A “grande probabilidade” da humanidade extinguir-se em 30 anos

CIÊNCIA

Deserto (Reuters) © TVI24 Deserto (Reuters)

Já lá vai o tempo em que os cientistas e a população consideravam que as alterações climáticas seriam um problema que só afectaria as gerações futuras. A comunidade científica está a apelar aos governos para tomarem atitudes drásticas para conter um aquecimento devastador, e até mesmo fatal, para o planeta e que pode acontecer mais depressa do que se pensava.

Um novo estudo, publicado na terça-feira, alerta para o risco de extinção da própria humanidade nas próximas décadas, caso não sejam tomadas medidas urgentes. A investigação do Breakthrough National Centre for Climate Restoration, na Austrália, aponta para “a grande probabilidade de a civilização humana chegar ao fim” em 30 anos se as tendências actuais permanecerem inalteradas.

Segundo as conclusões, grande parte da Terra vai apresentar condições climatéricas “para lá do limiar da sobrevivência humana”, em 2050. Este cenário apocalíptico teve em conta prospeções científicas recentes, caso os objectivos do Acordo de Paris falhem, algo que se avizinha provável, de acordo com vários estudos e com o próprio Secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

Com base nas previsões, este grupo de cientistas desenhou a seguinte timeline:

De acordo com o relatório, em 2050, 55% da população mundial estaria sujeita a mais de 20 dias anuais de calor superior ao aceitável pelo organismo humano. Em vários países africanos, estas ondas de temperaturas elevadas durariam mais de 100 dias por ano, afectando a agricultura e a possibilidade de produzir bens alimentares.

Aliado ao calor, a Terra seria atormentada por eventos meteorológicos extremos, como secas, incêndios florestais e cheias.

A falta de recursos e mantimentos poderia adensar as tensões sociais em muitos países, fazer proliferar doenças e pandemias e, até, levar a uma guerra à escala mundial, que culminaria, por fim, na extinção da humanidade.

Será que estamos a caminhar para este desastre apocalíptico?

O estudo aponta que estas são previsões “extremas”, que, no pior cenário possível, culminariam com “o fim da civilização humana”. Contudo, os cientistas afirmam que é possível limitar o aquecimento a 1,5 graus Celsius se os governos se aliarem e agirem imediatamente.

Um conselho que foi já dado, vezes sem conta, pelo Secretário-Geral da ONU. Há dois anos, enquanto discursava na Web Summit, António Guterres admitiu que “o Acordo de Paris não é suficiente e mesmo que os objectivos do comité sejam alcançados, as temperaturas vão subir mais de três graus [até ao final do século] e também é claro que nem todos os países estão a cumprir aquilo que foi estabelecido”.

Num discurso mais recente, em Setembro de 2018, numa conferência especial do clima, salientou que, se os governos de todo o mundo não tomarem medidas para deter o aquecimento global até 2020, corremos o risco de perder a batalha contra as alterações climáticas.

Em Novembro do mesmo ano, um relatório da ONU deu mais algumas más notícias sobre os progressos (ou a falta deles) no ambiente desde que o Acordo de Paris foi assinado. Segundo o “Emissions Gap Report 2018”, as nações de todo o mundo estão a falhar a tarefa de limitar o aquecimento global em 2 graus e precisam do triplo dos esforços para atingir os objectivos até 2030.

O relatório anual afirmava ainda que, em vez de diminuir, o nível global de emissões de CO2 aumentou em 2017 0,7 giga-toneladas, fixando-se agora em 53,5 giga-toneladas. Para limitar o aquecimento global em 1,5 graus, as emissões de gases com efeito de estufa devem ser reduzidas em 55% até 2030, e em 25% para travar um aquecimento de 2 graus.

Durante a abertura da cimeira COP24, a presidente da Assembleia Geral da ONU, Maria Espinosa, garantiu que, ao ritmo que estamos a testemunhar as mudanças hoje em dia,a humanidade está em “risco de desaparecer. Precisamos de tomar acções urgentes e com audácia. Sejam ambiciosos, mas também responsáveis pelas gerações futuras”.

O retrato negro desta “futurologia climática” não se fica por aqui. Segundo um estudo publicado pelo Met Office, do Reino Unido, a média de temperaturas globais na Terra pode ultrapassar os objectivos do Acordo de Paris em apenas cinco anos. Os cientistas desta instituição estão a prever um aumento provável da temperatura em mais de 1 grau, até 1,5 graus Celsius, em relação ao níveis pré-industriais antes de 2022.

As previsões vão também ao encontro das conclusões publicadas num relatório da Organização Meteorológica Mundial, divulgado em Novembro do ano passado. Os dados recolhidos pela instituição apontam para um provável aumento das temperaturas globais entre 3 e 5 graus Celsius até ao final do século.

