2220: O Lobo Mau não passa de uma história. Lobos são mais vezes presas do que predadores

CIÊNCIA

Paco Ruiz / Flickr
Exemplar de Canis lupus signatus, o lobo ibérico

O lobo é um animal com fama de ser um predador furtivo, mas o estereotipo construído à sua volta pode não representar bem a realidade. Na verdade, o lobo é mais vezes presa do que predador.

Os lobos estão a regressar às suas antigas terras na Europa e na América do Norte, ressuscitando uma antiga guerra de séculos com os humanos. Embora protegido em muitas áreas, o lobo está a lutar uma batalha perdida, porque na guerra contra eles, nós temos algo muito mais mortal que armas, armadilhas ou veneno: a imaginação humana.

Mesmo que todos nós pensemos ter consciência de como são os lobos, talvez até os achemos majestosos e belos, oculto na nossa psique, está o pesadelo do “Grande Lobo Mau”, que conhecemos tão bem como crianças, e que permanece connosco na idade adulta com os assassinos ficcionais da televisão e do cinema.

Racionalmente, sabe-se por evidências científicas que os lobos representam uma ameaça muito pequena para os seres humanos (na verdade, devido à nossa perseguição de longa data, eles tendem a evitar-nos — tanto que até os avistamentos são raros, muito menos ataques). No entanto, é como se o medo primordial dos lobos fosse simplesmente incorporado ao DNA humano.

É fácil para aqueles que são anti-lobo capitalizar este medo para perpetuar a guerra entre as espécies. Usando a imagem do lobo como um assassino sanguinário e incontrolável, e a sinonímia entre lobos e o “selvagem”, os oponentes a estes animais são capazes de convencer os outros de que lobos e pessoas não podem coexistir, especialmente no que diz respeito à agricultura.

Por exemplo, quando lobos foram vistos num parque nacional na Holanda pela primeira vez em mais de um século, o director do parque, Seger Emmanuel baron van Voorst tot Voorst, argumentou que:

“Assim que um lobo prova carne de ovelha, não vai correr atrás de veados. Pastar ovelhas será impossível se os lobos estiverem na área, e as cercas não os deixarão de fora…Vivemos num país com 17 milhões de pessoas, não no Serengeti (¹)”.

Esta indignação com a expectativa de que os humanos devem adaptar-se para viver ao lado de lobos, sintetiza uma atitude que é problemática não só para os lobos, mas para todas as espécies de animais: que os humanos devem ter primazia sobre a terra, explica Elizabeth Andrews, especialista em literatura e cultura anglo-saxónica e em conservação e reintrodução de lobos.

Os humanos agem como se os lobos devessem respeitar os “nossos” espaços — que eles deveriam reconhecer áreas onde não podem ir. Mas os lobos não conhecem fronteiras imaginárias entre países, estados, terras habitadas e desabitadas, “civilização” e “deserto”.

Eles não sabem quais áreas foram designadas para seu uso e protecção e quais não foram, e não sabem que o que estão a fazer quando saem desses limites é “errado”. Nem sabem que caçar ovelhas é uma ofensa que é frequentemente punida com a morte. Eles estão apenas à procura de alimentos, o que é muito mais difícil do que se pensa: menos de 20% das caçadas do lobo são bem-sucedidas.

Realisticamente, os lobos precisam de ser geridos para poderem coexistir com humanos. A gestão não tem que ser letal: cercas, defesas auditivas e visuais, cães de guarda e até lhamas de guarda podem ser usados para impedir que os lobos ataquem animais.

Lobos podem até mesmo ser capazes de nos ajudar a corrigir alguns dos danos que infligimos à Terra, restaurando o equilíbrio ecológico em áreas onde alces, não controlados em número pela falta de predadores naturais, dizimaram a vida vegetal nativa.

Antes que isto aconteça, precisamos de esquecer o “Grande Lobo Mau”. Lobos não são maus —  são apenas lobos, a tentar sobreviver num mundo onde eles são cada vez mais indesejados.

Para eles, somos as máquinas de matar. Estamos a roubar da sua despensa quando nós caçamos, deslocando-os das suas terras natais, destruindo as suas famílias e matando os seus filhos recém-nascidos. Enquanto a guerra aos lobos humanos continuar, talvez devamos considerar a possibilidade de que o “Grande Lobo Mau” não exista, mas o “Grande Humano Mau” está vivo e de boa saúde.

ZAP // The Conversation

Por ZAP
23 Junho, 2019

(¹) Serengeti – Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
O ecossistema Serengeti (ou Serengueti) é uma região geográfica na África Oriental, no norte da Tanzânia e sudoeste do Quénia, entre as latitudes 1 S e 3 S e longitudes 34 E e 36 E, cobrindo cerca de 30000 km2.

