“Na situação actual não se justifica a renovação do estado de emergência”

 

 

SAÚDE/COVID-19/CONFINAMENTO

Portugal é o país da União Europeia com menor incidência da doença. A situação é confortável e não justifica novo estado de emergência com restrições, diz o especialista Carlos Antunes, da Faculdade de Ciências. Peritos e políticos voltam a reunir na terça-feira no Infarmed para decidir o futuro.

Portugal está a desconfinar, e bem. Mas é preciso manter regras de proteção individual.

E ao fim do 15.º estado de emergência o país pode respirar de alívio. Portugal tem agora uma incidência da doença de 72,1 casos por 100 mil habitantes e um R(t) de 0.98. Números que levam o professor do departamento de Geografia da Faculdade de Ciências (FC) da Universidade de Lisboa, Carlos Antunes, a afirmar que “nas circunstâncias epidemiológicas actuais não se justifica a renovação do estado de emergência com restrições”.

O professor da Universidade de Lisboa, que desde o início da pandemia integra a equipa da FC que faz a modelação da evolução da covid-19 no país, diz que Portugal vive uma situação confortável. Aliás, é a primeira vez, desde Setembro do ano passado, que os especialistas que habitualmente reúnem de duas em duas semanas, às terças-feiras, no Infarmed, com o Presidente da República, governo e políticos, não têm de reportar um retrato “preocupante” para sustentar a decisão que se aproxima.

Carlos Antunes acredita mesmo que, na próxima semana, Marcelo Rebelo de Sousa não terá de enviar à Assembleia da República um novo decreto-lei para o 16.º estado de emergência, “a não ser que do ponto de vista legal seja necessário manter um mecanismo, neste caso o de estado de emergência, mas sem restrições, para que se possa actuar no momento nas situações pontuais que surgirem”. É que, salienta, “ainda não estamos livres do vírus e o que vemos à nossa volta é preocupante”. Até agora, o facto de as fronteiras estarem fechadas tem ajudado à contenção na entrada de novos casos e até de novas variantes, portanto, “há que manter algumas precauções”, mas, “não se pode dizer que sejam necessárias restrições como as que tivemos em vigor até à Páscoa.”

O especialista em projecções admite que a situação existente no país está abaixo do que era previsível há duas semanas, em que ele próprio e muitos outros especialistas recomendavam o adiamento, por uma semana, para se tomar a decisão de avançar ou não com a fase seguinte do desconfinamento. “Com os dados de hoje, vemos que este adiamento não se justificava, mas era uma medida de precaução”.

O impacto da última fase do desconfinamento, que ocorreu no dia 19, com a abertura de restaurantes, centros comerciais e actividades desportivas, ainda não é possível de traçar com rigor, mas as projecções para as próximas semanas são animadoras. “De acordo com as minhas estimativas, que são semelhantes às do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA), com excepção da região Norte, todas as outras regiões do país vão manter um índice de transmissibilidade abaixo de 1, o que quer dizer que a incidência nestas regiões está a descer, ligeiramente, incluindo no Algarve, que já resolveu o problema de há uma semana e que está agora com uma taxa de incidência de 95 casos por 100 mil habitantes e com o R(t) abaixo de 1. Portanto, as projecções para as próximas semanas indicam que a incidência no país se irá manter em níveis baixos, estabilizada”.

A única referência a destacar é mesmo a região Norte que está com o R(t) acima de 1 desde o dia 27 Março, há praticamente um mês, o que fez com a taxa de incidência subisse de um valor mínimo de 47 casos por 100 mil habitantes para os actuais 91, quase duplicando. E, olhando para os concelhos desta região, há alguns para os quais Carlos Antunes chama a atenção. “Há um concelho que sobressai na nossa avaliação, porque não foi considerado na lista dos concelhos com restrições e deveria. É o concelho de Resende, que, apesar de ter uma população reduzida, tem uma incidência que subiu abruptamente e já está acima dos 600 casos por 100 mil habitantes Desconfio que possam existir outros concelhos semelhantes a este e, por isso, as autoridades locais devem estar atentas”.

