2224: NASA encontra nuvens de metano em Marte (e aguarda notícias de vida)

NASA / JPL-Caltech
Auto-retrato de ângulo baixo do rover Curiosity, da NASA

A sonda espacial Curiosity, da NASA, detectou elevado níveis de emissão de metano na superfície de Marte. A presença do gás, normalmente produzido por seres vivos, pode ser evidência de vida bacteriana no planeta vermelho.

A descoberta, que aconteceu durante uma medição realizada na passada quarta-feira pela sonda Curiosity: o rover detectou nuvens com elevados níveis de metano em Marte. Os dados chegaram à Terra na sexta-feira, deixando em euforia os cientistas da NASA.

A agência espacial norte-americana ainda não anunciou a descoberta, que foi divulgada este sábado pelo jornal norte-americano The New York Times.

“Perante este resultado surpreendente, reorganizámos o fim-de-semana para conduzir experiências de confirmação”, diz o cientista responsável pela missão, Ashwin Vasavada, num email dirigido à sua equipa, a que o jornal norte-americano teve acesso.

A presença no Planeta Vermelho de níveis significativos deste gás, que normalmente é produzido biologicamente, poderá ser um indício da existência de vida microbiana em Marte.

Em 2012, o Curiosity esteve à procura de metano no planeta vermelho, sem sucesso. No ano seguinte, a sonda detectou um pico repentino, de 7 partes por mil milhões, que se manteve observável durante dois meses.

A Curiosity detectou agora 21 partes por mil milhões de volume de metano — a maior quantidade alguma vez medida durante as missões de exploração que a NASA conduz desde 1972 em Marte. O rover não é, no entanto, capaz de determinar a origem do metano descoberto.

A descoberta deste nível de metano à superfície do planeta reforça a esperança de que possa ter havido algum tipo de vida em Marte – nomeadamente vida microbiana – e que os seus descendentes possam ter sobrevivido no subsolo até hoje.

Mas apesar de a maior parte do metano produzido na Terra ser de origem biológica, há também metano produzido por reacções geotérmicas, não biológicas.

É portanto possível que o metano encontrado seja de origem geológica e tenha estado retido no subsolo de Marte durante milhões de anos — escapando agora através de alguma eventual fenda.

Thomas Zurbuchen, administrador da NASA e director da missão, confirmou entretanto a notícia no seu perfil no Twitter, mas salienta que é necessário aguardar mais resultados. “Sendo esta uma descoberta excitante, não significa necessariamente que haja vida em Marte, porque o metano pode ser criado por interacções entra água e rochas”.

Thomas Zurbuchen @Dr_ThomasZ

.@MarsCuriosity rover found the largest amount of methane ever measured during the mission. Although this is an exciting discovery, it doesn’t necessarily mean life exists because methane can be created through interactions between rocks & water. Details: https://www.nasa.gov/feature/jpl/curiosity-detects-unusually-high-methane-levels 

Durante o fim-de-semana, a Curiosity recebeu novas instruções e realizou medições de follow-up, para confirmar os dados obtidos a semana passada. Os resultados devem chegar esta segunda-feira à Terra, onde a equipa de Ashwin Vasavada aguarda (com incontida  ansiedade) por um sinal de vida.

ZAP //

Por ZAP
24 Junho, 2019

1796: Confirmada finalmente a existência de metano em Marte

Kevin Gill / Flickr

Um grupo independente de cientistas diz ter detectado sinais da existência de metano numa cratera em Marte.

As primeiras provas da existência dessa molécula orgânica — substâncias que têm pelo menos um átomo de carbono — em Marte foram encontradas através da Mars Express, uma sonda da Agência Espacial Europeia (ESA) enviada para a órbita do planeta em 2003. Nos últimos anos, essa existência tem sido posta em causa. Agora há mais provas a sustentá-la, diz um artigo publicado na Nature.

Este é o mais recente capítulo na saga da busca por metano em Marte, que começou em 2004 quando ESA anunciou ter encontrado quantidades pequenas de metano na atmosfera do planeta, mas que entretanto já sofreu muitas reviravoltas. A 30 de Março de 2004, a ESA confirmou a existência de uma concentração de dez partes em mil milhão de metano na atmosfera marciana.

Logo à época se conjecturou que deve haver um mecanismo que reabastece a atmosfera de metano: se assim não fosse, sobreviveria pouco tempo no ar — centenas de anos — já que oxida rapidamente para dar origem a água e dióxido de carbono.

A presença de metano num planeta despertou imediatamente o interesse dos cientistas em Terra. O metano é um composto orgânico que, na Terra, é libertado para a atmosfera quando a matéria orgânica entra em decomposição.

Encontrar metano em Marte podia significar, especulavam os cientistas à época, que o Planeta Vermelho podia ter tido vida no passado – ou, no mínimo, podia ter condições de habitabilidade.

Quando a agência europeia deu o sinal de alerta para a existência de metano no planeta aqui do lado, a NASA, que é a agência espacial norte-americana, preparou o rover Curiosity para levar até Marte um instrumento que confirmaria se havia mesmo metano por lá.

