2176: Troféus feitos de crânios podem explicar o fim da civilização Maia

CIÊNCIA

axelrd / Flickr

A descoberta recente de dois crânios usados como troféu nas selvas de Belize pode ajudar a esclarecer o colapso pouco explicado da civilização maia clássica.

Os crânios humanos foram pintados e tinham o propósito de serem usados como um colar em volta do pescoço. Foram enterrados há mais de mil anos com um guerreiro na cidade maia de Pacbitun e, possivelmente, eram troféus de guerra feitos dos restos de inimigos derrotados, de acordo com o artigo do antropólogo Gabriel D. Wrobel no The Conversation.

Os autores destes pendentes extravagantes gastaram muito tempo a prepará-los. Primeiro, tiraram a carne ao crânio com uma lâmina afiada e, depois, fizeram dois furos em cada extremidade, a fim de ancorar uma corda para suspender o crânio. Um dos troféus do crânio foi esculpido com um desenho ornamentado e pintado com pigmento vermelho.

Este achado, juntamente com o crescente número de descobertas em Belize, Honduras e México, parece mostrar que eclodiu um conflito civil entre os poderes do norte e as dinastias estabelecidas do sul. Em muitas cidades do norte, as descobertas deste período têm um sentido militarista.

Os vasos de cerâmica encontrados próximos aos crânios datam do século 8 ou 9, quando se iniciou o declínio da cidade de Pacbitun, enquanto os centros políticos no norte se tornaram dominantes.

Estudos anteriores concentraram-se na degradação ambiental como a principal causa do colapso do poderoso império. No entanto, embora os factores ambientais tenham tido um grande impacto, não explicam o declínio ao longo de um século e meio.

Para explicar a complexidade do que aconteceu, segundo o estudo publicado na revista Latin American Antiquity, os arqueólogos contemplam agora a violência e a guerra como factores que contribuem para o declínio de algumas cidades do sul, como evidenciado pelas fortificações construídas tão rapidamente em alguns lugares.

Embora as evidências dos crânios não mostram conclusivamente que as planícies do sul foram invadidas por guerreiros do norte, está claro que foi a violência e a guerra que puseram um ponto final na ordem política do império.

Anteriormente, os especialistas da Universidade de Cambridge mostraram que, no momento do colapso, produziram-se graves secas, que a chuva reduziu até 70%. As condições climáticas severas terão sido um golpe fatal para a civilização.

Enquanto a razão para o colapso permanece incerta, esta relíquia talvez sirva como uma horrível lembrança da sua queda no caos e na ruína.

ZAP //

Por ZAP
15 Junho, 2019

2149: Afinal, os Maias não sacrificavam os vencedores do jogo de bola

CIÊNCIA

(dr) Dallas Museum of Art

Os sacrifícios durante o jogo de bola não faziam parte integrante da actividade do povo maia, segundo o estudo recente de um cientista dinamarquês que desmente as crenças populares sobre a civilização pré-colombiana.

Cientistas da Universidade de Copenhaga concluíram que o mito popular sobre sacrifícios humanos dos vencedores do jogo de bola na civilização maia é apenas uma ficção, segundo a revista Live Science.

Este jogo foi popular entre os maias, astecas e outros povos da Mesoamérica. Em 1987, um estudo publicado na revista Res: Anthropology and Aesthetics afirmou que os vencedores eram sacrificados e que o jogo era considerado como uma acção ritual que personificava a luta do bem contra o mal.

Entretanto, novas investigações permitiram estudar melhor as regras. Os arqueólogos analisaram as obras de monges espanhóis, assim como os baixos-relevos maias, um deles é datado dos anos 700-800 da nossa era. Este baixo-relevo mostra pessoas a jogar com uma bola de borracha.

Especialistas revelaram que, em estádios antigos, faltavam frequentemente os anéis da pedra, os tais em que seria preciso fazer passar a bola, o que seria considerado como o objectivo principal do jogo. Às vezes o jogo era chamado de “basquetebol maia”.

Além disso, os investigadores provaram que os espectadores faziam apostas sobre o resultado da competição e ganhavam ou perdiam importâncias consideráveis. Os sacrifícios, segundo as conclusões deste estudo, representaram casos excepcionais. Provavelmente tratavam-se de prisioneiros de outras tribos.

