3297: Exoplanetas com oceanos de magma podem “devorar” os seus próprios céus

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

L. Kreidberg, G. Bacon/NASA, ESA; J. Bean/U. Chicago; H. Knutson/Caltech

Um novo estudo sugere uma razão pela qual os exoplanetas raramente crescem mais do que Neptuno: os oceanos de magma dos planetas começam a comer os seus próprios céus.

Em 2014, o Telescópio Espacial Kepler da NASA entregou aos cientistas uma porção de mais de 700 planetas distantes para estudar – muitos deles diferentes do que alguém já tinha visto antes. Em vez de gigantes gasosos como Júpiter, que os estudos anteriores tinham captado primeiro porque são mais fáceis de ver, estes planetas eram mais pequenos e, na maioria, rochosos.

Os cientistas notaram que havia muitos planetas do tamanho de ou pouco maiores do que a Terra, mas houve um corte acentuado antes dos planetas atingirem o tamanho de Neptuno.  “O que temos discutido é porque é que os planetas tendem a parar de crescer além do triplo do tamanho da Terra”, explicou Edwin Kite, professor do departamento de ciências geofísicas da Universidade de Chicago, em comunicado.

Os investigadores oferecem uma explicação inovadora para isto: os oceanos de magma na superfície dos planetas absorvem rapidamente as suas atmosferas quando os planetas atingem cerca de três vezes o tamanho da Terra.

Pensa-se que a maioria dos planetas um pouco mais pequenos tem oceanos de magma nas suas superfícies – grandes mares de rocha derretida como os que outrora cobriram a Terra. Mas, em vez de solidificar como o nosso, permanecem quentes graças a uma manta espessa de atmosfera rica em hidrogénio.

A pergunta que Kite e os seus colegas consideraram foi se, à medida que os planetas adquiriam mais hidrogénio, o oceano poderia começava a “comer” o céu. Neste cenário, explica o Futurity, à medida que o planeta adquire mais gás, acumula-se na atmosfera e a pressão onde a atmosfera se encontra com o magma começa a aumentar. A princípio, o magma absorve o gás adicionado a uma taxa constante, mas à medida que a pressão aumenta, o hidrogénio começa a dissolver-se muito mais rapidamente no magma.

Assim, de acordo com o estudo publicado este mês na revista científica Astrophysical Journal Letters, o crescimento do planeta pára antes de atingir o tamanho de Neptuno. Os autores chamam isto “crise de fugacidade”, em honra do termo que mede quanto mais facilmente um gás se dissolve numa mistura do que o que seria esperado com base na pressão.

Segundo os investigadores, a teoria encaixa bem nas observações existentes. Mas existem vários marcadores que os astrónomos podem procurar no futuro. Por exemplo, se a teoria estiver correta, planetas com oceanos de magma que são suficientemente frios para se cristalizarem na superfície devem exibir perfis diferentes, uma vez que isso impediria o oceano de absorver tanto hidrogénio.

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Por ZAP
2 Janeiro, 2020

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Alguns planetas “comem” os seus próprios céus?

CIÊNCIA

Impressão de artista de um exoplaneta mais pequeno que Neptuno. Um novo estudo sugere uma razão para o porquê de tais planetas raramente crescerem mais que Neptuno: os oceanos de magma do planeta começam a “comer” o céu.
Crédito: NASA/ESA/G. Bacon (STScI)/L. Kreidberg; J. Bean (U. Chicago)/H. Knutson (Caltech)

Durante muitos anos, pelo que sabíamos, o nosso Sistema Solar estava sozinho no Universo. E depois, telescópios mais avançados começaram a revelar um tesouro de planetas em órbita de estrelas distantes.

Em 2014, o telescópio espacial Kepler da NASA entregou aos cientistas mais de 700 planetas distantes “novinhos em folha” para estudarem – muitos deles totalmente diferentes do que havia sido observado anteriormente. Em vez de gigantes gasosos como Júpiter, que as investigações anteriores haviam captado primeiro porque são mais fáceis de observar, estes planetas eram mais pequenos e, na maioria, rochosos em termos de massa.

