1935: Detectado pela primeira vez um sistema de enxames globulares no disco de uma galáxia

Imagens a cores falsas de M106. A figura combina dados de hidrogénio neutro, obtidos com o WSRT (Westerbrook Synthesis Radio Telescope), a azul, com imagens ópticas obtidas com o CFHT a verde e vermelho. Os círculos amarelos realçam os enxames globulares observados, dispostos num disco que gira em fase e à mesma velocidade que o gás neutro.
Ilustração e design: Divakara Mayya (INAOE)

Um estudo internacional realizado com o instrumento OSIRIS acoplado ao GTC (Gran Telescopio Canarias) descobriu, na galáxia espiral Messier 106, um sistema de enxames globulares cuja distribuição e movimento invulgares, que estão alinhados com o disco da galáxia e que giram à mesma velocidade, mostram que pode ser uma relíquia da época de máxima formação estelar no Universo, o “meio-dia cósmico”. Os resultados foram publicados na revista The Astrophysical Journal.

Os enxames globulares têm entre cem mil e um milhão de estrelas, cujos componentes são aproximadamente da mesma idade e têm uma composição química semelhante. São objectos muito antigos, formados há cerca de 11,5 mil milhões de anos, 2,3 mil milhões de anos após o Big Bang. Estes enxames podem normalmente ser encontrados em galáxias grandes, nos seus halos, distribuídos esfericamente em torno dos seus centros.

Uma investigação internacional, liderada por um grupo da Universidade Nacional Autónoma do México e realizada com o instrumento OSIRIS do Gran Telescopio Canarias (GTC), descobriu na galáxia espiral Messier 106 (também conhecida como M106 ou NGC 4258) enxames globulares que, em vez de estarem distribuídos numa esfera, parecem estar dispostos num disco alinhado com o disco de gás da galáxia e a girar aproximadamente à mesma velocidade neste disco.

“Nunca vimos isto antes, é uma daquelas descobertas totalmente inesperadas e surpreendentes que ocorrem na ciência,” explica Rosa Amelia González-Lópezlira, investigadora do Instituto de Radioastronomia e Astrofísica da mesma universidade mexicana, que liderou este trabalho. “A maneira como estes enxames se movem, e a sua distribuição, é semelhante aos discos de galáxias durante o período de máxima formação estelar, há cerca de 10 mil milhões de anos atrás, no que é conhecido como ‘meio-dia cósmico’, de modo que pensamos que o disco de enxames em M106 possa ser um remanescente daquela época.”

O poder do GTC e do OSIRIS

Os dados obtidos com o instrumento OSIRIS, acoplado ao GTC no observatório Roque de los Muchachos, foram de importância extrema, sobretudo para confirmar os candidatos a enxames globulares e para distingui-los de outras fontes pontuais aparentes como estrelas e galáxias distantes. Para fazer isso, é necessário obter espectros para mostrar que cada enxame tem uma população coesa de estrelas antigas e que realmente pertence à galáxia em estudo.

Para Divakara Mayya, investigador do INAOE (Instituto Nacional de Astrofísica, Óptica y Electrónica), no México, e segundo autor do artigo, “as observações do GTC e do OSIRIS são essenciais para o sucesso do estudo, dado que os objectos estão bem distantes e requerem exposições de mais de uma hora com o maior telescópio óptico-infravermelho do mundo a fim de extrair as informações relevantes dos espectros”.

O instrumento OSIRIS (Optical System for Imaging and low-Intermediate-Resolution Integrated Spectroscopy) é um espectrógrafo multi-objecto construído no IAC (Instituto de Astrofísicas das Canárias) em colaboração com o México, que é capaz de observar vários objectos de cada vez. “Ter esta capacidade de multiplexação, a de obter vários espectros simultaneamente, é fundamental para este tipo de estudo, e está disponível em três dos actuais instrumentos do GTC, abrangendo o óptico e o infravermelho,” explica Antonio Cabrera, chefe de operações científicas no GTC. Para este trabalho, foram observados, em dois campos, 23 enxames globulares candidatos.

Este artigo é um resultado de um projecto mais amplo que estudará os sistemas de enxames globulares em nove galáxias espirais num raio de 52 milhões de anos-luz, a fim de examinar a relação entre o número de enxames globulares e a massa do buraco negro central nas galáxias espirais. “Esta relação é muito forte para galáxias elípticas, mas não é tão clara para galáxias espirais, como a Via Láctea,” comenta a cientista Lópezlira. “As nove galáxias que planeamos estudar têm boas estimativas de massas para os seus buracos negros centrais e ficam a distâncias onde podemos fazer bons estudos dos seus enxames globulares.”

Este estudo recente confirma que existe uma correlação entre o número de enxames globulares e a massa do buraco negro central de M106 e confirma a precisão do método fotométrico usado no GTC. “Os estudos deste tipo, em mais galáxias espirais, podem esclarecer o papel das diferentes hipóteses propostas para a construção das galáxias, dos enxames globulares e dos buracos negros centrais,” conclui a autora principal do artigo.

Astronomia On-line
7 de Maio de 2019

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