4002: Como estrelas de neutrões em colisão podem lançar luz sobre os mistérios do Universo

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Uma equipa internacional de investigadores descobriu um pulsar invulgar – um dos “faróis” de estrelas de neutrões giratórias e magnetizadas do espaço profundo que emite ondas de rádio altamente focadas dos seus pólos magnéticos.
Crédito: Observatório de Arecibo/Universidade da Florida Central, William Gonzalez and Andy Torres

Uma equipa internacional de investigadores do Centro para Ondas Gravitacionais e Cosmologia da Universidade da Virgínia Ocidental, EUA, fez uma importante descoberta de como podemos entender colisões de estrelas mortas e entender a expansão do Universo.

Descobriram um pulsar invulgar – um dos “faróis” de estrelas de neutrões giratórias e magnetizadas do espaço profundo que emite ondas de rádio altamente focadas dos seus pólos magnéticos.

O pulsar recém-descoberto (conhecido como PSR J1913+1102) faz parte de um sistema binário – o que significa que está em órbita íntima com outra estrela de neutrões. A investigação foi publicada na revista Nature.

“As estrelas de neutrões binárias são relativamente raras, representando menos de 1% da população conhecida de pulsares de rádio,” afirma Maura McLaughlin, professora de física e astronomia e uma das autoras do estudo. “As estrelas de neutrões nestes binários estão gradualmente a aproximar-se uma da outra, pois perdem energia devido à emissão de ondas gravitacionais, e eventualmente fundem-se numa explosão cataclísmica e formam um buraco negro.”

As estrelas de neutrões são remanescentes estelares de uma super-nova. São compostas da matéria mais densa conhecida – acumulando centenas de milhares de vezes a massa da Terra numa esfera do tamanho de uma cidade.

As duas estrelas de neutrões vão colidir daqui a cerca de 500 milhões de anos, libertando quantidades surpreendentes de energia na forma de luz e ondas gravitacionais.

Mas o pulsar recém-descoberto é invulgar porque as massas das suas duas estrelas de neutrões são bem diferentes – uma muito maior que a outra.

“Há apenas alguns anos atrás, detectaram-se ondas gravitacionais e radiação electromagnética da fusão de duas estrelas de neutrões,” disse McLaughlin. “Isto revolucionou a nossa visão das fusões de estrelas de neutrões. Para procurar mais destes eventos, os astrónomos têm que usar modelos que assumem algumas propriedades das estrelas de neutrões e, até agora, estes modelos assumem que as duas estrelas de neutrões em fusão têm massas iguais. No entanto, a descoberta mostra que as estrelas de neutrões nestes sistemas podem ter massas muito diferentes. Isto tem que ser tido em conta na maneira como se procuram estes objectos e também fornece informações sobre o modo como estes binários se formam.”

Na descoberta também esteve envolvido o estudante Nihan Pol, que deverá terminar o seu doutoramento em astrofísica este verão.

Pol serviu como co-líder na parte da síntese populacional desta descoberta com Ben Perera, ex-aluno da Universidade da Virgínia Ocidental. Pol ajudou a desenvolver o software usado para a análise. O resultado dessa análise é que cerca de uma em cada dez fusões observadas de duas estrelas de neutrões será de um sistema como J1913+1102.

“A universidade tem o maior grupo de investigação de estrelas de neutrões/pulsares dos EUA, talvez até do mundo, e foi realmente muito bom para o meu desenvolvimento profissional,” comentou Pol. “É muito emocionante estar envolvido neste tipo de investigação, onde encontramos sistemas novos e exóticos que têm implicações não apenas no estudo da evolução estelar e nos sistemas binários de estrelas de neutrões, mas também no campo relativamente novo da astrofísica das ondas gravitacionais. Estes grandes projectos internacionais fornecem uma oportunidade para aprender como comunicar e colaborar com colegas de todo o mundo e para trabalhar em conjunto para produzir ciência incrível.”

Este sistema assimétrico dá aos cientistas a confiança de que as fusões de estrelas de neutrões duplas vão fornecer pistas vitais sobre mistérios não resolvidos na astrofísica – incluindo uma determinação mais precisa do ritmo de expansão do Universo, conhecida como constante de Hubble.

A descoberta foi feita usando o radiotelescópio Arecibo em Porto Rico.

Astronomia On-line
14 de Julho de 2020

 

spacenews

 

3650: Astrónomos encontram o buraco negro mais próximo da Terra (e é muito sorrateiro)

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

ESO

Uma equipa de astrónomos identificaram o buraco negro mais próximo da Terra conhecido a 1.000 anos-luz do nosso planeta  menos de um terço da distância do anterior recordista.

