1382: Povo do Paleolítico pode ter amputado os próprios dedos em forma de ritual

CIÊNCIA

Jean Clottes / McCauley et al. / Journal of Paleolithic Archaeology

Na arte rupestre de todo o mundo, há um motivo em particular que aparece repetidamente: marcas das mãos das pessoas que visitaram as cavernas há muito tempo, impressas ou estampadas.

Ainda assim, em algumas cavernas decoradas pelos habitantes do Paleolítico de França e Espanha, algo curioso foi observado: parece que faltam dedos a um número muito alto destas mãos.

Durante muitos anos, esta peculiaridade tem sido objecto de intenso debate. Para os cientistas, parece que seria extremamente descuidado que tantos indivíduos perdessem tantos dedos acidentalmente.

Alguns arqueólogos argumentam que os artistas dobravam os dedos. Outros argumentam que as pessoas que habitavam aquelas regiões se envolviam numa prática comum: amputar os próprios dedos.

De acordo com um novo estudo, publicado a 21 de Novembro no Journal of Paleolithic Archaeology, a amputação de dedos foi um comportamento comum em muitas regiões no passado.

“Os dados disponíveis parecem encaixar-se razoavelmente bem com a hipótese de que algumas pessoas do Paleolítico Superior se envolverem na amputação de dedos como um sacrifício religioso, disse Mark Collard, arqueólogo da Universidade Simon Fraser, no Canadá.

Existem várias evidências que a equipa de investigação recorre para as suas conclusões. Na Grotte de Gargas, em Hautes-Pyrénées, em França, foram registados 231 marcas de mão, feitos por cerca de 45 a 50 pessoas. Destes, 114 estão faltando um ou mais dedos.

Na Cosquer Cave, também em França, faltam 28 dedos em 49 mãos. Em Maltravieso, no oeste de Espanha, em 61 das 71 imagens da mão faltam dedos.

Há também evidências que sugerem que havia pessoas a quem faltavam dedos a fazer arte. Em Grotte de Gargas, o arqueólogo C. Barrière relatou em 1976, que há impressões de membros humanos encontrados em lama endurecida – alguns dos quais não têm dedos. Essas impressões têm a mesma idade que as marcas de mãos.

É possível que algumas pessoas no Paleolítico Superior tenham perdido dedos ou partes de dedos acidentalmente, por exemplo, por congelamento. Mas muitas das marcas de mão parecem ter falta de dedos – dois, três ou até quatro em alguns casos.

É aqui que a equipa traça uma linha diferente. Pesquisaram os Arquivos de Área de Relação Humana – um banco de dados de etnografias humanas globais – e encontraram 121 sociedades recentes em todo o mundo que praticam a amputação ritual do dedo, demonstrando que é uma prática real e difundida actualmente, ainda que esteja em processo de extinção.

“Fiquei chocado”, disse Collard. “Ainda continuamos a encontrar grupo após grupo que fez isto.”

As razões são variadas: foi praticado como uma expressão de extrema tristeza pela perda de um ente querido; como forma de identificação; como forma de marcar casamento; ou como uma forma de punição.

Pode também ser praticado como um ritual de sacrifício. Esta é a justificação que os investigadores  acreditam ser a explicação mais provável para o facto de as pessoas do Paleolítico Superior terem cortado os próprios dedos, oferecendo-os a uma divindade ou poder sobrenatural.

Isto poderá explicar a dinâmica de grupo, uma vez que os rituais religiosos mostraram fortalecer os laços interpessoais. Mas nem todo a gente está convencida.

“Nenhum dos casos etnográficos citados coincide com o padrão distinto visto nas marcas de mão da era do gelo – ou seja, um encurtamento sequencial do quinto, quarto e terceiro dedos, com o polegar poupado”, disse o arqueólogo Ian Gilligan, da Universidade de Sydney, que não participou na investigação. “Este padrão corresponde aos efeitos do congelamento. Corresponde à susceptibilidade diferente dos dedos ao congelamento”

Os arqueólogos da Universidade de Durham acreditam que a mutilação deliberada desta natureza seria equivalente ao suicídio – portanto, o ganho nas relações interpessoais não valeria o custo. Os investigadores sugerem que os dedos foram dobrados ou pintados por cima como uma forma de comunicação simbólica.