Os cientistas notaram que existiam muitos destes planetas de tamanho idêntico ou pouco superior ao da Terra, mas que havia também um corte acentuado antes dos planetas alcançarem o tamanho de Neptuno. “É como se fosse um ‘precipício’ nos dados, e é bastante dramático,” disse o cientista planetário Edwin Kite da Universidade de Chicago. “O que temos discutido é o porquê de os planetas tenderem a parar de crescer além do triplo do tamanho da Terra.”

Num artigo publicado dia 17 de Dezembro na revista The Astrophysical Journal Letters, Kite e colegas da Universidade de Washington, da Universidade de Stanford e da Universidade Estatal da Pensilvânia fornecem uma explicação inovadora para esta queda: os oceanos de magma à superfície destes planetas absorvem rapidamente as suas atmosferas assim que os planetas atingem cerca de três vezes o tamanho da Terra.

Kite, que estuda a história de Marte e os climas de outros mundos, estava bem posicionado para estudar a questão. Ele pensou que a resposta podia depender de um aspecto pouco estudado de tais exoplanetas. Pensa-se que a maioria dos planetas um pouco mais pequenos do que a queda de tamanho tenham oceanos de magma às suas superfícies – grandes mares de rocha derretida como os que outrora cobriram a Terra. Mas, em vez de solidificarem como o nosso, são mantidos quentes por uma espessa camada atmosférica rica em hidrogénio.

“Até agora, quase todos os modelos que temos ignoram este magma, tratando-o como quimicamente inerte, mas a rocha derretida é quase tão líquida quanto a água e muito reactiva,” disse Kite, professor assistente no Departamento de Ciências Geofísicas da Universidade de Chicago.

A questão que Kite e colegas consideraram foi se, à medida que os planetas adquiriam mais hidrogénio, o oceano podia começar a “comer” o céu. Neste cenário, à medida que o planeta adquire mais gás, este acumula-se na atmosfera e a pressão em baixo, onde a atmosfera encontra o magma, começa a aumentar. A princípio, o magma absorve o gás adicionado a um ritmo constante, mas à medida que a pressão aumenta, o hidrogénio começa a dissolver-se muito mais facilmente no magma.

“Não apenas isso, mas o pouco gás adicionado que permanece na atmosfera faz subir a pressão atmosférica e, assim, uma fracção ainda maior do gás que chega mais tarde dissolve-se no magma,” explicou Kite.

Assim sendo, o crescimento do planeta para antes de atingir o tamanho de Neptuno (porque a maioria do volume destes planetas está na atmosfera, o encolhimento da atmosfera encolhe os planetas).

Os autores chamam a isto a “crise de fugacidade”, que pega no termo que mede quanto mais facilmente um gás se dissolve numa mistura do que seria de esperar com base na pressão.

Kite acrescentou que a teoria se encaixa bem com as observações existentes. Também existem vários marcadores que os astrónomos podem procurar no futuro. Por exemplo, se a teoria estiver correta, os planetas com oceanos de magma que são frios o suficiente para se cristalizarem à superfície devem exibir perfis diferentes, pois isso impediria o oceano de absorver tanto hidrogénio. As investigações actuais e futuras do TESS e de outros telescópios deverão fornecer aos astrónomos mais dados com que trabalhar.

“No nosso Sistema não há nada como estes mundos,” disse Kite. “Embora o nosso trabalho sugira uma solução para um dos quebra-cabeças dos exoplanetas sub-Neptuno, ainda têm muito para nos ensinar!”

Astronomia On-line
24 de Dezembro de 2019

 

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3167: Vibrações provocadas por “estrelamotos” permitem precisar a idade da Via Láctea

CIÊNCIA

(dr) STScI / NASA / ESA

Os tremores estelares registados pelo telescópio espacial Kepler, da NASA, ajudaram a responder a um antigo enigma sobre a idade do “disco espesso” da Via Láctea.