“Isso seria, na verdade, terrível se os melhores jogadores fossem sacrificados regularmente. O mito de sacrifícios humanos foi criado por causa de desenhos descobertos em vários terrenos do jogo de bola que mostravam crânios e ossos. Mas será que os devemos interpretar literalmente?”, explica um dos co-autores do estudo, Christophe Helmke.

Segundo o cientista, o sacrifício não era parte integrante do jogo. Se alguém fosse morto, seria uma pessoa já condenada à morte antes do jogo. Entretanto, o investigador indica que as execuções de prisioneiros provavelmente terão aumentado a popularidade do jogo.

ZAP //

Por ZAP
10 Junho, 2019



2083: A civilização Maia também lidou com alterações climáticas (e sobreviveu)

CIÊNCIA

Tony Hisgett / wikimedia
Chichén Itzá é uma cidade arqueológica maia, no Iucatã, que funcionou como centro político e económico da civilização maia.

As alterações climáticas não são nada de novo e, já na altura da civilização Maia, os povos tiveram de se readaptar para sobreviverem a uma nova realidade. Os Maias desenvolveram técnicas para remediarem situações de, por exemplo, épocas de seca.

As concentrações de dióxido de carbono na atmosfera da Terra atingiram 415 partes por milhão – um nível que se verificou pela última vez há mais de três milhões de anos, muito antes da evolução dos seres humanos. Esta notícia aumenta a preocupação crescente de que as mudanças climáticas provavelmente causarão sérios danos ao nosso planeta nas próximas décadas.

Apesar de a temperatura na Terra nunca ter estado tão alta, podemos aprender sobre como lidar com a mudança climática ao observar a civilização Maia, que prosperou entre 250-950 d.C. no leste da Mesoamérica, a região que hoje é ocupada pela Guatemala, Belize, México Oriental e partes de El Salvador e Honduras.

Muitas pessoas acreditam que a antiga civilização Maia terminou quando misteriosamente “entrou em colapso”. E é verdade que os Maias enfrentaram muitos desafios de mudanças climáticas, incluindo secas extremas que acabaram por contribuir para o colapso das suas grandes cidades-estado do Período Clássico.

No entanto, os Maias não desapareceram: mais de 6 milhões de pessoas com raízes Maia vivem hoje no leste da Mesoamérica. Além disso, com base na investigação de antropólogos na Península do Norte de Yucatán, acredita-se que a capacidade das comunidades Maias de adaptar as práticas de conservação de recursos desempenhou um papel crucial em permitir que sobrevivessem por tanto tempo.

Em vez de se concentrar nos momentos finais da civilização Maia, a sociedade pode aprender com as práticas que lhes permitiram sobreviver por quase 700 anos, quando consideramos os efeitos das mudanças climáticas nos dias de hoje.

Adaptação a condições secas

Uma combinação de factores, incluindo mudanças ambientais, contribuiu para o colapso de muitos grandes centros pré-clássicos após o início do primeiro milénio d.C.

Evidências disponíveis sugerem que, embora o clima tenha permanecido relativamente estável durante grande parte do Período Clássico, houve períodos ocasionais de diminuição da precipitação. Além disso, todos os anos, as épocas seca e chuvosa foram marcadamente divididas. Maximizar a eficiência e o armazenamento de água e correctamente sincronizar a época de plantio foi muito importante.

Se as chuvas não acontecessem como esperado por um ano ou dois, as comunidades poderiam contar com água armazenada. No entanto, secas mais prolongadas acentuaram a hierarquia política e complexas redes comerciais inter-regionais. A chave primordial para a sobrevivência foi aprender a adaptarem-se às mudanças ambientais.

Por exemplo, os Maias desenvolveram redes mais elaboradas de terraço e irrigação para proteger contra o escoamento do solo e o esgotamento de nutrientes. Projectaram também sistemas de drenagem e armazenamento que maximizaram a captação de água da chuva.

Declínio e colapso

Durante os séculos IX e X d.C., muitas das grandes cidades Maias clássicas caíram como resultado de várias tendências de longo prazo, como o crescimento populacional, a guerra cada vez mais frequente e uma burocracia cada vez mais complexa. O declínio das chuvas piorou a situação de risco.

No final, vários centros populacionais experienciaram eventos de abandono relativamente rápidos. No entanto, diferentes áreas decaíram ao longo de um período de mais de dois séculos. Chamar a esta série de eventos um colapso ignora a capacidade das comunidades Maias de se preservarem por gerações, apesar dos desafios crescentes.

