1964: O que são 50 kg de mel perante o privilégio de ser visitado pelo urso-pardo?

A Luís Correia não lhe passa pela cabeça fazer contas aos estragos que o urso-pardo que “visitou” o Parque de Montesinho fez nas suas colmeias. Biólogo Nuno Oliveira fala em “turista” ocasional e não acredita na fixação da espécie

O urso-pardo está extinto em Portugal desde 1843.© REUTERS/Gleb Garanich

“Após 200 anos de extinção, ser atacado por um urso-pardo é um grande privilégio para mim.” Luís Correia, apicultor no coração do Parque Natural de Montesinho, em Trás-os-Montes, é muito positivo quando reage à “visita” de um exemplar daquela espécie. O que valem os 50 quilos de mel que o animal devorou das suas colmeias comparados com a importância do regresso de uma espécie extinta em Portugal desde 1843?

As notícias de que um urso-pardo andou a passear-se por aquele parque natural transmontano deixou a comunidade científica entusiasmada – afinal trata-se do regresso, nem que seja por escassos dias, de um animal que já não existe no nosso país há cerca de dois séculos. Mas é um entusiasmo moderado, porque há a consciência de que não há condições naturais para a sua fixação.

O urso visitou os apiários de Luís Correia por duas vezes, muito provavelmente durante a noite – a primeira vez foi no dia 30 de Abril. Mexeu e remexeu numa colmeia e comeu mais de 20 quilos de mel. No dia 30, provavelmente de barriga cheia, não deu sinal de vida. No dia 1 de maio, voltou a banquetear-se em dois apiários, que distam cerca de 900 metros um do outro – e devorou outra vez mais de 20 quilos de mel. Desde então não tem dado ares da sua graça.

O dono da Apimonte – apiários e turismo rural – não está preocupado com as façanhas do urso e diz que não quer indemnizações. “Destruiu colmeias, mas perante a importância da notícia, a quantidade de estragos é irrelevante. Acolhemos esta alteração da nossa normalidade com bom humor, contentes com o regresso do urso-pardo ao Parque Natural de Montesinho.” E deixa o seu alerta: “Convém que o deixemos introduzir de forma natural e Deus queira que fique por cá – enriquece a nossa fauna, enriquece o parque, enriquece o país e o turismo.”

Três ou quatro dias antes, Luís Correia tinha sido alertado pelos apicultores do outro lado da fronteira que andava um urso pela região. Mas manteve a sua rotina. Até que percebeu que as suas colmeias tinham sido atacadas. Chamou os técnicos do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que confirmaram, pelas pegadas, e por outros vestígios, como o pelo, que tinha sido contemplado com a visita de um urso-pardo, essa espécie extinta em Portugal. Também foi possível confirmar quem era o intruso através dos registos de armadilhagem fotográfica dos serviços espanhóis na fronteira.

Produtor de mel considera-se privilegiado por ter recebido a visita do urso-pardo.© DR

Quer isto dizer que os ursos vão regressar ao nosso território? Os especialistas são cautelosos. Este “turista”, como lhe chama Nuno Oliveira, presidente do FAPAS – Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens, será com grande probabilidade um jovem macho, um indivíduo errante, que se deslocou da sub-população da Cantábria até ao Nordeste Transmontano, cerca de 150 quilómetros em linha recta. Veio explorar território, à procura de alimento, mas não significa que fique por cá – alerta.

Um explorador à conquista de novos territórios

Já o ICNF esclareceu esta sexta-feira que é “muito baixa” a probabilidade de existirem outros exemplares da espécie no Parque Natural de Montesinho. “O mais provável é que a presença deste urso seja o início de uma série de ocorrências que podem não ser regulares nem continuadas no tempo e no espaço, mas que, a longo prazo, possam vir a permitir uma presença mais estável e fixada de indivíduos em Portugal”, refere o ICNF à agência Lusa.

Para o biólogo Nuno Oliveira, a visita do urso-pardo poderá explicar-se pelo facto da população espanhola desta espécie estar em expansão – na cordilheira cantábrica existe uma sub-comunidade de 280 – e de o animal ter vindo explorar novos território. “Não será o primeiro, mas não significa que a espécie deixou de estar extinta em Portugal. Só deixaria de o estar se houvesse uma comunidade reprodutiva.”