Uma equipa de cientistas, liderada por investigadores do Centro de Excelência ARC da Austrália ASTRO-3-D, usou dados da missão Kepler para calcular que a idade do “disco espesso” da Via Láctea. Segundo o artigo científico, publicado em Outubro na Royal Astronomical Society, o disco tem, aproximadamente, 10.000 milhões de anos.

“Esta descoberta elimina um mistério”, afirmou o autor principal, Sanjib Sharma, citado pelo Europa Press. “Os dados anteriores sobre a distribuição etária das estrelas no disco não eram concordantes com os modelos criados, mas ninguém sabia onde estava o erro: nos dados ou nos modelos. Agora, temos certeza de que descobrimos.”

Tal como várias galáxias espirais, a Via Láctea tem duas estruturas em forma de disco, conhecidas como “grossa” e “fina”. O disco espesso contém apenas 20% do total de estrelas da galáxia e, de acordo com a sua composição e inchaço vertical, acredita-se ser o mais antigo.

Para saber a diferença de idades dos discos, Sharma e o resto da equipa usaram um método conhecido como asterosismologia, uma forma de identificar as estruturas internas das estrelas medindo as oscilações dos tremores estelares.

Impressão artística dos discos da Via Láctea

“Os terremotos geram ondas sonoras dentro das estrelas que as fazem soar ou vibrar”, explica o co-autor do artigo, Dennis Stello. “As frequências produzidas revelam características das propriedades internas das estrelas, incluindo a sua idade. É como identificar um violino Stradivarius ao ouvir o som que produz.”

Esta datação permite aos cientistas olhar para trás no tempo e discernir o período da História do Universo em que a Via Láctea foi formada, uma prática conhecida como arqueologia galáctica.

As pequenas vibrações que ocorrem nas estrelas são muito pequenas, mas os cientistas defendem que devemos prestar-lhes atenção. “As excelentes medições de brilho feitas pelo telescópio Kepler eram ideais para isso. O telescópio era tão sensível que seria capaz de detectar a atenuação dos faróis de um carro quando uma pulga passava por ele”, disse Sharma.

No entanto, os dados do telescópio apresentaram um problema aos astrónomos: as informações sugeriam que havia mais estrelas jovens no disco grosso do que o que os modelos previam. Afinal, eram os modelos que estavam errados ou os dados incompletos?

Em 2013, o Kepler partiu e a NASA propôs a criação da missão K2 (também chamada “Second Light”), um plano para incluir a utilização do Kepler, mesmo com deficiência, para observar muitas partes diferentes do céu durante 80 dias, de cada vez.

Os primeiros dados representaram uma nova fonte para Sharma. Uma nova análise espectroscópica revelou que a composição química incorporada nos modelos existentes para estrelas no disco grosso estava incorrecta, algo que afectou a previsão das suas idades.

Os cientistas descobriram então que os dados asterosísmicos observados recentemente estão em “excelente concordância” com as previsões do modelo. Além disso, destacam que os resultados fornecem uma forte verificação indirecta do poder analítico da asterosismologia na estimativa de idades.

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Por ZAP
9 Dezembro, 2019

Artigos relacionados: Vibrações estelares levam a nova estimativa da idade da Via Láctea

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3151: Vibrações estelares levam a nova estimativa da idade da Via Láctea

CIÊNCIA

Impressão de artista da Via Láctea, mostrando o disco espesso e o disco fino.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/R. Hurt/SSC

Os sismos estelares registados pelo telescópio espacial Kepler da NASA ajudaram a responder a uma pergunta de longa data sobre a idade do “disco espesso” da Via Láctea.

Num artigo publicado na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, uma equipa de 38 cientistas liderada por investigadores do Centro de Excelência ARC para ASTRO-3D (All Sky Astrophysics in Three Dimensions) da Austrália usou dados da sonda agora extinta para calcular que o disco tem cerca de 10 mil milhões de anos.

