908: Fez reacção à vacina? É bom sinal. O sistema imunitário está a criar anticorpos

SAÚDE/COVID-19/VACINAS/REACÇÃO

População mais jovem está a ter reacções mais intensas à vacinação. Especialistas dizem que é uma situação normal, tal como a de quem não tem qualquer reacção. Tanto uma manifestação como outra não indicam que algo está mal ou que o sistema imunitário não está a produzir anticorpos.

A faxia etária com mais casos de reações é a dos 30 aos 39 anos, segue-se a dos 40 aos 49.,
© Pedro Correia Global Imagens

Tem dores no local onde levou a vacina ou nas articulações? Tem cefaleias, fadiga, náuseas, tonturas, mal-estar e até diarreia? Tem a sensação de que está com gripe, calafrios ou febre? Não é razão para alarme. Este tipo de reacção está identificado na literatura como efeito adverso das vacinas que estão a ser administradas contra a covid-19 e são consideradas “reacções benignas”. Aliás, segundo explicaram ao DN, até são “um sinal positivo”, sublinha o pneumologista e director da Faculdade de Medicina de Coimbra, Carlos Robalo Cordeiro. “São sinal de que o sistema imunitário está a dar uma boa resposta vacinal”, especifica.

Mas se é jovem e não teve qualquer reacção ou se tem 50, 60 ou mais anos e também não registou qualquer sintoma. Não se preocupe. O facto de não ter uma reacção mais forte não é indicador de que algo não esteja bem com o sistema imunitário ou que não esteja a criar anticorpos à vacina.

“A maioria das pessoas não tem reacção às vacinas, não é só em relação à covid, mas também em relação à gripe, à pneumonia ou outras. Quando muito tem-se as tais reacções locais, dor no braço ou uma certa sensação febril, por isso é que se recomenda colocar gelo no local dorido ou tomar um medicamento para atenuar os sintomas”, refere Carlos Robalo Cordeiro, acrescentando que “é uma situação normal, não significando que não está a produzir anticorpos”.

As reacções adversas às vacinas contra a covid-19 voltam a estar em cima da mesa. Sobretudo porque chegou a hora de começar a vacinar as populações mais jovens, as quais estão, de alguma forma, a sentir mais o efeito da vacina. Há casos relatados logo na primeira dose, outros na segunda, mas o certo é que os sintomas referidos estão na literatura das vacinas que estão a ser usadas em Portugal – Pfizer, Moderna, AstraZeneca e Janssen.

O professor de Coimbra confirma: “Sabemos que algumas pessoas mais jovens estão mesmo a ir à cama com dores nas articulações, fadiga, cefaleias ou com a sensação de síndrome gripal, mas isto deve-se ao facto de serem jovens e de terem um sistema imunitário mais robusto”, mas, “como digo, é precisamente por serem uma população jovem e porque tem um sistema imunitário mais capaz e competente que desenvolvem uma resposta vacinal mais intensa.”

O médico e imunologista Luís Graça, que integra a Comissão Técnica de Vacinação para a Covid-19, da Direcção-Geral da Saúde, defende o mesmo, salientando que as suspeitas de reacções adversas graves às vacinas têm sido reportadas e analisadas de imediato”, o que quer dizer que “os sistemas de farmaco-vigilâncias estão a funcionar bem e que são seguros”, dando como exemplo a situação verificada há dias num dos centros de vacinação do concelho de Mafra, a qual foi avaliada de imediato e a administração da vacina em causa suspensa.

Para Luís Graça, “a população deve estar tranquila porque não há razões para alarme”. Até agora, refere o imunologista do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (iMM), “não há qualquer relação entre efeitos das vacinas e a resposta imunitária”, sustentando também que o facto de se estar a notar reacções mais fortes à vacina por parte dos mais jovens tem a ver com o terem “um sistema imunitário mais vigoroso”. No entanto, sublinha também, não quer dizer que que quem não tem sintomas não esteja a responder à vacina”.

De acordo com o último relatório do Infarmed, autoridade do medicamento, sobre reacções adversas aos medicamentos (RAM), de 2 de Julho, já foram reportadas 8.470 reacções adversas, de um total de 8.470.118 de doses administradas, sendo o número de casos de RAM por 1.000 vacinas de 1.

Do total de 8.470, o Infarmed revela que 3.290 foram graves e que o sintoma mais referido é a mialgia, depois as dores nas articulações, com 2.638 casos, as cefaleias, com 2.341, a dor no local da vacina com 2.203, a febre com 2.156, a fadiga com 948, as náuseas com 938, e ainda as tonturas, mal-estar, vómitos e diarreia. O mesmo documento revela ainda que a vacina sobre a qual há mais reacções é a da Pfizer, com 5.651 reacção notificadas, a da AstraZeneca com 2.133, a da Moderna com 556 e a Janssen, que, no caso de Portugal está apenas a ser administrada em mulheres com mais de 50 anos e nos homens a partir dos 18 anos.