Neste documento foram ainda publicados os seguintes indicadores preocupantes:

Os modelos climáticos para as mudanças possíveis provocadas pelas alterações climáticas já fizeram correr muita tinta nos últimos anos, mas um estudo destacou-se em relação aos restantes, pela firmeza com que sublinhou que os cenários mais pessimistas do clima “são os mais fiáveis“. Esta investigação, publicada no jornal “Nature”, indica que, se as emissões seguirem as tendências actuais, há 93% de hipóteses de o aquecimento global ultrapassar os 4 graus até ao final deste século.

A ciência mostra-nos também hoje que aqueles que nas últimas décadas se dedicaram ao estudo do aquecimento global falharam importantes previsões. Não souberem quantificar a dimensão e a gravidade que estão a assumir os fogos florestais, as secas, as chuvas e as tempestades; falharam na avaliação do degelo na Antárctida e na Gronelândia, bem como na sua implicação para a subida do nível do mar; e falharam na identificação de uma série de problemas de saúde pública, que matam já milhares de pessoas por ano.

Dados recentes deixam preocupações crescentes com o ambiente

A luz ao fundo do túnel

O ano de 2030 parece ser apontado como a meta para salvar ou condenar o planeta Terra. De acordo com a ONU, temos 11 anos para limitar o aquecimento global em 1,5 graus. As Nações Unidas garantem que, para isso, são necessárias “transições sem precedentes em todos os aspectos da sociedade“.

Para tal, a ONU aponta que é necessário limitar a produção de gases com efeito de estufa, que, apesar de terem crescido em 2017, viram uma estagnação nos dois anos precedentes.

Para além disto, os especialistas salientam que o cumprimento das metas do Acordo de Paris pode salvar mais de um milhão de vidas por ano. Para isto, os países que assinaram o tratado foram chamados a assinar um “manual de condutas” para assegurar que todos os objectivos são cumpridos, na cimeira do COP24, que se realizou em Dezembro de 2018.

Para além disto, estão a ser desenvolvidas tecnologias que visam combater as alterações climáticas. A força crescente das energias renováveis está já a impedir que milhões de toneladas de CO2 cheguem à atmosfera.

Esta diminuição pode ainda ser especialmente sentida em Portugal que, de acordo com dados da Eurostat, reduziu emissões de CO2 em 9%, mais do triplo da média europeia (2,6%).

Por fim, há ainda a esperança que os EUA voltem a integrar o Acordo de Paris e a juntar forças com os restantes países do mundo para tentar travar o aquecimento global.

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Susana Laires



2047: Subida do nível da água do mar ameaça 146 mil portugueses

CIÊNCIA

Ariane Rummery / ONU

– Na minha incrível ignorância, mas conhecedor das paisagens tropicais equatoriais, ao vivo e a cores, gostaria de saber, se alguém conseguir explicar-me, se a imagem acima é de alguma das zonas anunciadas (Setúbal, Faro ou Aveiro), dado que não reconheço este tipo de paisagem mas zonas referidas sendo que a imagem é de uma senhora que deve trabalhar para a ONU. Não existia nenhuma imagem de arquivo para ilustrar a notícia?

Setúbal, Faro e Aveiro são as zonas de maior risco, de acordo com as projecções até 2050. Segundo este estudo recente, cerca de 146 mil portugueses podem ficar numa situação vulnerável já nesse ano, perante uma subida média de um metro no nível da água do mar.

Cerca de 146 mil pessoas que vivem na faixa de risco em 11 concelhos e distritos de Portugal continental podem ficar uma situação vulnerável já em 2050, perante uma subida média de um metro no nível do mar, de acordo com o cenário projectado na “Cartografia de risco costeiro associado à subida do nível do mar como consequência das alterações climáticas”, elaborada por uma equipa da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Segundo o Expresso, o número pode, no entanto, subir para 225 mil até 2100. A projecção é feita com base nos censos de 2011, cruzados com dados da cartografia de inundação e de vulnerabilidade física costeira num cenário extremo de maré cheia, coincidente com um período de marés vivas equinociais e uma intempérie semelhante ao “Hércules” que, em 2014, deixou um rasto de destruição em vários pontos do litoral.

Segundo os investigadores, os distritos mais afectados são Setúbal, Faro e Aveiro. Contudo, os cenários podem vir a ser ainda piores, uma vez que, recentemente, outra equipa de cientistas apontou, num artigo científico, para uma subida de dois metros do nível médio do mar, o dobro da projectada até aqui.”

Em Portugal, 14% da população vive na faixa de dois quilómetros ao longo da linha de preia-mar”, alerta Carlos Antunes, coordenador da equipa da Universidade de Lisboa, ao semanário.

