2452: Pela primeira vez, foi encontrada uma rara poeira interestelar na neve da Antárctida

ravas51 / Wikimedia

Cientistas que estudavam a neve recém-caída na Antárctida descobriram um raro isótopo de ferro na poeira interestelar escondido dentro dela, sugerindo que a poeira apareceu recentemente.

Esta descoberta poderia dar informações cruciais sobre a história das explosões estelares na nossa vizinhança galáctica.

Sabe-se que a poeira cósmica cai na Terra a toda a hora, em forma de minúsculos fragmentos do entulho da formação de estrelas e planetas. A Antárctida é um óptimo lugar para procurar essa poeira, porque é uma das regiões mais preservadas da Terra, tornando mais fácil encontrar isótopos que não se originaram no nosso próprio planeta.

Neste caso, o isótopo que os investigadores identificaram é o raro 60Fe (ou ferro-60), uma das muitas variantes radioactivas do ferro. Anteriormente, a presença deste ferro em sedimentos do fundo do mar e restos fossilizados de bactérias sugeriu que uma ou mais super-novas explodiram nas proximidades da Terra entre 3,2 e 1,7 milhões de anos atrás.

O novo estudo marca a primeira vez que o ferro interestelar 60 foi detectado na recente neve da Antárctida – a poeira terá caído dos céus nos últimos 20 anos, de acordo com os investigadores.

“Fiquei pessoalmente muito surpreendido, porque era apenas uma hipótese de que poderia haver ferro-60 e era ainda mais incerto que o sinal fosse suficientemente forte para ser detectado”, disse o físico nuclear Dominik Koll, da Universidade Nacional da Austrália, ao ScienceAlert.

“Foi um momento muito alegre quando vi a primeira contagem de ferro 60 aparecer nos dados, porque significa que a nossa imagem astrofísica geral pode não estar muito errada.”

A imagem é a seguinte: o Sistema Solar está actualmente a viajar através do que é conhecido como Nuvem Interstelar Local (LIC), uma bolsa de meio interestelar denso que contém muita poeira interestelar.

Se o ferro-60 tiver sido depositado na Terra nos últimos anos, isso ajuda a validar a ideia de que a nossa vizinhança galáctica local e a sua composição particular de estrelas estelares inter-estelares podem ter sido moldadas pela explosão de estrelas.

Isto também pode ajudar a identificar melhor a nossa localização no LIC e durante quanto tempo o Sistema Solar está a passar por ele. “Esperamos um aumento acentuado no fluxo de ferro-60 na época em que o Sistema Solar entrou no LIC”, escreveu a equipa no estudo, publicado em Agosto na revista especializada Physical Review Letters.

O presente estudo envolveu uma análise química de espectrometria de massa altamente sensível realizada em 500 quilogramas de neve removida da Antárctida e cuidadosamente transportada para a Alemanha – para um dos dois únicos locais em todo o mundo onde esse tipo de análise pode ser realizado.

“Não há ferro estável ou outros elementos abundantes na Antárctida, o que ajuda muito na medição das relações 60Fe / Fe”, disse Koll ao ScienceAlert. “A neve foi tirada com uma pá e foi acondicionada em caixas de armazenamento que foram mantidas abaixo de 0°C para manter a neve congelada até chegar a Munique.”

Os investigadores mediram as proporções de outros elementos isótopos na sua amostra, para garantir que o isótopo de ferro fosse de origem verdadeiramente interestelar. Isto permitiu-lhes descartar outras possíveis origens mais próximas de casa, como rochas espaciais dentro do nosso Sistema Solar irradiadas com raios cósmicos ou mesmo testes de armas nucleares.

ZAP //

Por ZAP
16 Agosto, 2019

 

2024: Lançada para captar ondas gravitacionais, sonda espacial faz descoberta surpreendente

Lançada no Espaço em 2015 para estudar ondas gravitacionais, a sonda LISA Pathfinder da Agência Espacial Europeia (ESA) também pode fornecer em breve informações valiosas sobre a natureza de outro fenómeno enigmático: a poeira interplanetária.

