2748: Astrónomos detectam moléculas de gás em 2I/Borisov

CIÊNCIA

Composição colorida de 2I/Borisov, com quatro exposições de 60 segundos obtidas pelo Observatório Gemini. Os riscos azuis e vermelhos são estrelas de fundo que parecem “mover-se” devido ao movimento do cometa.
Crédito: composição por Travis Rector; Observatório Gemini/NSF/AURA

Uma equipa internacional de astrónomos, incluindo investigadores da Queen’s University em Belfast, Irlanda do Norte, fez uma descoberta histórica, detectando moléculas de gás num cometa que entrou no nosso Sistema Solar, vindo de outra estrela.

É a primeira vez que os astrónomos conseguem detectar este tipo de material num objecto interestelar.

A descoberta representa um importante passo em frente para a ciência, pois agora permitirá que os cientistas decifrem exactamente a composição destes objectos e como o nosso Sistema Solar se compara com outros na nossa Galáxia.

“Pela primeira vez, podemos medir com precisão a composição de um visitante interestelar e compará-lo com o nosso próprio Sistema Solar,” disse o professor Alan Fitzsimmons do Centro de Investigação Astrofísica da Queen’s University em Belfast.

O Cometa Borisov foi descoberto pelo astrónomo amador da Crimeia, Gennady Borisov, em Agosto. Observações ao longo dos 12 dias seguintes mostraram que não estava em órbita do Sol, apenas a passar pelo Sistema Solar no seu próprio percurso em torno da nossa Galáxia.

A 24 de Setembro recebeu a designação oficial 2I/Borisov, o segundo objecto interestelar já descoberto pelos astrónomos. Ao contrário do primeiro objecto, descoberto há dois anos, 1I/’Oumuamua, este objecto parecia um cometa ténue, com uma atmosfera circundante de partículas de poeira e uma cauda curta.

Alan Fitzsimmons e colegas da Europa, dos EUA e do Chile usaram o Telescópio William Herschel em La Palma, nas Ilhas Canárias, para detectar o gás no cometa. Mas isto foi complicado.

Ele disse: “A nossa primeira tentativa foi na sexta-feira, 13 de Setembro, mas tivemos azar e fomos impedidos de o fazer devido ao brilho do céu, tão perto do Sol. Mas a tentativa seguinte foi bem-sucedida.”

Os astrónomos do observatório apontaram o telescópio gigante para o cometa antes e durante o amanhecer, entre as 6 e as 7 da manhã da sexta-feira seguinte. Ao passar a fraca radiação do cometa por um espectrógrafo, os astrónomos conseguiram medir a quantidade de luz emitida pelo cometa em função do comprimento de onda ou cor.

O professor Fitzsimmons explicou: “Um espectro permite-nos detectar tipos individuais de gás graças às suas impressões digitais espectrais. Recebemos os dados ao meio-dia e às 17 horas sabíamos que havíamos detectado gás com sucesso e pela primeira vez.”

O gás detectado foi o cianogénio, composto por um átomo de carbono e um átomo de azoto ligados entre si. É um gás tóxico se inalado, mas é relativamente comum nos cometas.

Ao combinar estes espectros com imagens filtradas do cometa obtidas com o telescópio TRAPPIST-Norte em Marrocos, a equipa também mediu a quantidade de poeira expelida pelo cometa e estabeleceu limites para o tamanho do núcleo central.

O Dr. Emmanuel Jehin está a monitorizar o cometa usando o telescópio TRAPPIST-Norte em Marrocos e forneceu dados cruciais para medir a quantidade de poeira cometária emitida por 2I. Ele disse: “Estamos habituados a ver imagens de cometas, mas este é tão especial! Observo-o há duas semanas, quase todas as manhãs, estou fascinado pelo facto deste objecto não ser como os outros que tenho observado, que realmente veio de outra estrela, provavelmente muito distante.”

A professora Karen Meech da Universidade do Hawaii já havia observado anteriormente o cometa e usou os novos dados para calcular o possível tamanho do cometa.

Ela relatou: “A nossa análise preliminar, usando a quantidade de gás vista a sair do núcleo, sugere que é provável que grande parte da superfície esteja activa, em contraste com os típicos cometas de curto período.”

A equipa concluiu que a característica mais notável do cometa é que parece vulgar em termos de gás e poeira que está a emitir. Parece que nasceu há 4,6 mil milhões de anos atrás, juntamente com os outros cometas no nosso Sistema Solar, mas veio de um sistema estelar ainda não identificado.

À medida que o cometa se aproxima do Sol, ficará mais brilhante e mais visível para os astrónomos. O Dr. Olivier Hainaut, do ESO, acrescentou: “O próximo ano será extremamente empolgante, pois poderemos acompanhar a evolução de 2I à medida que passa pelo nosso Sistema Solar. Em comparação, tivemos apenas algumas semanas para estudar ‘Oumuamua antes que ficasse ténue demais.”

A ESA aprovou este ano uma missão espacial que poderá visitar um futuro visitante interestelar. A missão Comet Interceptor tem lançamento previsto para 2028.

Astronomia On-line
1 de Outubro de 2019