Norte exige vigilância mas não é nada assustador

Contudo, o professor da Faculdade de Ciências tranquiliza, porque, embora “a região Norte esteja com um R(t) de 1.07, e isto ser uma preocupação porque faz com que a incidência continue a aumentar, o que se prevê é que, mesmo que evolua, não será para uma situação assustadora ou muito preocupante”. Explicando: “Mesmo que a incidência chegue aos 120 por 100 mil habitantes, tal como aconteceu recentemente no Algarve, não é motivo para grande preocupação. Só o é para as autoridades de saúde locais, que, obviamente, têm de manter a vigilância, reforçar o rastreio epidemiológico e a testagem, mas penso que já o estão a fazer, porque o R(t) atingiu o ponto máximo no dia 9 de Abril, mas a partir daí começou a diminuir de uma forma muito lenta, mas a diminuir”.

No geral, Carlos Antunes diz que o país reagiu bem à abertura. “Conseguimos manter uma incidência baixa”, mas aqui “há a salientar que as restrições na Páscoa tiveram um efeito positivo“. “Apesar de ter havido muitas pessoas que saíram até antes dessa semana para fora, não houve grande transtorno e isso fez com que o índice de transmissibilidade interrompesse a tendência que vinha a verificar-se. Em vez de continuar a subir, estabilizou”. Um efeito que se prolongou para além desse período e que tem feito com que a incidência se mantenha baixa. É verdade, sublinha, que “o facto de as fronteiras estarem encerradas e de a população estar mais consciente das medidas de protecção – pelo menos é esta a minha percepção – também estão a ajudar a manter a incidência da doença baixa”. Carlos Antunes reforça que, tirando aqueles primeiros dias em que as pessoas saíram eufóricas para as esplanadas, as regras de protecção têm sido cumpridas.

Testagem e vacinação já estão a dar resultados efectivos

Segundo o professor da Faculdade de Ciências há duas razões principais para os resultados obtidos: “O reforço do rastreio epidemiológico com o progressivo aumento da testagem e o processo de vacinação, que está a avançar”. O especialista argumenta que, tal como a sua equipa o defendeu em Fevereiro, quando se começava a falar em desconfinamento, esta é a estratégia a manter. “É uma estratégia que está a surtir efeito”. Se nos mantivermos assim, “estamos no caminho certo para o controlo da doença”, afirma. “Desde Março que se se tem vindo a registar um aumento progressivo da testagem. No início não aconteceu logo rapidamente, mas agora é visível o seu efeito, porque ao detectar de forma precoce potenciais cadeias de transmissão, está a reduzir a possibilidade de a doença evoluir”, afirma, acrescentando: “A vacinação já está a ter efeitos no grupo etário dos mais de 80 anos. Era o grupo que tinha maior incidência de casos por 100 mil habitantes e de há um tempo para cá, deixou de o ser. Passou do maior grupo com incidência para o menor e continua a diminuir”. Em termos de letalidade, “também há uma descida consistente e contínua nos óbitos neste grupo de mais de 80”.

Carlos Antunes reforça mesmo a importância de se manter estes dois factores a funcionarem em pleno: “Se o R(t) se mantiver acima de 1 a incidência aumenta, é uma preocupação, mas se o ritmo da vacinação continuar a aumentar isso dá-nos maior tranquilidade e garantias de que a situação é controlável”. O que o faz defender, mais uma vez, que, “na terça-feira, no Infarmed se possam definir novas estratégias de abordagem de avaliação de risco mais permissivas que permitam avançar com a continuidade do desconfinamento”, embora “mantendo-se sempre a vigilância dos indicadores epidemiológicos e dos indicadores hospitalares”.

Preocupação quanto ao resto da Europa e do Mundo

Este é um alerta que reitera, porque continua a haver preocupação com o que se passa à nossa volta, em Espanha (com quem Portugal ainda tem fronteiras encerradas), Itália, Alemanha, para não falar do Brasil e da Índia, onde continuam a surgir novas variantes. Neste último, a nova variante está a atirar para os hospitais milhares de pessoas, deixando-os agora na linha vermelha, sem camas e sem oxigénio para tratar todos os que necessitam de cuidados. “A variante da Índia é uma preocupação, a do Brasil, de Manaus, também, porque parece que está a registar uma outra mutação. O fecho das fronteiras permite maior controlo neste sentido, por isso há que continuar com algumas precauções com o que se passa à nossa volta”.