De acordo com um comunicado do European Southern Observatory (ESO), este buraco negro conseguiu escapar da vista dos astrónomos até agora porque é muito pequeno e sossegado.

Detectar buracos negros é muito mais difícil quando não estão activamente a sugar matéria do espaço circundante, uma vez que não emitem nem refletem qualquer radiação detectável.

Ainda assim, este buraco negro recém-descoberto tinha uma influência. O objecto está localizado num sistema triplo, com duas duas estrelas principais da sequência do tipo B, visíveis da Terra a olho nu, e anteriormente pensadas como um sistema binário, chamado HR 6819.

Quando os astrónomos observaram o sistema como parte de uma investigação sobre estrelas binárias, notaram que havia algo errado: as órbitas das estrelas principais pareciam estar arrastadas.

Uma das estrelas, com uma massa estimada entre 5 e 7 vezes a massa do Sol, orbita um centro gravitacional do sistema a cada 40 dias – e não a outra estrela, que está muito mais distante.

Quando analisadas, as órbitas sugeriam que não havia dois, mas três objectos a dançar em volta um do outro em órbita. O terceiro objecto era invisível.

“Um objecto invisível com uma massa pelo menos quatro vezes maior do que a do Sol só pode ser um buraco negro”, disse Thomas Rivinius, astrónomo do ESO. “Este sistema contém o buraco negro mais próximo da Terra que conhecemos”.

O buraco negro está a pouco mais de 1.000 anos-luz de distância da Terra. Anteriormente, o buraco negro mais próximo conhecido, A 0620-00, localizava-se a 3.300 anos-luz de distância.

A análise da equipe sugere que o buraco negro tem uma massa mínima de cerca de 4,2 massas solares.

Até ao momento, não foram detectados buracos negros menores do que cinco massas solares. Este estudo mostra a viabilidade de procurar buracos negros ao procurar estrelas que se movem de forma estranha.

Até agora, a maioria dos menos de 50 buracos negros de massa estelar detectados na Via Láctea foram vistos quando brilhavam com o intenso calor e luz gerados quando a matéria é sugada. A técnica usada na nova investigação oferece uma forma de encontrar o que se estima ser muitos outros buracos negros que não estão activos.

O estudo foi publicado em Abril na revista científica Astronomy & Astrophysics.

ZAP //

Por ZAP
7 Maio, 2020

 

 

Um “Jekyll e Hyde” cósmico

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Nesta nova imagem de Terzan 5 (direita), os raios-X fracos, médios e altamente energéticos detectados pelo Chandra têm a cor vermelha, verde e azul, respectivamente. À esquerda, uma imagem do Telescópio Espacial Hubble mostra o mesmo campo no visível.
Credito: raios-X – NASA/CXC/Universidade de Amesterdão/N. Degenaar, et al.; óptico – NASA, ESA

De acordo com observações do Observatório de raios-X Chandra da NASA e do VLA (Karl F. Jansky Very Large Array) da NSF (National Science Foundation), um sistema estelar binário tem vindo a alternar entre dois alter-egos. Usando quase uma década e meia de dados do Chandra, os investigadores notaram que um par estelar se comporta como um tipo de objecto antes de mudar a sua identidade e depois regressa ao seu estado original ao fim de alguns anos. Este é um exemplo raro de um sistema estelar que altera o seu comportamento desta maneira.

Os astrónomos encontraram esta volátil estrela dupla, ou sistema binário, numa densa colecção de estrelas, o enxame globular Terzan 5, localizado a mais ou menos 20.000 anos-luz da Terra, na Via Láctea. Esta dupla estelar, conhecida como Terzan 5 CX1, tem uma estrela de neutrões (o remanescente extremamente denso deixado para trás por uma explosão de super-nova) em órbita íntima com uma estrela semelhante ao Sol, mas com menos massa.

Em sistemas binários como Terzan 5 CX1, a estrela de neutrões mais pesada puxa o material da companheira de massa inferior para um disco circundante. Os astrónomos podem detectar estes denominados discos de acreção graças à sua brilhante radiação em raios-X e referem-se a estes objectos como “binários de raios-X de baixa massa.”

O material giratório no disco cai sobre a superfície da estrela de neutrões, acelerando a sua rotação. A estrela de neutrões pode girar cada vez mais depressa até que a esfera com aproximadamente 16 km de diâmetro, com mais massa do que o Sol, gira centenas de vezes por segundo. Eventualmente, a transferência de matéria diminui e o material restante é varrido pelo campo magnético giratório da estrela de neutrões, que se torna num pulsar de milissegundo. Os astrónomos detectam pulsos de ondas de rádio destes pulsares de milissegundo enquanto o feixe de ondas de rádio da estrela de neutrões aponta para a Terra durante cada rotação.