Podemos ver padrões semelhantes em várias outras civilizações. As comunidades ancestrais de Puebloan no sudoeste dos Estados Unidos, anteriormente conhecidas como Anasazi, desenvolveram redes de irrigação para cultivar uma paisagem naturalmente árida começando por volta do início do primeiro milénio.

Quando as chuvas começaram a decair nos séculos XII e XIII, elas se reorganizaram em unidades menores e moveram-se pelas redondezas. Esta estratégia permitiu que eles sobrevivessem mais tempo do que teriam se se mantivessem no mesmo lugar.

ZAP // The Conversation

Por ZAP
31 Maio, 2019


1135: A civilização maia produzia sal há mais de mil anos (e usava-o como moeda de troca)

CIÊNCIA

Vviktor / Pixabay
Templo de Kukulcán, localizado em Chichén Itzá – uma cidade arqueológica maia, no Iucatã,

A antiga civilização maia não só produzia e armazenava sal há mais de mil anos, como também o utilizava como moeda de troca para obter outros produtos

De acordo com um novo estudo, publicado nesta segunda-feira na revista científica PNAS, os maias utilizavam o método tradicional de produção de sal, em que ser ferve a salmoura em salinas de madeira de forma a obter o mineral. Esta técnica foi depois aplicada em várias partes do mundo antigo em períodos posteriores.

Os maias utilizavam o sal para conservar alimentos, principalmente carne e peixe. Segundo com Heather McKillop, uma das autoras da publicação, foram descobertas marcas microscópicas em ferramentas que indiciam esse uso.

Os cientistas da Universidade norte-americana de Luisiana encontraram restos de uma antiga fábrica de sal em Belize, nas Caraíbas. No local, chamado de Salinas de Paynes Creek, foram descobertas várias ferramentas de pedra que revelaram que os maias produziam sal em grandes quantidades.

Nesta mesma zona, a equipa de investigação encontrou ainda mais de 4 mil postes de madeira que delimitam uma série de edifícios que eram usados como cozinhas, onde a salmoura era fervida em enormes panelas de modo a produzir sal.

Louisiana State University
Algumas das ferramentas encontradas

O sal produzido servia não só para o consumo local, mas também como moeda de troca. Quando se destinava à comercialização, o mineral era disposto em blocos de forma a facilitar a transacção. Além de sal, os maias trocavam também tecidos e cacau.

Para realizar as trocas, os maias que viviam na região viajavam em canoas ao longo da costa ou pelos rios próximos para chegar aos mercados vizinhos das grandes cidades da época, como Caracol e Tikal.

Por ZAP
12 Outubro, 2018

 

1027: A mítica civilização maia já domesticava e vendia grandes felinos

CIÊNCIA

(dr) N. Sugiyama
Crânio de um puma que foi sepultado com uma jovem da civilização maia

Uma sepultura encontrada na antiga cidade maia de Copán, nas Honduras, tinha no seu interior os restos mortais de uma jovem com as pernas cruzadas. Curiosamente, a jovem não estava “sozinha” – ao seu lado foram encontrados ossos de dois veados e de um crocodilo.

No entanto, as surpresas não se ficam por aqui: de acordo com os investigadores, foi também encontrado um esqueleto completo de um puma na sepultura, aparentemente abatido como parte do ritual fúnebre.

Segundo a investigação, publicada esta quinta-feira na PLOS, os cientistas acreditam que o felino pode ter sido domesticado pela civilização antiga, explicando que o puma fazia parte de um vasto esquema de domesticação de grandes felinos.

O mesmo documento nota que todos os restos mortais encontrados estavam na sepultura desde de o ano 435 d.C – inicio da história maia.

“Os ossos de jaguares e pumas encontrados na zona maia de Cópan evidenciam a existência quer de cativeiro que de grandes redes de comércio” durante a civilização maia, disse em comunicado Nawa Sugiyama, arqueóloga da Universidade George Manson, nos Estados Unidos, e principal autora do estudo.

As novas descobertas vão ao encontro de pesquisa anteriores, que já davam conta que as culturas Mesoamericanas mantinham animais selvagens em cativeiro para uso posterior em rituais. Além disso, ficou também confirmado que as redes de comércio de animais na Mesoamérica antiga eram bem mais extensas do que se pensava até então.

Sepultamentos com animais exóticos

Não é incomum para os arqueólogos encontrar restos de grandes felinos e outros animais em cidades mesoamericanas. Perto de um altar em Copán, onde se faziam os sacrifícios com animais, os cientistas encontraram vestígios de grandes felinos tão compactados que acabaram por os chamar de “cozido de onça”, revela o artigo.

