927: Verão atípico põe a descoberto (estranhas) “Pedras da Fome” na Europa

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A Europa enfrenta um verão atípico e, com isso, têm surgido mensagens “escondidas” um pouco por todo o território europeu. Desta vez, foram encontrados marcas misteriosas gravadas em pedras, que não são apenas vestígios das sociedades antigas, mas também alertas para os tempo difíceis que se aproximam.

A seca severa que atinge a Europa Central pôs a descoberto pedras antigas, que têm (estranhas) mensagens gravadas na sua superfície. Uma das pedras foi encontrada na República Checa e são vulgarmente conhecidas como “Pedras da Fome“, relevou a AP.

Normalmente, estas pedras não são visíveis pois ficam abaixo da linha de água do rio Elba, que flui através da cidade de Děčín, no norte do país. No entanto, com os níveis de água a atingir os recordes mais baixos na Europa, as rochas e as mensagens nelas gravadas ficaram novamente expostas.

Mais de uma dúzia de “Pedras da Fome” podem ser vistas na cidade, que acabam por registar os níveis mais baixos de água em séculos. Em 2013, um grupo de investigadores levou a cabo um estudo sobre as secas históricas na República Checa e descreveram estas rochas como pedras “esculpidas por anos de dificuldade e com as iniciais dos autores perdidos para a história”.

No passado, estas pedras serviam para medir os níveis das águas e, baixos níveis de água eram sinal de que tem difíceis se estavam a aproximar.

A mais antiga e famosa destas marcas, conhecida simplesmente por Hunger Rock, de acordo com o guia turístico da cidade, contém uma inscrição que data de 1616, onde se lê: “Se me vires, chora” (Wenn du mich siehst, dann weine).

Embora as inscrições legíveis mais antigas desta pedra em particular datem de 1616, existem outras rochas que já vivenciaram numerosas secas desde 1417.

Uma outra “Pedra da Fome” da Alemanha regista as condições climatéricas daquele ano de forma mais feliz: “Se voltares a ver esta pedra novamente, irás chorar, de tão superficial que as águas estavam em 1417”.

Outras há que dizem: “Nós choramos. Nós choramos. E tu vais chorar” e também “Quem me viu uma vez, chorou; Quem me vir agora vai chorar”.

As razões para estes alertas sinistros – como se soubessem o que está para vir – podem ser várias. Quando a seca e o calor chegam, significa não apenas que a colheita será má, mas também que haverá falta de comida e os preços irão subir, consequentemente.

Além disso, quando o nível das águas baixa drasticamente, o transporte fluvial torna-se mais difícil, ameaçando o sustento das famílias que vivem junto da costa.

Com o rio Elba no seu nível mais baixo em mais de meio século, a seca tem recordado também outro tipo de miséria: nesse mesmo canal têm sido encontradas bombas não detonadas da Segunda Guerra Mundial e granadas de mão, que estiveram submersas por mais de 70 anos.

Enquanto os cientistas ainda indagam com estes presságios para o futuro, a mais recente inscrição na “Pedra da Fome” encontrada na República Checa tenta, pelo menos, aliviar um pouco o clima – “Não chores, menina, não te preocupes. Quanto estiver seco, apenas pulveriza o teu campo” (Neplac holka, nenarikej, kdyz je sucho, pole strikej).

Fenómenos semelhantes têm sido relatados um pouco por toda a Europa, onde as condições atípicas e secas têm desvendado monumentos pré-históricos ou mensagens da Segunda Guerra Mundial.

ZAP // Science Alert

Por ZAP
27 Agosto, 2018

(Foi corrigido 1 erro ortográfico ao texto original)

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854: Eventos climáticos em cadeia podem transformar planeta numa estufa

Vagas de calor extremo como a dos últimos dias – e as catástrofes a elas associadas – poderão tornar-se cada vez mais frequentes, alerta um grupo de cientistas da Alemanha, Suécia, Dinamarca e Austrália num artigo publicado no jornal da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos

Icebergue que no início de Julho deste ano se aproximou da localidade de Innaarsuit na Gronelândia
Foto Reuters

Pinguim num icebergue no Yankee Harbour na Antártica
Foto Reuters/Alexandre Meneghini/File Photo

É um estudo novo, vem dos Estados Unidos, país que se retirou dos Acordos de Paris sobre o Clima por ordem do seu próprio presidente e mostra, mais uma vez, que a velocidade dos tempos da natureza não se compadece com a dos tempos da política.

