5269: O mistério do “lago dos esqueletos” na Índia intriga cientistas há décadas

CIÊNCIA/ARQUEOLOGIA

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Lago Roopkund, na Índia

O Roopkund, localizado na parte indiana dos Himalaias, é um lago glacial com centenas de ossos humanos. E ninguém sabe como foram lá parar.

Em 1942, um guarda florestal revelou ao mundo a existência deste lago indiano e, desde então, o mistério paira no ar. Ao que tudo indica, “esconde” entre 600 e 800 cadáveres.

Quando as águas geladas derretem, emergem vários restos de cadáveres humanos, alguns ainda preservados com pele e músculo. Segundo o Live Science, ao longo de décadas, foram resgatados centenas de corpos, mas os cientistas nunca conseguiram perceber o que matou estas pessoas nem como foram lá parar.

Nos últimos anos, o mistério adensou-se. Uma análise genética do ADN dos ossos, detalhada num artigo científico publicado na Nature Communications em 2019, descobriu que pelo menos 14 das pessoas que morreram no lago não eram provenientes do sul da Ásia. Os seus genes correspondiam aos dos povos modernos do Mediterrâneo oriental.

O facto de os corpos serem geneticamente diversificados inviabiliza qualquer explicação que envolva uma catástrofe. A mesma investigação concluiu também que o grupo era geneticamente diversificado e que alguns óbitos estão separados por um espaço temporal de até mil anos.

Há, ainda assim, várias teorias sobre o Roopkunf, mais conhecido por “lago dos esqueletos”. Uma delas, difundida oralmente ao longo dos anos, defende que as ossadas pertencem a membros da família e empregados de um rei indiano que morreu durante uma avalanche, há cerca de 870 anos.

O lago está inserido numa trilha de peregrinação para Nanda Devi, uma manifestação da deusa hindu Parvati. A lenda conta que um rei enfureceu a montanha, reverenciada como uma deusa, ao ponto de fazer com que ela desencadeasse a seca no seu reino.

Para apaziguar a deusa, o rei partiu numa peregrinação que o levou além de Roopkund, ao actual estado de Uttarakhand. Mas a jornada, que teve direito a dançarinos e outros luxos, acabou por intensificar a raiva de Nanda Devi, que conjurou uma tempestade de granizo e matou todo o grupo.

Há cientistas que sugerem que um grupo de pessoas foi apanhado de surpresa por uma tempestade muito violenta e que a maioria das vítimas terá morrido de hipotermia.

Uma outra teoria indica que os misteriosos mortos do lago indiano poderiam ter pertencido a uma população isolada de centro-asiáticos que descendia de Alexandre, o Grande e dos seus exércitos.

Há também quem sugira que se tratam dos restos mortais de soldados indianos que tentaram invadir o Tibete, em 1841. Os soldados viram a sua missão fracassar, tentaram encontrar o caminho, mas acabaram por ficar soterrados na neve.

Uma outra teoria indica, por sua vez, que o local era uma espécie de cemitério para vítimas de epidemias.

Apesar de algumas das vítimas mortais poderem ter morrido em grupo, há corpos para os quais não se encontra justificação. Além disso, apontam os investigadores, era pouco provável que, há mais de mil anos, cidadãos europeus viajassem até uma região tão remota da Ásia para participarem numa peregrinação hindu.

O mistério permanece sem resposta e muito se deve ao facto de o Roopkund não ter sido bem estudado.

O lago está numa rota de peregrinação popular e há muitas pessoas que moveram, empilharam e até roubaram ossos ao longo das décadas. O tempo tempestuoso e altitude elevada também não permitiram um estudo sistemático dos restos mortais e da sua localização.

Por Liliana Malainho
5 Março, 2021


2485: Novo estudo adensa mistério sobre “Lago dos Esqueletos” nos Himalaias

CIÊNCIA

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Himalaias

Esqueletos humanos encontrados no lago Roopkund, na Índia, pertenceram a pessoas de origens várias, algumas do Mediterrâneo, que morreram em eventos separados por mil anos.

O lago Roopkund, na Índia, é famoso por terem sido descobertos nas suas margens centenas de esqueletos, que estudos vieram indicar que eram muito mais antigos do que inicialmente se supunha.

Agora, segundo um estudo publicado esta terça-feira na revista Nature Communications, conclui-se que os esqueletos pertenciam a grupos geneticamente distintos que morreram em vários momentos e em pelo menos dois episódios separados por mil anos.

O estudo envolveu uma equipa internacional de 28 investigadores, de instituições da Europa mas também dos Estados Unidos e da Índia.

Situado a mais de cinco mil metros de altitude, nas montanhas dos Himalaias, o lago sempre intrigou os cientistas, que não entendem a presença de centenas de restos de esqueletos nas margens do também conhecido como “Lago dos Esqueletos”.

“O Lago Roopkund é há muito tempo alvo de especulações sobre quem eram esses indivíduos, o que os levou ao lago e como é que eles morreram”, disse um dos autores do artigo, Niraj Rai, do Instituto Birbal Sahri de Paleociências, em Lucknow, na Índia, que há muito trabalha nos esqueletos de Roopkund.

Agora, análises de ADN revelam uma história ainda mais complexa, mostrando que os esqueletos derivam de pelo menos três grupos genéticos distintos, depois de feita a sequenciação genética completa de 38 indivíduos.

O primeiro grupo é composto por 23 indivíduos com ancestrais relacionados com as pessoas da actual Índia, que não parecem pertencer a uma única população. O segundo maior grupo é formado por 14 indivíduos com ascendência mais relacionada a pessoas que hoje vivem no Mediterrâneo oriental, especialmente na actual Grécia. E o terceiro tem uma ancestralidade mais típica da que é encontrada no Sudeste Asiático.

A presença de indivíduos com ancestrais no Mediterrâneo, sugerem os especialistas, indica que o Lago Roopkund não tinha apenas um interesse local mas antes atraía visitantes de várias partes do mundo. A análise da dieta alimentar também confirmou as diversas origens, disseram os responsáveis.

E explicaram ainda que a datação por carbono permitiu perceber que os esqueletos não são da mesma altura, como se supunha inicialmente, e que o primeiro grupo genético provém de um período entre os séculos VII e X e os outros dois de um período posterior, entre os séculos XVII e XX.

“Ainda não está claro o que trouxe estes indivíduos para o Lago Roopkund ou como eles morreram”, disse Niraj Rai.

“Através do uso de análises biomoleculares, como ADN antigo, reconstrução dietética por isótopos estáveis, e datação por radio-carbono, descobrimos que a história do Lago Roopkund é mais complexa do que imaginávamos, e levanta-se a questão impressionante de como migrantes do Mediterrâneo oriental, que têm um perfil de ancestralidade que é hoje extremamente atípico da região, morreram neste local há apenas algumas centenas de anos” disse outro dos autores do estudo, David Reich, da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard, Estados Unidos.

ZAP // Lusa

Por Lusa
21 Agosto, 2019