324: Do regresso de Confúcio ao leninismo confucionista (III)

 

– “… a dupla retórica de Xi de “governar pela virtude” e “governar a nação de acordo com a lei

E essa retórica inclui ditadura, repressão? E qual lei? A de Xi? Que confução…

🇵🇹 OPINIÃO

Vimos nos artigos anteriores sobre este tema, como o Partido Comunista Chinês (PCC), depois de uma fase de combate ao confucionismo, o reabilitou para ajudar a manter a estabilidade social, oferecendo um quadro moral e ético alinhado com o discurso do PCC de incutir um comportamento ético entre os cidadãos e aumentando a sua legitimação política, apresentando-se como guardião e intérprete dos valores tradicionais chineses. Durante várias lideranças, a fusão do confucionismo com o marxismo-leninismo parecia ir decorrer de forma incondicional.

Sob a liderança de Xi Jinping (que se tornou o primeiro presidente da R. P. da China a visitar, em 2013, um templo confucionista em Qufu, cidade natal de Confúcio), não só esta reabilitação se mantém, como o confucionismo e o legalismo se tornaram particularmente importantes para suportar a dupla retórica de Xi de “governar pela virtude” e “governar a nação de acordo com a lei“.

Em 2017, para dar expressão concreta às ideias de Xi, o Escritório-Geral sob o Comité Central do PCC e o Conselho de Estado emitiram conjuntamente “Sugestões sobre a implementação de projectos para promover e desenvolver a excelência cultural tradicional chinesa”, que anunciaram iniciativas governamentais para promover a cultura chinesa e o confucionismo.

Todavia, a reabilitação do confucionismo é condicional a que esteja subordinado aos interesses do PCC. Um batalhão de “confucionistas socialistas” estudam a adequação e harmonização do confucionismo aos princípios marxistas-leninistas, de acordo com as directrizes do partido.

O objectivo deste “estudo” do confucionismo é legitimar a autoridade do PCC e, assim, procurar modificar o confucionismo “sob as posições, princípios e metodologias do marxismo, do leninismo e do pensamento de Mao Tsé-tung”.

Alguns dos mais proeminentes “confucionistas socialistas” argumentam que o confucionismo é complementar à ideologia marxista e pode ser útil na prevenção da “liberalização ocidental” e na promoção “do patriotismo do povo chinês”.

Em suma, sob Xi, o confucionismo serve para reforçar a sinicização do marxismo-leninismo, mas subordinado ao reforço da legitimação do partido. Por outro lado, e numa linha simétrica, é mantida a “economia socialista de mercado com características chinesas”, mas com subordinação de tudo e todos ao PCC, num reforço da vertente leninista do regime.

A reabilitação do confucionismo é condicional a que esteja subordinado aos interesses do PCC.

A liderança do PCC continua a sentir necessidade de, sem perder as raízes marxistas-leninistas, acentuar a vertente chinesa. E é este confucionismo adequado e funcionalizado que lhe faz a ligação profunda à wenming (civilização cultural) chinesa.

Esta alquimia, marcada pela tensão entre o conservador e o revolucionário, o passado e o “futuro”, e pela “fusão de ideologias” entre uma versão chinesa do marxismo-leninismo com os ensinamentos tradicionais confucionistas, levou o sinólogo americano Lucian Pye a definir, em 1992, a R. P. da China como um “Estado leninista confucionista“.

Expressão que fez escola, cuja correcção foi questionada durante alguns períodos da política de “reforma e abertura” (Gǎigé kāifàng) da economia e da sociedade chinesa, mas que nunca foi mais correta que na caracterização do período da liderança de Xi Jinping, entronizado como “imperador-sábio” leninista-confucionista, combinando um governo de um homem só com a moralidade da antiguidade chinesa, visando a “prosperidade comum“.

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DN
Jorge Costa Oliveira
29 Novembro 2023 — 00:25


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129: Do regresso de Confúcio ao leninismo confucionista (I)

 

🇵🇹 OPINIÃO

Ao longo dos séculos e dinastias, o confucionismo – tornado ideologia burocrática para servir os interesses do Império do Meio – reinventou-se constantemente, acomodando-se às orientações filosóficas e políticas dominantes da época (p. ex., durante a Dinastia Song integrou elementos das filosofias budista e taoista que então varriam a China).

Confúcio.
© D.R.

Com a implantação da República, em 1912, o confucionismo perdeu adesão – afinal de contas fora a soberba dos confucionistas de resistência à modernização e de considerar o moderno conhecimento [ocidental] como estranho e frívolo que levaram ao atraso e humilhação da China perante potências estrangeiras no século XIX – tendo sido ridicularizado e insultado durante o “Movimento por uma Nova Cultura“.

Quando os nacionalistas do Kuomintang passaram a governar o país em 1927, o confucionismo recuperou parte do seu estatuto perdido. Com a criação da R. P. da China, em 1949, o confucionismo tornou-se anátema. Nem sempre fora essa a posição do Partido Comunista Chinês (PCC).

