3878: “Eventos surpreendentes” aproximam cientistas da descoberta da matéria escura

CIÊNCIA/ASTROFÍSICA

AG Kroupa / Uni Bonn

Uma equipa internacional de investigadores anunciou esta quarta-feira “um surpreendente número de eventos registados pelo XENON1T”, que é o sistema mais sensível na detecção de matéria escura, mas que isso ainda não significa a sua descoberta.

Uma equipa internacional, integrada por cinco investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), “anunciou hoje à comunidade científica um surpreendente número de eventos registados pelo XENON1T, o sistema mais sensível de sempre na detecção de matéria escura”, afirma a Universidade de Coimbra (UC).

“A natureza destes eventos não está, porém, ainda totalmente deslindada, não se declarando por isso a descoberta da matéria escura”, sublinha a UC, numa nota enviada esta quarta-feira à agência Lusa.

“A sua assinatura é semelhante à produzida por quantidades residuais de trítio (um átomo de hidrogénio com dois neutrões e um protão no núcleo), mas pode ser também sinal de algo muito mais importante: a existência de um novo tipo de partícula denominado axião solar ou de propriedades até agora desconhecidas dos neutrinos”, adianta a UC.

O XENON1T esteve em operação entre 2016 e 2018 em Itália, no laboratório subterrâneo de Gran Sasso, debaixo de 1.300 metros de rocha. Projectado para a “detecção extremamente rara de matéria escura”, este “sistema de altíssima sensibilidade mostrou já conseguir registar outros eventos de muito difícil detecção”.

Em 2019, foi publicada na Nature “a medida directa conseguida com este sistema, pela primeira vez na história, do decaimento nuclear mais raro no universo”, exemplifica a UC.

O sistema XENON1T usa como alvo duas toneladas de xénon ultra-purificado.

“Uma radiação ao passar pelo alvo pode gerar, em geral, sinais ínfimos de luz e carga. A esmagadora maioria destes sinais (mais de 99,9%) deve-se a radiações de origem conhecida, o que permite aos cientistas calcular com grande precisão o número de eventos esperado. E aqui observaram-se mais 22,8% eventos em relação ao previsto”, refere José Matias-Lopes, investigador do Laboratório de Instrumentação, Engenharia Biomédica e Física da Radiação (LIBPhys) da FCTUC e coordenador da equipa portuguesa no projecto.

Uma possível explicação “terá a ver com a presença de trítio, um isótopo radioactivo do hidrogénio”, esclarece, citado pela UC, José Matias-Lopes. “Alguns átomos de trítio em 10 biliões de biliões de átomos de xénon seriam o suficiente para justificar o excesso de eventos registados”, mas “não existe ainda forma de medir estas tão ínfimas concentrações e assim confirmar esta hipótese”.

Outra possibilidade, “muitíssimo mais interessante, é a existência de um novo tipo de partícula”, refere José Matias-Lopes, avançando que, “de facto, o excesso de eventos observados tem energias similares às que se esperam para os axiões produzidas no sol”.

Os axiões são partículas previstas teoricamente, tendo o sol condições para ser uma fonte intensa deles. Embora os axiões não sejam matéria escura, “o seu avistamento seria o primeiro de uma nova classe de partículas cuja existência é solidamente apoiada pelos estudos teóricos”, afirma a UC, destacando que “esta descoberta teria um forte impacto no avanço do conhecimento, não só da astrofísica, mas também da própria física”.

Adicionalmente, “os axiões produzidos no início do universo podem também explicar a origem da matéria escura”, admite a UC. A terceira e última explicação avançada para o excesso observado tem origem nos neutrinos, que “passam aos biliões pelo nosso corpo a cada segundo, sem deixar rasto”. A confirmar-se esta hipótese, “o momento magnético (uma característica de todas as partículas) dos neutrinos teria de ser superior ao valor previsto pela teoria”, o que “obrigaria à necessidade de criar novos paradigmas e modelos físicos capazes de o explicar”, nota ainda a UC.

Das três explicações consideradas pelos cientistas da colaboração XENON, “a mais favorecida em termos estatísticos é a dos axiões solares, com uma probabilidade de cerca de 99,98% de que os sinais sejam desta origem”, revela José Matias-Lopes.

Mas, adverte o investigador, “mesmo com este elevado grau de probabilidade, não se pode declarar descoberta”. As outras duas possibilidades, trítio ou neutrinos com maior momento magnético, têm também uma elevada probabilidade, cerca de 99,93% em ambos os casos, de estarem na origem do excesso observado.

O XENON1T vai ser substituído por um novo sistema de deteção ainda mais sensível, o XENONnT, que deverá entrar em funcionamento este verão.

Os cientistas preveem ter, dois ou três meses depois, a confirmação da origem deste sinal —”se se deve a um contaminante ou, então, a algo verdadeiramente revolucionário: uma nova partícula ou tipo de interacção que vai para além daquilo que já se conhece”.

Aproximam-se, por isso, “tempos de grandes avanços e de descobertas que levam a largos passos em frente no conhecimento da Humanidade”, sustenta o consórcio XENON.

O XENON é constituído por 163 cientistas de 28 grupos de investigação dos EUA, Alemanha, Portugal, Suíça, França, Holanda, Suécia, Japão, Israel e Abu Dhabi. Portugal é parceiro desta colaboração desde o seu início, em 2005, através da equipa do LIBPhys da Universidade de Coimbra.