Embora os cientistas esperem que a evolução completa de um binário de raios-X de baixa massa para um pulsar de milissegundo ocorra ao longo de vários milhares de milhões de anos, existe um período de tempo em que o sistema pode alternar rapidamente entre estes dois estados. As observações de Terzan 5 CX1 pelo Chandra mostram que estava a agir como um binário de raios-X de baixa massa em 2003, porque era mais brilhante em raios-X do que qualquer uma das dezenas de outras fontes no enxame globular. Isto era um sinal de que a estrela de neutrões provavelmente estava a acumular matéria.

Nos dados do Chandra obtidos de 2009 a 2014, Terzan 5 CX1 havia se tornado cerca de dez vezes mais fraco em raios-X. Os astrónomos também o detectaram como uma fonte de rádio com o VLA em 2012 e 2014. A quantidade de emissão de rádio e raios-X e os espectros correspondentes (a quantidade de emissão em diferentes comprimentos de onda) concordam com as expectativas de um pulsar de milissegundo. Embora os dados rádio usados não permitam uma busca por pulsos de milissegundo, estes resultados implicam que Terzan 5 CX1 passou por uma transformação, passando a comportar-se como um pulsar de milissegundo e que estava a ejectar material. Quando o Chandra observou Terzan 5 CX1 novamente em 2016, tornou-se mais brilhante em raios-X e voltou a agir novamente como um binário de raios-X de baixa massa.

Para confirmar este padrão de comportamento “Jekyll e Hyde”, os astrónomos precisam de detectar pulsos de rádio enquanto Terzan 5 CX1 é fraco em termos de raios-X. Estão planeadas mais observações no rádio e em raios-X para procurar este comportamento, além de pesquisas sensíveis de pulsos nos dados existentes. Apenas se conhecem três exemplos confirmados destes sistemas que mudam de identidade, o primeiro descoberto em 2013 usando o Chandra e vários outros telescópios de raios-X e rádio.

O estudo do binário “Jekyll e Hyde” foi liderado por Arash Bahramian do ICRAR (International Center for Radio Astronomy Research), Austrália, e publicado na edição de 1 de Setembro de 2018 da revista The Astrophysical Journal.

Dois outros estudos recentes usaram observações de Terzan 5 pelo Chandra para estudar como as estrelas de neutrões de dois diferentes binários de raios-X de baixa massa se recuperam depois de terem recebido grandes quantidades de material despejado na superfície por uma estrela companheira. Tais estudos são importantes para entender a estrutura da camada externa de uma estrela de neutrões, conhecida como crosta.

Num destes estudos, o do binário de raios-X de baixa massa Swift J174805.3–244637 (T5 X-3 para abreviar), o material despejado na estrela de neutrões durante uma explosão de raios-X detectada em 2012 pelo Chandra aqueceu a crosta da estrela. A crosta da estrela de neutrões então arrefeceu, levando cerca de cem dias para voltar à temperatura observada antes da explosão. O ritmo de arrefecimento está de acordo com um modelo de computador deste processo.

Num estudo separado de outro binário de raios-X de baixa massa em Terzan 5, IGR J17480–2446 (T5 X-2 para abreviar), a estrela de neutrões ainda estava a arrefecer quando a sua temperatura foi registada cinco anos e meio depois de se saber ter tido um surto. Estes resultados mostram que a capacidade da crosta desta estrela de neutrões em transferir ou conduzir calor pode ser menor do que a que os astrónomos encontraram noutras estrelas de neutrões a arrefecer ou em binários de raios-X de baixa massa. Esta diferença na capacidade de conduzir calor pode estar relacionada com o facto de T5 X-2 ter um campo magnético maior em comparação com outras estrelas de neutrões em arrefecimento, ou ser muito mais jovem do que T5 X-3.

O trabalho sobre a estrela de neutrões de arrefecimento rápido, liderado por Nathalie Degenaar da Universidade de Amesterdão, Países Baixos, foi publicado na edição de Junho de 2015 da revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. O estudo da estrela de neutrões de arrefecimento lento, liderado por Laura Ootes, na altura da Universidade de Amesterdão, foi publicado na edição de Julho de 2019 da revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.