O investigador acrescenta que municípios como Lisboa e Loulé já lhe pediram uma cartografia de risco minuciosa de modo a incorporarem estes dados nos respectivos PDM e orientarem o ordenamento do seu território. Projectos como este permitem aos decisores políticos, locais e nacionais, adoptarem medidas de adaptação às alterações climáticas.

“Mais do que as autoridades nacionais, cujos investimentos nos Programas da Orla Costeira só abrangem os concelhos do litoral (quando muitas das pessoas afectadas estão em zonas de rio e estuário), são os municípios que estão a agir”, afirmou Carlos Antunes.

Em 2015, Portugal criou uma Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas e o Governo deverá agora aprovar o Plano de Acção para a concretizar no Conselho de Ministros extraordinário marcado para o próximo dia 6 de Junho. O Ministério do Ambiente aprovou 180 milhões para obras de protecção de pessoas e bens face aos avanços do mar e 100 milhões para a rede hidrográfica.

“Mais de 60 municípios têm já estratégias ou estão em vias de as ter, com a grande vantagem de criar massa crítica dentro e entre municípios e permite orientar financiamentos comunitários”, afirma o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, Nuno Lacasta, também citado pelo Expresso.

Subida do nível das águas pode atingir 2 metros em 2100

Estimativas anteriores sugeriram que o nível das águas do mar poderia subir cerca de 98 centímetros até 2100. Agora, especialistas estão a dizer que pode ser mais do dobro.

É uma má notícia para todos. “Tal aumento no nível global do mar pode resultar numa perda de terra de 1,79 milhão de quilómetros quadrados, incluindo regiões críticas de produção de alimentos e potencial deslocamento de até 187 milhões de pessoas”, disse Jonathan Bamber, da Universidade de Bristol, em comunicado. “Um aumento do nível do mar desta magnitude teria claramente profundas consequências para a humanidade”.

Para colocar as coisas em perspectiva, esta é uma massa equivalente a sete Califórnias ou 17 Floridas. Essa é uma população maior que o Canadá, a Alemanha e o Reino Unido – juntos. Isso colocaria em risco cidades como Nova York, Londres e Xangai.

Bamber e os colegas reuniram o trabalho de 22 investigadores, líderes no seu campo, sobre o derretimento das camadas de gelo da Gronelândia e da Antárctida. Juntas, as descobertas sugerem que, se nos mantivermos nas metas estabelecidas no Acordo de Paris e as temperaturas globais não ultrapassarem 2°C acima dos níveis pré-industriais até o final do século, o nível do mar provavelmente aumentará 26 centímetros (estimativa mediana) – mas pode subir até 81 centímetros.

Mas se falharmos no Acordo de Paris, o aquecimento provavelmente aumentará para 5°C acima dos níveis pré-industriais e podemos esperar um aumento entre 51 e 178 centímetros. Quando se adiciona a expansão térmica e as contribuições dos glaciares, esse número excede os 2 metros, dizem os autores do estudo, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

As possíveis contribuições de derretimento das camadas de gelo (ou glaciares continentais) para o aumento do nível do mar são a maior fonte de incerteza que enfrentamos actualmente.

No entanto, estudos recentes destacaram o efeito de vários feedbacks positivos (que aceleram o derretimento) e feedbacks negativos (que fazem o oposto) que podem ocorrer no derretimento geral do gelo no futuro.

Além do mais, podemos ver com os nossos próprios olhos a aceleração do derretimento glacial, que está a acontecer a um ritmo mais rápido do que o esperado. A boa notícia é que um aumento de 2 metros é improvável – mas não impossível.

ZAP // IFL Science

Por ZAP
25 Maio, 2019


1526: Os smartphones podem estar a pôr em risco elementos da Tabela Periódica

(dr) University of St Andrews

Elementos químicos vitais foram incluídos numa “lista ameaçada”. A culpa, dizem os cientistas, é da mania de trocar de telemóvel cada vez que surge um modelo novo no mercado.

2019 é o Ano Internacional da Tabela Periódica dos Elementos Químicos, dado que este ano se assinalam 150 anos desde que esta tabela foi criada. No entanto, vivemos num momento em que o avanço tecnológico é também uma ameaça e um risco inesperado. E tudo por causa dos telemóveis.

Os smartphones são compostos por cerca de 30 elementos químicos. A equipa de especialistas da Universidade de St Andrews, na Escócia, onde se descobriu a mais antiga tabela periódica do mundo, considera que isso tem feito aumentar as preocupações com a sua crescente escassez.

Em alguns casos, estes recursos são limitados, sobretudo aqueles localizados em áreas de conflito. Além disso, a incapacidade de reciclar os equipamentos só agrava a situação.