“Esta descoberta esclarece um mistério,” diz o autor principal, Dr. Sanjib Sharma do ASTRO-3D e da Universidade de Sydney na Austrália.

“Os dados anteriores sobre a distribuição etária das estrelas no disco não concordavam com os modelos construídos para a descrever, mas ninguém sabia onde estava o erro – nos dados ou nos modelos. Agora temos certeza de que o encontrámos.”

A Via Láctea – como muitas outras galáxias espirais – consiste de duas estruturas semelhantes a discos, de nome “espessa” e “fina”. O disco espesso contém apenas cerca de 20% do total de estrelas da Galáxia e, com base na sua composição e espessura vertical, é considerado o componente mais antigo do par.

Para descobrir quão mais velho, o Dr. Sharma e colegas usaram um método conhecido como astero-sismologia – uma maneira de identificar as estruturas internas das estrelas medindo as suas oscilações a partir de sismos estelares.

“Os sismos geram ondas sonoras dentro das estrelas que as fazem vibrar,” explica o co-autor Dennis Stello, professor associado do ASTRO-3D e da Universidade de Nova Gales do Sul.

“As frequências produzidas dizem-nos coisas sobre as propriedades internas das estrelas, incluindo a sua idade. É um pouco como identificar um violino Stradivarius ouvindo o som que produz.”

Esta datação permite que os investigadores essencialmente olhem para trás no tempo e discernem o período na história do Universo em que a Via Láctea se formou; uma prática conhecida como arqueologia galáctica.

Não que os cientistas realmente ouçam o som gerado pelos sismos estelares. Ao invés, procuram como o movimento interno é reflectido nas mudanças de brilho.

“As estrelas são apenas instrumentos esféricos cheios de gás,” diz Sharma, “mas as suas vibrações são minúsculas, por isso temos que observar com muito cuidado.”

“As excelentes medições de brilho feitas pelo Kepler foram ideais para isso. O telescópio era tão sensível que seria capaz de detectar o escurecimento do farol de um carro provocado pela passagem de uma pulga.”

Os dados transmitidos pelo telescópio durante os quatro anos após o lançamento em 2009 apresentaram um problema para os astrónomos. As informações sugeriram que havia mais estrelas mais jovens no disco espesso do que os modelos previram.

A pergunta que os cientistas enfrentavam era clara: os modelos estavam errados ou os dados estavam incompletos?

No entanto, em 2013 o Kepler avariou e a NASA reprogramou-o para continuar a trabalhar numa capacidade reduzida – um período que ficou conhecido como missão K2. O projecto envolveu a observação de muitas partes diferentes do céu durante 80 dias de cada vez.

A primeira parcela destes dados representou uma nova fonte rica para Sharma e colegas da Universidade Macquarie, da Universidade Nacional Australiana, da Universidade de Nova Gales do Sul e da Universidade da Austrália Ocidental. À sua análise juntaram-se outras instituições dos EUA, Alemanha, Áustria, Itália, Dinamarca, Eslovénia e Suécia.

Uma análise espectroscópica recente revelou que a composição química incorporada nos modelos existentes para estrelas no disco espesso estava errada, o que afectou a previsão das suas idades. Levando isto em conta, os investigadores descobriram que os dados astero-sísmicos observados caíam agora em “excelente concordância” com as previsões dos modelos.

O professor Stello diz que os resultados fornecem uma forte verificação indirecta do poder analítico da astero-sismologia para estimar idades.

Ele acrescentou que dados adicionais ainda a serem analisados da missão K2, combinados com novas informações recolhidas pelo TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite) da NASA, resultarão em estimativas precisas para as idades de ainda mais estrelas no disco e que isto ajudará a desvendar a história da formação da Via Láctea.

