848: Prepare-se para cada vez mais ondas de calor

Tiago Petinga / Lusa

Nas últimas décadas, as ondas de calor causaram muito mais mortes na Europa do que qualquer outro evento climático extremo. E a comunidade científica prevê que sejam cada vez mais comuns os Verões mais quentes que o habitual. 

A Europa enfrenta uma onda de calor, e essa onda não está a dissipar-se – pelo contrário. Uma massa de ar quente com origem em África, traz poeira do deserto, afectando em particular os países do sudoeste europeu.

Em Portugal, no sábado, a temperatura foi a mais alta de que há registo nos últimos 26 anos. Em Lisboa, as temperaturas chegaram aos 44 graus. Em Alvega, no distrito de Santarém, os termómetros chegaram a marcar 46,8 graus. Alertas meteorológicos foram também emitidos este fim de semana para 40 das 50 províncias da Espanha.

Se os habitantes da Península Ibérica sentem que já nem conseguem pensar com clareza com tanto calor, não estão errados. Segundo mostrou um estudo realizado pela Escola de Saúde Pública de Harvard, publicado em Julho deste ano na revista PLOS, o as temperaturas elevadas podem tornar o cérebro 13% mais lento.

Mas esse não é o único problema relacionado com o calor extremo. Temperaturas elevadas aumentam o nível de poluentes no ar, e aceleram a taxa de reacções químicas – o que eleva o risco de doenças cardiovasculares e respiratórias. Além disso, temperaturas altas incomuns durante a noite perturbam o sono reparador, impedindo que o corpo se recupere do calor diurno.

“As ondas de calor causaram muito mais mortes do que qualquer outro evento climático extremo nas últimas décadas na Europa”, diz Vladimir Kendrovski, director técnico de saúde e mudança climática do Gabinete Regional da Organização Mundial de Saúde para a Europa.

Kimimasa Mayama / EPA
Em Tóquio, pela primeira vez na história, as temperaturas passaram dos 40°C

Grupos vulneráveis, como crianças pequenas e idosos, sofrem mais. Muitas vítimas de calor extremo vivem em áreas urbanas densamente povoadas, onde é escassa a ventilação. Segundo sustentam a maior parte dos estudos científicos publicados recentemente, as actuais ondas de calor estão ligadas às alterações climáticas.

Recordes no Japão

Mas a Europa não é a única região do planeta a atravessar uma onda de calor. No Japão, por exemplo, 119 pessoas morreram de stress devido ao calor que se fez sentir em Julho, e 49 mil foram hospitalizadas.

O país está a registar este verão um pico de temperaturas sem precedentes. A cidade de Kumagaya estabeleceu um novo recorde nacional de calor, atingindo 41,1°C no final de Julho. Em Tóquio, pela primeira vez na história, as temperaturas passaram dos 40°C.

Um novo estudo aponta também que a China deverá enfrentar problemas significativos com o calor extremo num futuro não muito distante.

Investigadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts mostraram que, a menos que medidas drásticas sejam tomadas para limitar as emissões de gases estufa, a região mais populosa e agrícola da China poderá viver, repetidamente, condições climáticas nas quais os humanos não podem sobreviver desprotegidos por longos períodos.

A questão não é apenas as altas temperaturas, mas o calor associado à humidade elevada. O clima quente associado à humidade também é um cenário perfeito para a proliferação de insectos.

Isso é particularmente preocupante para países vulneráveis a doenças como a malária ou a dengue – doenças disseminadas por agentes vectores, ou seja, transmitidas por picada de espécies como mosquitos, pulgas ou carraças.

“As doenças transmitidas por vectores estão associadas às alterações climáticas, devido à sua ocorrência generalizada e à sensibilidade dos agentes vectores aos habitats“, diz Kendrovski.

Mosquitos como o Aedes aegypti, que pode transmitir a dengue e a febre amarela, estão a espalhar-se para novas regiões, devido parcialmente às temperaturas crescentes.

Não se exponha

O que as pessoas podem fazer para sobreviver ao calor? Não se exponha ao Sol, use roupas leves e soltas, e beba água suficiente. Náuseas e dores de cabeça são reacções comuns ao calor, mas alterações no comportamento, vómitos, respiração e batimento cardíaco acelerado podem ser sinais de insolação.

Nesse caso, uma ambulância deve ser chamada imediatamente. A insolação não tratada pode danificar rapidamente o cérebro, o coração, os rins e os músculos. Quanto mais tardar o tratamento, maior o risco de complicações sérias ou morte.

Tiago Petinga / Lusa
O que fazer para sobreviver ao calor? Antes de mais, não se exponha ao Sol

No futuro, o número de mortes em ondas de calor provavelmente aumentará, se as pessoas não conseguirem adaptar-se ao aumento das temperaturas. Investigadores da Universidade Monash, na Austrália, desenvolveram um modelo matemático para estimar o número de mortes relacionadas com calor em 20 países, para o período entre 2031 e 2080.

O estudo, publicado recentemente na revista online PLOS Medicine, constatou que o aumento da mortalidade provavelmente será maior perto do Equador.

A Colômbia, previsivelmente o país mais afectado, poderá enfrentar um aumento de 2.000% de mortes prematuras por calor extremo durante o período de 2031 a 2080, em comparação com 1971 a 2010. Segundo o estudo australiano, Filipinas e Brasil também deverão sofrer os maiores aumentos de mortes prematuras devido ao calor.

Segundo o estudo, os Estados Unidos e a Europa registarão um menor aumento da mortalidade associada ao excesso de calor – com a Moldávia a registar o valor mais elevado, de 150%. Mas talvez esteja na hora de comprar uma sombrinha.