Aumento significativo de casos dos 13 aos 17 anos

Em Portugal, um mês depois do início do desconfinamento, a 16 de Março, o medo do ressurgimento de uma nova onda, ou de uma quarta vaga, parece ter sido suprimido. “A possibilidade de ressurgimento não se está a manifestar. Os indicadores que observamos são apenas de aumento de risco de contágio nos grupos mais novos, dos dez aos 29 anos. São grupos com uma taxa de variação diária, e com um aumento significativo na faixa dos 13 aos 17 anos”. Uma situação que o especialista diz ter a ver com a abertura das escolas, pois “do dia 16 Março ao dia 22, registámos um ressurgimento de casos nos grupos dos zero aos 5 anos e dos 6 aos 12 anos. Nesta última faixa etária, houve um reforço do contágio depois da Páscoa, o que se verificou também nos grupos dos 13 aos 17 e dos 18 aos 24”. Aliás, sublinha, “olhando para as faixas etárias de dez em dez anos, vimos que a faixa dos dez aos 19 anos é a que mais cresce, depois é a dos 20 aos 29”.

No entanto, de acordo com a monitorização do INSA, a faixa etária com maior incidência é a da população dos 30 aos 35 anos. De qualquer forma, há que salientar que a incidência cresce nestes grupos, mas o risco de internamento ou de morte são extremamente baixos. “Mesmo com o aumento nestas faixas etárias não estamos numa fase de transmissão comunitária tirando, obviamente, alguns concelhos, que tiveram de ficar a marcar passo ou que tiveram de regredir, mas, até estes, já estão a conseguir controlar a situação”.

Desfiles de 25 de Abril e 1 de Maio são possíveis

Neste momento, estamos ao nível do início de Setembro do ano passado, ligeiramente acima do que foi Agosto, quando os casos começaram a aumentar no dia 16, mas nessa altura não tínhamos o nível de testagem que temos agora e nem a consciencialização da adesão ao uso de máscara que há agora. Por isso, quando colocamos a questão se os desfiles do 25 de Abril ou do 1 de Maio são uma preocupação, Carlos Antunes defende que não. Acredita que as organizações destes eventos estão em contacto com a Direcção-Geral da Saúde para que tudo decorra dentro das regras e, ainda por cima, “são ajuntamentos ao ar livre em que a probabilidade de contágio é muito inferior relativamente aos espaços fechados”. As pessoas devem desfilar com distanciamento e com máscara e não vejo motivos para preocupação”, sublinha.

Quanto ao verão, também é de opinião que deveremos manter o optimismo de que será bom, mas sempre com cautelas. Aliás, “o nosso optimismo deve ser à medida do ritmo da vacinação”.

Diário de Notícias

Ana Mafalda Inácio
25 Abril 2021 — 00:00

 

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“Governo deve ponderar adiamento da próxima fase de desconfinamento”

 

 

SAÚDE/DESCONFINAMENTO/GOVERNO

O R(t) continua a subir. Não é o valor que é preocupante, mas o ritmo da evolução. Se não se tomarem medidas, a tendência é para piorar. E os dados actuais “ainda não refletem reabertura das esplanadas”, alerta Carlos Antunes. Governo e especialistas reúnem-se esta terça-feira no Infarmed.

Dados que vão ser apresentados hoje no Infarmed ainda não refletem o impacto da segunda fase de desconfinamento.

O R(t) – valor de transmissibilidade da covid-19 – continua a aumentar a um ritmo “significativo e preocupante”, defende ao DN Carlos Antunes, professor da Faculdade de Ciências (FCL) da Universidade de Lisboa. “Não é o valor em si que é preocupante, mas o ritmo da sua evolução”, explicou, sustentando que “o R(t) está a subir desde meados de Fevereiro e sempre ao mesmo ritmo, uma centésima por dia, e nós estamos a potenciar ainda mais essa subida com o desconfinamento. Portanto, quem vai ter de decidir nos próximos dias, já deveria estar preocupado, embora não estejamos com 3 mil ou 6 mil casos, nem com 500 camas cheias nas unidades de cuidados intensivos”, argumenta o professor do Departamento de Engenharia Geográfica, Geofísica e Energia da FCL, que desde o início da pandemia integra uma equipa que tem vindo a fazer a modelação da evolução da doença.