As faixas etárias que mais reacções adversas, graves e não graves, reportaram são as dos 30 aos 39 anos, com 624 reacções graves e 1.155 não graves, e a dos 40 aos 49 anos, com 690 reacções graves e 118 não graves. A partir destas faixas, as reacções começam a diminuir, sendo apenas da ordem das dezenas e das poucas centenas entre os 60 e até mais dos 90 anos.

O relatório do Infarmed dá também conta de que, “na maioria dos casos, o desconforto causado pela dor ou febre é um sinal normal de que o sistema imunitário está a reagir e estas reacções resolvem-se em poucas horas ou dias, sem necessidade de intervenção médica, e não deixando sequelas. As situações não resolvidas ou agravadas nesse período ou de natureza clínica mais grave poderão requerer avaliação clínica”.

No entanto, tanto o Infarmed como os especialistas têm vindo a alertar para uma situação: se uma pessoa vacinada contra a covid-19 considerar que pode estar a desenvolver uma reacção alérgica grave, após a toma da vacina e passados cerca de 30 minutos, deve procurar atendimento médico.

Diário de Notícias
Ana Mafalda Inácio
24 Julho 2021 — 00:10

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905: Parkinson, Cancro e Diabetes Tipo 2 têm uma causa em comum

SAÚDE/CANCRO/DIABETES/PARKINSON

Torsten Wittmann / Universidade da California
As mitocôndrias geram energia nas células

O papel da proteína Parkin no processo da mitofagia pode ser a chave no tratamento do Parkinson, cancro e diabetes tipo 2.

Há um elemento em comum que causa cancro, Parkinson e diabetes tipo 2: uma enzima. Quando as células estão sob stress, aciona-se uma proteína chamada Parkin que protege a mitocôndria, a parte da célula que gera energia.

Um estudo publicado este ano na Science Advances descobriu uma ligação entre o sensor do stress das células e a Parkin que está também associada à diabetes tipo 2 e ao cancro, o que pode abrir um caminho para tratar estas doenças.

O papel da Parkin é facilitar o processo da mitofagia, ou seja, desobstruir as mitocôndrias que tenham sido danificadas pelo stress celular para que novas as possam substituir. Quando se sofre de Parkinson, a proteína não é capaz de concluir a mitofagia.

Apesar de já se saber há algum tempo que a Parkin detecta o stress das mitocôndrias, ninguém sabia exactamente como este processo começava. A Parkin dirigia-se para as mitocôndrias depois dos danos, mas não se sabia qual era o sinal que a proteína recebia depois de chegar lá.

“As nossas descobertas representam de longe o passo mais inicial na resposta da Parkin que alguém já conseguiu encontrar até agora. Todos os outros eventos bioquímicos acontecem numa hora, nós encontramos algo que acontece em cinco minutos“, explica Reuben Shaw, professor e director do Centro de Cancro do Instituto de Salk e autor do estudo, à Sci Tech Daily.

“Descodificar este passo importante na forma como as células descartam mitocôndrias danificadas tem implicações em várias doenças”, acrescenta o investigador.

O laboratório de Reuben Shaw, conhecido pelos trabalhos sobre metabolismo e cancro, descobriu há 10 anos uma enzima, AMPK, que é altamente sensível a vários tipos de stress celular e que controla a autofagia ao activar uma outra enzima chamada ULK1.

Depois dessa descoberta, Shaw juntou-se à estudante Portia Lombardo para procurar proteínas relacionadas com a autofagia e directamente activadas pela ULK1 e ficaram surpreendidos quando a Parkin surgiu no topo da lista. Os processos bioquímicos envolvem normalmente muitos participantes, no entanto, a mitofagia é iniciada apenas com três, a AMPK, a ULK1 e a Parkin.

O novo estudo começa agora a explicar este primeiro passo importante na activação da proteína, que começa com um sinal da AMPK até à ULK1 e que depois ordena a Parkin para ir verificar a mitocôndria depois dos primeiros danos e removê-la completamente.

A AMPK é activada por uma proteína LKB1 que está associada a vários tipos de cancro e também por um medicamento para a diabetes tipo 2 chamado metformina. Doentes diabéticos que tomam metformina também têm menos risco de desenvolver cancro e este medicamento está também a ser estudado como uma opção para tratar o envelhecimento neuro-degenerativo.