O Serengeti abriga a maior migração animal de mamíferos do mundo, uma das maravilhas do mundo natural.[1]

Na região fica o Parque Nacional de Serengeti e várias reservas de caça. A palavra “Serengeti” provém da língua maasai, na qual “Serengit” significa “planícies intermináveis”.[2][3]

2091: Os lobos são mais generosos do que os cães

CIÊNCIA

Thomas Bonometti / unsplash

Não se deixe enganar: os lobos preocupam-se mais com os seus amigos do que os cães. Esta conclusão dá força à teoria de que os cães não aprenderam a ser altruístas com os seres humanos.

Uma recente investigação acaba de concluir que os lobos têm mais tendência para ajudar os membros da sua alcateia do que os cães para ajudar a sua matilha. O artigo científico, publicado na PLOS One, descreve algumas experiências que os cientistas levaram a cabo no Wolf Science Center em Viena, na Áustria.

Os cientistas analisaram nove lobos e seis cães. Os animais foram treinados pelos investigadores para carregarem no botão de um touchscreen com o nariz para aparecer comida num espaço adjacente, onde podia, ou não, estar outro animal.

Depois de realizados vários testes, os cientistas concluíram que os lobos optavam por entregar comida a um membro da sua alcateia mesmo que não recebessem nada em troca. Aliás, a equipa observou ainda que estes animais apenas perdiam o interesse em ajudar se do outro lado estivesse um lobo que desconhecessem.

Por outro lado, os testes feitos com os cães mostraram que os nossos conhecidos amigos de quatro patas não têm qualquer tipo de inclinação em ajudar outros cães, excepto quando existia uma recompensa, independentemente de os conhecerem, ou não.

Esta descoberta pode sugerir que os cães herdaram as suas tendências cooperativas dos lobos, em vez de através do contacto com humanos. Rachel Dale, autora principal do estudo, explicou que uma possibilidade para a falta de capacidades cooperativas dos cães pode ter sido o processo de domesticação.

Ao contrário dos lobos que dependem da alcateia para sobreviverem, os cães dependem de humanos para lhes dar comida e habitação. “Este estudo mostra que a domesticação dos cães não os tornou, necessariamente, mais pró-sociais”, revela a investigadora, citada pelo El País.

“Em vez disso, parece mostrar que a tolerância e generosidade para com os membros do seu grupo ajuda-os a produzir altos níveis de cooperatividade, como comprovado com os lobos”, rematou.

Ainda assim, afirma que é preciso ter alguma cautela na interpretação dos resultados deste estudo, uma vez que estes testes foram realizados em cães habituados a viver em matilha e não em cães domésticos, que já provaram ter mais tendências pró-sociais em investigações anteriores.

ZAP //

Por ZAP
2 Junho, 2019


730: Lobos estão a deixar Chernobyl e podem espalhar genes radioactivos mutantes pela Europa

frances_marie / MorgueFile

Investigadores encontraram, pela primeira vez, provas de que há lobos a deixarem a chamada Zona de Exclusão de Chernobyl, na Ucrânia, isolada após o desastre nuclear de 1986. Um dado que levanta dúvidas quanto à eventual disseminação de genes radioactivos mutantes pela Europa.

Uma investigação da Universidade do Missouri, nos EUA, que foi publicada no European Journal of Wildlife Research, revela que, pela primeira vez, foi detectado um lobo a sair da Zona de Exclusão de Chernobyl.

Esta “zona morta”, que foi abandonada por milhares de pessoas, após o acidente nuclear de 1986, é hoje ocupada por populações de javalis, linces e lobos que se multiplicaram sem a presença dos humanos.

A população de lobos na zona é, actualmente, sete vezes superior à das áreas envolventes, como apontam os autores da pesquisa.

A área transformou-se numa “reserva natural”, como refere o líder da investigação, o ecologista Michael Byrne, da Universidade de Missouri, em declarações ao Live Science.

Esta pesquisa centrou-se na monitorização de 14 lobos cinzentos, utilizando coleiras com GPS. Foi, assim, que conseguiram detectar a saída de um dos lobos mais jovens da matilha para lá da Zona de Exclusão de Chernobyl.

O lobo afastou-se até cerca de 300 quilómetros de distância, e um problema no seu colar GPS não permitiu apurar “se o animal voltou eventualmente à Zona de Exclusão ou se permaneceu fora permanentemente”, refere o Live Science.

O que é certo é que esta é “a primeira prova de um lobo a dispersar para lá da Zona de Exclusão”, refere Michael Byrne a esta publicação, onde admite também que “é razoável assumir que coisas semelhantes estão a acontecer com outros animais”.

E é aqui que surge o receio de que estas espécies possam transportar genes radioactivos mutantes para outras populações animais, o que poderia ter reflexos por toda a Europa.

Em 2017, foram encontrados elevados índices de radiação em javalis selvagens das florestas da República Checa, a cerca de 1600 km da central nuclear de Chernobyl.

A Zona de Exclusão continua interdita para habitação, mas abriu recentemente para visitas turísticas.

ZAP //

Por ZAP
4 Julho, 2018

 

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