A primeira experiência aconteceu entre Outubro de 2012 e Junho de 2013, mas não deu frutos: a máquina não encontrou quaisquer concentrações de metano no planeta. Só à segunda experiência, começada em Junho de 2013, é que o Curiosity encontrou os mesmos sinais e detectou metano durante quatro meses.

Mas nem as descobertas da NASA unidas às da ESA foram suficientes para ter certezas absolutas. O rover Curiosity encontrou concentrações muito baixas de metano na segunda experiência: 0,25 partes por mil milhão durante o inverno e 0,65 partes por mil milhão no verão, com alguns picos que podiam chegar às 7 partes por mil milhão.

Isto foi o suficiente para teorizar que havia uma espécie de sistema cíclico de libertação de metano em Marte que reabastecia a atmosfera de tempos a tempos. Mas não passava de uma teoria: eram valores tão residuais que caíam nas margens de erro dos computadores. O metano até podia ter vindo da Terra a bordo do Curiosity.

O ExoMars Trace Gas Orbiter, uma sonda enviada pela ESA que chegou a Marte em 2016, não encontrou de metano no planeta desde que lá tinha chegado. No entanto, as conclusões publicadas na Nature Geoscience podem dar uma lufada de ar fresco à ideia de haver metano no Planeta Vermelho. Os cientistas encontraram a assinatura do metano nos dados recolhidos pela ExoMars em 2013. Mas isso não significa que já houve, há ou vai haver vida em Marte.

O metano em Marte pode vir de um processo que havia nos primeiros anos da Terra chamado serpentinização. Esse fenómeno acontece quando uma rocha chamada olivina, uma das primeiras a formar-se na Terra e que existe em abundância na Lua, entra em contacto com a água.

Quando isso acontece dá-se uma reacção química que liberta metano. “De acordo com tudo o que sabemos até este momento é que isso também pode ter acontecido nos primeiros anos de Marte. Que o metano ficou guardado em bolsas e que agora é libertado, de tempos a tempos, para a atmosfera”, explica Joana Lima, astro-bióloga no Centro de Astrobiologia de Madrid ao Observador.

Na Terra, este processo de “serpentinização” esteve na origem da vida no nosso planeta: “A serpentinização ajudou à formação da vida em Terra. A primeira forma de vida foi unicelular. Eram ciano-bactérias que usavam o metano para gerar energia. E era assim porque o metano é uma molécula muito simples, extremamente fácil de quebrar por microorganismos. Não precisavam de ser muito evoluídos”, conclui.

ZAP //

Por ZAP
2 Abril, 2019

 

1689: O metano na atmosfera está a aumentar (e os cientistas estão preocupados)

WildEarth Guardians / Flickr

Os cientistas gostam de mistério e têm um novo enigma por resolver – e envolve metano, um gás de efeito de estufa potente.

Há vinte anos, o nível de metano na atmosfera parou de aumentar, dando à humanidade uma pequena folga no que se tratava de desacelerar a mudança climática. Mas a concentração começou a subir novamente em 2007 – e está a aumentar o ritmo nos últimos quatro anos, de acordo com um novo estudo.

Os cientistas ainda não descobriram a causa, mas dizem que uma coisa é clara: este aumento poderia colocar em risco o acordo climático de Paris. Isto porque muitos cenários para atingir os objectivos assumiram que o metano estaria a cair agora, ganhando tempo para enfrentar o desafio de longo prazo de reduzir as emissões de dióxido de carbono.

“Eu não quero correr e chorar mas é algo que é muito preocupante”, disse Euan Nisbet, cientista na Royal Holloway, Universidade de Londres.

O metano é produzido quando o material morto se decompõe sem muito oxigénio. Na natureza, escoa de zonas húmidas alagadas, pântanos e sedimentos. Os incêndios florestais também produzem algum metano.

Hoje em dia, no entanto, as actividades humanas produzem cerca de metade de todas as emissões de metano. Derrames de operações com combustíveis fósseis são uma grande fonte, assim como a agricultura – especialmente a criação de gado, que produz metano nas suas entranhas. Até os montes de lixo que apodrecem nos aterros produzem o gás.

A atmosfera contêm muito menos metano do que dióxido de carbono. Mas o metano consegue capturar mais calor e uma tonelada de gás causa 32 vezes mais aquecimento do que uma tonelada de CO2 ao longo de um século. Molécula a molécula, o metano “causa um impacto maior”, disse Debra Wunch, física atmosférica da Universidade de Toronto.

Durante dez mil anos, a concentração de metano na atmosfera ficou abaixo de 750 partes por mil milhões (ppb). Começou a subir no século XIX e continuou a subir até meados dos anos 90. Ao longo do caminho, causou até um terço do aquecimento que o planeta experimentou desde o início da Revolução Industrial.

Os cientistas acreditavam que os níveis de metano podem ter atingido um novo equilíbrio e que os esforços para reduzir as emissões poderão reverter a tendência histórica. “A esperança era de que o metano estivesse a começar a sua trajectória para baixo”, disse Matt Rigby, cientista da Universidade de Bristol, na Inglaterra. “Mas vimos exactamente o oposto: está a crescer constantemente há mais de uma década.”

