3450: Nova espécie descoberta. A salamandra que veio do passado

CIÊNCIA

Esta história começa numa velha pedreira, na Rússia. Bastaram quatro pequenos fósseis para se conseguir identificar uma nova salamandra que viveu há mais de 160 milhões de anos e que era uma espécie parente perdido

Ilustração de como era o animal agora descoberto.
© VADIM GLINSKIY

Não teria mais de 20 cm, mais coisa, menos coisa, mas a sua importância é muito mais vasta do que o pequeno tamanho que tinha, garantem os cientistas.

A Egoria malashichevi, uma nova espécie de salamandra até agora desconhecida, que viveu na Terra durante o Jurássico Médio, entre há 174,1 e 163.5, milhões de anos, revelou-se uma espécie de elo perdido, e com a sua descoberta inaugurou-se também um novo género para a ciência (classificação que agrupa um conjunto de espécies segundo as suas características taxonómicas. Ela é, por isso, uma fonte de novos conhecimentos sobre a fauna que naquela época habitava o planeta.

O novo anfíbio jurássico foi descoberto por cientistas da Universidade de São Petersburgo, que a baptizaram como Egoria malashichevi em homenagem ao paleontólogo russo Yegor Malashichev, uma referência nesta área científica naquela universidade, que participou inclusivamente no estudo do novo espécime, mas que, inesperadamente, faleceu em 2018.

O estudo que dá a conhecer o novo membro da grande família dos anfíbios que por aqui andavam há mais de 160 milhões de anos é publicado hoje na revista científica PLOS One. Nele os seus autores descrevem as características do animal entretanto extinto, e apresentam inclusivamente um modelo em 3D do seu aspecto exterior, que foi modelado a partir do estudo detalhado dos seus fósseis.

Retrato mais nítido das salamandras

É numa velha pedreira, perto da cidade de Sharypovo, no centro da Rússia, que esta história começa. A pedreira de Berezovsky, como se designa, é uma velha conhecida da comunidade mundial dos paleontólogos. Inúmeros fósseis de peixes antigos, de répteis de outras eras, de mamíferos há muito esquecidos e até de dinossauros têm ali sido resgatados à pedra desde há décadas.

A nova espécie não foi a primeira salamandra ali encontrada, mas o achado de quatro das suas vértebras revelou-se pleno de novos conhecimentos, mostrando que esta é uma nova peça no puzzle desta larga família de anfíbios. A Egoria veio contribuir para reconstituir um retrato mais nítido da família das salamandras.

Como explica Pavel Skutschas, investigador da Universidade de São Petersburgo e um dos autores do estudo, “a nova salamandra ocupa uma posição intermédia entre os espécimes mais primitivos e os mais recentes, embora se assemelhe mais aos primeiros”. Esta é portanto uma espécie de elo perdido – agora encontrado – entre as primeiras salamandras que existiram na Terra e as mais modernas, que hoje convivem connosco no planeta,

“Quando surgiram, durante o Jurássico Médio, as salamandras ocuparam diferentes nichos ecológicos, distribuindo-se por zonas de grandes lagos, ao passo que as salamandras modernas ocuparam o nicho ecológico dos pequenos volumes de água”, como os charcos, conta o especialista, sublinhando que a Egoria, agora descrita, “ocupou uma posição entre ambas”.

Para chegar a esta conclusão os cientistas de São Petersburgo, que contaram com a colaboração de colegas da Universidade de Bona, na Alemanha, do Instituto de Zoologia da Academia das Ciências Russa e da Universidade do Estado de Tomsk, também ela russa, não precisou de mais do que quatro vértebras fósseis. Isso foi tudo o que encontraram dela na velha pedreira de Berezovsky.

A equipa quer agora fazer outros estudos, comparando os fósseis das várias salamandras encontradas na pedreira russa com outros congéneres identificados em regiões de Inglaterra.

Sabe-se que a fauna do Jurássico Médio era muito semelhante em ambas as regiões e é possível que isso permita descobrir novas espécies, tendo ainda em conta que há hoje anfíbios em várias regiões de Inglaterra que apresentam características semelhantes às dos seus parentes mais antigos.

Só um estudo comparativo detalhado permitirá perceber até que ponto a genealogia da Egoria persiste de algum modo nesses anfíbios modernos.

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