“A grande conclusão para mim é que o metabolismo e as mudanças na saúde das mitocôndrias são fundamentais no cancro, na diabetes e nas doenças neuro-degenerativas. Isto porque os mecanismos gerais que sustentam a saúde das nossas células estão muito mais integrados do que alguém poderia ter imaginado“, conclui Reuben Shaw.

AP, ZAP //

Por ZAP
23 Julho, 2021

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892: Detectado super anticorpo que pode combater variantes do SARS-CoV-2 e outros coronavírus

SAÚDE/COVID-19/ANTICORPO/CORONAVÍRUS

Equipa de especialistas da Fred Hutchinson Center, nos EUA, identificou um anticorpo que pode combater o vírus responsável pela covid-19 e as suas variantes, mas também outros tipos de coronavírus. Denominado S2H97, demonstrou ter capacidade para proteger contra a infecção por SARS-CoV-2.

© D.R.

“Uma molécula imune recém-identificada aumenta a esperança de uma vacina contra uma série de vírus relacionados com o SARS-CoV-2”, o responsável pela covid-19, lê-se na revista “Nature”, onde foi publicado um novo estudo que pode traduzir-se numa boa notícia no combate à pandemia.

Uma equipa de investigadores da Fred Hutchinson Cancer Research Center, nos EUA, identificou um anticorpo que pode combater não só o vírus que provoca a doença covid-19 e as suas variantes, mas também outros tipos de coronavírus.

O anticorpo em causa é designado por S2H97 e demonstrou ser mais potente na protecção contra a infecção por SARS-CoV-2.

A conclusão é de um estudo, publicado na revista especializada, que pode dar novas pistas e possibilidades no combate à pandemia, nomeadamente no que se refere ao desenvolvimento de vacinas e de tratamentos que podem ter uma área de actuação mais ampla.

O grupo de investigadores analisou 12 anticorpos presentes em pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2 ou por outros coronavírus, e entre eles o S2H97 sobressaiu. Este anticorpo conseguiu mostrar ser suficientemente potente para evitar que diferentes variantes do coronavírus se propagassem entre as células que estavam em desenvolvimento em laboratório. Também mostrou ser potente para proteger os hamsteres contra a infecção por SARS-CoV-2, como escreve o El Mundo.

Tyler Starr, bioquímico do centro de investigação Fred Hutchinson, localizado em Seattle, afirmou, citado pelo jornal espanhol, que o S2H97 é o melhor anticorpo que já descobriram.

Resultados do estudo abrem novas possibilidades para o desenvolvimento de vacinas e tratamentos

A análise de dados feita pelos cientistas teve como objectivo estudar a forma como as variantes do vírus afectam a união e ligação de anticorpos. No fundo, como as mutações conseguem escapar aos anticorpos. E os resultados deste trabalho de investigação podem abrir novas possibilidades no desenvolvimento de vacinas e de tratamentos contra estes vírus.

Os dados mostram “características que devem ser prioritárias para o desenvolvimento terapêutico contra a pandemia actual e possíveis pandemias futuras”, indica o estudo.

Arinjay Banerjee, um virologista da universidade Saskatchewan, no Canadá, fala em boas notícias, mas à revista Nature deixa uma pergunta no ar. “A grande questão que permanece é: e em relação aos vírus que ainda não conhecemos?”

Apesar de não se conseguir testar um anticorpo num vírus desconhecido, Banerjee considera que este tipo de descobertas pode ajudar a preparar o mundo para os próximos coronavírus que se transferem da vida selvagem para os seres humanos.

Diário de Notícias
DN
16 Julho 2021 — 09:37

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884: Doentes com sequelas da covid tratados com tele-monitorização em Lisboa

SAÚDE/COVID-19/SEQUELAS

Projecto Inovação e cuidados de proximidade juntaram Centro Hospitalar de Lisboa Central e Altice Portugal.

A Covid-19 pode deixar sequelas que vão desde a fadiga constante à taquicardia, como à ansiedade e depressão.
© Artur Machado Global Imagens

Foram infectados pelo SARS-CoV-2. Quiseram voltar à sua actividade normalidade e não conseguiram. As sequelas deixadas pelo vírus que invadiu o mundo no final de 2019 retirou-lhes autonomia, obrigando-os à reabilitação para voltarem à vida que tinham. Mas, agora, alguns destes doentes, acompanhados na consulta específica para este efeito no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central, que integra o Hospital de Santa Marta, já podem beneficiar de um tipo de cuidado diferente. Ou melhor, já podem ser tratados em casa, através de um projecto de tele-monitorização, graças a uma parceria entre o CHULC e Altice Portugal.