Mas nem a equipa de investigação afirma que a amputação é definitivamente o que ocorreu. “Embora o argumento para favorecer a hipótese da amputação não seja hermético, somos da opinião de que é forte o suficiente para garantir o tratamento da hipótese como se fosse correta para fins de investigação posterior”.

ZAP // Science Alert; NewScientist

Por ZAP
6 Dezembro, 2018

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925: Potro extinto do Paleolítico encontrado perfeitamente conservado na Sibéria

CIÊNCIA

Michil Yakovlev/SVFU/The Siberian Times
O animal terá vivido durante o Paleolítico Superior, há 30 ou 40 mil anos

Um grupo de cientistas fez um enorme descoberta na Sibéria: os restos fossilizados de um potro extinto do Paleolítico em condições de preservação quase perfeitas – este é o cavalo-bebé antigo em melhores condições de fossilização já encontrado.

Descoberto no permafrost da cratera Batagaika, na Sibéria – também conhecida como a “Porta do Mundo Inferior” -, o pequeno potro foi encontrado num estado de preservação tão bom, que quase parece estar a dormir. No entanto, o espécime já morreu há muito tempo, entre 30.000 e 40.000 anos, durante o Paleolítico Superior.

Descoberto por moradores locais, o fóssil foi escavado por cientistas do Japão e da Rússia, sendo depois levado para o Museu Mammoth, em Yakutsk, na Rússia.

“Este é o primeiro fóssil do mundo de um cavalo pré-histórico de tão tenra idade e com um nível tão surpreendente de conservação”, disse o director do museu, Semyon Grigoryev.

O potro teria apenas dois a três meses de idade quando morreu e cerca de 98 centímetros de largura. Foi encontrado a 100 metros de profundidade, com os seus cascos, pêlos e cauda quase totalmente intactos. Até os seus órgãos internos foram preservados pelo permafrost – uma camada de solo que está permanentemente abaixo da temperatura de congelamento.

Michil Yakovlev/SVFU/The Siberian Times
O pequeno potro era um Equus lenensis, espécie agora extinta

De acordo com os especialistas, a espécie do fóssil é distinta daquelas que agora habitam a região de Yakutia. O pequeno potro era um Equus lenensis (também conhecido como o cavalo Lena), que viveu na região no final do Pleistoceno, espécie agora extinta e conhecida a partir de restos mumificados encontrados no solo gelado.

Os investigadores recolheram amostras de pêlo, líquidos, fluídos biológicos e amostras de solo na área onde o potro foi encontrado, de forma a realizar testes mais completos, incluindo uma autópsia para determinar como morreu. Curiosamente, o potro não tinha feridas visíveis no seu corpo.

“Especialistas que participaram na expedição sugeriram que o potro pode ter-se afogado, depois de encontrar algum tipo de armadilha natural”, explicou Semyon Grigoryev.

Além de determinar a causa da morte com precisão, a autópsia vai revelar como é que o potro viveu. Os cientistas planeiam para isso analisar o conteúdo do seu estômago.

O permafrost é um recurso incrível para aprender mais sobre a vida na Idade do Gelo. No início deste ano, cientistas da Sibéria descobriram bebé de leão pré-histórico em excelentes condições de conservação – ainda nem sequer tinha os dentes formados.

Além do potro, a expedição encontrou um esqueleto raro de um mamute, completo e com tecidos moles ainda em bom estado. Até agora, não se discutiu a questão de clonar o mamute nem o potro – ao contrário do que aconteceu com o leão pré-histórico – no entanto, ambos serão objecto de estudo científico no futuro.

Michil Yakovlev/SVFU/The Siberian Times
Este é o fóssil de potro melhor conservado até agora encontrado

ZAP // ScienceAlert / LiveScience

Por ZAP
28 Agosto, 2018

(Foram corrigidos 2 erros ortográficos ao texto original)

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