No seu discurso na Sexta Sessão Plenária do Sexto Comité Central do PCC em 1938 – que estabeleceu a preeminência incontestável de Mao Tsé-tung – Mao afirmou que os membros do PCC deviam estudar a “herança histórica” da China e “preservar o precioso legado de Confúcio a Sun Yat-sen” para adaptar o marxismo e o leninismo às condições específicas da China.

Mao Tsé-tung em 1935.
© D.R.

Todavia, após 1949, o PCC considerava o sistema de crenças confucionista burguês e reaccionário; Confúcio e Mêncio “representavam proprietários de escravos e aristocratas”, pelo que eram considerados “inimigos do povo”. A Revolução Cultural (1966-1976), com a exortação de Mao para “Esmagar as Quatro [Coisas] Velhas” – “velhas ideias”, “velha cultura”, “velhos costumes”, “velhos hábitos” – combateu ferozmente o confucionismo, tendo levado à destruição de centenas de templos e à queima de textos confucionistas, tendo Os Analectos sido banidos.

“SCATTER THE OLD WORLD, BUILD A WORLD”, 1967
© D.R.

Na década de 1980, ainda era tão difamado que o historiador Yu Ying-shih dizia que o confucionismo se tornara uma “alma errante” desprovida de um “corpo” institucional.

Com a política de liberalização e abertura ao exterior promovida por Deng Xiaoping, a China passou por uma transformação social que gradualmente conduziu a um florescimento de ideias que bebeu muito da influência das sociedades ocidentais, tendo colocado o PCC sob grande pressão para mudanças, incluindo no que respeita à melhoria do sistema legal e à reforma política.

Com a liderança do PCC a manter a “luta firme contra a liberalização burguesa”, a insatisfação de vários sectores da sociedade chinesa, a começar por estudantes universitários, face à resistência à mudança conduziu, em 1989, a sucessivas manifestações e à ocupação da Praça de Tiananmen, em Pequim, onde os jovens erigiram uma estátua da “Deusa da Democracia”.

Após 1949, o PCC considerava o sistema de crenças confucionista burguês e reaccionário; Confúcio e Mêncio “representavam proprietários de escravos e aristocratas”, pelo que eram considerados “inimigos do povo”.

Após o massacre de Tiananmen e subsequente repressão, o PCC e vários think tanks chineses procuraram desesperadamente aquela mistura de filosofia e história que pudesse instilar um sentimento nacionalista e insular as massas chinesas, em especial os jovens, dos valores ocidentais (democracia, liberdades civis) que influenciaram os de Tiananmen e que entr[av]am diariamente pela China adentro através de VPN que permitem ultrapassar a Grande Firewall. É dessa reflexão que resulta o regresso de Confúcio, pela mão do PCC…

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Jorge Costa Oliveira
15 Novembro 2023 — 01:05


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65: A (ir)responsabilidade ambiental da Rússia e a Rota do Árctico

 

🇵🇹 OPINIÃO

De acordo com a um artigo publicado na edição de 14 de Dezembro de 2021 da revista Science, o Árctico está a aquecer quatro vezes mais depressa do que o resto do mundo.

Vários estudos científicos, incluindo um publicado a 11 de Agosto de 2022 na revista Comunications Earth & Environment, e outros mencionados num artigo publicado na edição de 12 de Agosto de 2022 da revista Scientific American confirmam a mesma conclusão.

Aparentemente, este aquecimento acelerado do Árctico, com maior incidência acima do Círculo Árctico, deve-se, essencialmente, a processos físicos, de entre os quais cumpre salientar o degelo de grandes áreas até agora cobertas de gelo, incluindo o permafrost, que cobre c. 65% do território russo.

Durante muito tempo, o presidente Putin foi um dos principais cépticos da relevância dos seres humanos nas mudanças climáticas do mundo, tendo também chegado a sugerir que o aquecimento global podia criar novas oportunidades económicas para a Rússia. Todavia, em 2019, a liderança russa assumiu o combate ao aquecimento global, embora em termos muito limitados.

Mas a legislação proposta foi subvertida pelos lobbies económicos, consagrando disposições fracas em matéria de comunicação das emissões e de sanções para os poluidores, além da eliminação de um regime nacional de comércio de licenças de emissão; e com a chico-espertice de ter usado 1990 como referência – quando [a então URSS] emitiu quase 2,4 mil milhões de toneladas de carbono – pelo que a Rússia pode aumentar as suas emissões na próxima década e ainda cumprir a sua meta de redução de 30%…

Se os desastres ambientais decorrentes de alterações climáticas, máxime pelo desaparecimento do permafrost – danos significativos a povoamentos humanos e às principais infraestruturas energéticas e de transporte, libertação de gases com efeito de estufa armazenados há muito tempo (como o metano), incêndios florestais, poluição local – alimentarem protestos populares e aumentarem as tensões entre os governadores regionais e Moscovo, talvez essa posição seja revista.

