetes tipo 1, o pâncreas deixa completamente de produzir insulina por destruição completa das células que fabricam esta hormona. Por esta razão,  a única maneira de tratar este tipo de diabetes é administrando insulina.

Nos anos 90, testou-se um tratamento revolucionário para curar a doença. Os pacientes receberam transplantes de tecido que continha células produtoras de insulina. A ideia era que compensassem as células defeituosas dos pacientes com diabetes. O transplante funcionou, mas apenas temporariamente.

Embora que esta terapia não tenha tido o sucesso desejado, os cientistas não desistiram da ideia de tentar encontrar uma cura para a diabetes. É neste sentido que uma equipa de investigadores da Universidade de Washington em St. Louis acredita que a CRISPR pode ser a solução para reverter a doença.

O objectivo dos cientistas é corrigir as células estaminais dos pacientes diabéticos através desta tecnologia de edição de genoma. Com esta eventual alteração, as células passariam a produzir a insulina necessária. O estudo foi publicado, em Abril, na revista científica Science Translational Medicine.

Os autores do estudo explicam que a abordagem poderia eventualmente ser usada para tratar a diabetes tipo 1 e tipo 2. “Conseguimos reverter a diabetes em ratos com cerca de uma semana”, disse ao OneZero Jeffrey Millman, coautor do estudo.

Cientistas curaram a diabetes em ratos com células estaminais humanas

Recorrendo a células estaminais humanas, uma equipa de cientistas nos Estados Unidos conseguiu eliminar os efeitos da diabetes em ratos…

Os investigadores usaram células da pele de um paciente com a doença para gerar um tipo de célula estaminal que pode ser transformada em qualquer tipo de célula do corpo. Através do CRISPR, os cientistas corrigiram a mutação no gene que causa a doença. Depois, transformaram as células estaminais corrigidas em células beta pancreáticas e injectaram-nas em ratos. Apenas uma semana depois, os níveis de açúcar no sangue normalizaram e mantiveram-se estáveis nos seis meses que se seguiram.

A aplicação em humanos ainda não é garantida e, por enquanto, os especialistas estudam qual o melhor local do corpo para infundir as células beta corrigidas. Em testes clínicos anteriores, cientistas tentaram infundir as células debaixo da pele, mas os resultados não foram convincentes.

Além disso, os investigadores estimam que seriam necessárias mil milhões de células para tratar apenas um paciente. Este processo de recolha demoraria vários meses ou até mesmo um ano.

É improvável que as células estaminais editadas geneticamente pela CRISPR substituam a insulina tão cedo. No entanto, é de esperar que brevemente alguns testes em humanos comecem a ser feitos nesse sentido.

ZAP //

Por ZAP
11 Maio, 2020

 

311: Leituras de glicemia

Este post serve de ALERTA para todos os diabéticos do tipo 1, que utilizam o sistema de medição da glicemia por sensor/leitor dos laboratórios Abbott, sob a designação de FreeStyle Libre.

E porque este tipo de episódios já não é a primeira, nem a quinta vez que acontecem, transcrevo o e-mail que enviei ao médico dela (Endócrinas):

Boa tarde sr. Doutor

Serve o presente para informá-lo, uma vez mais, que o sistema de medição de glicemia da minha filha é uma autêntica máquina de ganhar dinheiro, apenas isso, porque quanto a fiabilidade e confiabilidade, é igual a ZERO!

Referencio esta situação que já aconteceu várias vezes anteriormente porque devem existir muitos diabéticos a utilizarem este sistema por ser prático mas só e apenas por isso.

Esta madrugada, cerca das 06:00 horas, fui medir a glicemia à Vera e o leitor deu LO, ou seja, pela indicação do laboratório ABBOTT, é uma medição (não medida) que se encontra abaixo de 40mg/dl. E a hipoglicemia verifica-se a valores iguais ou inferiores a 70mg/dl (APDP). E segundo informação desta APDP (Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal), saber tratar uma hipoglicemia é extremamente importante para evitar complicações graves que podem advir, como o coma hipoglicemico.

Ora, a medição efectuada hoje pelas 06:00 horas, não correspondeu à realidade dos valores, quando medidos directamente pelo sistema de bolha de sangue e palheta e mais grave ainda, por isso a minha referenciação, quando esses valores foram obtidos pelo mesmo leitor apenas com a diferença que o LO foi via sensor e 106 por palheta e feita medição imediatamente após a leitura por palheta, continuava a dar LO.

Ora, se LO está abaixo de 40 (até onde o leitor mede), a reacção imediata do cuidador é fornecer açúcar para que esse valor suba. Se afinal a Vera estava com 106, não era necessária essa medida, por isso acordou com 219, que depois baixou.

Ganham-se muitos milhões, neste país e em outros onde o sistema está implantado, à custa dos doentes e da sua saúde com certo perigo para a sua sobrevivência.

Um bom resto de Domingo

Fica então o ALERTA e nunca confiem, em absoluto, quando medições neste sistema situam-se com a situação LO. Façam de seguida uma medição com palheta, via bolha de sangue, se possível com as palhetas que são lidas pelo mesmo leitor do FreeStyle Libre e são gratuitas quando pedidas aos laboratórios Abbott.

Resposta do médico: Pois não é ainda um sistema preciso e nunca será, pois mede o açúcar na pele e não no sangue. É útil se prestar mais atenção à seta da tendência. Em termos globais mostrou ser aceitável mas não é comparável às glicemias.

Esclarecedor, hein? Quantos milhões estes laboratórios não ganham à pala deste produto?