O objectivo é “proporcionar uma experiência diferenciadora na área da monitorização remota de doentes”, explicaram ao DN. Aliás, para a enfermeira de reabilitação, responsável pelos doentes neste projecto, logo à partida, “há uma vantagem que é a de associar a inovação aos cuidados de proximidade. A tele-monitorização permite-nos fazer a avaliação do doente e acompanhá-lo sem haver necessidade de o retirar do seu espaço nem de junto dos seus cuidadores informais”.

O projecto está a funcionar desde maio, mas só ontem foi apresentado oficialmente, no CHULC, e, como refere Neuza Reis, ao mesmo tempo que trabalha a confiança do doente em relação à sua saúde, do ponto de vista institucional também “diminui a carga de se ter mais uma pessoa dentro do hospital.

“A tele-monitorização tem a vantagem de associar a inovação aos cuidados de proximidade, permitindo acompanhar o doente sem o retirar do seu espaço nem de junto dos seus cuidadores.”

Neste momento, o projecto, coordenado pelo médico Miguel Toscano Rico, já está a acompanhar nove doentes, mas tudo indica que este número deverá aumentar no futuro. A selecção de quem o integra é feita pelo médico e pela enfermeira Neuza, e todos, à excepção de um, que é de Leiria, são da região da Grande Lisboa.

Mas o perfil que os caracteriza a todos, nem sequer é a região nem tão pouco a idade, embora a maioria tenha entre os 40, 50 e 60 anos, mas “mais os sintomas que apresentam, como fadiga constante, taquicardia e até um quadro de ansiedade ou de depressão”, refere a enfermeira. E só o facto de “o doente saber que há um médico e um enfermeiro que estão disponíveis diariamente para olhar para os seus dados e para os acompanhar faz que a sua confiança aumente e que acabe por ultrapassar os medos e os receios que a covid lhe trouxe”.

Segundo explicou ao DN, “o primeiro passo para este programa é a consulta presencial com o Dr. Miguel Toscano Rico e comigo, como enfermeira de reabilitação. Na consulta são avaliados todos os sinais e sintomas do doente, desde a avaliação das saturações de oxigénio, frequência cardíaca até aos sinais neurológicos e psicológicos”. Depois, o doente é informado do programa, dos seus objectivos e de como este pode deve ser executado, mediante a definição de um programa de tarefas e de objectivos.

“Explicamos ao doente como é acompanhado e o que tem de fazer em casa, desde a medicação ao programa de exercícios, treino respiratório e de marcha. Ou seja, é feito presencialmente todo um plano terapêutico, desde a medicação à avaliação de sinais, que terá de ser feita pelo próprio doente. E diariamente toda os dados recolhidos têm de nos ser reportados, ou através da plataforma ou por um telemóvel, que lhe é fornecido. A informação é avaliada por nós, vemos se há algum sinal que faça soar os alarmes, ou se o doente tem alguma queixa que não era expectável, e se for necessário entramos logo em contacto com o doente.”

Ao fim de dois meses, o projecto de tele-monitorização já está a dar resultados, “os doentes sentem confiança no acompanhamento que estão a ter e cumprem o programa estando todos a colaborar para a sua reabilitação e autonomia”.

Diário de Notícias
Ana Mafalda Inácio
15 Julho 2021 — 00:44

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876: Doentes com cancro e infectados com SARS CoV-2 produzem anticorpos contra o vírus

SAÚDE/COVID-19/CANCRO

Médicos do Hospital de Santa Maria e cientistas do Instituto de Medicina Molecular estudaram 72 pacientes internados com covid e descobriram que os doentes oncológicos também criam anticorpos contra o vírus, independentemente da gravidade da doença base. O estudo já foi publicado na revista The Oncologist.

A equipa: os médicos internos,Miguel Esperança Martins (à dir.) e Pedro Gaspar (à esq.),Catarina Mota e Marc Veldhoen (atrás), no Serviço de Medicina Interna, onde tudo começou.
© Gerardo Santos Global Imagens

O SARS-CoV-2 invadiu o mundo no final de 2019 a partir da província de Wuhan, na China. E a 11 de Março a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciava o que mais se temia: uma pandemia. Nessa altura, Portugal começava a registar os primeiros casos de infecção e os hospitais organizavam-se para abrir portas e tratar uma infecção sobre a qual muito pouco se sabia.

No Hospital de Santa Maria, em Lisboa, o Serviço de Medicina Interna, mais especificamente a enfermaria 2-A, organizou-se e preparou-se para receber só este tipo de doentes. Um ano depois, continua a fazê-lo, mas a equipa médica soube, assim que chegaram os primeiros casos, que além de os tratar haveria algo mais a fazer. “Era nossa obrigação contribuir com investigação clínica e dar o nosso contributo científico no âmbito da infecção SARS-CoV-2”, afirma Catarina Mota, a especialista em Medicina Interna que ajudou a montar o projecto levado a cabo por uma equipa de médicos do Hospital de Santa de Maria e de cientistas do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (iMM). Um trabalho que já deu resultados – foi publicado recentemente na revista científica The Oncologist – e que teve como missão avaliar a reacção de doentes oncológicos à infecção por SARS-CoV-2.