Astronomia On-line
6 de Dezembro de 2019

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2041: Descobertos 18 exoplanetas do tamanho da Terra

Se a órbita de um exoplaneta estiver alinhada de tal como que passa em frente da sua estrela quando visto da Terra, o planeta bloqueia uma pequena fracção da luz estelar de uma maneira muito característica. Este processo, que tipicamente dura apenas algumas horas, tem o nome de trânsito. A partir da frequência deste evento periódico de diminuição de brilho, os astrónomos podem medir directamente a duração do ano no planeta, e a partir da profundidade do trânsito estimar a relação de tamanho entre o planeta e a estrela. O novo algoritmo de Heller, Rodenbeck e Hippke não procura quedas súbitas no brilho como os algoritmos comuns anteriores, mas a diminuição e recuperação gradual e característica. Isto torna o novo algoritmo de pesquisa de trânsito muito mais sensível a planetas pequenos do tamanho da Terra.
Crédito: ASA/SDO (Sol), MPS/René Heller

Cientistas do Instituto Max Planck para Pesquisa do Sistema Solar, da Universidade Georg August de Gotinga e do Observatório de Sonneberg descobriram 18 planetas do tamanho da Terra para lá do Sistema Solar. Os mundos são tão pequenos que as investigações anteriores os ignoraram. Um deles é um dos mais pequenos conhecidos até agora; outro pode albergar condições favoráveis à vida. Os investigadores reanalisaram uma parte dos dados do Telescópio Espacial Kepler da NASA com um método novo e mais sensível que desenvolveram. A equipa estima que o seu novo método tem o potencial de encontrar mais de 100 exoplanetas adicionais no conjunto de dados da missão Kepler. Os cientistas descrevem os seus resultados na revista Astronomy & Astrophysics.

Actualmente conhecemos pouco mais de 4000 planetas em órbita de estrelas para lá do nosso Sistema Solar. Destes chamados exoplanetas, cerca de 96% são significativamente maiores do que a nossa Terra, a maioria deles mais comparável com as dimensões dos gigantes gasosos Neptuno ou Júpiter. Esta percentagem provavelmente não reflecte as condições reais no espaço, dado que planetas pequenos são muito mais difíceis de rastrear do que grandes. Além disso, os mundos pequenos são alvos fascinantes na busca por planetas potencialmente habitáveis, semelhantes à Terra, fora do Sistema Solar.

Os 18 mundos recém-descobertos enquadram-se na categoria de planetas do tamanho da Terra. O mais pequeno tem apenas 69% do tamanho da Terra; o maior tem pouco mais que o dobro do raio do nosso planeta. E têm ainda outra coisa em comum: todos os 18 exoplanetas não puderam ser detectados, até agora, nos dados do Telescópio Espacial Kepler. Os algoritmos de pesquisa comuns não eram suficientemente sensíveis.

Na sua busca por mundos distantes, os cientistas frequentemente usam o chamado método de trânsito para procurar estrelas com quedas periodicamente recorrentes de brilho. Se uma estrela tiver um planeta cujo plano orbital esteja alinhado com a linha de visão da Terra, o planeta oculta uma pequena fracção da luz estelar quando passa em frente da estrela uma vez por órbita.

“Os algoritmos de busca tentam identificar quedas repentinas no brilho,” explica o Dr. René Heller, do Instituto Max Planck, autor principal da publicação actual. “No entanto, na realidade, um disco estelar parece um pouco mais escuro na orla do que no centro. Quando um planeta passa em frente de uma estrela, bloqueia inicialmente menos luz estelar do que no meio do trânsito. A diminuição máxima ocorre no centro do trânsito, antes da estrela se tornar gradualmente mais brilhante outra vez,” explica.

Os planetas grandes tendem a produzir variações de brilho profundas e claras nas suas estrelas hospedeiras, de modo que a variação subtil de brilho do centro ao limbo na estrela dificilmente desempenha um papel na sua descoberta. Os planetas pequenos, no entanto, fornecem aos cientistas imensos desafios. O seu efeito sobre o brilho estelar é tão pequeno que é extremamente difícil de distinguir das flutuações naturais do brilho da estrela e do ruído que necessariamente surge com qualquer tipo de observação. A equipa de René Heller conseguiu agora mostrar que a sensibilidade do método de trânsito pode ser significativamente melhorada, se uma curva de luz mais realista for assumida no algoritmo de busca.

