168: Portugal participa em projectos para descobrir vida em Marte

Aos 38 anos, Zita Martins é considerada uma das maiores especialistas do mundo na astrobiologia. Depois de 15 anos fora do país, acaba de regressar às origens, trazendo para o Instituto Superior Técnico e para Portugal a participação em todos os projectos pioneiros internacionais em que está envolvida

© José Carlos Carvalho Portugal participa em projectos para descobrir vida em Marte

Portugal acaba de entrar em dois projectos da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), destinados a testar materiais que permitam detectar a existência de vida em Marte em futuras missões espaciais automáticas ou tripuladas ao planeta vermelho. A participação portuguesa deve-se à astrobióloga Zita Martins, que foi recentemente contratada pelo Instituto Superior Técnico (IST), depois de uma carreira de 15 anos de investigação, ensino e divulgação da ciência fora do país.

Considerada uma das maiores especialistas do mundo na astrobiologia – uma área científica emergente que estuda a origem da vida na Terra e os sinais de vida nos planetas e luas do Sistema Solar e nos planetas extras-solares – Zita Martins saiu do Imperial College de Londres e trouxe para Portugal todos os projectos de investigação internacionais em que participa, incluindo as duas missões da Agência Espacial Europeia (ESA) na ISS.

Chamam-se OREOcube e EXOcube, “e, como os nomes indicam, são dois cubos que vão ser transportados para a estação espacial, onde poderão ser colocadas várias amostras de diversas moléculas orgânicas que têm um papel diferente na célula, a unidade básica da vida”, explica Zita Martins ao Expresso. “Depois vão ser expostas à radiação cósmica e nalguns casos serão protegidas com certos minerais que existem em Marte e noutros vamos observar se são destruídas rapidamente ou não.”

O lançamento do OREOcube está previsto para 2019 e o do EXOcube mais tarde. As experiências são “um passo intermédio antes de haver uma nova missão espacial para Marte”, automática ou tripulada, porque essa missão terá de conhecer “os locais onde há um potencial maior para existir vida extraterrestre”. Portanto “os cientistas querem saber se um determinado mineral é melhor para proteger as assinaturas da vida em Marte, e a ISS é óptima para o conseguirem”, sublinha a astrobióloga portuguesa. Por outro lado, com as futuras viagens de naves tripuladas em missões a Marte, “é preciso encontrar a forma de proteger as células dos astronautas da radiação cósmica”.

Portugal já está a investir cerca de 20 milhões de euros por ano na ESA, tendo um retorno em contratos industriais e de prestação de serviços de 40 milhões. Zita Martins acha que os dois projectos vão, sem dúvida, contribuir para aumentar o nosso envolvimento na agência, “porque haverá uma promoção da imagem do país e novos financiamentos, contratos e empregos qualificados, o que é bom para a economia”.

A cientista traz também para Portugal a sua participação num projecto de oito milhões de dólares (6,7 milhões de euros) do Instituto de Astrobiologia da NASA, que termina em 2019, depois de ter estado ligada a outro de sete milhões de dólares até 2014.

Regresso a Portugal

A astrobióloga vai trabalhar como investigadora e professora associada no Departamento de Engenharia Química do IST. É um regresso às origens, porque Zita Martins fez a licenciatura em engenharia química precisamente no Instituto Superior Técnico. “Só vou mudar de país e de instituição onde estou afiliada, o que significa que Portugal pode ganhar com os conhecimentos, os contactos, e todas as colaborações internacionais que tenho. E agora trata-se de desenvolver uma equipa no país e promover a investigação e o ensino da astrobiologia” (veja a história de Zita Martins na Revista do Expresso, que sai amanhã, sexta-feira, 8 de Dezembro).

Os segredos dos meteoritos e das luas do Sistema Solar

Zita Martins está envolvida noutros projectos em equipas de investigação internacionais. “Continuo a analisar diferentes meteoritos, para perceber como é que eles poderão ter sido importantes para a origem da vida na Terra. E participo noutros projectos onde se investigam como os diferentes minerais podem ter ou não influência na detecção de potenciais formas de vida em Marte”, adianta a cientista.