O objectivo era obter resultados que pudessem sustentar as decisões clínicas dos oncologistas. O que conseguiram, também graças à parceria com a ciência, a qual também só é possível por “a nossa instituição estar integrada no Centro Académico de Medicina de Lisboa, que estimula a formação clínica e a investigação. Portanto, quando começámos a ver estes doentes, a tratá-los e a acompanhá-los, sentimos que havia algo a fazer e numa colaboração mais estreita com a investigação científica, pois sabemos que é esta relação entre prática clínica e ciência que nos permitirá, no futuro, prestar melhores cuidados de saúde”, refere Catarina Mota.

A partir daqui, e talvez porque a especialidade de medicina interna tem como característica “uma grande abrangência de conhecimentos e uma visão mais global, multidisciplinar e integrada do doente”, como a define Catarina Mota, muito havia a fazer, quer no combate ao vírus, na forma de lidar com ele, quer no impacto que este estava a ter nos infectados, fossem eles doentes saudáveis, crónicos ou oncológicos.

O envolvimento dos internistas na abordagem e tratamento à infecção por SARS-CoV-2 era já grande deste ponto de vista e desde o início da pandemia, mas faltava o envolvimento científico para se saber mais. Foi então que surgiu este projecto, que, na verdade, partiu da iniciativa de um dos internos de oncologia médica, a fazer estágio no Serviço de Medicina Interna, Miguel Esperança Martins. Aliás, e como salienta a professora Catarina Mota, “este trabalho deve-se muito a todos os internos, quer de medicina interna quer de oncologia médica”, sublinhando também que, desde o início, o projecto teve o apoio do “director do serviço, António Paz Lacerda, e da coordenadora da unidade, Sandra Brás, que estimularam o empenhamento”. E foi então que começaram os contactos com a equipa de Marc Veldhoen, investigador principal do Laboratório de Regulação do Sistema Imunitário do iMM.

Do biobanco à descoberta

A proposta inicial apontou para a criação de um biobanco, com colheitas de amostras biológicas de doentes com SARS-CoV-2 internados na enfermaria 2-A, e numa altura em que “nem sequer tínhamos um projecto objectivo definido, mas sempre a pensar que futuramente iríamos poder beneficiar das amostras que fossem recolhidas para fazer uma série de estudos importantes que nos permitissem perceber melhor o comportamento da infecção”.

O passo seguinte foi o da intensa revisão da literatura sobre a infecção, o qual, sublinha mais uma vez Catarina Mota, “foi um trabalho para o qual contribuíram, e muito, os internos de medicina interna e de oncologia médica”, tendo sido nesta fase que se identificou haver um grupo de doentes sobre os quais havia muito poucos estudos e literatura que sustentasse a decisão médica: o grupo de doentes com neoplasias. O objectivo da investigação estava traçado.

Depois, foi desenhar o trabalho já em equipa com o iMM, abordar os doentes, para que dessem o seu consentimento, recolher amostras, analisá-las em laboratório e fazer o tratamento de dados. Um ano depois, o resultado está à vista: os doentes oncológicos conseguem produzir anticorpos e defender-se do vírus, independentemente da gravidade da sua doença base. Uma descoberta que todos esperam que já esteja a apoiar a prática clínica em relação a estes doentes, sobretudo quando há que tomar a decisão de iniciar, suspender ou manter as terapêuticas antineoplásicas.

“Foi um desafio enorme. Exigiu um investimento muito grande de tempo, físico, emocional e psicológico, no acompanhamento dos doentes, mas não nos demitimos da nossa obrigação de contribuir para a investigação científica e de tratar melhor os doentes.”

Para a médica internista, “foi um desafio enorme”. “Estávamos perante uma situação inédita, na altura ainda sabíamos menos do que agora do ponto de vista clínico e científico, e a exigência era a de que investigássemos em tempo real. Isto exigiu um investimento muito grande de tempo, físico, emocional e psicológico no tratamento e no acompanhamento destes doentes, mas não nos demitimos da nossa obrigação de dar também o nosso contributo à investigação científica e do nosso objectivo de tratar melhor os doentes.”

