3105: Noé babilónio poderá ter construído a Arca por causa da primeira “fake news” da História

CIÊNCIA

photostockam / Canva

Um dos primeiros exemplos de fake news da História foi encontrado por académico de Cambridge numa tábua de barro com três mil anos, que conta a história babilónica de Noé da Arca.

Martin Worthington, investigador da Universidade de Cambridge, descobriu que as palavras do deus babilónico Ea escritas na tábua podem ter sido uma tentativa enganadora de convencer o seu povo a construir a Arca, dando-lhes notícias falsas.

O texto, traduzido por Worthington, um dos principais especialistas da Grã-Bretanha na extinta língua babilónica, tem um duplo significado, que pode ser lido como deus a prever que a comida chova do céu em vez de torrentes de água – se concordarem em construir a Arca.

“Ea engana a humanidade espalhando fake news“, disse Worthington, em comunicado. “Diz ao Noé babilónio, conhecido como Uta-napishti, que promete ao seu povo que choverá comida do céu se o ajudarem a construir a arca”.

“O que as pessoas não percebem é que a mensagem de nove linhas de Ea é um truque: é uma sequência de sons que podem ser entendidos de maneiras radicalmente diferentes”, explicou, dando o exemplo da palavra inglesa “gelado” (ice cream) e da frase “eu grito” (i scream”, que soam de forma muito semelhante.

“Embora a mensagem de Ea pareça prometer uma chuva de comida, o seu significado oculto adverte sobre o dilúvio. Depois de a Arca ser construída, Uta-napishti e a sua família sobem a bordo e sobrevivem com uma variedade de animais. O resto das pessoas afoga-se”, disse.

“Com esse episódio inicial, ambientado no tempo mitológico, iniciou-se a manipulação da informação e da linguagem. Pode ser o exemplo mais antigo de notícias falsas”, concluiu.

Em babilónico, uma linha diz “ina lilâti ušaznanakkunūši šamūt kibāti”, que se traduz como “ao amanhecer haverá bolos kukku” ou “ao amanhecer, choverá sobre a escuridão”. Outro pode ser traduzido como “vai chover em abundância”, mas também tem um significado alternativo “vai chover abundantemente“.

Os motivos por trás da aparente duplicidade de Ea são menos claros. “Poderia querer reter uma possível negação”, disse Worthington. “Se lhe perguntassem por que não avisou as pessoas, poderia dizer que decidiram interpretar dessa maneira. Isso não tem nada a ver comigo”.

“Os deuses da Babilónia só sobrevivem porque as pessoas os alimentam. Se a humanidade tivesse sido exterminada, os deuses teriam morrido de fome. O deus Ea manipula a linguagem e engana as pessoas a fazerem a sua vontade, porque isso serve o seu interesse próprio”.

As linhas estão contidas na 11ª tábua de Gilgamesh, que conta a história da enchente e data de 700 a.C. A tábua de barro, que é mantido no Museu Britânico, é a tábua mais famosa do mundo.

Em 1872, o assiriologista George Smith percebeu que contava a mesma história da Arca de Noé que aparece no livro bíblico de Génesis. Embora houvesse mais deuses envolvidos do que em Génesis, e o herói babilónico tivesse um nome diferente, as duas histórias eram reconhecidamente as mesmas, com animais a serem levados a bordo da arca antes do dilúvio e pássaros enviados para ver se já era seguro sair assim que a chuva parou.

ZAP //

Por ZAP
27 Novembro, 2019

 

1223: Terra atacada por extraterrestres hostis. Invasão começou em New Jersey

Há 80 anos, os EUA viveram horas de pânico com a primeira fake news de que há registo. Durante a emissão radiofónica da CBS, o ator Orson Welles interrompeu a programação para dar uma notícia de última hora: os marcianos estavam a invadir New Jersey. A notícia aterrorizou os ouvintes, que acreditaram que a Terra estava sob ataque de alienígenas hostis.

De acordo com o relato do locutor, tinham ocorrido explosões inusitadas em Marte e, como consequência, nuvens de gás dirigiam-se para a Terra. A música voltou à emissão, até que foi novamente interrompida por outra notícia igualmente assustadora: tinha sido avistado um objecto estranho num campo do estado norte-americano de New Jersey.

No entanto, as notícias eram falsas. O brilhante desempenho de Welles era, na verdade, a interpretação de uma versão de rádio-teatro do romance “A Guerra dos Mundos” (1898), de H. G. Wells, que narrava a invasão de extraterrestres ano nosso planeta.

