2100: Eu, feliz proprietária de um hectare de Lua

OPINIÃO

Que Elon Musk quer criar colónias humanas em Marte, já há muito se sabia, mas agora foi Jeff Bezos quem veio dizer que em 2024 quer ter capacidade para pôr humanos na Lua e colonizá-la. Ora calma aí, senhor Amazon! É que isto de ir viver para o satélite natural da Terra é muito bonito, mas antes de chegar lá e açambarcar todas as crateras, convém perguntar se têm dono.

Loucura? Nem por isso. Eu própria sou a feliz proprietária de um hectare de Lua. Sim. Um hectare. Na Lua.

Em 2007 entrevistei Dennis Hope, um americano que 27 anos antes tinha reivindicado a posse de todos os corpos celestes. O californiano, hoje com 71 anos, veio a Lisboa para inaugurar a primeira embaixada lunar no nosso país e vender terrenos aos portugueses. Foi ele quem me surpreendeu com um canudo de cartão no interior do qual se encontrava um certificado com o meu nome e um mapa com a localização do meu hectare na Lua.

A ideia de vender pedaços de Lua surgiu a Dennis Hope depois do divórcio. Sem dinheiro decidiu reivindicar a posse dos planetas e suas luas. Para tal baseou-se numa lei americana de 1862 que dá a posse das terras devolutas ao primeiro que as reclamar. “Senti-me como os europeus de partida para o Novo Mundo”, explicou-me.

O auto-denominado presidente do Governo Galáctico aproveitou uma lacuna no Tratado Espacial (1967), que proíbe os governos de reclamarem território no espaço mas é omisso quanto aos indivíduos. Registou-se como proprietário, comunicou o facto à ONU e foi mundo fora vendendo pedaços de Lua, mas também de Marte, Vénus ou Mercúrio.

Compradores não faltam, desde presidentes americanos como Jimmy Carter ou George W. Bush até estrelas de cinema como Nicole Kidman ou Tom Cruise.

O meu hectare, esse, tem-me seguido nos últimos 12 anos. Veio comigo para as Torres de Lisboa quando o DN saiu do Marquês de Pombal e lá continua na minha gaveta, saindo à luz do dia sempre que alguém brinca que se isto na Terra não correr bem, podemos ir viver para a Lua.

Um dia, quem sabe. Vizinhança já tenho!

Diário de Notícias
Helena Tecedeiro
03 Junho 2019 — 00:00



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987: O Elvis está vivo

OPINIÃO

Ontem e anteontem, realizou-se na Universidade do Porto uma espécie de conferência sobre alterações climáticas. A esmagadora maioria dos conferencistas contraria o consenso científico sobre os efeitos do dióxido de carbono nessas mudanças. Gente que afirma, entre outras barbaridades, que o CO2 não provoca alterações meteorológicas ou climáticas, que as futuras gerações irão beneficiar com o acréscimo de dióxido de carbono na nossa atmosfera, que as fábricas alimentadas a carvão oferecem a electricidade mais limpa do mundo. Ou seja, a dita conferência pretende promover e divulgar teses sem o menor fundamento e que vão ao arrepio do consenso da comunidade científica.

A primeira questão prende-se com a dita conferência se realizar na Universidade do Porto.

Uma universidade é um centro de formação e promoção do conhecimento científico. Ajudar a difundir posições que são a negação do método científico e que não passam de delírios achistas é exactamente o oposto do que deve ser o papel da Academia. Não me chateia rigorosamente nada que um qualquer pateta negue que a Terra é redonda ou que jure que o Elvis está vivo, já não me parece aceitável que centros científicos sirvam como difusores de disparates. Negar o conhecimento científico ou factos não é exprimir uma opinião, é disparatar.

Ouvi o argumento de que a promoção do debate de ideias faz parte do papel da Academia. Claro que sim. Simplesmente, para que esse debate se realize numa universidade as ideias têm de ter base científica. Uma escola que desenvolva debates sem o mínimo respeito pelo conhecimento científico converte-se num qualquer café de esquina. Espero ansiosamente debates apoiados pela Universidade do Porto sobre o criacionismo ou sobre os benefícios do tabaco para uma vida saudável.

Mas o pior da discussão sobre a possibilidade desta espécie de conferência numa universidade é verificar que a própria Academia se está a deixar contaminar por essa nova realidade que é o império da opinião.

Subitamente, toda e qualquer opinião sobre o que quer que seja tornou-se legítima. Melhor, os factos e a verdade deixaram de existir para se transformarem em opiniões. E quem quer que ponha em questão a difusão ou a simples enunciação de uma qualquer fantasia é imediatamente apelidado de repressor, um combatente contra a liberdade de expressão ou o novo insulto supremo um defensor do politicamente correto. A ignorância deixou de existir, toda a gente sabe tudo sobre tudo, desde física nuclear até à dose certa de açúcar num pastel de nata. Ou seja, tem uma opinião e sob o seu império essa vale tanto como a de um professor ou de um pasteleiro profissional.

Nunca como hoje o papel da Academia e de instituições semelhantes teve um papel tão crucial para a preservação da ciência e até na defesa da verdade – podia dizer o mesmo do jornalismo e de muitas outras instituições. As redes sociais e a crise brutal dos mass media tradicionais criaram uma possibilidade quase ilimitada de uma qualquer empresa ou um qualquer indivíduo criar uma verdade ou uma opinião transmutada em facto – não será preciso lembrar várias campanhas políticas recentes. Aliás, não é em vão que os negacionistas das alterações climáticas têm tanto palco; são apoiados por empresas riquíssimas e por lóbis poderosos.

Que uma dúzia ou uns milhões de pessoas decidam fundar um movimento para negar que o homem pisou a Lua é lá com eles. Mas quando instituições que deviam preservar o conhecimento e ter uma acção pedagógica sobre a ciência decidem abrir-lhes as portas, é porque alguma coisa está profundamente errada.

Diário de Notícias
Pedro Marques Lopes
09 Setembro 2018 — 06:11

– Pode ler o artigo na íntegra, clicando no link Diário de Notícias

(Foram corrigidos 3 erros ortográficos ao texto original presente neste espaço.)

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