“O nosso novo algoritmo ajuda a traçar um quadro mais realista da população de exoplanetas no espaço,” resume Michael Hippke, do Observatório de Sonneberg. “Este método constitui um avanço significativo, especialmente na busca por planetas parecidos com a Terra.”

Os investigadores usaram dados do Telescópio Espacial Kepler da NASA como uma plataforma de testes para o novo algoritmo. Na primeira fase da missão, de 2009 a 2013, o Kepler registou as curvas de luz de mais de 100.000 estrelas, resultando na descoberta de mais de 2300 planetas. Após um defeito técnico, o telescópio teve que ser usado num modo de observação alternativo, chamado missão K2, mas ainda assim monitorizou mais de 100.000 estrelas até ao final da missão em 2018. Como uma primeira amostra para o seu novo algoritmo, os investigadores decidiram reanalisar todas as 517 estrelas do K2 que já eram conhecidas por abrigarem pelo menos um planeta em trânsito.

Além dos planetas anteriormente conhecidos, os investigadores descobriram 18 novos objectos que haviam sido negligenciados anteriormente. “Na maioria dos sistemas planetários que estudámos, os novos planetas são os mais pequenos,” disse Kai Rodenbeck da Universidade de Gotinga e do Instituto Max Planck, descrevendo os resultados. Além disso, a maioria dos novos planetas orbita a sua estrela mais perto do que os seus companheiros planetários conhecidos. As superfícies destes novos planetas, portanto, provavelmente têm temperaturas bem superiores a 100 graus Celsius. Apenas um dos corpos é uma excepção: provavelmente orbita a sua estrela anã vermelha dentro da chamada zona habitável. A essa distância favorável da sua estrela, este planeta pode fornecer condições sob as quais pode existir água líquida à superfície – um dos pré-requisitos básicos para a vida como a conhecemos na Terra.

Claro, os cientistas não podem descartar que o seu método é também cego a outros planetas nos sistemas que investigaram. Em particular, planetas pequenos a grandes distâncias das suas estrelas hospedeiras são conhecidos por serem problemáticos. Estes exigem mais tempo para completar uma órbita do que os planetas que orbitam as suas estrelas a distâncias menores. Como consequência, os trânsitos exoplanetários em órbitas largas ocorrem com menos frequência, o que torna os seus sinais ainda mais difíceis de detectar.

O novo método desenvolvido por Heller e colegas abre novas possibilidades fascinantes. Além das 517 estrelas que agora estão a ser investigadas, a missão Kepler também fornece conjuntos de dados para centenas de milhares de outras estrelas. Os investigadores assumem que o seu método lhes permitirá encontrar mais de 100 outros mundos do tamanho da Terra nos dados da missão principal do Kepler. “Este novo método também é particularmente útil para preparar a próxima missão PLATO da ESA, com lançamento previsto para 2026,” diz o professor Dr. Laurent Gizon, Director Administrativo do Instituto Max Planck. O PLATO vai descobrir e caracterizar muitos outros sistemas multi-planetários em torno de estrelas parecidas com o Sol, alguns dos quais serão capazes de abrigar vida.

Astronomia On-line
24 de Maio de 2019

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1778: Dois novos planetas descobertos usando Inteligência Artificial

Impressão de artista do Telescópio Espacial Kepler.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/Wendy Stenzel

Astrónomos da Universidade do Texas em Austin, EUA, numa parceria com a Google, usaram Inteligência Artificial (IA) para descobrir mais dois planetas escondidos no arquivo do Telescópio Espacial Kepler. A técnica é promissora no que toca a identificar muitos planetas adicionais que os métodos tradicionais não conseguiram detectar.