Os cientistas apresentaram várias explicações. Poderiam estar a crescer as emissões de combustíveis fósseis ou a agricultura? Um aumento na produção de metano em áreas húmidas? Mudanças na taxa em que o metano reage com produtos químicos na atmosfera?

Nisbet e a sua equipa examinaram se alguma destas hipóteses se sincronizava com a mudança na assinatura química do metano na atmosfera. Algumas moléculas de metano pesam mais que outras, porque alguns átomos de carbono e hidrogénio são mais pesados ​​que outros. O peso médio do metano na atmosfera está a ficar mais leve.

Isto parece implicar fontes biológicas, como zonas húmidas e gado, que tendem a produzir metano leve. Daniel Jacob, um químico atmosférico de Harvard, disse que a explicação se enquadra na sua própria investigação. Os resultados sugerem que a maior parte do metano vem dos trópicos, que abrigam vastas áreas húmidas e uma grande proporção do gado.

Estimativas de emissões de minas de carvão e poços de petróleo e gás sugerem que as contribuições de combustíveis fósseis também estão a aumentar, mas essas fontes geralmente libertam moléculas mais pesadas de metano, o que entra em conflito com as observações atmosféricas.

Os incêndios criam uma versão ainda mais pesada do metano e a queima agrícola – particularmente nos países em desenvolvimento – parece ter diminuído. Uma queda nessa fonte de metano ultra-pesado tornaria o metano atmosférico mais leve mascarando um aumento nas emissões de combustíveis fósseis.

Nisbet e os colegas concluíram que não podem descartar nenhuma das explicações. “Podem estar todos a acontecer”, disse.

Os cientistas temiam que o descongelamento de sedimentos e solos árcticos pudesse libertar grandes quantidades de metano, mas até agora não há provas disso. Nisbet disse que teme que o aumento dos níveis de metano possa ser um sinal de um ciclo perigoso: a mudança climática pode fazer com que as zonas húmidas se expandam e permitam que o meio ambiente sustente mais animais, levando a ainda mais emissões de metano. “Parece claramente que o aquecimento está a alimentar o aquecimento”, disse.

Se o metano continuar a aumentar, os investigadores dizem que poderia comprometer seriamente os esforços para manter a temperatura do planeta sob controlo. Reduzir as emissões de CO2 para atingir as metas climáticas é uma tarefa difícil, mesmo sem o metano extra.

ZAP // Phys

Por ZAP
9 Março, 2019

 

1505: Choveu metano a norte de Titã, a maior lua de Saturno

NASA / JPL-Caltech
As imagens foram capturadas na última missão da sonda Cassini

Uma equipa de cientistas descobriu evidências de chuva de metano no pólo norte de Titã, a maior lua de Saturno. Identificado graças às imagens da última missão espacial da sonda Cassini, o fenómeno meteorológico aponta para o início do verão no hemisfério norte do satélite natural.   

Quando Cassini chegou à orbita de Saturno, em meados de 2004, era verão no hemisfério sul de Titã. Anos depois, em 2011, as mudanças atmosféricas foram interpretadas pelos cientistas como o início do inverno no sul do satélite. Contudo, as chuvas esperadas no norte não chegaram a ser detectadas.

“Toda a comunidade [que estuda] Titã estava à espera para ver as nuvens e as chuvas no pólo norte do satélite, o que indicaria o início do verão setentrional. Contudo, e apesar das previsões dos modelos climáticos, nem sequer vimos nuvens”, disse o físico Rajani Dhingra, da Universidade norte-americana de Idaho em Moscovo. O cientista precisou que o fenómeno acabou por ser baptizado como o “curioso caso das nuvens perdidas”.

Depois de todo o tempo de espera, foram finalmente encontradas evidências de chuva a norte de Titã. A equipa de investigação encontrou uma região estranha e brilhante que ocupa cerca de 120 quilómetros da superfície da lua. A área, que não tinha sido até então detectada em imagens anteriores, foi obtida através do espectrómetro de mapeamento visual e infravermelho (VIMS) da sonda Cassini a 7 de Julho de 2016.

“Com base no brilho geral, nas características espectrais e no contexto geológico, atribuímos a nova característica encontrada às espectaculares reflexões de uma superfície sólida molhada pela chuva – como uma calçada molhada reflectida pelo Sol”, exemplificaram os autores no artigo científico, esta semana publicado na revista especializada Geophysical Research Letters.

Segundo escrevem na publicação, o brilho visível é resultado da chuva de metano numa superfície semelhante a uma pedra, seguida, provavelmente, de um período de evaporação. Esta é a primeira evidência de chuva de verão no hemisfério norte de Titã.

Não obstante ao facto deste satélite natural ser bastante diferente da Terra, o seu clima é bastante semelhante ao nosso planetas em vários aspectos: uma estação em Titã dura, em média, 7,5 anos terrestre, embora a sua duração varie, uma vez que a órbita de Saturno é irregular.

ZAP //

Por ZAP
21 Janeiro, 2019