Mas a ganância económica relativa ao acesso a terra libertada pelo degelo do permafrost – seja para produção cerealífera, seja para exploração de minérios para produção de metais preciosos ou críticos – vai provavelmente continuar a conduzir a política ambiental russa.

Além disso, uma significativa redução global da procura de petróleo e gás natural (que funcionasse como um catalisador para mudanças de políticas ambientais na Rússia) é improvável nas próximas 2 – 3 décadas.

Por último, a navegabilidade do Oceano Árctico resultante do seu degelo acelerado permitirá que grandes navios cargueiros utilizem essa Rota do Árctico, que pode reduzir o tempo de viagem entre o Extremo Oriente e a Europa em 40%, em comparação com a rota pelo Canal de Suez.

Um navio porta-contentores da China pode levar cerca de 34-40 dias para chegar a Roterdão, o principal porto europeu. Em contraste, a Rota do Árctico pode demorar em torno de 23 dias para o mesmo destino. As autoridades russas acreditam que a rota pode ser viável em 2035.

Em bom rigor, a Rota do Árctico será viável tanto mais cedo quanto mais depressa ocorrer o degelo do Oceano Árctico. E a navegabilidade do Árctico tornará a Rússia incontornável no comércio marítimo internacional durante décadas.

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Jorge Costa Oliveira
08 Novembro 2023 — 00:55


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“Apoio inabalável” a Israel e erosão de soft power

 

🇵🇹 OPINIÃO

Apesar de Biden ter feito declarações equilibradas em defesa da solução de dois Estados para a Palestina, ofereceu a Israel um “apoio inabalável”. O lobby judaico nos EUA é forte. Mas este “apoio inabalável” vai ter um preço político interno.

Os jovens liberais estado-unidenses, muitos dos quais votaram nele, têm sido especialmente vocais no apoio aos palestinos e, sobretudo, exigem que o seu presidente pressione o Governo Israelita a pôr fim aos sucessivos bombardeamentos aéreos de Gaza.

E a população americana islâmica não deve ser negligenciada, crescendo rapidamente, devendo ultrapassar a judaica dentro de 2-3 décadas. Mas é no plano externo que este “apoio inabalável” terá mais consequências.

Depois de uma reacção inicial de simpatia e solidariedade em muitos países pela bárbara incursão do grupo terrorista Hamas no sul de Israel, a reacção israelita de bombardeamento indiscriminado da cidade de Gaza, com a morte de milhares de civis, provocou uma reacção internacional de condenação das autoridades israelitas.

É hoje manifesto que os ultranacionalistas radicais que comandam o Governo Israelita tentam explorar a incursão do Hamas para “limpar” a Faixa de Gaza e, de caminho, sujeitar ainda mais a Autoridade Palestiniana na Cisjordânia.

Os jovens liberais estado-unidenses, muitos dos quais votaram nele, têm sido especialmente vocais no apoio aos palestinos e, sobretudo, exigem que o seu presidente pressione o Governo Israelita a pôr fim aos sucessivos bombardeamentos aéreos de Gaza.

Durante a presidência Trump, os EUA sofreram uma forte erosão do seu soft power. A visão tacanha de Trump no que tange ao relacionamento com os países aliados dos EUA, a retirada de acordos globais como o Acordo Climático de Paris e a falta de apoio à OMS num momento decisivo do combate à epidemia covid-19, são algumas das razões mais evidentes para essa rápida erosão. Além disso, como bem sublinhou J. Nye,

“Trump foi o primeiro presidente que não colocou grande ênfase nos valores. Quando a América enfatizou os valores, tornou a nação mais atraente para a sociedade [internacional], daí o [seu] soft power ser incomparável.” Com o Presidente Biden, a imagem da América no mundo melhorou bastante.

Reiterou o multilateralismo, assumiu os valores da democracia e da liberdade como pilares da posição dos EUA no mundo, reforçou a cooperação internacional, em especial com o Ocidente+.

E a atractividade da cultura e da sociedade civil americana tem mantido o seu soft power elevado. Mas, como J. Nye também escreveu, “políticas internas ou externas que pareçam hipócritas, arrogantes, indiferentes às opiniões dos outros ou baseadas numa concepção estreita de interesse nacional podem minar o soft power.”

Como sucedera após a invasão do Iraque em 2003. Biden parece ter percebido que corre o risco de suceder o mesmo se Israel ultrapassar linhas vermelhas, mais exactamente linhas vermelhas para grande parte da comunidade internacional. Mas, no momento da verdade, os EUA avançaram com o hard power de duas esquadras navais e executaram o “apoio inabalável” a Israel.

A super-potência americana – que alimentara a ilusão de que o pós-URSS conduziria ao “fim da História” e consequente eterna Pax Americana global – parece não perceber que a sua capacidade de atracção e persuasão positivas para atingir os objectivos de política externa se vai erodindo com este “apoio inabalável”.

A UE – que dispõe de excelente soft power e fraco hard power – deve perceber isto e dissociar-se, assumindo uma posição de defesa intransigente do Direito Internacional.

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DN
Jorge Costa Oliveira
01 Novembro 2023 — 00:19


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