3161: Inteligência artificial decifra manuscrito que pode mudar história da Austrália

CIÊNCIA

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A Terra Australis Incognita, hoje conhecida como Austrália, foi descrita por um jesuíta espanhol quase cem anos antes da descoberta em 1770 pelo marinheiro britânico James Cook, segundo um manuscrito decifrado através de inteligência artificial.

A carta, dirigida ao rei Felipe V, é apenas uma das muitas surpresas que surgiram graças ao Carabela, um projecto de inteligência artificial e aprendizagem automática desenvolvido por cientistas da Universidade Politécnica de Valência (UPV) e do Centro de Arqueologia Subaquática do Instituto Andaluz de Património Histórico.

Segundo a agência EFE o projecto foi testado com 125 mil documentos do Arquivo Geral das Índias e do Arquivo Histórico Provincial de Cádis, que juntamente com o Arquivo Real da Marinha Espanhola guardam centenas de milhões de arquivos, cartas e manuscritos relacionados com o comércio naval e a exploração espanhola entre os séculos XVI e XIX.

Embora todos esses documentos estejam actualmente em processo de digitalização, encontrar as informações desejadas geralmente envolve anos de trabalho para arqueólogos e historiadores que, primeiro, precisam de saber onde e o que procurar e, depois, decifrar os estilos de escrita complicados de cada época.

“É preciso ser muito experiente para saber o que colocar nesses documentos e, além disso, muitas vezes a qualidade da imagem é tão baixa que nem mesmo um especialista é capaz de saber o que diz”, explicou o físico Enrique Vidal, que também é professor catedrático em informática, investigador do Centro Pattern Recognition and Human Language Technologies (PHRLT) da UPV e coordenador do projecto.

A complexidade destes manuscritos é tal que as técnicas de transcrição disponíveis, capazes de converter uma imagem em texto, não funcionam porque são incapazes de ler estes documentos.

Uma das descobertas mais curiosas, que ocorreu quando os especialistas procuravam termos relacionados com a Austrália (anteriormente chamada de Terra Australis Incognita), apareceu numa carta de Andrés Serrano, “um jesuíta que estava em Manila, nas Filipinas, e pediu ao rei mais recursos para colonizar aquela terra cheia de almas para evangelizar”, disse o físico Enrique Vidal.

“A carta, escrita 80 anos antes da viagem de Cook, descreveu as coordenadas exactas de localização do continente e o seu tamanho de leste a oeste”, indicou o coordenador do projecto.

Distinguindo o trabalho de transcrever da tarefa de pesquisar, os investigadores do projecto Carabela conseguiram que a inteligência artificial encontre em poucos minutos os dados que um historiador leva anos para localizar, através de um mecanismo de pesquisa que permite a qualquer utilizador aceder à informação de um arquivo, de qualquer assunto e antiguidade.

Graças ao desenvolvimento dessa tecnologia, o utilizador pode fazer uma pesquisa nos arquivos semelhante ao que faria no motor de busca do Google.

A precisão ou margem de erro da pesquisa depende do grau de confiança exigido pelo sistema: “normalmente é de 50%, mas pode ser aumentado para 100%, ou seja, o algoritmo fornecerá o número máximo de ocorrências”, indicou Enrique Vidal, considerando que a precisão de Carabela é “finíssima”, uma vez que é “capaz de encontrar uma agulha num palheiro em segundos”.

Segundo o investigador e historiador Carlos Alonso, do Centro de Arqueologia Subaquática do Instituto Andaluz do Património Histórico, um dos pontos fortes da tecnologia desenvolvida no projecto Carabela é o potencial de “reescrever” a história em vários níveis, não apenas para identificar naufrágios históricos, uma vez que o sistema já descobriu “cerca de 400 referências de naufrágios”.

ZAP // Lusa

Por Lusa
8 Dezembro, 2019

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