3087: Há pessoas que só têm metade do cérebro (mas é como se o tivessem inteiro)

CIÊNCIA/SAÚDE

(dr) baycrest.org

Em casos raros, pacientes com epilepsia severa são submetidos a uma operação na qual um dos hemisférios do cérebro é removido. Um novo estudo mostra que o hemisfério restante é capaz de se adaptar para compensar a falta da metade.

O cérebro humano tem a capacidade de se reconfigurar após uma perda dramática de função, um fenómeno conhecido há décadas. Um novo estudo publicado esta semana na revista especializada Cell Reports aumentam esse conhecimento.

Os investigadores examinaram seis pacientes adultos submetidos a hemisferectomias quando crianças. Os pacientes exibiram uma conectividade neural surpreendentemente forte entre diferentes partes do cérebro remanescente, segundo o estudo.

O trabalho, em co-autoria do neuro-cientista Dorit Kliemann, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, ajuda a saber mais sobre a forma como o cérebro se reorganiza após uma perda radical de material cerebral. A investigação é uma evidência de “cognição compensada”, de acordo com os cientistas, citados pelo Gizmodo.

“As pessoas com hemisferectomias que estudamos tinham um funcionamento notavelmente alto. Têm habilidades de linguagem intactas; quando os pus no scanner, conversámos um pouco”, afirmou Kliemann em comunicado, divulgado pelo EurekAlert. “Quase esquecemos a sua condição quando os conhecemos pela primeira vez. Quando vejo as imagens de ressonância magnética com apenas metade do cérebro, ainda me surpreendo que as imagens sejam provenientes do mesmo ser humano que acabei de ver a conversar e a andar”.

Os indivíduos com hemisferectomias podem ter uma saúde cognitiva muito boa, apesar da natureza severa do procedimento. Os participantes eram quatro homens e duas mulheres, agora com 20 e 30 anos, que tinham hemisferectomias quando tinham entre 11 meses e 11 anos de idade. Outros seis participantes com cérebros intactos formaram o grupo de controlo.

Caltech Brain Imaging Center

Usando uma máquina de ressonância magnética, os cientistas procuraram sinais associados à actividade cerebral espontânea enquanto os participantes estavam num estado de relaxamento e descanso. Os investigadores concentraram-se nas regiões do cérebro conhecidas por serem responsáveis ​​pela visão, movimento, emoção e pensamento superior.

Surpreendentemente, a actividade cerebral dos pacientes com hemisferectomia parecia bastante típica, mostrando as mesmas redes de estado de repouso de um cérebro normal. Porém, havia uma grande excepção: os cérebros com apenas um hemisfério mostravam conectividade acima do normal entre as redes do que os cérebros de controlo

“Os resultados sugerem que as interacções entre redes podem caracterizar a reorganização funcional na hemisferectomia”, escreveram os autores no estudo. Continua a ser uma questão em aberto, porém, a forma como o aumento da conectividade pode ajudar – ou até prejudicar – o funcionamento entre os sujeitos da hemisferectomia, como a sociabilidade, habilidades motoras e tomada de decisão.

As descobertas desta investigação podem lançar uma nova luz sobre a forma como o cérebro se reorganiza após uma lesão traumática e perda da função neurológica.

ZAP //

Por ZAP
25 Novembro, 2019