“As cautelas têm de ser tomadas agora e quem decide tem de pensar no que vai fazer, porque no dia 19, data para a terceira fase de desconfinamento, o R(t) já deve estar em 1.18”. Ou seja, se não forem tomadas medidas a tempo, num “ápice a multiplicação de casos que agora, de acordo com o nosso método, está a 21 dias passará para os 14 dias. E isto, sim, é preocupante”. Até porque não se perspectiva uma retracção na mobilidade da sociedade, e “a tendência é para piorar”.

O alerta é deixado aos políticos e aos especialistas que hoje voltam a reunir-se no Infarmed para analisar a evolução da doença no país, tendo por base os dados da Direcção-Geral da Saúde (DGS) e do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA).

De acordo com o boletim diário da DGS desta segunda-feira, nas últimas 24 horas tinham sido registados 271 casos, dois óbitos e 25 mil casos activos. Há um mês, precisamente no dia 13 Março, dois dias antes de se iniciar o desconfinamento, havia 564 casos, 19 mortos e 40 788 casos activos. A maior diferença nos dados está nos internamentos. Ontem, havia 479 pessoas internadas, 119 das quais em cuidados intensivos e a 13 de Março o número total era de 980 internamentos, 253 em intensivos. Quanto à incidência da doença, estava em cerca de 60 casos por 100 mil habitantes e o R(t) abaixo de 1. Agora, está em 70,0 por 100 mil e o R(t) em 1,04.

Segundo refere ao DN Carlos Antunes, é a evolução da doença a este ritmo que deve fazer soar os alarmes. “O R(t) está a subir diariamente. O valor reportado ontem pela DGS já está desactualizado, é de 5 de Abril, portanto de há sete dias, já que a análise do INSA tem um atraso. Nesta segunda-feira já deve estar em 1,11, mas este valor só deve ser reportado pelo INSA no próximo relatório, no dia 17. Ou seja, e mais uma vez, quando chegarmos à próxima segunda-feira, dia 19, e se for tomada a decisão de se manter o calendário de desconfinamento, que prevê a reabertura dos ensinos secundário e universitário e dos restaurantes já teremos um R(t) muito superior (1.18)”.

E isto porque “o R(t) não irá parar de subir. Isso só acontecerá se houver uma alteração da matriz dos contactos e da nossa mobilidade, mas o que se observa agora é precisamente o aumento dessa mobilidade”.

Na opinião do especialista, a reabertura de todas as actividades previstas a 19 vai potenciar ainda mais o aumento do R(t), porque haverá aumento da mobilidade. Argumentando: “Quando digo que evolui a um ritmo preocupante é precisamente porque não há perspectivas de que possa começar a desacelerar. O valor de 1.04 ainda não é preocupante, só o é para quem tem de tomar decisões e tem de pensar para daqui a uma ou duas semanas. Quem tem de decidir tem de pensar como quer que a situação evolua: se no sentido de desanuviar ou no sentido de aumentar a pressão.”

Dados ainda não espelham impacto das esplanadas

Para Carlos Antunes, neste momento devem ser ponderados três cenários por quem tem o poder de decidir. “Se se suspende a terceira fase do desconfinamento por uma ou duas semanas, se se abre todas as actividades ou não e até se se deve regredir nalgumas áreas que abriram.” O professor adianta não saber o que vai ser decidido, nem que visão será levada pelos especialistas à reunião de hoje do Infarmed, mas de uma coisa tem a certeza: “Os dados que hoje vão ser apresentados anda não espelham o impacto da segunda fase do desconfinamento, o impacto da abertura das escolas dos 2.º e 3.º ciclos e das esplanadas. Este só vamos ficar a saber nesta semana e só serão confirmados pelos indicadores na próxima semana.”

Neste momento, os indicadores ainda nos dizem que estamos numa posição confortável e, por isso, pode haver hesitação em tomar medidas, mas isso só vai fazer que os contactos e os contágios aumentem.

Questionado pelo DN se poderemos voltar a ter uma vaga com a intensidade de Janeiro, Carlos Antunes diz que não: “Uma nova vaga sim, mas não com a intensidade do último pico da doença, só se houvesse uma inércia política para tomar decisões, mas acredito que serão tomadas.”