Um estudo recente, conduzido por cientistas que analisaram os dados fornecidos pelos sistemas da sonda, revelou que a LISA Pathfinder foi atingida pela passagem de grãos de poeira cósmica em pelo menos 50 ocasiões. Ao examinar essas colisões, a equipa de cientistas conseguiu descobrir a origem da poeira.

Usando métodos de modelagem computacional normalmente usados ​​para desvendar sinais de ondas gravitacionais, a equipa conseguiu determinar de onde vinham os grãos de poeira.

Esta informação sugere que a maior parte dessa poeira chamada “zodiacal” – que está espalhada por toda a nossa vizinhança planetária – foi depositada por cometas da família de Júpiter e por cometas tipo Halley, avança o PhysicsWorld.

“O que torna esta técnica possível é a excelente precisão dos sensores da LISA Pathfinder. Usamos um interferómetro de laser para medir a distância entre as massas de teste e a sonda com uma precisão de menos de um trilionésimo de metro”, explicou Ira Thorpe, membro da equipa que realizou os cálculos na NASA.

O estudo sugere que a maior parte da poeira que permeia o Espaço nas vizinhanças do nosso planeta é então proveniente de cometas que circundam Júpiter “com alguma evidência de uma contribuição menor dos cometas do tipo Halley”. Esta descoberta “é inteiramente consistente com os modelos e outras observações independentes”, afirmou.

Mark Jones, especialista na nuvem de poeira zodiacal da Open University, no Reino Unido, referiu que este estudo “fornece uma nova forma de distinguir várias fontes de pó de cometas e asteróides – algo que tem sido um tópico de debate durante muitos anos”.

O especialista apontou que actualmente não há dados suficientes “para o estudo fornecer informações de alta qualidade sobre as fontes de poeira”, mas esta “técnica parece ser sólida e oferece muitas promessas”.

O projecto LISA Pathfinder é liderado pela Europa e foi lançado em 2015 como uma plataforma de testes para projectos como a missão Antena Espacial de Interferometria a Laser – LISA – que deve descolar em 2034.

Uma vez estabelecida em órbita, a LISA irá procurar  ondulações no tecido do espaço-tempo que se propagam pelo cosmos quando os buracos negros ou estrelas de neutrões colidem.

Thorpe e os seus colegas esperam que a próxima missão da LISA também seja capaz de detectar impactos de poeira enquanto realiza o seu trabalho de caça a ondas gravitacionais. “Haverá três naves espaciais e esperamos uma missão de 10 anos, por isso teremos muito mais dados para trabalhar”, conclui Thorpe. Os resultados estão disponíveis no arXiv.

ZAP //

Por ZAP
22 Maio, 2019


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1763: Formação estelar e poeira de estrelas antigas

Imagem do ALMA e do Telescópio Espacial Hubble da galáxia distante MACS0416_Y1. A distribuição da poeira e do oxigénio gasoso traçada pelo ALMA tem tons avermelhados e esverdeados, respectivamente, enquanto a distribuição das estrelas captada pelo Hubble está a azul.
Crédito: ALMA (ESO/NAOJ/NRAO), Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA, Tamura et al.

Investigadores detectaram um sinal de rádio de poeira interestelar abundante em MACS0416_Y1, uma galáxia a 13,2 mil milhões de anos-luz de distância na direcção da constelação de Erídano. Os modelos-padrão não conseguem explicar tanta poeira numa galáxia tão jovem, forçando-nos a reconsiderar a história da formação estelar. Os cientistas agora pensam que MACS0416_Y1 sofreu uma formação estelar escalonada, com dois períodos intensos 300 milhões e 600 milhões de anos após o Big Bang, e com uma fase calma entre eles.

As estrelas são os principais intervenientes no Universo, mas são apoiadas pelas mãos invisíveis dos bastidores: a poeira estelar e o gás. As nuvens cósmicas de poeira e gás são os locais de formação estelar e magistrais contadores da história cósmica.

“A poeira e os elementos relativamente pesados, como oxigénio, são disseminados pela morte das estrelas,” disse Yoichi Tamura, professor associado da Universidade de Nagoya e autor principal do artigo científico. “Portanto, uma detecção de poeira em determinado momento indica que um número de estrelas já se formou e morreu bem antes desse ponto.”

