2731: NASA prepara-se para equipar o WFIRST com “óculos de sol” cósmicos

CIÊNCIA

Quando o WFIRST da NASA abrir os olhos em meados da década de 2020, o telescópio espacial vai observar o Universo através dos mais sofisticados “óculos de sol” alguma vez projectados.

O instrumento de coronagrafia poderia adoptar o nome de “óculos estelares”, uma vez que se trata de um sistema de máscaras, prismas, detectores e espelhos flexíveis para bloquear o brilho de estrelas distantes e, desta forma, revelar planetas em órbita ao seu redor.

Segundo Jason Rhodes, um cientista da NASA, o brilho é “avassalador”, de tal forma que consegue apagar qualquer probabilidade de serem observadores exoplanetas ao redor das estrelas.

As partículas de luz – fotões – de uma estrela dominam qualquer luz vinda de um planeta em órbita quando atingem o telescópio. “O que estamos a tentar fazer é cancelar mil milhões de fotões da estrela para cada um que capturarmos do planeta.”

Neste sentido, o coronógrafo do WFIRST acaba de completar um marco importante: uma revisão preliminar do projecto da NASA. Segundo o Europa Press, isto significa que o instrumento atendeu a todos os requisitos de design, calendário e orçamento e pode agora passar para a próxima fase: construir o hardware que voará no Espaço.

O coronógrafo da missão WFIRST tem como objectivo demonstrar o poder da tecnologia. À medida que capturamos a luz directamente de grandes exoplanetas gasosos e discos de poeira e gás que circundam outras estrelas, o instrumento irá indicar o caminho para desenvolver tecnologias para telescópios espaciais ainda maiores e ambiciosos.

De acordo com a NASA, os futuros telescópios com coronógrafos ainda mais sofisticados poderão gerar “imagens” de pixel único de planetas rochosos do tamanho da Terra. A luz poderá estender-se a um arco-íris chamado “espectro”, que revelará quais os gases presentes na atmosfera do planeta – oxigénio, metano, dióxido de carbono e até sinais de vida.

“Com o WFIRST vamos conseguir obter imagens e espectros destes grandes planetas, com o objectivo de testar tecnologias que serão usadas numa missão futura: eventualmente observar pequenos planetas rochosos que podem ter água líquida nas suas superfícies ou até sinais de vida, como o nosso”, explicou Rhodes.

O WFIRST é uma espécie de pioneiro e é por isso que a NASA considera o coronógrafo como uma “demonstração de tecnologia”. O principal objectivo, além de ajudar a fazer descobertas científicas importantes, é provar à comunidade científica que os coronógrafos complexos podem mesmo funcionar no Espaço.

“Este pode ser o instrumento astronómico mais complicado que alguma vez voou”, rematou Jason Rhodes.

ZAP //

Por ZAP
28 Setembro, 2019

 

2696: WFIRST da NASA vai ajudar a descobrir o destino do Universo

Impressão de artista do WFIRST.
Crédito: Centro de Voo Espacial Goddard da NASA

Os cientistas descobriram que uma pressão misteriosa chamada “energia escura” compõe cerca de 68% do conteúdo energético total do cosmos, mas até agora não sabemos muito sobre ela. A exploração da natureza da energia escura é uma das principais razões pelas quais a NASA está a construir o WFIRST (Wide Field Infrared Survey Telescope), um telescópio espacial cujas medições vão ajudar a iluminar o quebra-cabeças da energia escura. Com uma melhor compreensão da energia escura, teremos uma melhor noção da evolução passada e futura do Universo.

Um Cosmos em expansão

Até ao século XX, a maioria das pessoas achava que o Universo era estático, permanecendo essencialmente inalterado por toda a eternidade. Quando Einstein desenvolveu a sua teoria geral da relatividade em 1915, descrevendo como a gravidade actua através do tecido do espaço-tempo, ele ficou intrigado ao descobrir que a teoria indicava que o cosmos ou devia expandir-se ou contrair-se. Ele fez alterações para preservar um Universo estático, acrescentando algo que chamou de “constante cosmológica”, mesmo não existindo evidências da sua existência. Esta força misteriosa deveria neutralizar a gravidade para manter tudo no lugar.

No entanto, no final da década de 1920, o astrónomo George Lemaitre, e depois Edwin Hubble, fizeram a descoberta surpreendente de que, com poucas excepções, as galáxias estão a afastar-se umas das outras. O Universo estava longe de ser estático – estava a “inchar”. Consequentemente, se imaginarmos rebobinar esta expansão, deverá ter havido uma altura em que tudo no Universo estava quase impossivelmente quente e próximo.

O fim do Universo: fogo ou gelo?

A teoria do Big Bang descreve a expansão e a evolução do Universo a partir deste estado inicial super-quente e super-denso. Os cientistas teorizaram que a gravidade acabaria por desacelerar e possivelmente até reverter completamente esta expansão. Se o Universo tivesse matéria suficiente, a gravidade superaria a expansão e o Universo entraria em colapso num grande “Big Crunch” de fogo.

Caso contrário, a expansão nunca terminaria – as galáxias afastar-se-iam umas das outras cada vez mais até que passassem para lá da orla do Universo observável. Os nossos distantes descendentes poderão não ter conhecimento da existência de outras galáxias uma vez que estariam demasiado longe para serem visíveis. Grande parte da astronomia moderna pode um dia ser reduzida a mera lenda, à medida que o Universo desvanece gradualmente para uma gelada escuridão.