No entanto, estes animais revelaram detalhes além dos próprios rituais. Apesar de já ser conhecido que as populações de Copán tinham conseguido domesticar cães e perus, as novas análises realizadas aos ossos dos felinos e outros animais, revelaram que estes animais eram mantidos e criados em cativeiro.

A investigação revelou que pelo menos alguns dos animais não viviam na natureza, ou seja, não foram caçados, mas antes mantidos e alimentados como animais domésticos – o que significa que os primeiros mesoamericanos tiveram e comercializaram grandes felinos e outros animais muito antes do que os arqueólogos imaginavam.

Além de pumas e jaguares, veados e pássaros eram também comercializados na época em Copán, evidenciando que houve grande comércio de animais na América do Sul há mais de mil anos. Milhares de anos depois, a mítica civilização maia continua a revelar (alguns) dos seus mistérios.

Por ZAP
17 Setembro, 2018

See also Blogs Eclypse and Lab Fotográfico

958: Descoberta máscara que pode representar o amado rei maia Pakal, o Grande

CIÊNCIA

(dr) INAH
Arqueólogos pensam ter encontrado máscara que representa Pakal, o Grande

Arqueólogos no México desenterraram um máscara de gesso em tamanho real no Palácio de Palenque, em Chiapas, que pode representar um dos mais importantes e amados reis da Mesoamérica: K’inich Janaab’ Pakal.

De acordo com o Science Alert, também conhecido como “Pakal, o Grande”, o seu reinado foi o mais longo da história das Américas, tendo chegado ao trono com apenas 12 anos em 615 A.C. e governou até morrer 68 anos depois, aos 80 anos de idade.

A máscara foi descoberta num edifício chamado Casa E, onde se pensa que Pakal tenha sido empossado como rei, anunciou no início deste mês o Instituto Nacional de Antropologia e História do México (INAH).

“Não é a representação de um deus. Depois de analisarmos várias imagens, é possível que seja Pakal, o Grande. Temos bastantes certezas disso neste momento”, afirma o arqueólogo Arnoldo González, citado pelo mesmo site.

A máscara estava juntamente com o que o instituto apelidou de uma “vasta oferenda”, já que no local se encontravam também fragmentos de alabastro, figuras e fragmentos de cerâmica, pérolas, jadeíta, sílex, madrepérola, obsidiana, cinábrio, pirita polida e ossos de animais.

A oferenda, associada ao fim da construção de um edifício ou secção do mesmo, teria sido de grande valor – os materiais encontrados eram estranhos a Palenque. Além disso, os vasos de cerâmica datam esta oferenda à fase cerâmica de Murciélagos, há cerca de 700 A.C., o que significa que talvez tenha sido dada no final do reinado de Pakal.

Os investigadores acreditam que a máscara tenha feito parte de alguma decoração arquitectónica, embora não se saiba ao certo onde e como. Curiosamente, parece representar um rosto fortemente alinhado o que, sabendo que Pakal reinou toda a vida, sugere que seja a primeira máscara encontrada que mostra o rei na sua velhice.

O rei Pakal quando era adolescente (à esquerda) e quando era um jovem adulto (à direita)

“É uma descoberta importante porque, ao contrário de outros sítios maias onde as representações são genéricas, em Palenque muitas das características que vemos em murais ou relevos são fiéis representações de personagens específicas”, explica o arqueólogo Benito Venegas Durán.

Os elementos representados na oferenda, segundo os investigadores, indicam um contexto aquático ou ligado à fertilidade. Alguns dos ossos descobertos eram de peixes ou de tartarugas e uma das figuras assemelha-se a um camarão, enquanto que um navio desenhado a esgrafito foi decorado com lírios e peixes.

A descoberta foi feita quando os arqueólogos seguiam o rasto de canais de água, com o objectivo de descobrir como a civilização maia drenava a água do edifício.

Em vez disso, a equipa canalizou a água até à Casa E, onde também encontraram restos de uma lagoa, com bancos ao lado, o que, relacionando com os temas da oferenda, “dá-nos a visão de uma possível relação com desportos aquáticos“, nota González.

“Palenque continua a deslumbrar-nos com tudo o que tem para oferecer no contexto arqueológico, antropológico e histórico”, considera Diego Prieto Hernández, director-geral do INAH.