Usando o ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array), Tamura e a sua equipa observaram a galáxia distante MACS0416_Y1. Dada a velocidade finita da luz, as ondas de rádio que observamos hoje nesta galáxia tiveram que viajar durante 13,2 mil milhões de anos para chegar até nós. Por outras palavras, fornecem uma imagem do aspecto da galáxia há 13,2 mil milhões de anos, apenas 600 milhões de anos após o Big Bang.

Os astrónomos detectaram um sinal fraco, mas revelador, de emissões de rádio de partículas de poeira em MACS0416_Y1. O Telescópio Espacial Hubble, o Telescópio Espacial Spitzer e o VLT (Very Large Telescope) do ESO observaram a luz das estrelas da galáxia; e da sua cor estimam que a idade estelar seja de 4 milhões de anos.

“Não é fácil,” realça Tamura. “A poeira é demasiado abundante para ter sido formada em 4 milhões de anos. É surpreendente, mas precisamos de ter os pés assentes na terra. As estrelas mais antigas podem estar escondidas na galáxia, ou podem já ter morrido e desaparecido.”

“Já foram propostas várias ideias para superar esta crise orçamentária de poeira,” disse Ken Mawatari, investigador da Universidade de Tóquio. “No entanto, nenhuma é conclusiva. Fizemos um novo modelo que não precisa de suposições extremas divergentes do conhecimento da vida das estrelas no Universo de hoje. O modelo explica bem tanto a cor da galáxia como a quantidade de poeira.” Neste modelo, o primeiro surto de formação estelar começou aos 300 milhões de anos e durou 100 milhões de anos. Depois, a formação estelar acalmou durante algum tempo e recomeçou aos 600 milhões de anos. Os investigadores pensam que o ALMA observou esta galáxia no início da sua segunda geração de formação estelar.

“A poeira é um material crucial para planetas como a Terra,” explica Tamura. “O nosso resultado é um passo importante para entender o início da história do Universo e a origem da poeira.”

Astronomia On-line
26 de Março de 2019

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O que os cientistas descobriram depois de “peneirar” poeira no Sistema Solar

Nesta ilustração, vários anéis de poeira rodeiam o Sol. Estes anéis formam-se quando as gravidades dos planetas puxam grãos de poeira para órbita em torno do Sol. Recentemente, os cientistas detectaram um anel de poeira na órbita de Mercúrio. Outros teorizam que a fonte do anel de poeira de Vénus é um grupo de asteróides co-orbitais ainda não detectados.
Crédito: Centro de Voo Espacial Goddard da NASA/Mary Pat Hrybyk-Keith

Assim como a poeira se acumula nos cantos e nas estantes das nossas casas, a poeira também se acumula no espaço. Mas quando a poeira assenta no Sistema Solar, é muitas vezes em anéis. Existem vários anéis de poeira em torno do Sol. Os anéis traçam as órbitas dos planetas, cuja gravidade puxa a poeira para o espaço em redor do Sol, à medida que se desloca a caminho do centro do Sistema Solar.

A poeira consiste de remanescentes esmagados da formação do Sistema Solar, há cerca de 4,6 mil milhões de anos – entulho de colisões de asteróides ou “migalhas” de cometas. A poeira encontra-se dispersada por todo o Sistema Solar, mas acumula-se em anéis granulosos sobrepostos às órbitas da Terra e Vénus, anéis que podem ser vistos com telescópios na Terra. Ao estudar esta poeira – a sua composição, origem e como se desloca pelo espaço – os cientistas procuram pistas para entender o nascimento dos planetas e a composição de tudo o que vemos no Sistema Solar.

Dois estudos recentes relatam novas descobertas de anéis de poeira no Sistema Solar interior. Um estudo usa dados da NASA para traçar evidências de um anel de poeira, em redor do Sol, na órbita de Mercúrio. Um segundo estudo da NASA identifica a provável fonte do anel de poeira na órbita de Vénus: um grupo de asteróides nunca antes detectados em co-órbita com o planeta.

