3103: Tal como as crianças, corvos conseguiram passar no teste do “marshmallow”

CIÊNCIA

Fyn Kynd / Flickr

Mais uma vez, os corvos demonstraram a sua inteligência ao participarem num teste cognitivo que prova que conseguem ter tanto autocontrolo como as crianças.

A investigação, conduzida no corvo-da-nova-caledónia (Corvus moneduloides), é a primeira deste género a ser realizada em crianças e em corvos simultaneamente e baseia-se no famoso teste dos anos 60 chamado “experimento do marshmallow.

Segundo o Science Alert, o teste consiste em colocar uma criança numa sala com um marshmallow e é-lhe dito que, se conseguir não o comer durante 15 minutos, recebe um segundo.

Esta habilidade para adiar a gratificação demonstra habilidades cognitivas como planeamento futuro e foi originalmente conduzida para estudar como a cognição humana se desenvolve. Especificamente, com que idade é que um ser humano é inteligente o suficiente para atrasar a gratificação se isso significar um melhor resultado posteriormente.

Conduzido pela psicóloga Rachael Miller, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, os investigadores fizeram uma versão deste teste para corvos, que consistia numa bandeja giratória dentro de uma caixa transparente com uma janela que permitia chegar ao tabuleiro.

Então, duas guloseimas foram colocadas no aparelho — uma disponível imediatamente e uma ainda melhor (que podia ser de melhor qualidade ou mais quantidade da inicial) que ficava disponível quando a bandeja girava após um curto período de tempo.

Nove corvos e 61 crianças, entre os três e os cinco anos, foram treinados para perceber como o aparelho funcionava e depois testados em duas condições — com as recompensas visíveis e com uma ou ambas escondidas sob uma tampa.

Quando as recompensas eram visíveis, as crianças e os corvos eram realmente bons em atrasar a gratificação pela recompensa melhor — e, notavelmente, estavam muito mais dispostos a esperar quando o tratamento era de melhor qualidade do que quando havia apenas mais do mesmo.

De acordo com o mesmo site, isto demonstrou nos corvos que estavam dispostos a esperar porque queriam um snack melhor, e não por terem fome.

(dr) Miller et al., Animal Cognition, 2019

Porém, quando se tratava das guloseimas escondidas, as crianças tinham um melhor desempenho do que os corvos. Não é ainda exactamente claro porque é que isto acontece, mas, segundo a equipa, pode estar relacionado com a selvageria dos corvos.

Sempre que o cientista estava a tratar do tabuleiro, os corvos só se aproximavam depois de este ter saído, ou seja, não sabiam qual era a recompensa escondida e tinham de confiar na sua dedução para descobrir se valia a pena esperar por ela. As crianças, por sua vez, não tinham esse receio e conseguiam ver o investigador a colocar as recompensas e assim lembrar-se do que estava por baixo da tampa.

Os resultados são consistentes com os de um estudo, realizado em 2014, que se baseou no mesmo experimento. Os corvos-da-nova-caledónia recebiam uma recompensa e eram treinados para perceber que, se esperassem, receberiam uma ainda melhor, em qualidade ou em quantidade. Também neste caso os pássaros mostraram que estavam mais dispostos a esperar por uma iguaria melhor do que por uma quantidade maior de um snack de pior qualidade.

No mesmo ano, uma outra pesquisa mostrou que este corvo consegue entender a causa e efeito, tal como uma criança. Quando submetidos a um teste de deslocamento de água — uma série de tubos de água e uma recompensa a flutuar fora do seu alcance —, os corvos foram capazes de colocar objectos na água para elevar o nível e alcançar a comida.

Logo, é possível que, se os corvos fossem capazes de aprender a observar o humano a colocar a guloseima, conseguissem sair-se tão bem como as crianças no teste em que a recompensa está escondida.

“Estes resultados contribuem para a nossa compreensão do autocontrolo em pássaros e em humanos e, particularmente, para alguns dos factores contextuais que podem influenciar o desempenho nessas tarefas”, escreveram os investigadores no artigo publicado, em Outubro, na revista científica Animal Cognition.

“Estes factores devem ser tidos em conta ao projectar experimentos futuros e ao comparar o desempenho entre espécies diferentes. Portanto, as nossas descobertas ajudam a fornecer uma base para futuras pesquisas sobre os mecanismos de autocontrolo”.