ZAP //

Por ZAP
3 Setembro, 2018

(Foram corrigidos 3 erros ortográficos ao texto original)

See also Blogs Eclypse and Lab Fotográfico

949: Livro maia é o mais antigo documento pré-colombiano, confirma instituto mexicano

“Glorier Codex” está confirmado como o mais antigo documento pré-colombiano.

Imagens do Códice Maia
© Direitos Reservados

O Instituto Nacional de História e Antropologia do México confirmou na quinta-feira a autenticidade do livro maia Glorier Codex, descoberto há 54 anos e considerado o mais antigo documento pré-colombiano.

“O Códice Maia do México é autêntico e apresenta-se como o manuscrito pré-hispânico legível mais antigo do continente americano”, disse o antropólogo Diego Prieto Hernández, director-geral do Instituto Nacional de Antropologia e História, no início do Simpósio El Códice Maya, antes Grolier.

De acordo com analistas, o texto pictográfico foi escrito entre os anos 1021 e 1154 (D.C.) e é mesmo o mais antigo documento da era pré-colombiana, ou seja, antes das chegada dos europeus ao continente americano. A vida útil terá sido de 104 anos, detalha o instituto numa nota publicada no seu site.

Com este reconhecimento, o Glorier Codex — do qual restam apenas 10 páginas – passa a ter uma nova denominação: Códice Maia do México.

Vendido a um coleccionador mexicano em 1964, o código foi exibido pela primeira vez no Grolier Club, em Nova Iorque, em 1971. Mais tarde, em 1974, Josue Saenz acabou por devolver o livro às autoridades.

Durante anos, vários arqueólogos duvidaram da sua autenticidade, ou pelo ‘design’ simples, ou por ter sido saqueado de uma caverna no sul de Chiapas, estado mexicano onde um terço da população é descendente dos maias.

Na verdade, “o estilo difere de outros códigos maias que são conhecidos e comprovados como autênticos”, lê-se num comunicado do mesmo instituto, que justifica a simplicidade com a escassez dos recursos da época.

“Como o livro foi escrito tão cedo, foi criado numa era de relativa pobreza em comparação com os outros trabalhos”.

Cerca de três outros “livros” maias sobreviveram a uma tentativa dos conquistadores espanhóis de destruir os artefactos maias nos anos 1500.

O Glorier Codex contém uma série de observações e previsões relacionadas com o movimento astral de Vénus.

Embora estudos anteriores tenham apoiado a autenticidade do texto, este reconhecimento dita o fim das dúvidas e da controvérsia.

“Durante muito tempo, críticos disseram que o estilo não era maia e que era ‘o mais feio’ deles em termos de figuras e cores”, disse a pesquisadora do instituto Sofia Martinez del Campo.

“Mas a austeridade do trabalho é explicada por sua época. Quando as coisas são escassas, usa-se o que se tem em mãos”, concluiu.

Os textos maias são escritos numa série de glifos silábicos, nos quais uma figura pintada com determinado estilo representa uma sílaba.

O Códice será exibido durante um mês, de 27 de Setembro até final de Outubro, na Feira Internacional do Livro de Antropologia e História.

Diário de Notícias
DN/Lusa
31 Agosto 2018 — 08:46

(Foram corrigidos 4 erros ortográficos ao texto original)

See also Blogs Eclypse and Lab Fotográfico

904: A desflorestação da antiga civilização maia ainda afecta a América Central

Daniel Schwen / Wikimedia
Pirâmide de Kukulcán, na cidade maia de Chichen Itza, no México

Antes do seu misterioso colapso, há mais de mil anos, a civilização maia foi uma das populações mais densas da história da humanidade. Mas, à medida que a civilização antiga florescia na Península de Yucatán, iam sendo deixadas marcas nefastas no ambiente – que ainda hoje afectam a América Central.

Um novo estudo, publicado esta segunda-feira na revista Nature, mostra que os séculos de desflorestação levada a cabo pela civilização maia mudaram drasticamente a capacidade das florestas locais em armazenar carbono no solo.

Actualmente, as reservas de carbono não estão completamente recuperadas na região – mesmo milhares de anos depois da cidades maias terem sido abandonadas e as florestas terem voltado a crescer.

Este estudo alerta para a desflorestação desconcertante que acontece nos dias de hoje nos trópicos, numa escala que assustaria até a própria civilização maia. A investigação sugere ainda que estes comportamentos podem ter sérias repercussões nos níveis futuros de gases de efeito de estufa.