“Não é todos os dias que descobrimos algo novo no Sistema Solar interior,” comentou Marc Kuchner, autor do estudo de Vénus e astrofísico do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA em Greenbelt, no estado norte-americano de Maryland. “Está na nossa vizinhança.”

Outro anel em redor do Sol

Guillermo Stenborg e Russell Howard, ambos cientistas solares no Laboratório de Pesquisa Naval em Washington, DC, não se propuseram encontrar um anel de poeira. “Encontrámo-lo por acaso,” disse Stenborg, rindo. Os cientistas resumiram as suas descobertas num artigo publicado na revista The Astrophysical Journal de dia 21 de Novembro de 2018.

Eles descrevem evidências de uma fina neblina de poeira cósmica sobre a órbita de Mercúrio, formando um anel com aproximadamente 15 milhões de quilómetros de largura. Mercúrio – com menos de 4880 km de diâmetro – percorre esta vasta trilha de poeira enquanto orbita o Sol.

Ironicamente, os dois cientistas tropeçaram no anel de poeira enquanto procuravam evidências de uma região livre de poeira perto do Sol. A certa distância do Sol, de acordo com uma previsão já com décadas, o poderoso calor da nossa estrela deveria vaporizar a poeira, varrendo completamente toda uma extensão do espaço. A determinação desta fronteira pode dizer aos cientistas mais sobre a composição da própria poeira e fornecer pistas de como os planetas se formaram no Sistema Solar jovem.

Até agora, não foi encontrada nenhuma evidência de espaço livre de poeira, mas isso é em parte porque seria difícil de detectar a partir da Terra. Independentemente de como os cientistas observem a partir da Terra, toda a poeira entre nós e o Sol fica no caminho, enganando-os a pensar que talvez o espaço mais perto do Sol possua mais poeira do que realmente tem.

Stenborg e Howard pensaram que podiam contornar este problema construindo um modelo baseado em imagens do espaço interplanetário obtidas pela missão STEREO (Solar and Terrestrial Relations Observatory).

Em última análise, os dois queriam testar o seu novo modelo em preparação para a Parker Solar Probe da NASA, actualmente numa órbita altamente elíptica em torno do Sol, passando cada vez mais perto do Sol ao longo dos próximos sete anos. Queriam aplicar a sua técnica às imagens que a Parker envia para a Terra e ver como a poeira perto do Sol se comporta.

Os cientistas nunca trabalharam com dados recolhidos neste território inexplorado, tão perto do Sol. Modelos como o de Stenborg e Howard fornecem um contexto crucial para a compreensão das observações da Parker Solar Probe, além de informar em que tipo de ambiente espacial a nave se encontra – limpo ou “sujo”.

As imagens das STEREO mostram dois tipos de luz: luz da atmosfera externa do Sol – chamada coroa – e a luz reflectida por toda a poeira que flutua no espaço. A luz solar reflectida desta poeira, que orbita lentamente o Sol, é cerca de 100 vezes mais brilhante do que a luz coronal.

“Na verdade, não somos ‘pessoas da poeira’,” comentou Howard, que também é o líder científico das câmaras das STEREO e da Parker Solar Probe que tiram fotos da coroa. “A poeira perto do Sol aparece simplesmente nas nossas observações e, geralmente, descartamo-la.” Os cientistas solares como Howard – que estudam a actividade solar para fins como previsão da meteorologia espacial iminente, incluindo gigantescas explosões de material solar que o Sol às vezes expele na nossa direcção – passam anos a desenvolver técnicas para remover os efeitos desta poeira. Somente depois de removerem a leve contaminação da poeira, é que podem realmente ver o que a coroa está a fazer.

Os dois cientistas construíram o seu modelo como uma ferramenta para os outros se “livrarem” da poeira nas imagens da missão STEREO – e, eventualmente da Parker Solar Probe -, mas a previsão do espaço livre de poeira permanecia no fundo das suas mentes. Se pudessem inventar um modo de separar os dois tipos de luz e isolar o brilho da poeira, podiam descobrir quanta poeira existe realmente lá. Se descobrissem que toda a luz numa imagem vinha apenas da coroa, por exemplo, isso podia indicar que finalmente haviam encontrado uma região do espaço sem poeira.