Esta interpretação fazia parte de uma série semanal de transmissões dramáticas criadas em parceria com o Mercury Theatre on the Air para a emissora CBS, segundo a transcrição do próprio programa.

Para a produção deste episódio, Welles recorreu de forma genial a todos os recursos radiofónicos da época, interrompendo o programa musical com blocos de notícias de “última hora”. Além disso, o actor entrevistou ainda supostos especialistas e testemunhas oculares de foram a dar credibilidade à sua história.

Tal como nota a Deutsche Welle, a peça dava conta aos ouvintes que, apesar do perigo, era possível deter os invasores alienígenas, que iam incendiando exércitos completos e lançando gás tóxico na cidade de New York. O programa acabou por desencadear o pânico nas ruas da cidade.

Apesar de o programa ter conotações claramente teatrais, muitos dos norte-americanos sintonizados acreditaram que a ameaça alienígena era real, e as manchetes dos jornais no dia seguinte comprovaram isso mesmo – o pânico generalizado.

“Milhares de ouvintes saíram a correr das suas casas em New York e New Jersey, muitos dos quais com toalhas no rosto para se protegerem do ‘gás’ que o invasor estaria a espalhar”, escreveu o Daily News no dia seguinte, citado pelo Live Science.

British Library
Ilustração da edição de 1906 de “A Guerra dos Mundos”, de H.G.Wells, por Henrique Alvim Corrêa

No entanto, é importante frisar que, à luz da época, os americanos viviam sob o medo real que uma guerra atravessasse o país.

Na altura, em 1938, os norte-americanos iam recebendo informações terríveis sobre a Alemanha nazi, enquanto os britânicos já testavam máscaras de gás, caso fossem assolados por um ataque bélico. O EUA estavam envolvidos numa onda de medo.

Enquanto a peça teatral ia sendo transmitida, muitos norte-americano ligaram para a polícia, relatando nuvens de fumaça no horizonte, supostamente fruto das batalhas que as pessoas iam travando com os marcianos. Alguns habitantes foram ainda mais longe, afirmando ter visto alienígenas. Outros, por sua vez, estavam convencidos que os invasores fossem alemães. – o pânico estava instalado.

Como frisou a revista Slate, no 75º aniversário do programa de Orson Welles, as verdadeiras fake news só foram difundidas no dia seguinte através de meios de comunicação que descreveram histórias de pânico e histeria em massa nas ruas.

Na altura, jornais como o New York Times ou o Boston Daily Globe aproveitaram o momento para descredibilizar os novos média, rotulando-os com fonte pouco fidedigna e pouco responsável. Actualmente, acredita-se que essas notícias tenham sido clara e extremamente inflamadas, não sendo possível falar em histeria nas ruas.

(dr)
NYT

Curioso é que o pânico gerado pela adaptação da “Guerra dos Mundos” continua bem actual. E, também na época, a peça de Welles desencadeou discussão, até Adolf Hitler abordou o assunto, gracejando com “homenzinhos verdes que invadiam países”.

Apesar de o director da emissora explicar, em 1938, que o objectivo da emissão passava apenas pelo entretenimento, em 1955, e em entrevista à BBC, apresentou outras motivações: “Quando fizemos o programa dos marcianos, estávamos fartos de que tudo o que vinha dessa caixinha mágica, a da rádio, fosse simplesmente engolido”.

Assim, sustentou, a encenação foi, de certa forma, um ataque à credibilidade da rádio. “Nós queríamos fazer com que as pessoas entendessem que não podiam aceitar tudo o que saísse dos microfones”, explicou.

Tudo isto aconteceu há 80 anos, numa pacata noite de domingo, a 30 de Outubro, na véspera do Halloween. No entanto, o assunto não podia ser mais atual. As fake news assombram hoje, mais do que nunca, os média, afectando leitores, ouvintes e telespectadores.

É ainda de salientar que todo este pânico foi gerado numa época onde não existam redes sociais – que certamente teriam aguçado toda a polémica. Actualmente, as fake news não são menos recorrentes, o seu propósito é que é outro – passamos do entretenimento às campanha eleitorais e às influências nas urnas. É incontestável: as fake news são transversais ao próprio tempo.

ZAP // Deutsche Welle / LiveScience

Por ZAP
31 Outubro, 2018

[vasaioqrcode]