Astronomia On-line
3 de Março de 2020

 

spacenews

 

2941: Quando os exoplanetas colidem

CIÊNCIA

Impressão de artista que ilustra uma colisão catastrófica entre dois exoplanetas rochosos no sistema planetário BD +20 307, tornando os dois em detritos empoeirados. Há dez anos, os cientistas especularam que a poeira quente neste sistema era o resultado de uma colisão entre dois planetas. Agora, o SOFIA descobriu ainda mais poeira quente, dando ainda mais suporte ao cenário de colisão exoplanetária. Isto ajuda a construir uma imagem mais robusta da história do nosso próprio Sistema Solar. Pensa-se que uma colisão parecida a esta criou, em última análise, a nossa Lua.
Crédito: NASA/SOFIA/Lynette Cook

Um vislumbre dramático das consequências de uma colisão entre dois exoplanetas está a dar aos cientistas uma visão do que pode acontecer quando os planetas colidem. Um evento similar, no nosso próprio Sistema Solar, pode ter formado a Lua.

Conhecido como BD +20 307, este sistema binário fica a mais de 300 anos-luz da Terra e as suas estrelas têm pelo menos mil milhões de anos. No entanto, este sistema maduro mostrou sinais de detritos empoeirados em turbilhão que não são frios, como seria de esperar para estrelas com esta idade. Ao invés, os detritos são quentes, reforçando que foram produzidos há relativamente pouco tempo pelo impacto de dois corpos planetários.

Há uma década, observações deste sistema por observatórios terrestres e pelo Telescópio Espacial Spitzer da NASA forneceram as primeiras pistas desta colisão aquando da descoberta destes os detritos quentes. Agora, o SOFIA (Stratospheric Observatory for Infrared Astronomy) revelou que o brilho infravermelho dos detritos aumentou mais de 10% – um sinal de que existe actualmente ainda mais poeira quente.

Publicados na revista The Astrophysical Journal, os resultados confirmam ainda que uma colisão extrema entre exoplanetas rochosos poderá ter ocorrido há relativamente pouco tempo. Colisões como estas podem mudar os sistemas planetários. Pensa-se que uma colisão entre um corpo do tamanho de Marte e a Terra, há 4,5 mil milhões de anos, tenha criado detritos que eventualmente formaram a Lua.

“A poeira quente em torno de BD +20 307 dá-nos uma ideia do aspecto dos impactos catastróficos entre exoplanetas rochosos,” disse Maggie Thompson, estudante da Universidade da Califórnia em Santa Cruz e autora principal do artigo. “Nós queremos saber como este sistema evolui após o impacto extremo.”

Os planetas formam-se quando partículas de poeira em redor de uma estrela jovem se unem e crescem com o tempo. Os detritos remanescentes permanecem após a formação de um sistema planetário, geralmente em regiões frias e distantes, como a Cintura de Kuiper, localizada para lá de Neptuno no nosso próprio Sistema Solar. Os astrónomos esperam encontrar poeira quente em torno de jovens sistemas solares. À medida que evoluem, as partículas de poeira continuam a colidir e eventualmente tornam-se pequenas o suficiente para serem sopradas do sistema ou puxadas para a estrela. A poeira quente em torno de estrelas mais velhas, como o nosso Sol e as duas do sistema BD +20 307, há muito que devia ter desaparecido. O estudo dos detritos empoeirados em torno de estrelas ajuda os astrónomos não apenas a aprender como os sistemas exoplanetários evoluem, mas também a construir uma imagem mais completa da história do nosso próprio Sistema Solar.

“Esta é uma rara oportunidade para estudar colisões catastróficas que ocorrem no final da história de um sistema planetário,” disse Alycia Weinberger, cientista do Departamento de Magnetismo Terrestre do Instituto Carnegie para Ciência em Washington, EUA, e investigadora principal do projecto. “As observações do SOFIA mostram mudanças no disco empoeirado numa escala de tempo de apenas alguns anos.”

As observações no infravermelho, como aquelas da câmara FORCAST (Faint Object Infrared Camera for the SOFIA Telescope) acoplada ao SOFIA, são cruciais para descobrir pistas escondidas na poeira cósmica. Quando observado no infravermelho, este sistema é muito mais brilhante do que o esperado tendo em conta apenas as estrelas. A energia extra vem do brilho dos detritos de poeira, que não podem ser observados noutros comprimentos de onda.

Embora existam vários mecanismos que podem fazer com que a poeira brilhe com mais intensidade – pode estar a absorver mais calor estelar ou a aproximar-se das estrelas -, é improvável que tal aconteça em apenas 10 anos, o que é extremamente rápido para mudanças cósmicas. Uma colisão planetária, no entanto, injectaria facilmente e rapidamente uma grande quantidade de poeira. Isto fornece mais evidências de que dois exoplanetas colidiram um com o outro. A equipa está a analisar dados das observações de acompanhamento para verificar se existem outras alterações no sistema.

Astronomia On-line
1 de Novembro de 2019