O anel de poeira de Mercúrio foi um achado fortuito, um subproduto do trabalho de modelagem de Stenborg e Howard. Quando usaram a sua nova técnica nas imagens STEREO, notaram um padrão de brilho aprimorado ao longo da órbita de Mercúrio – mais poeira, isto é -, na luz que planeavam descartar.

“Não foi uma coisa isolada,” disse Howard. “Em redor do Sol, independentemente da posição da nave, podíamos ver o mesmo aumento de 5% no brilho da poeira, ou densidade. Isso disse-nos que havia algo aqui, algo que rodeia todo o Sol.”

Os cientistas nunca consideraram a existência de um anel ao longo da órbita de Mercúrio, talvez razão pela qual não tenha sido detectado até agora, realçou Stenborg. “As pessoas pensavam que Mercúrio, ao contrário da Terra ou de Vénus, era demasiado pequeno e estava demasiado perto do Sol para capturar um anel de poeira,” disse. “Esperavam que o vento solar e as forças magnéticas do Sol ‘soprassem’ qualquer excesso de poeira na órbita de Mercúrio.”

Com uma descoberta inesperada e uma nova ferramenta sensível, os investigadores ainda estão interessados na zona livre de poeira. À medida que a Parker Solar Probe continua a sua exploração da coroa, o seu modelo pode ajudar outras pessoas a revelar quaisquer outras regiões de poeira à espreita perto do Sol.

Asteróides escondidos na órbita de Vénus

Esta não foi a primeira vez que os cientistas encontraram um anel de poeira no Sistema Solar interior. Há 25 anos atrás, os cientistas descobriram que a Terra orbita o Sol no interior de um gigantesco anel de poeira. Outros descobriram um anel semelhante perto da órbita de Vénus, primeiro usando dados de arquivo das sondas Helios em 2007, e depois confirmando-o em 2013 com dados da missão STEREO.

Desde então, os cientistas determinaram que o anel de poeira na órbita da Terra vem em grande parte da cintura de asteróides, a vasta região em forma de donut entre Marte e Júpiter, onde vivem a maioria dos asteróides do Sistema Solar. Estes asteróides rochosos batem constantemente uns nos outros, soltando poeira que vagueia para mais perto do Sol, a menos que a gravidade da Terra coloque a poeira na órbita do planeta.

Ao princípio, parecia provável que o anel de poeira de Vénus tivesse uma origem parecida ao anel da Terra, poeira produzida noutras partes do Sistema Solar. Mas quando o astrofísico Petr Pokorny, de Goddard, modelou a poeira que espirala em direcção ao Sol a partir da cintura de asteróides, as suas simulações produziram um anel que combinava com as observações do anel da Terra – mas não com o de Vénus.

Esta discrepância fê-lo questionar: se não é a cintura de asteróides, então de onde vem a poeira em órbita de Vénus? Após uma série de simulações, Pokorny e o seu parceiro de investigação Marc Kuchner teorizaram que vem de um grupo de asteróides nunca antes detectados que orbitam o Sol ao lado de Vénus. O seu trabalho foi publicado na edição de 12 de Março de 2019 da revista The Astrophysical Journal Letters.

“Eu acho que a coisa mais interessante sobre este resultado é que sugere uma nova população de asteróides que provavelmente contém pistas sobre a formação do Sistema Solar,” disse Kuchner. Se Pokorny e Kuchner os puderem observar, esta família de asteróides poderá lançar luz sobre o início da história da Terra e de Vénus. Vistos com as ferramentas certas, os asteróides também podem desvendar pistas sobre a diversidade química do Sistema Solar.

Dado que está disperso ao longo de uma órbita maior, o anel de poeira de Vénus é muito maior do que o anel recém-detectado em Mercúrio. Com quase 26 milhões de quilómetros de espessura e quase 10 milhões de quilómetros de largura, o anel está repleto de poeira, cujos grãos maiores são aproximadamente do tamanho daqueles presentes na lixa (o papel usado para polir). Tem cerca de 10% mais densidade do que o espaço em redor. Ainda assim, é difuso – se juntássemos toda a poeira, só obteríamos um asteróide com pouco mais de 3 km em diâmetro.