“Hoje, quando vamos à região de Yucatán, grande parte da região parece ter uma floresta tropical densa e antiga”, disse o autor principal e geoquímico Peter Douglas.

Esclarecendo, contudo, que “quando se olha para o armazenamento de carbono no solo, parece que o solo foi fundamentalmente modificado e nunca voltou ao estado original“.

A importância do solo

O solo é uma peça-chave na investigação sobre as alterações climáticas, uma vez que é capaz de armazenar uma quantidade impressionante do carbono – mais do dobro da quantidade existente na atmosfera da Terra.

Quanto as plantas morrem, o carbono que estas retiram da atmosfera é transferido directamente para o solo. E, se o carbono da planta se ligar a um mineral, este pode ficar no solo durante milhares de anos.

Este é o tipo de carbono que Douglas e a sua equipa planeiam investigar. Pois, embora as reversas no solo tenham sido estudadas durante décadas, os cientistas ainda não têm a certeza do que é que acontece com estas reservas em períodos maiores de tempo, que abrangem séculos ou até mesmo milénio.

Para a investigação, a equipa analisou sedimentos retirados de três lagos nas planícies maias e identificou moléculas específicas nas amostras, chamadas de ceras vegetais, que se ligam a minerais e ficam armazenadas no solo por um longo período de tempo. A idade destas moléculas e das plantas fósseis circundantes foi determinada através do método de datação por radio-carbono.

As conclusões sugerem uma redução de 70 a 90% na idade das ceras vegetais e estas mudanças coincidem com os padrões de uso de terras e solos dos antigos maias. As descobertas implicam que, após a desflorestação maia, o carbono era armazenado no solo por muito menos tempo.

“Analisando estes dados em conjunto, percebemos que havia um importante conjunto de dados ligados à desflorestação da civilização maia e às mudanças no reservatório de carbono no solo”, explicou Douglas.

Estas descoberta não só são importantes para melhor compreender o passado, como também fornecem orientações e avisos para o futuro. Resumidamente, plantar árvores é uma óptima iniciativa mas, se a desflorestação causar danos significativos nas reservas de carbono, pode ser em vão.

Os cientistas esperam agora conseguir aplicar a mesma pesquisa a uma escala global.

“Seria excelente analisar outras florestas tropicais do mundo para perceber se emergem os mesmos padrões – e para observar se a desflorestação humana do passado e a agricultura tiveram impacto sobre os reservatórios de carbono no solo a nível global”, concluiu.

Por ZAP
23 Agosto, 2018

(Foram corrigidos 6 erros ortográficos ao texto original)

See also Blogs Eclypse and Lab Fotográfico

860: O túmulo da Rainha Vermelha guarda vários segredos da civilização maia

(dr) Instituto Nacional de Antropologia e Historia
Os restos mortais da “Rainha Vermelha”

Os restos mortais da “Rainha Vermelha”, encontrados em 1994, em Palenque, no México, mostram que eram uma figura da alta sociedade.

Parecia a cena de um crime: cadáveres de uma criança com a garganta cortada e de uma mulher, cujo coração fora removido, deitados ao lado de um sarcófago, esculpido num único pedaço de pedra, com 2,40 metros de comprimento e 1,18 metros de largura.

Além das pedras de jade no interior do túmulo, havia também ossos e conchas cobertos por uma espécie de poeira avermelhada, proveniente de um minério chamado cinábrio que era usado para preservar restos mortais.

O sarcófago foi encontrado em Junho de 1994, em Palenque, no México, e, a partir daí, a mulher enterrada há 1.346 anos, ou seja, mais precisamente no ano de 672, ganhou o título de “Rainha Vermelha”.

Os restos mortais já circularam por várias cidades dos EUA, Canadá e México e agora, 24 anos depois desta descoberta, o enxoval funerário da rainha vai finalmente chegar ao público. O material será exibido pela primeira vez no Museu do Templo Mayor, na Cidade do México, onde pode ser visitado até 9 de Setembro.

Mas, afinal, quem era esta mulher e o que é que nos pode dizer sobre o mundo maia? A análise dos restos mortais da aristocrata levou os investigadores a concluir que tinha 1,54 metros de altura, morreu quando tinha entre 50 a 60 anos e tinha o crânio deformado, com uma testa achatada, para seguir os padrões de beleza da sociedade maia.