Por CC
6 Agosto, 2018

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797: Este verão “tem a assinatura das alterações climáticas”

 

Ondas de calor potenciadas por secas no norte da Europa, recordes de temperatura um pouco por todo o lado. Isto é o planeta com mais um grau de temperatura média. Como será com dois graus a mais?

Incêndios florestais na Suécia
© TT News Agency/Maja Suslin via REUTERS

Ondas de calor intensas e incêndios na Escandinávia e na Grécia, o Reino Unido dias a fio com temperaturas acima da média para a época e sem um pingo de chuva em Junho, tradicionalmente, ali, o mês mais chuvoso, Portugal sem verão digno desse nome. E, noutras regiões do hemisfério norte, idênticos desacertos: recordes de temperatura em Toronto, no Canadá, no Japão, na Argélia… a lista impressiona de tão longa, e deixa uma certeza: as alterações climáticas já moram aqui.

Na prática, quase todo o hemisfério norte, tanto na Eurásia, como na América, está nesta altura com temperaturas acima da média. “São muitos recordes juntos”, nota Francisco Ferreira, professor e investigador da Universidade Nova de Lisboa, e presidente da associação ambientalista Zero. “Não se pode individualizar cada uma destas situações e falar de alterações climáticas, mas quando se olha para todas em conjunto, as campainhas soam”, diz. “O que estamos a observar está em linha com os piores cenários traçados pelos modelos climáticos”.

Ricardo Trigo, que lidera o grupo de climatologia do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, também não tem dúvidas de que se está perante “a assinatura das alterações climáticas”. Ondas de calor e secas, “sempre houve”, sublinha, mas “isto já inclui alguma assinatura das alterações climáticas, porque a sua maior frequência e magnitude é compatível com aquilo que os modelos indicam com grande fiabilidade nos últimos dez anos”, garante.

As secas e ondas de calor tornaram-se mais frequentes e mais intensas ao longo dos últimos anos e isso é exactamente o que os modelos já previam há dez anos, quando se lhes introduzia os dados das emissões de gases com efeito de estufa.

A maior frequência e magnitude das secas e ondas de calor é compatível com o que os modelos indicam com grande fiabilidade nos últimos dez anos

E se é assim agora, numa altura em que a temperatura média do planeta já ganhou mais um grau Celcius em relação à era pré-industrial – em Portugal, já é mais de um grau, e no norte da Europa já vai em 2,5 – “como será quando esse aumento for de dois graus?”, questiona-se Francisco Ferreira.

O que se sabe de ciência certa é que as temperaturas mais altas potenciam e amplificam os fenómenos meteorológicos extremos, e daí se observar já o seu aumento, concordam todos os especialistas. Um deles é Pedro Miranda, também investigador do Instituto Dom Luiz, da Universidade de Lisboa. “Isto é o resultado de um mundo que está a aquecer”, diz. Na prática, “verifica-se o que os modelos têm previsto, com anos sucessivos, na última década, a bater recordes de temperatura média, e com o aumento dos fenómenos extremos, como estes”.

Para o futuro, os modelos estimam que tudo isto se agrave. Em 2050, diz por sua vez Ricardo Trigo, ondas de calor como a de 2003 – o chamado verão que veio do futuro – que deixou um rasto de milhares de mortos na Europa, “poderão ocorrer a cada cinco ou dez anos”.

Norte da Europa em onda de calor

Na Europa, este verão em quase tudo atípico, com o norte da Europa a suar de calor e a enfrentar incêndios inéditos, como acontece na Suécia, e a Península Ibérica com temperaturas frescas e uma nebulosidade teimosa, a origem da situação está na “circulação atmosférica, que não é a habitual para esta época do ano”, explica ao DN Ricardo Trigo.

“Normalmente, no verão o anticiclone dos Açores está ligeiramente mais para norte, sobre o oceano, e um pouco mais junto da Europa, mas esta situação tem estado profundamente alterada nas últimas semanas”, conta o especialista, sublinhando que “um anticiclone de bloqueio se tem mantido parado, muito para norte, e tem impedido que as depressões que vêm do Atlântico cheguem à Europa”, nas latitudes do Reino Unido ou mais para norte, como é usual acontecer.

© TT News Agency/Maja Suslin via REUTERS

Resultado: há cerca de dois meses que não chove no Reino Unido e na Escandinávia, e com as temperaturas ali anormalmente elevadas, aumenta também de forma inédita o risco de incêndio – na Suécia os fogos florestais não têm dado tréguas.

Em contrapartida, a Portugal continua a chegar nebulosidade que vem do mar. “As depressões continuam a atravessar o Atlântico, e quando chegam perto do Reino Unido, nesta situação, são empurradas para aqui para a Península Ibérica”, explica Ricardo Trigo.

A dar uma ajuda a tudo isto, as correntes de jacto, os ventos atmosféricos que correm de Oeste para Leste e que são determinantes para as condições meteorológicas na Europa, estão também nesta altura mais a Norte do que é habitual, e enfraquecidos, o que contribui para que os padrões deste verão europeu anómalo se vão mantendo, dia após dia.

Já a situação na Grécia, com uma onda de calor e uma secura prolongada de semanas, que desembocou nos incêndios devastadores às portas de Atenas, que já causaram pelo menos 74 mortos, não decorre deste mecanismo específico que afeta a frente europeia atlântica.” Ali, a onda de calor, que deverá, aliás, abrandar nos próximos dias, “é causada por ar quente continental, vindo do nordeste”, adianta Ricardo Trigo.

Diário de Notícias
Filomena Naves
24 Julho 2018 — 19:59

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