Usando uma dúzia de ferramentas de modelagem para simular como a poeira se move pelo Sistema Solar, Pokorny modelou todas as fontes de poeira que podia imaginar, procurando um anel de Vénus simulado que correspondesse às simulações. A lista de todas as fontes que tentou assemelha-se com uma lista de todos os objectos rochosos no Sistema Solar: asteróides da cintura principal, cometas da Nuvem de Oort, cometas da família de Júpiter, colisões recentes na cintura de asteróides.

“Mas nenhum deles funcionou,” afirmou Kuchner. “De modo que começámos a criar as nossas próprias fontes de poeira.”

Talvez, pensaram os dois cientistas, a poeira viesse de asteróides muito mais próximos de Vénus do que a cintura de asteróides. Poderia haver um grupo de asteróides co-orbitando o Sol com Vénus – o que significa que partilham a órbita de Vénus, mas ficam longe do planeta, muitas vezes do outro lado do Sol. Pokorny e Kuchner raciocinaram que um grupo de asteróides, na órbita de Vénus, podia ter passado despercebido até agora, porque é difícil apontar telescópios terrestres naquela direcção, tão perto do Sol, sem a interferência da luz estelar.

Os asteróides em co-órbita são um exemplo do que é chamado de ressonância, um padrão orbital que bloqueia diferentes órbitas, dependendo de como as suas influências gravitacionais se encontram. Pokorny e Kuchner modelaram muitas ressonâncias potenciais: asteróides que orbitam o Sol duas vezes por cada três órbitas de Vénus, por exemplo, ou nove vezes por cada dez de Vénus, e uma para uma. De todas as possibilidades, apenas um grupo produziu uma simulação realista do anel de poeira de Vénus: um grupo de asteróides que ocupa a órbita de Vénus, correspondendo às viagens de Vénus em redor do Sol, uma a uma.

Mas os cientistas não podiam ficar com apenas uma solução hipotética. “Nós achámos que tínhamos descoberto esta população de asteróides, mas tínhamos que provar e mostrar que funcionava,” explicou Pokorny. “Ficámos animados, mas depois pensámos: ‘Ah, há muito trabalho a fazer.'”

Eles precisavam mostrar que a própria existência dos asteróides fazia sentido no Sistema Solar. Seria improvável, perceberam, que os asteróides nestas órbitas especiais e circulares perto de Vénus tivessem tido origem noutro lugar, como na cintura de asteróides. A sua hipótese faria mais sentido se os asteróides estivessem aí desde o início do Sistema Solar.

Os cientistas construíram outro modelo, desta vez começando com um aglomerado de 10.000 asteróides vizinhos de Vénus. Deixaram a simulação avançar rapidamente 4,5 mil milhões de anos de história do Sistema Solar, incorporando todos os efeitos gravitacionais de cada um dos planetas. Quando o modelo chegou ao presente, cerca de 800 dos seus asteróides simulados sobreviveram ao teste do tempo.

Pokorny considera esta taxa de sobrevivência como optimista. Indica que os asteróides podem ter-se formado perto da órbita de Vénus, no caos do início do Sistema Solar, e alguns podem ainda existir hoje em dia, alimentando o anel de poeira nas proximidades.

O próximo passo é descobrir e observar os asteróides elusivos. “Se existir algo aí, devemos ser capazes de os encontrar,” disse Pokorny. A sua existência pode ser verificada com telescópios espaciais como o Hubble, ou talvez com naves espaciais interplanetárias como as STEREO. Os cientistas terão, então, mais perguntas para responder: quantos existem, e qual é o seu tamanho? Estão a libertar poeira constantemente, ou houve apenas um evento de desintegração?

Anéis de poeira em torno de outras estrelas

Os anéis de poeira que Mercúrio e Vénus pastoreiam estão a apenas um ou dois planetas de distância, mas os cientistas detectaram muitos outros anéis de poeira em sistemas estelares distantes. Vastos anéis de poeira podem ser mais fáceis de avistar do que os exoplanetas propriamente ditos, e podem ser usados para inferir a existência de planetas escondidos e até mesmo as suas propriedades orbitais.