Com este material, os cientistas também conseguiram concluir que a “Rainha Vermelha” sofria de osteoporose, de sinusite crónica e teve filhos. Além disso, na sua tíbia esquerda, encontraram um casulo de larvas de vespa. Acredita-se que, quando morreu, estaria bastante debilitada.

Aristocrata da alta sociedade

Os seus dentes indicam que não nasceu na região de Palenque, onde os seus restos mortais foram encontrados, que sofria de tártaro, abcessos e cáries, e que tinha uma dieta rica em carne – uma característica que mostra que fazia parte da alta sociedade.

No entanto, não foi só a dentição que provou que era uma mulher de classe privilegiada. Que o diga a arqueóloga Fanny López Jiménez, que foi quem encontrou a urna da rainha.

Durante a sua investigação, leu repetidas vezes os relatos dos arqueólogos Alberto Ruz e Jorge Acosta, que fizeram grandes descobertas no mesmo templo nas décadas de 50 e 70. “Não entendi como é que foi possível eles me terem deixado tal presente, o que na verdade não me desagradou nem um pouco”, escreveu a investigadora na revista Arqueologia Mexicana.

Devido à localização do sarcófago, ao lado do Templo das Inscrições, perto do rio Usumacinta, em Chiapas, o seu alto posto já estava praticamente comprovado. O templo em questão foi construído para guardar os restos mortais de Pacal, o Grande, um homem que viveu entre os anos 603 e 683.

Pacal foi rei desde os 12 anos, liderou uma campanha militar que deu grande renome a Palenque e fez com que a história do seu povo fosse registada em glifos. Os seus restos mortais foram encontrados em 1949.

Graças a esses escritos, Fanny conseguiu fazer uma lista de quem eram as mulheres mais importantes da sua vida: a avó Yohl Ik Nal, rainha de Palenque, a sua mãe Sak Kuk e a esposa Tzakbu Ajaw.

Porém, análises de ADN feitas pelo arqueólogo Carney Matheson, da Universidade de Lakehead, em Ontário, revelaram que não havia relação de parentesco entre Pacal e a “Rainha Vermelha”.

Desta forma, foi possível descartar que o cadáver da mulher pudesse ser da avó ou da mãe de Pacal. Restava a indicação de que pudesse ser a esposa e a mãe dos seus dois filhos: K’inich Kan Bahlam II, que sucedeu no reinado, e K’inich K’an Joy Chitam II, que também foi rei de Palenque durante nove anos.

Se um dia forem encontrados os túmulos de qualquer um deles, poderá vir a ser confirmada a real identidade da “Rainha Vermelha”.

Indícios de mortes sangrentas

Segundo o livro “A Rainha Vermelha: O segredo dos maias em Palenque”, da jornalista mexicana Adriana Malvido, os ossos da mulher e da criança encontrados ao lado do sarcófago foram analisados em Miami, nos EUA, onde se concluiu que foram sacrificados entre os anos 620 e 680, datas que correspondem ao tempo em que a esposa de Pacal estava viva.

O arqueólogo mexicano Arnoldo González disse ao Discovery Channel que esses corpos foram sacrificados para fornecer “um novo e fresco suprimento de sangue”, o que diz muito sobre as circunstâncias das suas mortes.

No livro “Janaab’ Pakal de Palenque”, de Vera Tiesler e Andrea Cucina, destaca-se o facto de os dois cadáveres terem sido encontrados no chão. “Nenhum dos corpos foi depositado com cuidado”, dizem.

A mulher, com idade entre 20 e 30 anos, sofreu várias facadas em duas costelas e estava deitada de bruços, com os braços cruzados sobre as costas: “As várias marcas profundas e unidireccionais indicam um padrão complexo de violência”.

Inclusive, acredita-se que o corpo da mulher sofreu “uma separação em duas metades ou simplesmente uma carnificina que fazia parte de uma mutilação ritual logo após a remoção do coração”.

A criança, por sua vez, estava decapitada, como indica a sua terceira vértebra cervical, com uma marca contínua de corte horizontal – o que só poderia ser feito “com o impacto violento na nuca de um elemento pontiagudo”.

Estas descobertas podem ser relacionadas não só com a crença de que os maias tinham sobre a vida além da morte mas também da existência de uma forte hierarquia social, onde pessoas de baixa posição eram sacrificadas para fins rituais.

Porém, enquanto que no túmulo da “Rainha Vermelha” havia apenas dois corpos, no de Pacal foram encontrados os restos mortais de seis pessoas.