E, segundo explicam, esta parceria teve, desde logo, uma vantagem: a criação do biobanco com amostras de doentes com covid-19. “O biobanco existente no iMM tinha apenas amostras de 2013 a 2018 e a recolha de amostras de doentes infectados com SARS-CoV-2 acabou por ser uma das grandes vantagens da parceria entre hospital e iMM, porque estas poderão agora ser utilizadas na resposta a novas questões.”

Equipas de Santa Maria e do iMM estudaram 72 doentes, 19 dos quais com cancro. A maioria era do sexo feminino e com uma idade média de 58 anos.
© Gerardo Santos Global Imagens

Recolha de amostras foi feita desde a admissão até aos cuidados intensivos

É à volta de uma mesa no segundo piso do hospital, no gabinete da coordenadora da unidade para o internamento covid, que a nossa conversa com médicos e cientistas se desenrola. Afinal, foi ali que tudo começou, com a chegada dos doentes. Ao lado de Catarina Mota, os médicos internos de oncologia e de medicina interna Miguel Esperança Martins e Pedro Gaspar, e Marc Veldhoen, o investigador holandês radicado em Portugal, que assumiu a coordenação da investigação científica.

O primeiro, e talvez porque apanhou a pandemia em pleno estágio no Serviço de Medicina Interna, assumiu a coordenação clínica do estudo, desenvolvendo um papel importante no desenho das quatro questões para as quais se procuravam respostas. O segundo, teve igualmente um papel importante, mas na abordagem do doente e na recolha de amostras, já que estava, juntamente com Catarina Mota, na linha da frente no tratamento aos doentes. Mas para um e para outro, este trabalho foi uma experiência fundamental para quem vive a medicina, até porque esta, e nas palavras de Miguel Esperança Martins, “é uma ciência de vasos comunicantes com uma interligação cada vez mais definida entre os investigadores e os clínicos, que são também eles investigadores”.

Foi então que se passou à abordagem do doente, para obter o seu consentimento e à recolha de amostras, de acordo com os critérios de selecção também previamente definidos. “Começámos por seleccionar doentes positivos ao SARS-CoV-2, internados no serviço, mas com alguma heterogeneidade em termos de gravidade clínica”, explica Catarina Mota.

Ou seja, “doentes com sintomas ligeiros e com sintomas mais graves para fazermos a recolha de amostras em dois momentos diferentes, na altura da admissão e ao fim de sete dias, o que nos permitiu ter amostras biológicas de doentes numa fase ligeira da doença e já numa fase gravíssima, porque alguns evoluíram para cuidados intensivos”.

A busca de respostas para quatro questões

Em cima da mesa estavam quatro questões que surgiram pelo “interesse de se estudar mais profundamente a resposta imunológica dos doentes oncológicos ao longo do tempo”, explica Miguel Esperança Martins, primeiro autor do trabalho agora publicado. Em primeiro lugar, “tínhamos que perceber qual era a resposta imune, capacidade de produção de anticorpos, por parte dos doentes oncológicos infectados por SARS-CoV-2.

Em segundo, que correlações poderia haver entre esta resposta ou ausência dela e o tipo de neoplasia e estádio e o cumprimento das terapêuticas, como quimioterapia, radioterapia ou imunoterapia”, especifica o jovem médico, continuando: “A terceira questão passou por compreender se esta resposta serológica estava relacionada ou não com uma melhor ou pior evolução do doente do ponto de vista clínico”. E, por fim, “a quarta questão assentava na comparação directa entre os níveis de anticorpos dos doentes oncológicos e dos doentes não oncológicos. Havia que perceber se existiam diferenças ou não. E os resultados que obtivemos foram extraordinariamente interessantes”, remata o mesmo.

O estudo envolveu 72 doentes, todos infectados com SARS CoV-2, dos quais 19 eram doentes oncológicos. A colheita de amostras para o Biobanco começou logo a 15 de Março e estendeu-se até 17 de Junho.

Ao fim deste tempo, começou a análise em laboratório pela equipa de Marc Veldhoen de todo o material recolhido pela equipa médica. A conclusão chegou meses depois: “Uma proporção plenamente significativa de doentes oncológicos conseguiram criar uma resposta a nível de produção de anticorpos considerada adequada”, sublinha Miguel Esperança Silva.

“A criação de um biobanco foi uma das grandes vantagens desta parceria, já que o biobanco existente no iMM tinha apenas amostras de 2013 a 2018. A recolha de amostras a doentes com SARS-CoV-2 vai permitir dar resposta a novas questões.”

Ou seja, “cerca de 58% dos doentes oncológicos conseguiram criar anticorpos e defender-se do vírus, independentemente da sua doença oncológica, do tipo de neoplasia e do estádio de gravidade”. No estudo participaram doentes oncológicos com doença precoce, estádio 1 a 2, ou em fase avançada, estádio 3 e 4, e, no que diz respeito à produção de anticorpos, o que se verificou foi que a redução de anticorpos de um doente em fase precoce ou avançada da doença “não foi estatisticamente significativo”. Além disto, “todos os doentes, que foram tratados da mesma forma para o SARS-CoV-2, reagiram bem aos tratamentos”.