Terão de ser, porque, justifica, “foi referido que a multiplicação de casos pode acontecer daqui a dois meses, mas os dados que recebi nesta segunda-feira do INSA revelam que este valor já está desactualizado. Os valores a que tive acesso indicam, e seguindo o método de cálculo do próprio INSA, que a multiplicação já está a acontecer a 40 dias, porque de acordo com o nosso método de cálculo a multiplicação já está a acontecer a 21 dias, na próxima semana já pode estar a 14 dias. Se agora temos um valor médio de 600 casos dia, daqui a três semanas poderemos estar nos 1200, o que ultrapassa os 120 casos por 100 mil habitantes. E isto é preocupante”.

O país tem linhas vermelhas e estas não podem ser ultrapassadas. “Acredito que haverá uma acção mais precoce e que se calhar o desconfinamento tem de ser feito mais a conta-gotas – os ingleses estão a desconfinar de cinco em cinco semanas, nós em duas -, mas a evolução do vírus não é compatível com a definição de um calendário feito um mês e meio antes.”

anamafaldainacio@dn.pt

Diário de Notícias
Ana Mafalda Inácio
12 Abril 2021 — 23:14

 

 

 

657: Desconfinamento já se faz sentir nos internamentos. R(t) já está acima de 1

 

 

SAÚDE/COVID-19/DESCONFINAMENTO

(CC0/PD) Tobias Zils / unsplash

O número de casos está a aumentar e este efeito já se começa a sentir nos internamentos. Esta foi a segunda semana consecutiva com aumento de casos, com uma média de 495 novos casos diários.

De acordo com o jornal digital Observador, na última sexta-feira, a média referente aos novos casos reportados ao longo dos sete dias anteriores era de 452 novos casos de infecção. Verificaram-se ao longo dos últimos sete dias, em média, mais 43 casos diários de infecção, o que significa mais 301 casos durante essa semana.

O chamado R(t), índice médio de transmissibilidade do vírus, está agora a 1,02 em solo continental e em 1,02 na totalidade do país. O primeiro-ministro António Costa tinha apontado o valor de 1 para o R(t) como um limite que, caso fosse ultrapassado, poderia colocar em causa o ritmo de desconfinamento nacional.

Segundo o jornal Público, as previsões dão conta de que vão aumentar os internados com a doença em Unidades de Cuidados Intensivos (UCI), bem como nos outros serviços, nos próximos dias.

“Os dados já apontam para algum aumento de internamentos, mas mesmo assim, não está a capturar as alterações dos últimos dias. A situação tenderá a piorar”, alertou Alexandre Lourenço, presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH).

O responsável disse esperar que o cenário mais positivo apresentado na mais recente previsão “não deverá ser cumprido”, uma vez que os números reflectidos já foram atingidos esta quinta-feira, mas o modelo matemático usado nas projecções tem de ser “respeitado”.

Segundo o modelo, o país deve necessitar de ter entre 484 (cenário mais positivo) e 520 (cenário negativo) camas para receber doentes internados com ​covid-19 na próxima semana. Destas, entre 107 e 112 serão para internamentos em UCI.

“Com o aumento do R(t), o número de casos vai aumentar. As medidas de contra balanço a este aumento esperado com o desconfinamento devem ser assimétricas, de acordo com a evolução regional. Os municípios com taxas mais elevadas têm de ter medidas mais duras, nomeadamente de restrição do processo de desconfinamento”, defendeu Alexandre Lourenço.

A previsão de mais internamentos faz com que volte a crescer também o número de profissionais necessários para lidar com a doença. Na próxima semana, deverão ser necessários entre 144 e 153 médicos, 982 e 1050 enfermeiros e entre 399 e 433 técnicos auxiliares de saúde. Já o número de profissionais de saúde público deverá situar-se entre os 477 e 535.

Desconfinamento está a levar o R(t) para perto do limite definido por Costa

Desde o início do desconfinamento, o R(t) aumentou de 0,84 para 0,93 a nível nacional. António Costa tinha definido que…

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Duas escolas fecham em Faro

Um surto de covid-19 em duas escolas básicas do concelho de Faro obrigou esta sexta-feira ao encerramento dos estabelecimentos, que têm no total 300 alunos.

A escola foi hoje fechada. Ontem [quinta-feira] ainda houve aulas, mas as turmas onde foram identificados casos positivos não tiveram aulas e depois, ao fim da tarde, o delegado de saúde decidiu fechar as escolas”, contou João Geraldes, presidente da associação de pais de um dos estabelecimentos, à Lusa.

