1668: Se quiser salvar o planeta, tem de parar de ser seu amigo

Olearys / Flickr

Uma nova teoria sugere que repensemos a nossa relação com o meio ambiente como uma troca social, levando à crença de que o comportamento “ecologicamente correto” pode fomentar o comportamento “prejudicial”.

O novo estudo, publicado recentemente na Frontiers in Psychology, revela de que forma os anunciantes, políticos e sistemas económicos lidam com a psicologia da “compensação climática” e encoraja uma abordagem mais responsável e racional.

Mesmo que o tentemos tratar bem, a verdade é que prejudicamos o meio ambiente. Segundo os investigadores, é virtualmente impossível acompanhar o impacto ambiental de cada uma das nossas acções e é por isso que recorremos muitas vezes a regras práticas mentais para avaliar a nossa pegada ecológica.

Mas esta técnica tem um problema: os julgamentos inatos e intuitivos evoluíram para lidar com a interacção social, onde decisões moralmente corretas e incorrectas podem mais facilmente anular-se umas às outras.

Na prática, o que os cientistas querem dizer é que todo o consumo causa danos ambientais permanentes. As opções ecológicas são, na melhor das hipóteses, menos prejudiciais do que restaurativas.

Não podemos beijar o planeta e a seguir maquilhá-lo. Ir às Caraíbas acarretará um enorme fardo ambiental, não importa quantas segundas-feiras livres de carne você tenha”, o principal autor da teoria, Patrik Sorqvist, professor de Psicologia Ambiental na Universidade de Gavle, Suécia, citado pelo EurekAlert.

O comportamento ecológico pode mesmo ser prejudicial

Tentar salvar o planeta pode ser mais prejudicial do que benéfico. A teoria baseia-se essencialmente na ideia de que as pessoas veem a relação com o meio ambiente como uma troca social, quando na verdade o que fazem contra o meio ambiente num dia não pode ser suavizado ao fazerem algo bom no dia seguinte.

Segundo a teoria de psicólogos suecos, as pessoas prejudicam o meio ambiente mesmo quando tentam tratá-lo bem. É que, como é virtualmente impossível acompanhar todo o impacto ambiental das nossas acções, recorremos a regras práticas mentais, por exemplo comprando produtos “amigos do ambiente” para compensar outros prejudiciais.

Mas a verdade é que o que há é produtos mais ou menos prejudiciais. Ajudar o ambiente é não comprar produtos para o compensar, dizem os responsáveis, segundo os quais no ambiente as decisões moralmente corretas e incorrectas não se anulam, como pode acontecer nas interacções sociais.

“A reciprocidade e o equilíbrio tem sido fundamental nas relações sociais, e portanto para a sobrevivência, pelo que o cérebro humano se especializou através na selecção natural em calcular e procurar esse equilíbrio. Mas quando aplicado às alterações climáticas esse pensamento social de dar e receber leva ao equívoco de que as escolhas ‘verdes’ compensam as não sustentáveis”, disse o principal autor.

Na verdade, todo o consumo causa danos ambientais permanentes e as opções ecológicas são quando muito menos prejudiciais. Mas não reparam o dano.

Os autores do trabalho citam outros estudos para dizer que quando se junta a etiqueta “amigo do ambiente” num conjunto de produtos as pessoas acreditam que o impacto ambiental do conjunto é reduzido, ou que a carga ambiental de um hambúrguer acompanhado por uma maçã biológica é menor do que se for apenas um hambúrguer.

“As pessoas pensam que podem comprar mais produtos porque são etiquetados como amigos do ambiente, acham que podem justificar uma viagem de férias porque vão de bicicleta para o trabalho, ou que podem tomar banhos mais longos porque reduziram a temperatura da água. E as empresas, e mesmo nações, afirmam equilibrar as emissões de gases com efeito de estufa plantando árvores ou pagando compensações de carbono”, salientou Sorqvist.

E concluiu: “No entanto a melhor coisa para o meio ambiente seria, naturalmente, consumirmos menos no geral”.

Legislação mais rigorosa e uma estimativa obrigatória da pegada ecológica dos produtos podia ajudar as pessoas nas suas escolhas, evitando que se tomem opções prejudiciais ao meio ambiente em nome da compensação climática.

ZAP // Lusa

Por ZAP
5 Março, 2019

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