Os planetas descobertos desta vez pertencem à missão estendida do Kepler, chamada K2.

Para os encontrar, a equipa, liderada pela estudante Anne Dattilo, criou um algoritmo que examina os dados do Kepler para descobrir sinais que foram perdidos pelos métodos tradicionais de caça exoplanetária. A longo prazo, o processo deverá ajudar os astrónomos a encontrar muitos outros planetas escondidos nos dados do Kepler. As descobertas foram aceites para publicação numa edição futura da revista The Astronomical Journal.

Outros membros da equipa incluem Andrew Vanderburg, também da mesma universidade, e o engenheiro da Google Christopher Shallue. Em 2017, Vanderburg e Shallue usaram pela primeira vez IA para encontrar um planeta em torno de uma estrela do catálogo Kepler – uma já conhecida por abrigar sete planetas. A descoberta tornou esse sistema o único conhecido por ter tantos exoplanetas quanto o nosso.

Datillo explicou que este projecto necessitava de um novo algoritmo, já que os dados obtidos durante a missão prolongada do Kepler, K2, diferem significativamente daqueles recolhidos durante a missão original do telescópio.

“Os dados da missão K2 são mais difíceis de trabalhar porque o telescópio move-se o tempo todo,” explicou Vanderburg. Esta mudança surgiu após uma falha mecânica. Embora os planeadores da missão tenham encontrado uma solução alternativa, o telescópio ficou com uma oscilação que a IA teve que levar em conta.

As missões Kepler e K2 já descobriram milhares de planetas em torno de outras estrelas, com um número igual de candidatos aguardando confirmação. Porque, então, é que os astrónomos precisam de usar Inteligência Artificial para procurar ainda mais nos arquivos do Kepler?

“A IA vai ajudar-nos a examinar o conjunto de dados de maneira uniforme,” disse Vanderburg. “Mesmo que todas as estrelas tivessem um planeta do tamanho da Terra, não os encontraríamos todos. Isto porque alguns dos dados têm muito ruído, ou às vezes os planetas não estão alinhados correctamente. De modo que temos que corrigir os que perdemos. Sabemos que existem muitos planetas por aí que não vemos por esses motivos.

“Se quisermos saber quantos planetas existem no total, precisamos de saber quantos planetas encontrámos, mas também precisamos de saber quantos planetas falhámos em encontrar. É aqui que entra a IA,” explicou.

Os dois planetas que a equipa de Dattilo encontrou “são ambos muito típicos dos planetas encontrados durante a missão k2,” realçou. “Estão muito perto da sua estrela-mãe, têm períodos orbitais curtos e são quentes. São ligeiramente maiores do que a Terra.”

Dos dois planetas, um é chamado K2-293b e orbita uma estrela a 1300 anos-luz de distância na direcção da constelação de Aquário. O outro, K2-294b, orbita uma estrela a 1230 anos-luz de distância, também localizada em Aquário.

Assim que a equipa usou o seu algoritmo para encontrar estes planetas, fizeram observações de acompanhamento com telescópios terrestres para confirmar que os planetas eram reais. Estas observações foram feitas com o telescópio de 1,5 metros no Observatório Whipple do Instituto Smithsonian, no estado norte-americano do Arizona, e com o Telescópio Gillett do Observatório Gemini, no Hawaii.

O futuro do conceito de Inteligência Artificial para encontrar planetas escondidos em conjuntos de dados parece brilhante. O algoritmo actual pode ser usado para examinar todo o conjunto de dados da missão K2, disse Dattilo – aproximadamente 300.000 estrelas. Ela também acredita que o método é aplicável à missão de caça exoplanetária do sucessor do Kepler, o TESS, lançado em Abril de 2018. A missão do Kepler terminou no final desse ano.

Dattilo planeia continuar, no outono, o seu trabalho de usar IA para caçar exoplanetas.

Astronomia On-line
29 de Março de 2019

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