Mas há uma aposta em novas frentes. “Agora estamos a mudar para outras áreas de investigação, para tentarmos perceber se existe vida nas luas geladas de Júpiter e Saturno, nomeadamente as luas Europa (de Júpiter) e Encelado (de Saturno)”. A astrobióloga está também a trabalhar com equipas internacionais no projecto de lançamento de uma nave espacial “para ir a um asteróide recolher amostras e trazê-las de volta”. Para 2018 já estão algumas tarefas programadas, “mas é um projecto que ainda está um pouco no segredo dos deuses. Vai ser, sem dúvida, importante para Portugal”.

É preciso “investigar os locais do Sistema Solar onde há maiores probabilidades de encontrar vida: Marte, desde que seja protegida, porque à superfície não estamos à espera de encontrar nada; e as luas geladas à superfície onde existem oceanos de água na forma líquida no seu interior, o que é uma grande vantagem, porque protegem a vida da radiação”.

Para a água existir em luas do Sistema Solar como Europa ou Encelado, que estão muito longe do Sol, têm de existir formas de energia para a manter no estado líquido. “Há várias teorias e uma delas defende que existem fontes hidrotermais como no fundo dos oceanos terrestres, que geram energia suficiente para a água se manter líquida”.

Recentemente foi publicado um estudo “que defende outra teoria: devido à gravidade de Júpiter ou de Saturno há marés e estas são suficientes, ao reagirem com a base rochosa das luas geladas, para gerar energia”, revela Zita Martins. “Os cientistas mediram a temperatura nessas duas luas e é muito superior ao que se estava à espera”. Portanto, “a água no estado líquido existe ali de certeza absoluta e uma das condições fundamentais para a emergência da vida é a água no estado líquido”.

40 artigos científicos publicados

Aos 38 anos, Zita tem quase 40 artigos publicados em revistas científicas de referência internacional. Começou a publicar em 2006, um ano antes de terminar o seu doutoramento em química na Universidade de Leiden, na Holanda. Em 2017 publicou um artigo sobre meteoritos e vários artigos relacionados com a Agência Espacial Europeia (ESA), porque a ESA chamou os melhores cientistas do mundo para saber quais deveriam ser os seus próximos projectos prioritários. E desse processo resultaram três artigos científicos, sendo a astrobióloga portuguesa a primeira autora de um deles.

Abordam temas como os locais da Terra que são usados pelos investigadores como análogos de planetas do Sistema Solar, uma introdução à astrobiologia e os estudos da Estação Espacial Internacional.

Mas o artigo de que a investigadora mais gosta – “tenho um gostinho especial”, confessa ao Expresso – foi publicado na revista “Nature Geoscience” em 2013 e teve um grande sucesso entre a comunidade científica. Apresenta os resultados do estudo do impacto de um cometa contra a superfície de um planeta e mostra que esse impacto vai gerar um dos blocos fundamentais para a vida: os aminoácidos. “Sou a primeira autora deste artigo e o estudo demorou quatro anos até conseguirmos resultados”, conta Zita Martins. “Mas aumentou o número de locais do nosso Sistema Solar onde aquele fenómeno pode acontecer e os mecanismos da formação dos blocos essenciais para a vida”.

Qual é o seu grande sonho? “Há coisas óbvias, do senso comum, como descobrir vida extraterrestre, mas na verdade o meu sonho é fazer parte de uma missão espacial que vá até ao fim e que tenha sucesso, resultados, porque participei em várias missões que ficaram pelo caminho, o que é típico nesta área, devido a cortes no financiamento ou a mudança de políticas públicas”.

É quase sempre a mais nova nas equipas internacionais e painéis de cientistas em que tem participado. “E sou sempre a perita que analisa moléculas orgânicas e a detecção de vida”. Faz parte de vários painéis de aconselhamento da Agência Espacial Europeia e quando estava a acabar o doutoramento na Universidade de Leiden já recebia ofertas de emprego da NASA, que recusou. “Desde muito nova fui sempre puxada para equipas de investigação, o que é sinal de que me consideram a perita internacional nesta área”, afirma Zita Martins com orgulho. “Tenho resultados muito bons

e as pessoas confiam neles, há um selo da qualidade, porque são 15 anos a publicar grandes artigos”.

MSN notícias
08/12/2017
Virgílio Azevedo

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