Especialistas acreditam que nos mais de 1.500 edifícios existentes em Palenque, apenas cerca de 15% já foram estudados. Por isso, ainda há muitos segredos dos maias para serem revelados.

ZAP // BBC

Por ZAP
9 Agosto, 2018

See also Blog Eclypse

837: Seca extrema e prolongada ditou colapso da civilização maia

Cientistas quantificaram pela primeira vez o fenómeno. Entre os anos 800 e 1000 d.C. houve entre 41% e 70% menos chuva na região. As alterações climáticas abruptas podem mesmo pôr termo a uma civilização.

Um dos templos da época áurea dos maias.
© Mark Brenner

Sabe-se que um período prolongado de secas extremas contribuiu decisivamente para que a lendária e ainda muito misteriosa civilização maia se desintegrasse completamente há cerca de um milénio. Mas um grupo internacional de cientistas deu agora um importante passo para aprofundar esse conhecimento, ao conseguir pela primeira vez quantificar a dimensão dessas secas devastadoras.

Recorrendo ao estudo dos sedimentos do lago Chichancanab na região do Iucatão, no México, onde a civilização maia floresceu, sobretudo a partir do ano 250 a.C., a equipa que reuniu cientistas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e da Universidade da Florida, nos Estados Unidos, descobriu que ao longo de um período de cerca de dois séculos, entre os anos 800 e 1000 d.C., o regime de precipitação se alterou profundamente naquela região do mundo.

No estudo que publicam nesta quinta-feira na revista Science, os autores mostram que durante aquele curto período de 200 anos houve fases de quebras anuais entre 41% e 54%, que chegaram a défices de 70% no pico da crise da seca, enquanto o teor da humidade no ar chegou a ter valores inferiores entre 2% e 7% em relação ao clima actual. A seca extrema e prolongada acabou por ditar o abandono da região pelas populações, a que se seguiu o declínio e a falência das estruturas sociais que sustentavam o modo de vida da civilização maia.

O lago Chichancanab.
© Mark Brenner

“O papel das alterações climáticas no colapso da civilização maia tem sido de alguma forma controverso, em parte porque os estudos anteriores só tinham permitido reconstruções qualitativas do clima da época”, explica Nick Evans, investigador da universidade britânica de Cambridge e o principal autor da investigação. “O nosso estudo representa um avanço substancial, porque pela primeira vez conseguimos fazer estimativas robustas da precipitação e dos níveis de humidade [atmosférica] durante esse período”, sublinha.

O estudo acaba por demonstrar também como as alterações climáticas, produzindo um impacto profundo no equilíbrio das estruturas e das actividades de uma sociedade, podem contribuir para o seu fim.

O que os sedimentos de um lago contam

A primeira vez que os problemas relacionados com uma seca severa emergiram no contexto do declínio dos maias foi em 1995, quando o especialista em paleoclimatologia David Hodell, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, publicou um estudo sobre isso.

Mais de década e meia depois, em 2012, Martín Medina-Elizalde, do Centro de Investigações Científicas do Iucatão, no México, e Eelco Rohling, da Universidade de Southampton, no Reino Unido, conseguiram ir um pouco mais além, ao analisar uma estalagmite local, designada na região com o nome de Chaac – por ironia, o mesmo do deus maia das chuvas. E o que essa estalagmite revelou foi que na fase final da sociedade maia, entre os anos de 800 e 1000 d.C, aproximadamente, as chuvas de verão sofreram quebras entre os 25% e os 40%.

Naquele monólito que se ergue do chão, no interior de uma caverna, na região, estão registados parâmetros climáticos milenares, incluindo os da pluviosidade, e foi com base nesses registos que os investigadores fizeram na altura as suas contas.

Agora a equipa de Nick Evans foi mais longe, ao analisar os isótopos dos sedimentos do lago Chichancanab. Como a equipa explica, em períodos de seca, há mais água a evaporar-se e, como os isótopos mais leves se evaporam mais depressa, os que ficam são os mais pesados.

Mapeando a proporção dos diferentes isótopos nas diferentes camadas, que representam as diferentes épocas, os investigadores conseguiram reconstituir o ciclo climático e hidrológico daqueles anos fatais de secura, que afectaram todas as actividades básicas daquela sociedade, incluindo a agricultura, cuja falência terá sido determinante para o desfecho que se conhece.

Diário de Notícias
Filomena Naves
02 Agosto 2018 — 19:00

[SlideDeck2 id=1476]

[powr-hit-counter id=655322ea_1533303333314]