4978: Centenas de estrelas nasceram ao mesmo tempo (e organizaram-se numa rara fila à volta da Via Láctea)

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

R. Hurt, SSC & Caltech / JPL-Caltech / NASA

A Via Láctea abriga 8.292 fluxos estelares descobertos recentemente. Porém, Theia 456 é especial: um fluxo estelar é um padrão linear raro – em vez de um aglomerado – de estrelas.

Depois de combinar vários conjuntos de dados capturados pelo telescópio espacial Gaia, uma equipa de astrofísicos descobriu que todas as 468 estrelas do Theia 456 nasceram ao mesmo tempo e estão a viajar na mesma direcção no céu.

“A maioria dos aglomerados estelares forma-se em conjunto”, disse Jeff Andrews, astrofísico da Northwestern University, em comunicado. “O que é empolgante sobre o Theia 456 é que não é um pequeno aglomerado de estrelas juntas. É longo e esticado. Existem relativamente poucos fluxos próximos, jovens e tão amplamente dispersos”.

Enquanto que os investigadores já sabem há muito tempo que as estrelas se formam em grupos, a maioria dos aglomerados conhecidos tem uma forma esférica. Porém, recentemente, os astrofísicos começaram a encontrar novos padrões no céu e acreditam que longas cadeias de estrelas já foram aglomerados compactos, gradualmente separados e esticados pelas forças das marés.

“À medida que começamos a tornarmo-nos mais avançados na nossa instrumentação, tecnologia e capacidade de minerar dados, descobrimos que as estrelas existem em mais estruturas do que aglomerados”, disse Andrews. “Costumam formar estes fluxos no céu. Embora já saibamos sobre eles há décadas, estamos a começar a encontrar os que estão escondidos”.

Estendendo-se por mais de 500 anos-luz, Theia 456 é um desses fluxos ocultos. Por residir no plano galáctico da Via Láctea, é facilmente perdido no cenário de 400 mil milhões de estrelas da galáxia. A maioria dos fluxos estelares são encontrados noutras partes do universo por telescópios apontados para longe da Via Láctea.

“Temos a tendência de focar os nossos telescópios noutras direcções porque é mais fácil encontrar as coisas”, disse Andrews. “Agora estamos a começar a encontrar estes fluxos na nossa própria galáxia. É como encontrar uma agulha num palheiro”.

Identificar e examinar essas estruturas é um desafio da ciência de dados. Algoritmos de inteligência artificial vasculharam enormes conjuntos de dados estelares para encontrar essas estruturas. Em seguida, Andrews desenvolveu algoritmos para cruzar esses dados com catálogos pré-existentes de abundância de ferro de estrelas documentadas.

Andrews e a sua equipa descobriram que as 468 estrelas em Theia 456 tinham abundância de ferro semelhante, o que significa que as estrelas provavelmente se formaram juntas há 100 mil milhões de anos.

Adicionando mais evidências a esta descoberta, os cientistas examinaram um conjunto de dados de curvas de luz, que captura como o brilho das estrelas muda ao longo do tempo. “Isso pode ser usado para medir a velocidade com que as estrelas estão a girar”, disse o astrofísico Marcel Agüeros. “Estrelas com a mesma idade devem mostrar um padrão distinto nas suas taxas de rotação.”

Com a ajuda de dados do Transiting Exoplanet Survey Satellite da NASA e do Zwicky Transient Facility – que produziram curvas de luz para estrelas em Theia 456 – Andrews e os colegas determinaram que as estrelas no fluxo partilham uma idade comum.

A equipa também descobriu que as estrelas estão a mover-se juntas na mesma direcção.

“Se se sabe como as estrelas se movem, podemos voltar atrás para descobrir de onde as estrelas vieram”, disse Andrews. “À medida que avançávamos no relógio, as estrelas ficavam cada vez mais próximas. Então, pensámos que todas as estrelas nasceram juntas e têm uma origem comum”.

Para Andrews, combinar conjuntos de dados e mineração de dados é essencial para compreender o Universo que nos cerca.

Esta descoberta foi apresentada numa conferência de imprensa virtual no 237º encontro da American Astronomical Society.

Por Maria Campos
21 Janeiro, 2021