Segundo fonte da Administração Regional de Saúde (ARS) do Algarve, “os inquéritos epidemiológicos estão em curso, mas tudo indica que a disseminação do vírus terá ocorrido em festas familiares e sociais, de aniversário, bem como na prática desportiva” num clube local.

Em declarações à Lusa, a mesma fonte referiu que existem “vários agregados familiares com todos os elementos positivos” e que “muitos dos casos positivos contactados, incluindo as crianças, estão sintomáticos”, embora com sintomas ligeiros, o que levou a que as primeiras pessoas diagnosticadas tivessem tido a iniciativa de fazer auto testes.

Os estabelecimentos em causa são a Escola Básica do 1.º Ciclo e Jardim de Infância do Montenegro e a Escola Básica do 1º. Ciclo do Montenegro, segundo a autoridade local de saúde “uma pequena escola com duas salas” do mesmo agrupamento.

A mesma fonte adiantou que está em curso um “processo de testagem massiva”, pelo facto de se tratarem “de vários casos, distribuídos por quase todas as salas dessas escolas, e com a perspectiva de aumento”.

Segundo o presidente da Associação de Pais da Escola Básica do 1.º Ciclo e Jardim de Infância do Montenegro, o número de infectados aponta para “cerca de 20 pessoas” pelo facto de algumas crianças terem infectado os pais e irmãos.

O contágio não terá sido na escola, estas coisas acontecem quase sempre fora da escola”, frisou João Geraldes, notando que a origem do surto “terá sido numa festa de aniversário onde estiveram meia dúzia de crianças, quase todas das mesmas turmas” e que têm também actividades num clube local.

O presidente da Câmara de Faro, Rogério Bacalhau, considerou que, até agora, não há motivo para “grande preocupação”, mas manifestou-se apreensivo com o efeito que o surto poderá vir a ter nos próximos dias.

Por Maria Campos
10 Abril, 2021

 

 

 

651: Escolas, esplanadas, comércio. Saiba tudo o que muda nesta 2.ª feira

 

 

SAÚDE/DESCONFINAMENTO

Desde esta segunda-feira (5), o país entra numa nova etapa do desconfinamento, com destaque para o regresso das aulas do 2.º e 3.º ciclos, abertura de esplanadas e algum comércio mediante regras.

Esta segunda-feira Portugal entra numa nova fase de desconfinamento, que se vai prolongar até ao dia 15 de Abril, com destaque para a abertura das escolas com ensino presencial para o 2.º e 3.º ciclos, que se juntam aos alunos do 1.º ciclo e às crianças em creches e pré-escolar, que já tinham regressado à escola a 15 de Março. Mas a partir da meia-noite desta segunda-feira abrem também os estabelecimentos de restauração e similares para serviço em esplanadas, com um limite de quatro pessoas por grupo.

Em relação à livre circulação entre concelhos no continente português só será possível após as 0.00 horas de terça-feira. A proibição de circulação entre os 278 municípios do continente foi já aplicada por várias vezes no âmbito do combate à pandemia de covid-19. A medida está actualmente em vigor, neste período de Páscoa, desde a sexta-feira passada e até às 23:59 de segunda-feira.

O que muda esta segunda-feira

– Levantamento da suspensão das actividades lectivas dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, em regime presencial, nos estabelecimentos de ensino públicos, particulares e cooperativos e do sector social e solidário;

– Levantamento da suspensão das actividades, em regime presencial, de apoio à família e de enriquecimento curricular, bem como actividades prestadas em centros de actividades de tempos livres e centros de estudo e similares, para os alunos que retomam as actividades lectivas nos termos da alínea anterior;

– Levantamento da suspensão das actividades de equipamentos sociais na área da deficiência, designadamente nos centros de actividades e capacitação para a inclusão;

– Levantamento da suspensão das actividades de apoio social desenvolvidas em centros de dia, sem prejuízo do disposto no n.º 2 do artigo 9.º do Decreto-Lei n.º 10-A/2020, de 13 de Março, na sua redacção actual;

– Levantamento da suspensão de actividades dos estabelecimentos de comércio a retalho e de prestação de serviços em estabelecimentos abertos ao público que disponham de uma área de venda ou prestação de serviços inferior a 200 metros quadrados que tenham entrada autónoma e independente pelo exterior;