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ZAP // Lusa

Por Lusa
18 Junho, 2020

 

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1890: Observado e medido o mais raro processo de decaimento

A experiência subterrânea XENON. À esquerda está o tanque com um poster que mostra o seu interior. À direita está uma área com três andares que serve de manutenção.
Crédito: Projeto XENON

O Universo tem quase 14 mil milhões de anos. Um período de tempo inconcebível pelos padrões humanos – mas comparado a alguns processos físicos, é apenas um momento. Existem núcleos radioactivos que decaem em escalas de tempo muito maiores. Usando o detector XENON1T no Laboratório Nacional Gran Sasso do INFN (Istituto Nazionale di Fisica Nucleare, Itália), os cientistas foram capazes de observar pela primeira vez o decaimento dos núcleos atómicos Xénon-124.

A meia-vida de um processo é o tempo após o qual metade dos núcleos radioactivos presentes numa amostra decai. A meia-vida medida para o Xénon-124 é cerca um bilião de vezes maior do que a idade do Universo. Isto faz com que o decaimento radioactivo observado, a chamada dupla captura de electrões do Xénon-124, seja o processo mais raro alguma vez observado num detector. “O facto de que conseguimos observar este processo demonstra directamente quão poderoso é o nosso método de detecção – também para sinais que não são de matéria escura,” disse o professor Christian Weinheimer da Universidade de Münster (Alemanha) cujo grupo lidera o estudo. Além disso, o novo resultado fornece informações para futuras investigações sobre os neutrinos, a mais leve de todas as partículas elementares cuja natureza ainda não é totalmente compreendida. O XENON1T é um projecto experimental conjunto de cerca de 160 cientistas da Europa, dos EUA e do Médio Oriente. Os resultados foram publicados na revista científica Nature.

Um detector sensível de matéria escura

O Laboratório Gran Sasso do INFN na Itália, onde os cientistas estão à procura de partículas de matéria escura, está localizado a cerca de 1400 metros abaixo do maciço de Gran Sasso, bem protegido dos raios cósmicos que podem produzir sinais falsos. Considerações teóricas prevêem que a matéria escura deverá “colidir” muito raramente com os átomos do detector. Esta suposição é fundamental para o princípio do funcionamento do detector XENON1T: a sua parte central consiste de um tanque cilíndrico com aproximadamente 1 metro de comprimento preenchido com 3200 kg de xénon líquido a uma temperatura de -95º C. Quando uma partícula de matéria escura interage com um átomo de xénon, transfere energia para o núcleo atómico que, posteriormente, excita outros átomos de xénon. Isto leva à emissão de sinais fracos de radiação ultravioleta que são detectados por meio de sensores de luz sensíveis localizados nas partes superiores e inferiores do cilindro. Os mesmos sensores também detectam uma quantidade minúscula de carga eléctrica libertada pelo processo de colisão.

O novo estudo mostra que o detector XENON1T é também capaz de medir outros fenómenos físicos raros, como a dupla captura de electrões. Para entender este processo, temos que saber que um núcleo atómico normalmente é composto por protões (carregados positivamente) e neutrões (neutros), rodeados por várias camadas atómicas ocupadas por electrões (carregados negativamente). O Xénon-124, por exemplo, tem 54 protões e 70 neutrões. Na dupla captura de electrões, dois protões no núcleo “capturam” simultaneamente dois electrões da camada mais interna da concha atómica, transformam-se em dois neutrões e emitem dois neutrinos. Os outros electrões atómicos reorganizam-se para preencher as duas lacunas na concha mais interna. A energia libertada neste processo é transportada por raios-X e pelos chamados electrões Auger. No entanto, estes sinais são muito difíceis de detectar, já que a dupla captura de electrões é um processo muito raro, escondido por sinais da radioactividade natural omnipresente.

A medição

Foi assim que a colaboração XENON conseguiu esta medição: os raios-X da dupla captura de electrões no xénon líquido produziu um sinal inicial de luz, bem como electrões livres. Os electrões moveram-se para a parte superior cheia de gás do detector, onde geraram um segundo sinal de luz. A diferença de tempo entre os dois sinais corresponde ao tempo que os electrões levam para chegar ao topo do detector. Os cientistas usaram este intervalo e a informação fornecida pelos sensores que medem os sinais para reconstruir a posição da dupla captura de electrões. A energia libertada no decaimento foi derivada da força dos dois sinais. Todos os sinais do detector foram registados ao longo de um período de mais de um ano, no entanto, sem olhar para todos uma vez que a experiência foi realizada de maneira “cega”. Isto significa que os cientistas não podiam aceder aos dados na região energética de interesse até que a análise terminasse para garantir que as expectativas pessoais não distorciam o resultado do estudo. Graças à compreensão detalhada de todas as fontes relevantes de sinais de fundo, ficou claro que 126 eventos observados nos dados foram, de facto, provocados pela dupla captura de electrões do Xénon-124.

Usando esta medição sem precedentes, os físicos calcularam a meia-vida extremamente longa de 1,8×10^22 anos para o processo. Este é o processo mais lento alguma vez medido directamente. Sabe-se que o átomo Telúrio-128 decai com uma meia-vida ainda mais longa, no entanto o seu decaimento nunca foi observado directamente e a meia-vida foi inferida indirectamente de outro processo. Os novos resultados mostram como o detector XENON1T pode detectar processos raros e rejeitar sinais de fundo. Enquanto dois neutrinos são emitidos no processo de dupla captura de electrões, os cientistas podem agora também procurar a chamada dupla captura de electrões sem neutrinos, o que poderia esclarecer questões importantes sobre a natureza dos neutrinos.

Estado e perspectivas

O XENON1T obteve dados entre 2016 e Dezembro de 2018, depois desactivado. Os cientistas estão actualmente a actualizar a experiência para a nova fase “XENONnT”, que contará com uma massa de detecção activa três vezes maior. Juntamente com um nível de fundo reduzido, isto aumentará a sensibilidade do detector uma ordem de grandeza.

Astronomia On-line
26 de Abril de 2019

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