O Universo não está apenas a expandir-se – está a acelerar

Os astrónomos mediram o ritmo de expansão usando telescópios terrestres para estudar explosões de super-novas relativamente próximas. O mistério cresceu em 1998 quando observações de super-novas mais distantes, pelo Telescópio Espacial Hubble, ajudaram a mostrar que o Universo realmente se expandiu mais lentamente no passado do que hoje. A expansão do Universo não está a diminuir devido à gravidade, como todos pensavam. Está a acelerar.

Avançando rapidamente para hoje. Embora ainda não saibamos, exactamente, a razão desta aceleração, a “culpada” recebeu um nome – energia escura. Esta pressão misteriosa permaneceu desconhecida por tanto tempo porque é tão fraca que a gravidade se sobrepõe a ela à escala dos humanos, dos planetas e até da nossa Galáxia. Está presente na sua sala enquanto lê, dentro do seu próprio corpo, mas a gravidade neutraliza-a para que não saia a voar do seu lugar. Somente a escalas inter-galácticas é que a energia escura se torna perceptível, agindo como uma espécie de oposição fraca à gravidade.

O que é a energia escura?

O que é, exactamente, a energia escura? Desconhecemos mais do que sabemos, mas os teóricos estão à procura de algumas explicações possíveis. A aceleração cósmica pode ser provocada por um novo componente energético, o que exigiria alguns ajustes na teoria da gravidade de Einstein – talvez a constante cosmológica, que Einstein chamou do seu maior erro seja, afinal, real.

Alternativamente, a teoria da gravidade de Einstein pode quebrar-se a escalas cosmológicas. Se for esse o caso, a teoria precisará de ser substituída por uma nova que incorpore a aceleração cósmica que observamos. Os teóricos ainda não sabem qual é a explicação correta, mas o WFIRST ajudar-nos-á a descobrir.

WFIRST irá iluminar a energia escura

As missões anteriores reuniram algumas pistas, mas até agora não produziram resultados que favorecem fortemente uma explicação ou outra. Com a mesma resolução das câmaras do Hubble, mas com um campo de visão 100 vezes maior, o WFIRST produzirá imagens grandes do Universo nunca antes vistas. A nova missão avançará a exploração da energia escura de maneiras que outros telescópios não conseguem, mapeando como a matéria é estruturada e distribuída por todo o cosmos e medindo também um grande número de super-novas distantes. Os resultados indicarão como a energia escura actua por todo o Universo e se mudou ao longo da história cósmica.

A missão vai usar três métodos de pesquisa para procurar uma explicação da energia escura.

O HLSS (High Latitude Spectroscopic Survey) vai medir com precisão distâncias e posições de milhões de galáxias usando uma técnica de “régua padrão”. A medição de como a distribuição das galáxias varia com a distância vai abrir uma janela para a evolução da energia escura ao longo do tempo. Este estudo vai ligar as distâncias das galáxias com os ecos de ondas sonoras logo após o Big Bang e testar a teoria da gravidade de Einstein ao longo da idade do Universo.

O WFIRST também vai realizar um levantamento de um tipo de explosão estelar, baseando-se nas observações que levaram à descoberta da expansão acelerada. As super-novas do Tipo Ia ocorrem quando as estrelas anãs brancas explodem. As super-novas do Tipo Ia geralmente têm o mesmo brilho absoluto no seu pico, tornando-as no que os astrónomos apelidam de “velas padrão”. Isto significa que os astrónomos podem determinar a que distância estão a ver o seu brilho da Terra – e quanto mais longe estão, mais ténues parecem. Os astrónomos também vão observar comprimentos de onda específicos provenientes de super-novas para descobrir com que rapidez as estrelas moribundas estão a afastar-se nós. Ao combinarem distâncias com medições de brilho, os cientistas podem ver como a energia escura evoluiu ao longo do tempo, fornecendo uma verificação cruzada com os dois levantamentos.

Adicionalmente, o HLIS (High Latitude Imaging Survey) vai medir as formas e distâncias de inúmeras galáxias e enxames galácticos. A imensa gravidade de objectos massivos distorce o espaço-tempo e faz com que as galáxias mais distantes pareçam distorcidas. A observação do grau de distorção permite que os cientistas possam inferir a distribuição de massa por todo o cosmos. Isto inclui toda a matéria que podemos ver directamente, como planetas e estrelas, bem como a matéria escura – outro mistério cósmico escuro que é “visível” apenas devido aos seus efeitos gravitacionais sobre a matéria normal. Este levantamento fornecerá uma medição independente do crescimento da estrutura a larga escala do Universo e de como a energia escura tem afectado o cosmos.

“A missão WFIRST é única na combinação destes três métodos. Levará a uma interpretação muito robusta e rica dos efeitos da energia escura e permitir-nos-á fazer uma declaração definitiva sobre a natureza da energia escura,” disse Olivier Doré, cientista do JPL da NASA em Pasadena, no estado norte-americano da Califórnia, e líder da equipa que está a planear os dois primeiros métodos de pesquisa com o WFIRST.

Descobrir como a energia escura afectou a expansão do Universo no passado vai lançar alguma luz sobre como influenciará a expansão no futuro. Se continuar a acelerar a expansão do Universo, podemos estar destinados a sofrer um “Big Rip”. Neste cenário, a energia escura acabará por tornar-se dominante sobre as forças fundamentais, fazendo com que tudo o que está actualmente unido – galáxias, planetas, pessoas – se separe. A exploração da energia escura vai permitir-nos investigar e possivelmente prever o destino do Universo.

Astronomia On-line
24 de Setembro de 2019