ZAP //

Por ZAP
27 Novembro, 2019

 

1668: Se quiser salvar o planeta, tem de parar de ser seu amigo

Olearys / Flickr

Uma nova teoria sugere que repensemos a nossa relação com o meio ambiente como uma troca social, levando à crença de que o comportamento “ecologicamente correto” pode fomentar o comportamento “prejudicial”.

O novo estudo, publicado recentemente na Frontiers in Psychology, revela de que forma os anunciantes, políticos e sistemas económicos lidam com a psicologia da “compensação climática” e encoraja uma abordagem mais responsável e racional.

Mesmo que o tentemos tratar bem, a verdade é que prejudicamos o meio ambiente. Segundo os investigadores, é virtualmente impossível acompanhar o impacto ambiental de cada uma das nossas acções e é por isso que recorremos muitas vezes a regras práticas mentais para avaliar a nossa pegada ecológica.

Mas esta técnica tem um problema: os julgamentos inatos e intuitivos evoluíram para lidar com a interacção social, onde decisões moralmente corretas e incorrectas podem mais facilmente anular-se umas às outras.

Na prática, o que os cientistas querem dizer é que todo o consumo causa danos ambientais permanentes. As opções ecológicas são, na melhor das hipóteses, menos prejudiciais do que restaurativas.

Não podemos beijar o planeta e a seguir maquilhá-lo. Ir às Caraíbas acarretará um enorme fardo ambiental, não importa quantas segundas-feiras livres de carne você tenha”, o principal autor da teoria, Patrik Sorqvist, professor de Psicologia Ambiental na Universidade de Gavle, Suécia, citado pelo EurekAlert.

O comportamento ecológico pode mesmo ser prejudicial

Tentar salvar o planeta pode ser mais prejudicial do que benéfico. A teoria baseia-se essencialmente na ideia de que as pessoas veem a relação com o meio ambiente como uma troca social, quando na verdade o que fazem contra o meio ambiente num dia não pode ser suavizado ao fazerem algo bom no dia seguinte.

Segundo a teoria de psicólogos suecos, as pessoas prejudicam o meio ambiente mesmo quando tentam tratá-lo bem. É que, como é virtualmente impossível acompanhar todo o impacto ambiental das nossas acções, recorremos a regras práticas mentais, por exemplo comprando produtos “amigos do ambiente” para compensar outros prejudiciais.

Mas a verdade é que o que há é produtos mais ou menos prejudiciais. Ajudar o ambiente é não comprar produtos para o compensar, dizem os responsáveis, segundo os quais no ambiente as decisões moralmente corretas e incorrectas não se anulam, como pode acontecer nas interacções sociais.

“A reciprocidade e o equilíbrio tem sido fundamental nas relações sociais, e portanto para a sobrevivência, pelo que o cérebro humano se especializou através na selecção natural em calcular e procurar esse equilíbrio. Mas quando aplicado às alterações climáticas esse pensamento social de dar e receber leva ao equívoco de que as escolhas ‘verdes’ compensam as não sustentáveis”, disse o principal autor.

Na verdade, todo o consumo causa danos ambientais permanentes e as opções ecológicas são quando muito menos prejudiciais. Mas não reparam o dano.

Os autores do trabalho citam outros estudos para dizer que quando se junta a etiqueta “amigo do ambiente” num conjunto de produtos as pessoas acreditam que o impacto ambiental do conjunto é reduzido, ou que a carga ambiental de um hambúrguer acompanhado por uma maçã biológica é menor do que se for apenas um hambúrguer.

“As pessoas pensam que podem comprar mais produtos porque são etiquetados como amigos do ambiente, acham que podem justificar uma viagem de férias porque vão de bicicleta para o trabalho, ou que podem tomar banhos mais longos porque reduziram a temperatura da água. E as empresas, e mesmo nações, afirmam equilibrar as emissões de gases com efeito de estufa plantando árvores ou pagando compensações de carbono”, salientou Sorqvist.

E concluiu: “No entanto a melhor coisa para o meio ambiente seria, naturalmente, consumirmos menos no geral”.

Legislação mais rigorosa e uma estimativa obrigatória da pegada ecológica dos produtos podia ajudar as pessoas nas suas escolhas, evitando que se tomem opções prejudiciais ao meio ambiente em nome da compensação climática.

ZAP // Lusa

Por ZAP
5 Março, 2019

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