Miguel Esperança Martins explica que “o único factor que influenciou a produção de anticorpos foi o cumprimento da quimioterapia nos 14 dias antes da identificação da positividade à infecção”, mas “outro resultado importante em relação à positividade foi o de que, independentemente da capacidade de produção de anticorpos e dos níveis de anticorpos destes doentes, não existiram diferenças na sua evolução clínica, o que é um resultado muito interessante, mas que deve ser interpretada com cautela, atendendo ao facto de termos uma amostra relativamente pequena”.

Em relação aos doentes saudáveis infectados com SARS-CoV-2, que participaram no estudo, verificou-se que “os níveis de anticorpos produzidos por estes doentes eram superiores aos níveis produzidos pelos doentes oncológicos”.

Estas são as quatro conclusões principais deste estudo e à pergunta sobre as implicações que vai ter na prática clínica, Miguel Esperança Martins responde: “O nosso objectivo era dotar os clínicos e os oncologistas de mais uma ferramenta para tomarem decisões a iniciar, suspender ou manter terapêuticas antineoplásicas, especificamente a quimioterapia, em doentes infectados com SARS CoV-2, e a partir deste estudo já o podem fazer de forma sustentada”, diz, reforçando, no entanto, que o facto de “termos encontrado uma correlação entre a quimioterapia nos 14 dias previamente à documentação da positividade da infecção, não significa que desaconselhemos o início ou a manutenção da quimioterapia nestes doentes, pura e simplesmente estamos a adicionar algum corpo de conhecimento ou a sustentar melhor a decisão que os oncologistas têm de tomar neste contexto”.

A equipa de Marc Veldhoen, investigador principal do iMM, analisou as amostras recolhidas pelos médicos e chegou a resultados.
© Gerardo Santos Global Imagens

O doente oncológico é um doente muito frágil, com especificidades muito peculiares e que à fragilidade de base associa-se a da infecção por SARS CoV-2. Portanto, a decisão de iniciar ou de manter a quimioterapia, como a radioterapia ou a imunoterapia, é uma decisão individualizada e de doente para doente”, salienta.

Até este estudo, a decisão de iniciar, suspender ou de manter a quimioterapia era norteada pelo estado clínico do doente, pelos seus estados de fragilidade, pelo risco e benefício de iniciar ou de manter estas terapêuticas. Agora, já há um estudo em tempo real que pode sustentar essa decisão.

Da reacção dos doentes aos cientistas

Uma parte muito importante do estudo foi o envolvimento dos doentes – que estes médicos caracterizam por serem grupos muito homogéneos, quer o dos doentes oncológicos quer o dos não oncológicos, já que a maioria, cerca de 60%, é do sexo feminino e com uma idade média de 58 anos.

“Houve um espírito de colaboração e de altruísmo enorme. As pessoas estavam preocupadas com a sua evolução clínica, mas com um grande espírito de combate a esta pandemia. Por isso, sempre que solicitados para participarem em estudos clínicos e científicos mostraram-se muito disponíveis, o que foi fantástico de ver, até porque houve uma relação muito próxima com estes doentes permitindo que fosse fácil abordar a questão do estudo com eles “, sublinha Catarina Mota.

O médico Pedro Gaspar diz mesmo: “Não houve um único doente que se tivesse recusado a participar no estudo, alguns estavam cansados e não faziam muitas perguntas, mas pediam “façam-me tudo para ficar bom” ou “investiguem-nos para melhorarmos”. Na altura, não tínhamos muitas respostas e foi por isso mesmo que se avançou com o estudo, mas tudo lhes foi explicado.”

Este estudo já deu resultados. Neste momento, já há aprovação da comissão de ética do Centro Académico para expandir a investigação e estudar o efeito da vacinação em combinação com o cancro e o tipo de terapia do doente”.

