1405: “Síndrome do Inverno.” Investigadores na Antárctida em estado de hibernação psicológica

CIÊNCIA

ESA / IPEV / PNRA–E. Kaimakamis.
A base Concordia

Os investigadores da Antárctida entram em estado de “hibernação psicológica” para lidar com o stress provocado pela escuridão constante e o isolamento típicos do inverno a latitudes extremas.

Passar longos períodos de tempo em isolamento e confinamento em qualquer ambiente causa reacções psicológicas negativas e alterações na saúde. Os investigadores da base da Concordia, na Antárctida, relataram uma variedade de problemas, desde alterações de humor e ansiedade até reacções psiquiátricas mais graves.

Estas mudanças são particularmente evidenciadas durante o período de inverno e refletem os sintomas conhecidos como “síndrome do inverno“.

Com o apoio da Agência Espacial Europeia, cientistas da Universidade de Manchester, no Reino Unido, e da Universidade de Tilburg, na Holanda, examinaram as alterações na qualidade do sono, emoções e estratégias que os investigadores da Antárctida adoptaram durante dois Invernos.

A área em causa tem o clima desértico mais seco da Terra, uma baixa pressão de ar e uma atmosfera muito pobre em oxigénio. No inverno, a temperatura média ronda os -50ºC, sendo que a temperatura mais baixa registada foi de -85ºC.

Através de questionários psicométricos, os cientistas pediram à equipa de investigadores da base Concordia para relatar os seus estados emocionais, sono e estratégias que adoptam para enfrentar esta época o ano.

O estudo, publicado recentemente na Frontiers in Psychology, revela um padrão de deterioração da qualidade do sono e uma diminuição das emoções positivas no inverno, que foram recuperadas assim que o sol começou a brilhar.

Este pormenor surpreendeu os investigadores, que pensaram que os esforços activos para enfrentar este problema, como a resolução de problemas ou o conforto da autoconsciência, diminuíram, dando lugar a esforços passivos como reacções de negação ou depressão.

Os responsáveis pelo estudo ressalvam ainda o facto de as instalações da estação antárctica terem sofrido algumas evoluções, sendo que os investigadores vivem agora com maior conforto. Este facto faz com que este estudo contraste com alguns anteriores, dado que o risco de exposição ao frio era muito maior e os recursos para mitigar o stress era limitados.

Por conseguinte, é provável que os mecanismos que os indivíduos usam para lidar com o stress durante o confinamento a longo prazo nestes locais reflitam as condições em que as pessoas se encontram.

De uma forma geral, esta investigação levanta muitas questões sobre a forma como as pessoas mantêm a sua saúde ao mesmo tempo que vivem neste tipo de condições isoladas. Estes estudos antárcticos são comparáveis ao voo espacial, sendo que este trabalho pode também ajudar a entender a forma ideal de manter os astronautas saudáveis e estáveis em longas missões espaciais.

“As nossas descobertas podem reflectir uma forma de hibernação psicológica. Investigações anteriores sugeriram que este é uma mecanismo de defesa contra o stress crónico”, adianta Nathan Smith, da Universidade de Manchester.

No fundo, o cientista explica que as pessoas sabem que as condições são incontroláveis, mas têm a certeza que, no futuro, as condição melhorarão. Assim, o indivíduo pode optar por reduzir esforços de modo a preservar energia.

ZAP //

Por ZAP
10 Dezembro, 2018

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