Mas a interpretação de anéis de poeira extras-solares não é simples. “Para modelar e ler com precisão os anéis de poeira em redor de outras estrelas, primeiro temos que entender a física da poeira no nosso ‘quintal cósmico’,” comentou Kuchner. Com o estudo dos anéis vizinhos de poeira em Mercúrio, em Vénus e na Terra, onda a poeira traça os efeitos duradouros da gravidade no Sistema Solar, os cientistas podem desenvolver técnicas de leitura entre os anéis de poeira próximos e distantes.

Astronomia On-line
15 de Março de 2019

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666: Encontrada poeira interestelar na Terra mais velha do que o Sistema Solar

(dr) Hope Ishii / University of Hawaii

Os cientistas afirmam que as partículas recolhidas da atmosfera terrestre, originalmente depositadas por cometas, são mais antigas do que o Sistema Solar e podem dar mais informação sobre como os planetas e estrelas se formaram.

Segundo o Science Alert, estas partículas cósmicas viveram pelo menos 4,6 mil milhões de anos e viajaram distâncias incríveis, de acordo com a nova pesquisa sobre a sua composição química.

A equipa de cientistas por trás da investigação, publicada esta semana no Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), está confiante de que esta poeira interestelar se trata dos materiais básicos que compõem os corpos planetários do nosso Sistema Solar.

“As nossas observações sugerem que estes grãos representam a poeira interestelar pré-solar sobrevivente que formou os blocos de construção de planetas e estrelas”, afirma a investigadora que lidera o estudo, Hope Ishii, da Universidade do Havai, em Manoa,

Esta é uma rara oportunidade de estudar os materiais que formaram o Sistema Solar. Os cientistas pensam que se desenvolveu a partir de um disco colapsado de nuvens gasosas à volta do Sol e, agora, têm precisamente nas mãos a poeira que pode ter estado por lá.

O silicato, o carbono e o gelo amorfos que existiam há mil milhões de anos foram obliterados ou retrabalhados nos planetas que existem nos dias de hoje, com a forma original dessas substâncias agora encontrada sobretudo nos cometas.

Em vez de capturar um cometa, a equipa utilizou amostras recolhidas por uma nave estratosférica da NASA, partículas queimadas de cometas que eventualmente se instalaram na atmosfera da Terra, e analisou a sua composição química.

Em particular, analisaram um subgrupo de partículas vítreas chamadas GEMS (vidro com metal incorporado e sulfetos), que medem apenas algumas centenas de nanómetros de largura – menos de um centésimo da espessura de um fio de cabelo humano.

Os resultados mostraram que estes grãos foram originalmente fundidos num ambiente que era frio e rico em radiação. Uma pequena quantidade de calor foi suficiente para quebrar as ligações nos grãos, o que sugere que se formaram num lugar como a nebulosa solar externa – a nuvem de poeira, hidrogénio, hélio e outros gases ionizados dos quais o Sistema Solar se formou.

“A presença de tipos específicos de carbono orgânico nas regiões interna e externa das partículas sugere que o processo de formação ocorreu inteiramente a baixas temperaturas”, explica um dos investigadores, Jim Ciston, do Lawrence Berkeley National Laboratory.

“Assim sendo, estas partículas de poeira interplanetárias sobreviveram desde antes da formação dos corpos planetários do Sistema Solar e fornecem uma perspectiva sobre a química desses antigos blocos de construção”, acrescenta.

De acordo com os investigadores, algum tipo de material orgânico pegajoso pode ter sido responsável por estes grãos se terem aglomerado e, eventualmente, formar planetas nos primeiros anos frios e vazios do Sistema Solar.

“Este é um exemplo de investigação que procura satisfazer o desejo humano de entender as origens do nosso mundo”, conclui Ishii. Os cientistas vão agora continuar a investigar mais a fundo estas partículas cósmicas.

ZAP //

Por ZAP
18 Junho, 2018

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