Segundo um artigo que um grupo de cientistas internacionais publicou no jornal da Academia Nacional de Ciência dos EUA, com o título “Trajectories of the Earth System in the Anthropocene”, ou seja, “Trajetórias do Sistema Terrestre no Antropoceno”, uma sucessão de eventos como degelo, aquecimento dos oceanos, correntes instáveis e florestas moribundas poderá transformar o Planeta Terra num espécie de estufa e nem os esforços humanos para reduzir as emissões de CO2 terão impacto.

Os cientistas, da Alemanha, Suécia, Dinamarca e Austrália, tiveram em consideração uma interacção e uma combinação de 10 processos de alterações climáticas, como, por exemplo, a libertação de metano no permafrost da Sibéria e o impacto do degelo na Gronelândia. No dia 12 de Julho, um icebergue do tamanho de uma montanha aproximou-se de Innaarsuit, na costa oeste da Gronelândia. Causou o pânico. Os moradores foram retirados de casa. Em Junho do ano passado pelo menos quatro pessoas morreram na sequência de ondas provocadas pelo desprendimento de um icebergue no noroeste da Gronelândia.

Assim, o que dizem estes cientistas, tal como já têm vindo a dizer outros, mesmo que o mundo cumpra o que está no Acordo de Paris, manter o aumento da temperatura média global abaixo dos 2ºC em relação aos níveis da era pré-industrial e limitar o aumento a 1,5ºC, isso poderá já não ser suficiente. O referido efeito dominó, dizem, poderia mesmo fazer subir as temperaturas até 5ºC.

O nível das águas do mar, alerta aquele artigo, poderia subir entre 10 e 60 metros, inundando várias ilhas e cidades costeiras, tais como Veneza (Itália), Nova Iorque (EUA), Tóquio (Japão) e Sidney (Austrália). Estas zonas teriam que ser evacuadas e deixariam de poder ser habitadas. Os cientistas avisam que a trajectória para um planeta estufa iria “certamente inundar ambientes deltaicos, aumentar o risco de tempestades costeiras com efeito destruidor e eliminar recifes de coral até ao final deste século ou até antes”.

“Espero que estejamos errados. Mas como cientistas temos a responsabilidade de explorar se isto é real. Precisamos saber. É urgente. Esta é uma das questões mais existenciais da ciência”, disse, citado pelo Guardian, Johan Rockström, director executivo do Resilience Stockholm Centre, instituto independente de investigação, especializado em desenvolvimento sustentável. Rockström é um dos autores do artigo publicado esta segunda-feira no jornal da Academia Nacional de Ciência dos EUA.

O impacto das alterações climáticas levou a conceituada revista Economist a fazer, esta semana, capa com o tema. A ilustrá-lo, uma fotografia de incêndios, o ante-título “Na linha do fogo” e o título “O mundo está a perder a guerra contra as alterações climáticas”.

No texto da publicação britânica lê-se: “A Terra está a arder em lume brando. De Seattle à Sibéria, este verão as chamas consumiram parcelas do hemisfério norte. Um dos 18 fogos que varrem a Califórnia, um dos piores da sua história, está a gerar um calor tal que criou uma espécie de microclima. Os fogos que varreram a zona costeira de Atenas mataram 91 pessoas. Noutras partes as pessoas sufocam com o calor. 125 morreram com o calor no Japão em resultado da onda de calor que elevaram as temperaturas em Tóquio pela primeira vez acima dos 40ºC”.

Diário de Notícias
Patrícia Viegas
07 Agosto 2018 — 10:19