Do lado dos cientistas, Marc Veldhoen recorda que foi logo em Março de 2020, com o primeiro confinamento e o fecho do iMM, que “começámos a trabalhar na resposta e a perceber a ajuda que, enquanto cientistas, poderíamos prestar ao país e aos nossos colegas, que estavam do outro lado do parque de estacionamento (o parque que separa os dois edifícios, o do Hospital de Santa Maria e o edifício da Faculdade de Medicina, onde se situa o iMM)”. “Enquanto que alguns dos meus colegas começaram a parte do diagnóstico molecular à covid-19, o meu grupo de imunologia, em conjunto com outros cientistas de institutos aqui na região de Lisboa, começou por implementar um protocolo para a realização de testes de serologia. Mas quando o Miguel Esperança Martins nos contactou para este projecto, tínhamos todas as ferramentas para analisar as amostras dos pacientes”, afirma, sublinhado que, no contexto da pandemia, era importante saber se os pacientes com certos tipos de cancro e em tratamento responderiam bem a esta infecção viral e se produziriam anticorpos. “Ao mesmo tempo, era também importante perceber em que condições de tratamento e em que tumores essa resposta era mais fraca”, frisa.

Para o investigador holandês, radicado em Portugal, o impacto dos resultados agora alcançados é o mote para os próximos passos. “Estarmos neste campus, onde temos um hospital universitário, uma faculdade de medicina e um instituto de investigação possibilita este tipo de estudos de forma muito orgânica, já que é raro encontrar-se a possibilidade de estabelecer estas sinergias, permitindo que a investigação mais clínica e a investigação mais fundamental trabalhem lado a lado”.

Este primeiro estudo já deu resultados, mas há há mais questões que estão a ser colocadas e que podem ter um impacto importantíssimo na forma como entendemos esta infecção e a podemos tratar. Neste momento, já exista “a aprovação da comissão de ética do Centro Académico para expandir o estudo e estudar o efeito da vacinação em combinação com o cancro e o tipo de terapia do doente”.

Diário de Notícias
Ana Mafalda Inácio
13 Julho 2021 — 00:30

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873: Portugal com mais oito mortes e 2.323 novos casos. Internamentos disparam

– Infelizmente, a imagem publicada na notícia abaixo, é muito enganadora. Ontem, saí à rua para fazer um exame que já se encontrava marcado há tempos e, desde meio da Avenida da Liberdade, até ao Rossio, cruzei-me com labregos acéfalos SEM MÁSCARA (nem pendurada ao pescoço nem nos braços), grande parte deles, camones que nos visitam e também jovens em grupos de 4 e 6 todos juntos. É simplesmente INACREDITÁVEL que, em plena Lisboa, centro da cidade, não exista UM ÚNICO AGENTE FISCALIZADOR das regras sanitárias em vigor para “desancar” esta merda de gente!

SAÚDE/COVID-19/INFECÇÕES/MORTES

Candid_Shots / Pixabay

Portugal registou, este domingo, 2.323 novos casos e oito mortes na sequência da infecção por covid-19, de acordo com o boletim epidemiológico da Direcção-Geral da Saúde (DGS).

Segundo o último boletim epidemiológico da Direcção-Geral da Saúde (DGS), foram registados, nas últimas 24 horas, mais 2.323 casos e oito mortes. Estes dados fazem com que este domingo seja o quinto dia consecutivo com o número de novas infecções acima dos três mil.

A região de Lisboa e Vale do Tejo é a que regista maior número de infecções, sendo responsável por 1.058 dos novos casos. Segue-se o Norte, com 693 infecções, o Algarve com 242, o Centro com 226, o Alentejo com 64, os Açores com 31 e a Madeira com nove.

Das oito mortes registadas nas últimas 24 horas, seis ocorreram na região de Lisboa e Vale do Tejo, uma no Algarve e uma no Alentejo.

Os internamentos registaram hoje uma grande subida. Há agora 672 pessoas internadas no país devido à covid-19 (mais 40 do que no sábado). Destas, 153 estão em Unidades de Cuidados Intensivos (mais nove do que ontem).

Em relação ao número de internamentos, é o pior dia desde 25 de Março. Segundo o Observador, não havia tantos doentes internados em UCI desde 26 de Março.

Na chamada matriz de risco, a nível nacional, Portugal está com uma incidência a 14 dias de 272,0 casos por 100 mil habitantes e um índice de transmissibilidade R(t) de 1,18.

No continente, a incidência está agora nos 280,5 casos de infecção e o índice de transmissibilidade R(t) é de 1,19.

Este sábado, os restaurantes em concelhos de risco elevado ou muito elevado começaram a exigir certificado digital ou teste negativo à covid-19 para refeições no interior dos estabelecimentos.

No mesmo dia, em Miranda do Douro, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa manifestou a convicção de que “cá [em Portugal], como na Europa, a parte mais longa e aparentemente mais pesada do processo pandémico já passou”.

Em relação à subida do número de casos positivos, Marcelo considerou que “tem havido até agora um fenómeno” que “inevitavelmente vai continuar, porque com mais testagem há de haver mais casos positivos, se se testar menos há menos probabilidade de haver casos positivos, e é bom que se teste mais”.

Por Liliana Malainho
11 Julho, 2021

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