– Permissão do funcionamento dos ginásios e academias, desde que sem aulas de grupo;

– Abertura de museus, monumentos, palácios e sítios arqueológicos ou similares, nacionais, regionais e municipais, públicos ou privados, bem como galerias de arte e salas de exposições;

– Abertura de estabelecimentos de restauração e similares para serviço em esplanadas abertas, com um limite de quatro pessoas por grupo. Os estabelecimentos de restauração e similares podem funcionar até às 22.30 nos dias úteis. Mas aos sábados, domingos e feriados têm de encerrar às 13.00;

– Permissão do funcionamento de feiras e mercados, para além de produtos alimentares, mediante autorização do presidente da câmara municipal territorialmente competente, de acordo com as regras fixadas;

– Permissão de actividade física e desportiva de baixo risco, nos termos das orientações específicas da Direcção-Geral da Saúde (DGS).

O decreto-lei que regulamenta a renovação do estado de emergência até 15 de Abril foi publicado no sábado à noite em Diário da República e entra em vigor às 00:00 horas desta segunda-feira.

O 14.º estado de emergência foi decretado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a 25 de Março, após a autorização do parlamento, com votos a favor de PS, PSD, CDS-PP e PAN e a abstenção do BE.

“Apesar da avaliação epidemiológica identificar 19 municípios em que a incidência é superior a 120 casos por 100 mil habitantes, a estratégia de levantamento de medidas de confinamento ocorrerá em todo o território continental, incrementando o acompanhamento das medidas de saúde pública naqueles municípios”, refere o texto.

Na apresentação do plano deste novo confinamento, António Costa salientou a necessidade de “assegurar que os casos que existem são identificados e isolados, e as cadeias de transmissão isoladas para que daqui a 15 dias não estejam nesta situação e possam avançar com o resto do País”. «Para já, neste momento, o avanço será igual em todos os concelhos do País, acrescentou o primeiro-ministro.

O que está previsto a partir de 19 Abril

– Ensino secundário
– Ensino superior
– Cinemas, teatros, auditórios, salas de espectáculos
– Lojas de cidadão com atendimento presencial por marcação todas as lojas e centros comerciais, restaurantes, cafés e pastelarias (máximo 4 pessoas ou 6, por mesa, em esplanadas) até às 22.00 ou 13.00 ao fim-de-semana e feriados
– Modalidades desportivas de médio risco
– Actividade física ao ar livre até 6 pessoas e ginásios sem aulas de grupo
– Eventos exteriores com diminuição de lotação
– Casamentos e baptizados com 25% de lotação

O que está previsto a partir de 3 Maio

– Restaurantes, cafés e pastelarias (máximo 6 pessoas ou 10, por mesa, em esplanadas) sem limite de horários
– Todas as modalidades desportivas
– Actividade física ao ar livre e ginásios
– Grandes eventos exteriores e eventos interiores com diminuição de lotação
– Casamentos e baptizados com 50% de lotação

Diário de Notícias
Nuno Fernandes
04 Abril 2021 — 20:09

 

 

 

615: Pressão sobre Cuidados Intensivos só permite desconfinamento em Abril

 

 

SAÚDE/COVID-19/DESCONFINAMENTO

Técnicos preveem que o número de internados nos cuidados intensivos só chegará a 200 no final de Março. Este é o nível que o PR exige para dar como terminado o confinamento geral.

A ministra da Saúde, Marta Temido, na reunião desta tarde no Infarmed
© José Sena Goulão/Lusa

Os internamentos em cuidados intensivos só vão descer para o nível exigido pelo Presidente da República para se acabar com o confinamento geral – 200 – no final de Março.

A certeza foi esta tarde avançada, em mais uma (a 16ª) reunião do Infarmed, por um responsável do Instituto Ricardo Jorge.

Baltazar Nunes afirmou que o número de doentes actualmente internados nos Cuidados Intensivos (627) é ainda “muito elevado“. Em meio de Março conta-se que esteja nos 320 e só no final de Março deverá estar em 200, acrescentou – mas não sem, pelo meio, salientou que esta evolução é uma previsão que só se cumprirá se se mantiver o cumprimento das actuais medidas de confinamento.