Cobre, ouro e prata, na composição; lítio e cobalto na bateria; alumínio, silício, oxigénio e potássio no ecrã: estes são os elementos químicos mais utilizados nos smartphones. A Visão acrescenta também que as cores brilhantes que aparecem no visor têm pequenas quantidades de outros elementos mais raros, como o ítrio, o térbio e o disprósio, que também ajudam o telemóvel a vibrar.

Este problema levou o professor emérito da Universidade de St Andrews, David Cole-Hamilton, a questionar se as pessoas têm, de facto, necessidade de mudar de telemóvel a cada dois anos. “Há uma quantidade finita de cada um destes elementos e estamos a gastar alguns tão rapidamente que certamente desaparecerão em menos de 100 anos.”

Mas, além de lançar a questão, o especialista projectou uma nova Tabela Periódica na qual deixou bem visível o grau de escassez de cada um dos elementos usados nos dispositivos electrónicos.

A nova tabela foi apresentada na terça-feira, no Parlamento Europeu, sendo que o novo design é também parte de projecto da European Chemical Society, representando mais de 160 mil químicos.

Só na União Europeia, são descartados ou substituídos cerca de 10 milhões de smartphones todos os meses.

ZAP //

Por ZAP
27 Janeiro, 2019

 

1355: O bacalhau está em risco (e a culpa é das alterações climáticas)

CIÊNCIA

Terry Kearney / Flickr

O bacalhau pode deixar as águas da Noruega e sofrer uma redução drástica da população caso a temperatura global aumente mais do que 1,5 graus celsius, alerta uma investigação do instituto alemão Alfred Wegener.

De acordo com o estudo do Centro Helmholtz de Pesquisa Polar e Marinha, que realiza pesquisas nomeadamente nos oceanos Árctico e Antárctico, com as alterações climáticas e a subida das temperaturas há uma alta probabilidade de se perderem os actuais locais de criação do bacalhau.

Se a meta de conter o aquecimento global em 1,5 graus acima dos valores da era pré-industrial, conforme previsto no Acordo de Paris sobre redução de emissões de gases com efeito de estufa, não for alcançada, com o aquecimento e acidificação do oceano, o bacalhau do Atlântico e o bacalhau polar serão forçados a procurar novos habitats no extremo norte e as populações podem diminuir, indica a investigação.

Os investigadores dizem que tal pode ser “desastroso”, porque o bacalhau polar é a mais importante fonte alimentar para as focas e aves marinhas do Árctico.

Ao mesmo tempo, os pescadores podem perder a região mais produtiva do mundo para a captura do bacalhau, localizada a norte da Noruega. Os resultados do estudo indicam que uma política climática rigorosa pode prevenir as piores consequências, quer para animais quer para seres humanos.

Há peixes, como o bacalhau, que preferem água fria e só desovam em água fria. O bacalhau do Atlântico, um dos alimentos preferidos dos portugueses, desova em águas entre três a sete graus e o bacalhau polar desova a temperaturas entre os zero e os 1,5 graus celsius. Os investigadores Flemming Dahlke e Daniela Storch defendem que esta dependência da água fria pode ser fatal para as duas espécies, devido às mudanças climáticas, especialmente o aquecimento das águas do Atlântico Norte e do Árctico.

A juntar-se a esse aquecimento, a menos que se reduzam drasticamente as emissões de dióxido de carbono e gases com efeito de estufa, vai acontecer a acidificação das águas. Porque quanto mais dióxido de carbono é lançado para a atmosfera mais se dissolve no oceano, onde na ligação com a água forma ácido carbónico, que acidifica quando decai.

“Isso significa que o bacalhau do Atlântico e o bacalhau polar serão duplamente stressados no futuro, o seu habitat irá aquecer e ao mesmo tempo acidificar“, diz Flemming Dahlke, ecologista marinho.

A investigação concentrou-se especialmente nos embriões, concluindo que no momento da eclosão os bacalhaus são muito sensíveis às mudanças das condições ambientais.

As descobertas dos cientistas indicam que nas duas espécies de bacalhau um mesmo que pequeno aumento da temperatura pode causar a morte dos ovos ou produzir deformações nas larvas. E com a acidificação da água, ainda que ela esteja a uma temperatura óptima, o número de embriões que não sobrevive sobe de 20% para 30%, de acordo com as experiências dos investigadores.

As costas da Islândia e da Noruega abrigam actualmente as maiores populações de bacalhau do Atlântico, onde são pescadas todos os anos cerca de 800 mil toneladas, no valor de dois mil milhões de euros.

ZAP // Lusa

Por ZAP
30 Novembro, 2018