2972: E se o Universo for um grande balão “fechado”? Tudo o que sabíamos pode estar errado

CIÊNCIA

(CC0/PD) myersalex216 / Pixabay

Há uma nova investigação que está a por em causa tudo o que sabíamos sobre a forma do Universo. De acordo com a pesquisa publicada nesta semana, o Universo pode não ser plano, como se pensava, mas antes ser como um grande balão insuflado.

A pesquisa publicada na revista Nature Astronomy tem por base as mais recentes leituras do telescópio Planck, da Agência Espacial Europeia.

Estes dados referem-se ao fundo cósmico de micro-ondas (CMB na sigla em Inglês), isto é, o brilho da radiação que resta do Big Bang e que é um efeito de luz ambiente que ocupa todo o espaço quando se bloqueiam estrelas, galáxias e outras interferências.

O CMB é fundamental para definir a história e o comportamento do Universo, sendo o seu vestígio mais antigo.

Os novos dados do Planck apontam para conclusões que ameaçam a percepção que tínhamos do Universo até agora. Já se fala numa verdadeira crise na cosmologia, tendo-se verificado também que o Universo se está a expandir muito mais rápido do que os cientistas previam.

As razões para esse facto são ainda um mistério e podem ou não estar relacionadas com outras conclusões desafiantes que apontam que o Universo pode não ser plano, como um lençol infinito, mas ser antes esférico e fechado, como um grande balão insuflado.

Esta hipótese resulta das anomalias detectadas nos dados do CMB por cosmologistas das Universidades Johns Hopkins (EUA), Sapienza de Roma (Itália) e de Manchester (Reino Unido).

As investigações indicam que há significativamente mais “lentes gravitacionais” do CMB do que seria de esperar. “A gravidade parece estar a dobrar as micro-ondas do CMB mais do que a física existente pode explicar”, destaca o site científico Live Science.

Estes cientistas apontam que há 41 vezes mais probabilidades de o Universo ser fechado do que plano. A teoria é que terá uma forma “ligeiramente curvada”, com uma “flexão lenta” que não é importante para a nossa rotina diária. Mas viajando até fora da nossa galáxia, isso significa que se nos movermos numa linha recta, terminaremos no local onde começamos.

“A diferença entre um universo fechado e aberto é um pouco como a diferença entre uma folha plana esticada e um balão insuflado”, explica ao Live Science o cosmologista Alessandro Melchiorri, um dos investigadores envolvidos no estudo.

“Isto significa, por exemplo, que se tivermos dois fotões e se viajarem em paralelo, num universo fechado vão [eventualmente] encontrar-se”, aponta Melchiorri. Num universo plano, esses dois fotões viajariam sem nunca se cruzarem, caso não houvesse qualquer interferência nos seus trajectos.

Todavia, a ideia do “Universo fechado” é, para já, apenas uma hipótese e são necessárias “futuras medições” para “clarificar se as discordâncias observadas são devidas a sistemáticas não detectadas ou a uma nova física, ou se são, simplesmente, flutuações estatísticas”, apontam os autores do estudo.

Cosmologistas que não estiveram envolvidos no estudo encaram a teoria com algum cepticismo, como é o caso de Andrei Linde da Universidade de Stanford (EUA), que, em declarações ao Live Science, faz referência a outro estudo que ainda não foi publicado em torno dos mesmos dados do Planck e que concluiu que o mais provável é que o Universo seja plano.

Melchiorri contrapõe que esse estudo teve por base um segmento demasiado pequeno dos dados do Planck, defendendo a análise da sua equipa.

Certo é que se a teoria do “Universo fechado” se confirmar, é preciso “sintonizar” a física do mecanismo primordial associado ao Big Bang e refazer todos os cálculos envolvidos, destaca o cosmologista. Isso será uma grande complicação que acarreta inúmeros problemas e toda uma nova física.

SV, ZAP //

Por SV
6 Novembro, 2019

 

Graça Rocha apresentou “grandes avanços científicos” da missão espacial Planck na Califórnia

 

O Planck tornou possível mapear a radiação de fundo que ficou do “Big Bang” revelando imagens da luz mais antiga do Universo.

© Twitter ESA Science

A cosmóloga portuguesa Graça Rocha apresentou os “grandes avanços científicos” conseguidos a partir do telescópio espacial Planck, na 42.ª Assembleia do Comité para a Investigação Espacial (COSPAR, na sigla inglesa), a decorrer em Pasadena, Califórnia, até domingo

A cientista portuguesa, terminada a missão, está envolvida na análise dos dados do telescópio espacial, tendo já “alguns projectos submetidos à NASA”, como disse à agência Lusa, à margem da assembleia, em que interveio na quinta-feira (sexta-feira, em Portugal).

O telescópio desenvolveu o mapa das flutuações da radiação cósmica de fundo do universo.

“A missão Planck confirmou o modelo padrão de cosmologia”, disse à agência Lusa Graça Rocha, que liderou a abertura da sessão dedicada ao telescópio espacial na assembleia do COSPAR, que decorre em Pasadena, desde o passado dia 14.

Apesar de ainda haver “peças do puzzle” que é preciso encaixar, o legado do telescópio Planck “terá repercussões” em vários outros projectos de investigação científica, acrescentou a cosmóloga.

Até ao momento, foram publicados 1600 artigos científicos baseados nos dados registados pela missão.

Galardoada com Prémio Gruber de Cosmologia

A cientista participou na missão da Agência Espacial Europeia (ESA) através do Jet Propulsion Laboratory (JPL) da NASA, onde trabalha há mais de dez anos.

A 20 de Agosto, Graça Rocha irá receber em Viena o Prémio Gruber de Cosmologia 2018, atribuído pela Gruber Foundation da Universidade de Yale à equipa da missão.

Será um “reconhecimento importante” da comunidade científica “dos impactos científicos que a missão originou ao longo destes anos”, afirmou a investigadora, à agência Lusa.

Na abertura da palestra dedicada à análise de resultados, Graça Rocha disse que este é “um momento muito especial” na jornada “épica” que se seguiu ao lançamento do telescópio, em 2009.

O Planck tornou possível mapear a radiação de fundo que ficou do “Big Bang” e ainda é observável hoje, revelando imagens da luz mais antiga do Universo.

Os resultados finais do projecto foram publicados pela ESA esta semana, e a nova ciência desenvolvida a partir deles está a ser apresentada em Pasadena, na assembleia do COSPAR.

Os mapas criados pelo Planck permitirão aos cientistas estudarem a história do Universo, em maior detalhe, e explorar as teorias da sua criação, incluindo a teoria de expansão inflaccionária.

Depois de um envolvimento a tempo inteiro nesta missão, que a obrigou a viajar regularmente durante vários anos para reuniões científicas com as equipas de investigação na Europa, Graça Rocha irá “trabalhar activamente” no projecto de procura de exoplanetas, planetas fora do sistema solar.

Licenciada em Matemática, Matemática Aplicada, Física e Astronomia pela Universidade do Porto, Graça Rocha é doutorada em Cosmologia e tem trabalhado, ao longo da sua carreira, na área de investigação, com instituições como as universidades de Cambridge, de Londres e do Kansas, com o Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), além da ESA e da NASA.

Faz parte dos quadros do JPL da NASA, desde 2009.

O trabalho de Graça Rocha sobre o telescópio espacial Planck foi também distinguido este ano pela Royal Astronomical Society do Reino Unido.

Diário de Notícias
DN/Lusa
20 Julho 2018 — 12:09

[vasaioqrcode]

[SlideDeck2 id=1476]

[powr-hit-counter id=27907e10_1532087233730]

See also Blog