Em 11 de Fevereiro, a propósito de mais uma renovação do estado de emergência, o Presidente da República apontou como metas até à Páscoa [4 de Abril], que será no início de Abril, reduzir o número de novos casos diários de infecção “para menos de dois mil”, de modo a que “os internamentos e os cuidados intensivos desçam dos mais de cinco mil e mais de oitocentos agora para perto de um quarto desses valores”.

Numa declaração a partir do Palácio de Belém, em Lisboa, Marcelo Rebelo de Sousa pediu que se procure uma estabilização “duradoura, sustentada, sem altos e baixos”, colocando a propagação do vírus em “números europeus”.

“Temos de manter o estado de emergência e o confinamento, como os actuais, por mais quinze dias, e, apontar para prosseguir Março fora no mesmo caminho, para não dar sinais errados para a Páscoa”, defendeu Marcelo Rebelo de Sousa.

Baltazar Nunes disse ainda que o Índice de Transmissibilidade (“R”) do vírus Sars-Cov-2 actual, 0,67, é o valor mais baixo desde o início da pandemia, disse na reunião do Infarmed Baltazar Nunes, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. Actualmente, prosseguiu, Portugal tem o valor do R “mais baixo da Europa”. Em todas as regiões esse valor é abaixo de 1.

Segundo acrescentou, deu-se no valor do R “uma descida muito acentuada” desde meados de Janeiro, estando agora o valor estabilizado em torno de 0,66-0,68.

O mesmo técnico afirmou também que afirma que o covid é responsável por 64% do excesso de mortalidade que actualmente se verifica. Depois, 19% desse excesso de mortalidade é atribuível ao frio e em 7% “não se conseguiu localizar nenhum factor”.

Em números absolutos, haverá cerca de 8900 mortos em excesso atribuíveis à pandemia e 2200 devido a temperaturas extremas.

Na mesma reunião, um outro especialista do Instituto Ricardo Jorge, João Paulo Gomes, avisou que a incidência da variante britânica do covid-19 terá tendência a “crescer exponencialmente” quando o país voltar a desconfinar.

Segundo afirmou, de 1 de Dezembro até hoje a variante britânica já terá infectado em Portugal cerca de 150 mil pessoas. Do número total actual de infectados (80 642) cerca de metade (48%) será com esta variante do Sars-Cov-2.

O médico salientou contudo que essa variante cresce actualmente muito menos do que no princípio – justificando isso com as medidas de confinamento. No princípio de Dezembro, antes do confinamento, o número de infectados com a variante britânica duplicava todas as semanas. Actualmente já só cresce a valores entre 4% e 10%.

Já o vice-almirante Gouveia e Melo, coordenador da task force da vacinação, afirmou na mesma reunião que a imunidade de grupo pode chegar no início de Agosto.

Segundo disse, “desde o dia 19 de Fevereiro, a redução no primeiro trimestre continuou a confirmar-se apesar de ser menor”. “No entanto, isso continua a fazer com que a primeira fase [de vacinação] ultrapasse o primeiro trimestre”, disse, destacando, ainda assim, que há uma “expectativa mais positiva” em relação ao segundo, terceiro e quatro trimestres do ano.

“Se estas expectativas se mantiverem e se materializarem no futuro próximo, o período em que se poderá atingir os 70% de imunidade de grupo pode eventualmente reduzir-se e passar para meados do Verão, à volta de Agosto ou inícios de Agosto”, afirmou.

O vice-almirante salientou porém que “isto são expectativas que ainda têm de se confirmar”.

Afirmou, por outro lado, que o aumento da vacinação previsível no segundo trimestre exige “modelos alternativos” aos centros de saúde como locais exclusivos onde a vacina pode ser ministrada, “para que o processo decorra sem problemas na administração de vacina”.

Implicitamente, o militar volta assim a sugerir que o processo deixe de ser um exclusivo do SNS, alargando-se, nomeadamente, às farmácias – e essa opinião parece ter o apoio do Presidente da República.

Segundo afirmou, 4,5% da população já recebeu uma dose da vacina e 2,7% as duas doses. Esta semana, acrescentou, 230 mil pessoas foram vacinadas. No segundo trimestre (Abril, Maio e Junho), com as vacinas a chegarem em maior dose a Portugal, o objectivo é vacinar 100 mil pessoas por dia.

Diário de Notícias
João Pedro Henriques
22 Fevereiro 2021 — 17:58