399: Sociedade Cega

 

🇵🇹 OPINIÃO

Vivemos, no Ocidente, na sociedade da cegueira, uma sociedade em que o cidadão é bombardeado incessantemente com desinformação, em que pouco do que parece é, em que a verdade tem dificuldade em vir à superfície.

Uma sociedade em que os factos são teatralizados, interpretados, muitas vezes fabricados para destruir um adversário. Uma sociedade em que se provoca o adversário até o limite para depois o culpar de reagir.

Uma sociedade em que um manto negro de propaganda, notícias falsas e o uso incessante das técnicas de desinformação, e dos estratagemas de Schopenhauer descritos no seu famoso livro A Arte de ter Sempre Razão, cria um fumo tão espesso que não nos deixa ver o que está em frente dos nossos olhos.

Numa tal sociedade a duplicidade de critérios, a amoralidade, medra e cresce. O genocídio de milhares de palestinos passa por “direito a defender-se” e o direito à resistência dos palestinos que se vêm atacados, espoliados e expulsos das suas terras e casas é apresentado como “terrorismo”.

Num tal mundo em que a regra é sempre “se os Estados Unidos apoiam está certo e se estão contra está errado”, perdem-se os valores humanos.

É penoso abrir a televisão e ver académicos e militares justificar o genocídio de um povo, a destruição sistemática e generalizada dos seus bairros, mesmo os mais precários, a invasão de hospitais e a matança de crianças internadas nos cuidados intensivos como “legitima defesa”. São estas pessoas desprovidas de sentimentos, falhas de humanidade, carentes de valores humanos que nos dizem como pensar, como sentir.

É com estes arautos do genocídio que se formam os nossos jovens, que crescem as nossas crianças, que se anulam e reencaminham o sentir moral do e a verticalidade do nosso povo.

Não admira que cresçam nesta sociedade ocidental as organizações de extrema-direita, as estruturas racistas, a violência policial, a perseguição política, a proibição de quem não pense como as autoridades pretendem.

Em Portugal várias associações foram “visitadas” pela Polícia, os seus responsáveis incomodados, só porque defendem um cessar-fogo na Palestina. Vejam bem por defender o fim da morte diária de centenas de crianças.

Na mesma semana, num bairro da Amadora, a Polícia obrigou as pessoas que saiam de uma Igreja a ficar encostadas à parede durante horas, revistando-as, batendo-lhes, insultando-as. No fim libertaram-nas sem explicações. Os vídeos desta selvajaria estão nas redes sociais.

Nada disto surge nos horários nobres, nem nos outros menos nobres. E no entanto se fosse na Rússia seriam motivo de abertura de telejornais. Se fosse na China seriam um escândalo mundial de negação dos Direitos Humanos. Por cá apenas o normal, a vida de todos os dias.

Defender o cessar-fogo, a Paz, eis um crime de primeira grandeza nesta sociedade da cegueira. Bem poderíamos dizer “onde é que isto chegou”. Cinquenta (50) anos depois do 25 de Abril é nisto em que se transformou a liberdade sonhada.

DN
Jorge Fonseca de Almeida
04 Dezembro 2023 — 17:22

– O golpe militar do 25’Abr’74 foi uma utopia para o povo. O fascismo nunca saiu de cá; a Liberdade de Expressão e de Opinião não existe nos seus valores máximos; a Constituição não passa de uma mera retórica da pseudo democracia em que vivemos. Os fascistas e os nazis prosperam com os seus partidos legalizados, racistas, xenófobos, expandindo-se e ameaçando o que resta da Democracia e da Liberdade. Voltámos ao Período das Trevas.


Ex-Combatente da Guerra do Ultramar, Web-designer, Investigator,
Astronomer and Digital Content Creator, desinfluenciador



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113: Mas as crianças, Senhor?

 

🇵🇹 OPINIÃO

Quero hoje recordar alguns versos do triste e sentido poema Balada da Neve de Augusto Gil, escrito na primeira década do século XX mas que, mais de um século volvido, continua actual.

Mas as crianças, Senhor,

Porque lhes dais tanta dor?!

Porque padecem assim?!

Hoje as crianças padecem e morrem em Gaza sob uma chuva ininterrupta de bombas lançadas por Israel. Muitas destas crianças morrem atingidas pelo fósforo branco usado em algumas bombas, uma substância que queima perfurando, corroendo a carne e os órgãos, causando um sofrimento atroz.

Peter Singer, o grande filósofo australiano, professor na Universidade de Princeton nos Estados Unidos, especializado em Ética defende, com razão, que se virmos uma criança a morrer afogada numa fonte e não entrarmos na água para a resgatar com medo de estragar os sapatos ou molhar as calças cometemos um ato desumano e maldoso. Na verdade, segue o argumento, cometemos um crime porque é nossa obrigação moral salvar a criança mesmo que para isso tenhamos que sacrificar o nosso bem-estar.

Sabemos por várias organizações internacionais, incluindo as Nações Unidas pela voz do seu secretário-geral António Guterres, e por múltiplas Organizações Não-governamentais (ONG), incluindo a insuspeita ONG inglesa Save the Children, que mais de 3.000 crianças foram mortas em Gaza nas primeiras três semanas da invasão israelita, um número superior a todas as crianças mortas em todos os conflitos do mundo desde 2019. Se isto não é um genocídio, o que é um genocídio?

Sabemos, pois, que milhares de crianças estão a ser mortas por uma potência militar de primeira grandeza, possuidora de armas nucleares, mas susceptível de ser forçada pelos seus aliados, nomeadamente os seus aliados da NATO e pelos Estados Unidos, a parar a mortandade de crianças e a aceitar um cessar-fogo.

De acordo com o argumento ético de Peter Singer não o fazer é um crime. É tornarmo-nos cúmplices destas mortes de crianças inocentes, desta matança descontrolada dos seres mais frágeis, mais desprotegidos, dos que mais devemos amar e cuidar.

É preciso agir. Exigir um cessar-fogo. Parar a matança dos inocentes que só tem paralelo no mito, relatado na Bíblia sagrada, do Rei que para matar Jesus Cristo acabado de vir ao mundo com o que seria uma mensagem de esperança, mensagem abraçada mais tarde por grande parte da Humanidade, mandou matar todos os recém-nascidos do seu reino.

É preciso agir mesmo estragando os sapatos ou molhando as calças. Mesmo que isso nos custe a amizade de Israel, mesmo que isso nos cause algum desconforto.

Como o fez António Guterres. Portugal tem de levantar a voz, tem de pressionar Israel. É preciso deixar bem claro que o direito de defesa não inclui o direito de praticar uma matança de crianças nem de bombardear populações civis de forma massiva, logo descontrolada.

É preciso um cessar-fogo imediato.

Termino com os versos finais do poema inicial.

E uma infinita tristeza,

uma funda turbação

entra em mim, fica em mim presa.

Cai neve na Natureza

– e cai no meu coração.

DN
Jorge Fonseca de Almeida
13 Novembro 2023 — 11:05


Ex-Combatente da Guerra do Ultramar, Web-designer,
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