1984: Nunca subestime uma vespa. São mais inteligentes do que pensávamos

CIÊNCIA

jean_hort / Flickr

Um estudo recente provou que a vespa-do-papel-europeia (Polistes dominula) é capaz de resolver inferências transitivas, uma capacidade que se pensava ser exclusiva dos humanos.

Até hoje, os cientistas pensavam que a inferência transitiva – a capacidade de usar relações conhecidas para inferir relações desconhecidas – era uma capacidade exclusiva dos seres humanos. Aliás, durante milénios, esta capacidade representou um selo distintivo dos poderes dedutivos dos humanos, uma forma de raciocínio lógico utilizada para fazer inferências (por exemplo, se A é maior que B e B é maior que C, então A é maior que C).

Agora, um estudo realizado em invertebrados, cujo artigo científico foi recentemente publicado na Biology Letters, prova que a vespa-do-papel-europeia (Polistes dominula) também tem esta capacidade. Desta forma, esta espécie é a primeira de invertebrados a ser capaz de resolver inferências transitivas.

À semelhança das abelhas, as vespas têm um sistema nervoso com, aproximadamente, um milhão de neurónios. No entanto, exibem um comportamento social complexo. Elizabeth Tibbetts, bióloga evolutiva da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, questionou se as habilidades sociais das vespas poderiam permitir que tivessem sucesso em parâmetros que as abelhas já haviam falhado.

Para descobrir, a equipa de cientistas testou se as duas espécies de vespas mais comuns – Polistes dominula e Polistes metricus – eram capazes de resolver um problema de inferência transitiva.

A equipa recolheu vespas rainha de vários locais no Michigan e, em laboratório, as vespas foram treinadas para escolher entre pares de cores, sendo que uma cor de cada par foi associada a um choque eléctrico (a cor B) e a outra não (cor A). “Fiquei surpresa com a rapidez e precisão com que as vespas aprenderam”, disse Tibbetts.

Mais tarde, as vespas foram expostas a cores correspondestes que lhes eram totalmente desconhecidas e tiveram de escolher entre as cores. Os insectos foram capazes de organizar as informações numa hierarquia implícita e usaram a inferência transitiva para escolher entre esses novos pares.

Na prática, se as vespas pousassem na cor B, em vez de pousarem na cor A, receberiam um leve choque eléctrico. Por sua vez, a mesma coisa aconteceria se eles pousassem em C em vez de B, D em vez de C ou E em vez de D. Em todos os casos, a cor correspondente a uma letra anterior no abecedário era a escolha segura.

Estava à espera que elas ficassem confusas, tal como as abelhas ficaram. Mas não tiveram qualquer problema em perceber que uma determinada cor era segura em algumas situações e outras não”, explicou a cientista.

As vespas e as abelhas são muito semelhantes a nível neurológico, e os cientistas ainda não conseguem explicar por que motivo as abelhas ficam confusas e as vespas conseguem concluir esta tarefa com sucesso. No entanto, suspeitam que as bases para o raciocínio poderiam estar na natureza das relações sociais das vespas, que são muito diferentes das das abelhas.

Ao contrário das colónias de abelhas centradas em torno de uma única rainha, as colónias de vespas Polistes dominula têm arranjos sociais mais complexos. Os cientistas pensam que as pressões resultantes de viver entre as vespas tenham dado aos insectos habilidades aprimoradas para tomar decisões baseadas em informações sociais: inferir distinções e relações subtis que uma abelha nunca precisou de recolher.

Mas, segundo o Science Alert, esta explicação não passa de uma hipótese. Apesar disso, sabemos agora que as vespas são mais inteligentes do que pensávamos. Por isso, não as subestime.

ZAP //

Por ZAP
15 Maio, 2019


[vasaioqrcode]

 

1190: O cérebro é o equivalente a milhares de milhões de mini-computadores a trabalhar em conjunto

CIÊNCIA

(CC0/PD) David Cassolato / Pexels

Um estudo recente revelou uma diferença estrutural fundamental entre os neurónios humanos e de cobaias que poderia ajudar a explicar os nossos poderes de inteligência.

Concluído o primeiro registo de actividade eléctrica em células humanas a um nível incrivelmente detalhado, os cientistas afirmam agora que cada uma das nossas células cerebrais poderiam funcionar como um mini-computador, escrevem os cientistas no novo estudo científico, publicado no dia 18 de Outubro na Cell.

Humanos e ratos de laboratório são diferentes, começando pelos neurónios. As células cerebrais comunicam-se disparando impulsos eléctricos, que os investigadores conseguem detectar e medir colocando eléctrodos microscópicos dentro dos neurónios.

Apesar de os cientistas já terem tido oportunidade de realizar essa experiência em cobaias, Mark Harnett, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em Cambridge, ambicionava ir mais longe: observar de que forma os neurónios humanos se poderiam destacar dos dos ratinhos.

Assim, o cientista utilizou tecido vivo obtido através de cirurgias nas quais os especialistas removiam pedaços de cérebro de pessoas com epilepsia. A equipa de Harnett usou então eléctrodos muito finos para registar a actividade dentro dos ramos mais finos, conhecidos como dendrites, no final do tronco cerebral.

Cada neurónio pode ter até 50 dendrites e cada dendrite tem centenas de sinapses ou pontos de conexão com outros neurónios. Os sinais cerebrais passam por essas sinapses entrando na dendrite, tornando assim provável que a própria dendrite lance um sinal eléctrico ao longo do seu comprimento.

Em comparação com as cobaias, as dendrites de neurónios humanos apresentam menos canais de iões, moléculas inseridas na membrana externa da célula que deixam a electricidade fluir ao longo da dendrite.

À primeira vista, esta informação pode parecer desvantajosa, mas na verdade esta característica denota aos humanos maiores e melhores “poderes de computação” para cada célula do cérebro.

Na prática, num neurónio de uma cobaia, se um sinal iniciar numa dendrite, existem imensos canais iónicos para conduzir a electricidade, o que irá fazer com que o sinal, provavelmente, continue no tronco principal do neurónio. Por sua vez, num neurónio humano, é menos certo que o sinal rume até tronco principal: tudo dependerá da actividade nas outras dendrites.

Esta dinâmica, explica o New Scientist, permite que as milhares de sinapses das dendrites de cada neurónio determinem colectivamente a “decisão” final. “Em conjunto, procuram padrões específicos de entrada para se unirem e, finalmente, produzirem um sinal”, explica Harnett.

No fundo, podemos imaginar o nosso cérebro como sendo o repositório de milhares de milhões de mini-computadores a trabalhar em conjunto. Uma autêntica máquina que nos permite, entre muitas outras tarefas, ler esta peça até ao fim.

ZAP //

Por ZAP
24 Outubro, 2018

[vasaioqrcode]