E não acredita que regressem de vez. Porque, argumenta, o nosso país não apresenta condições de habitat – “é um país pequeno, com zonas montanhosas pequenas, muito habitado. Iriam ter muitos encontros com pessoas e viaturas e naturalmente não iriam gostar deste espaço, não iam sentir-se à vontade.”

“Vamos continuar a ter turistas”

Por estas razões, o presidente do FAPAS não acredita na viabilidade de uma população estável e reprodutora em Portugal. “Temos muita carência de florestas, e estes são animais muito ligados à floresta, o território tem que ter bagas… Mas vamos continuar a ter turistas, certamente.”

Apesar destas cautelas, o cientista não deixa de considerar que a passagem do urso-pardo por Portugal é um sinal positivo. “É sempre bem-vindo o regresso de uma espécie que se extinguiu, que perdeu o seu espaço no nosso país. Outras espécies habituaram-se ao homem e às cidades, como as gaivotas, os javalis. Há também relatos de ursos nas ruas no Canadá, na Roménia…”

Outras espécies foram reintroduzidas, como o lince ibérico. Mas o urso, acredita Nuno Oliveira, precisa de comida e de um habitat adequado. E a ementa não pode passar apenas pelo mel produzido pelos quase 50 milhões de abelhas de Luís Correia – 60 mil abelhas em cada uma das 800 colmeias não assustaram o animal (até voltou para repetir o menu).

O que pode então o Homem fazer para criar condições para a fixação do urso-pardo em Portugal? A resposta do presidente do Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens é imediata: “Reflorestar as áreas serranas, não com matas de pinheiros, mas com herbáceos, arbustos, oferecer abrigo e alimento. Isso seria um forte contributo para que se reproduzissem e ficassem quietos.”

Os apiários de Luís Correia foram visitados duas vezes por um urso-pardo vindo de Espanha.© DR

Até que isso aconteça, as incursões podem ser pontuais. Já se sabia que iriam acontecer, não havia dúvida sobre isso por causa da expansão da comunidade espanhola. Se vão ficar ou não, é outra história. Luís Correia, que deixou a sua profissão de gestor para se dedicar à Apimonte, deixa uma sugestão: “Temos que deixar evoluir esta notícia sem muita patada humana, sem muita intervenção do ser humano, que nem sempre age da melhor forma.”

Diário de Notícias
Graça Henriques
10 Maio 2019 — 20:13


 

1155: Encontrado vestígio de vida animal mais antigo de sempre

CIÊNCIA

Paco Cárdenas
Um retrato subaquático da espécie de Demospongiae moderna Rhabdastrella globostellata, que produz os mesmos esteróides que os pesquisadores encontraram em rochas antigas

Investigadores da Universidade da Califórnia afirmam ter descoberto o vestígio mais antigo de vida animal conhecido, de formas de vida que existiram há mais de 635 milhões de anos.

O estudo publicado esta segunda-feira na revista científica Nature Ecology & Evolution, descreve como a equipa liderada por Gordon Love, do departamento de Ciências da Terra, procurou vestígios moleculares de vida animal da era Neoproterozóica – entre 660 milhões e 635 milhões de anos.

Em rochas e óleos recolhidos em Omã, na Sibéria e na Índia, encontraram um composto esteróide que é produzido pelas esponjas marinhas, uma das primeiras formas de vida animal conhecidas.

Os investigadores consideram demonstrar ainda que já existiam formas de vida animal 100 milhões de anos antes do período Câmbrico, época em que houve uma explosão de quantidade e diversidade de formas de vida.

“Os fósseis moleculares são importantes para estudar os primeiros animais, uma vez que as primeiras esponjas seriam muito pequenas, não teriam esqueleto e não deixariam uma impressão fóssil forte ou até reconhecível”, afirmou Alex Zumberge, um dos autores do estudo.

O bio-marcador que encontraram tem uma estrutura única, e hoje em dia só se encontra sintetizado por certas espécies modernas de esponjas marinhas.

“Este esteróide é a primeira prova que as esponjas, portanto os animais multi-celulares, existiam nos mares da antiguidade pelo menos há 635 milhões de anos“, explicou Zumberge.

ZAP // Lusa

Por Lusa
16 Outubro, 2018