2149: Meteoritos-chave descobertos no Chile podem revelar a origem do Sistema Solar

CIÊNCIA

Universidade Católica do Chile

Um estudo geológico levado a cabo no deserto do Atacama por cientistas da Universidade Católica do Chile (UCN) encontrou vários condritos carbonáceos, meteoritos-chave para entender a origem do Sistema Solar, bem como as causas que levaram à vida no planeta Terra. 

De acordo com um comunicado da UCN, os objectos, encontrados entre as cidades de Antofagasta e Taltal, fazem parte dos primeiros minerais formados a partir da nebulosa que cercou o Sol há 4,56 mil milhões de anos.

“É o tipo mais primitivo de meteorito já encontrado, é uma das rochas que contém os primeiros materiais sólidos condensados, numa altura em que o Sistema Solar se estava a formar. Estes meteoritos carregam a mais antiga evidência dos primeiros estágios de formação dos planetas”, explicou a cientista que liderou o estudo, Millarca Valenzuela.

“Se conseguirmos medir a composição [destes condritos carbonáceos], poderemos ter informações sobre a composição da nebulosa solar onde o cristal se estava a formar”.

Além das pistas sobre a origem do Sistema Solar, a matriz destes meteoritos sugere a sua possível participação na origem de vida na Terra. Os objectos têm até 5% de carbono, possuindo também “minerais, água e aminoácidos de base pequena e material orgânico abiótico […] que poderiam ser a semente a partir da qual o material orgânico pode ter evoluído para algo mais complexo”, sustentou a especialista.

Valenzuela é geóloga e uma das cientistas responsáveis pela descoberta no Chile. Em 2017, o asteróide 11819, localizado entre Júpiter e Marte, foi baptizado em sua honra.

Uma outra investigação, conduzida por cientistas de França e de Itália detectou matéria orgânica com 3.330 mil milhões de anos preservada em sedimentos vulcânicos nas Montanhas Barberton. É provável que a matéria pertença a um condrito carbonáceo extraterrestre. Os resultados desta investigação foram publicados no fim de maio na revista científica especializada Geochimica et Cosmochimica Acta.

ZAP //

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10 Junho, 2019



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2076: Afinal, o fruto proibido de Adão e Eva não foi uma maçã

CIÊNCIA

nevsepic.com.ua / Wikimedia

Mesmo que Adão e Eva tenham existido, o tal fruto proibido do paraíso não poderia ter sido uma maçã. A popular fruta que conhecemos hoje é resultado de uma domesticação realizada muito tempo depois da “criação do mundo”.

Se hoje temos esse alimento em fartura nos supermercados e feiras, é graças à Rota da Seda – caminhos de mercadores na antiguidade, comprando e vendendo produtos de um ponto a outro, entre o extremo leste da Ásia e a Europa. Esse comércio, o primeiro movimento de globalização da humanidade, foi iniciado há cerca de 4,5 mil anos – e teve os seus mais intensos momentos a partir do século 3 a.C.

De acordo com um estudo desenvolvido pelo Instituto Max Planck, da Alemanha, e publicado esta segunda-feira pela revista especializada Frontiers in Plant Science, foi nesse período que a maçã deixou de ser uma fruta pequena, selvagem e pouco atraente para, por meio de processos de enxertos e selecção das árvores cujos frutos eram mais graúdos e apetitosos, se transformarem numa das frutas mais populares do mundo.

Assinado pelo director do Laboratório de Paleoetnobotânica do instituto alemão, Robert Spengler, o estudo baseia-se em investigações arqueológicas recentes de sementes de maçã antigas preservadas na Europa e na Ásia Ocidental e na combinação dessas informações com dados genéticos da fruta.

O cientista confirmou que a maçã, na sua versão selvagem, era um fruto pequeno e pouco atraente. A sua selecção e transformação num alimento popular deve-se a dois factores: a megafauna europeia que floresceu depois da última Era do Gelo, há 20 mil anos, e o trabalho dos mercadores da Rota da Seda.

Spengler partiu das ciências humanas, de acordo com a BBC. Encontrou descrições de grandes frutos vermelhos na arte clássica, acreditando que as maçãs já eram recolhidas pelo homem desde há dez mil anos no sul da Europa. Sementes antigas em sítios arqueológicos corroboram a tese.

Mas a maçã moderna seria um híbrido de pelo menos quatro espécies silvestres. Aí veio o papel da Rota da Seda. Em busca de frutos que fossem mais atraentes ao mercado, agricultores da época começaram a seleccionar as árvores que produziam maçãs mais apetitosas e a realizar enxertos. Esses cruzamentos foram resultando em frutos mais semelhantes aos de hoje.

De acordo com o cientistas, a origem genética da maçã moderna está nas montanhas Tien Shan, na fronteira entre Cazaquistão, Quirguistão e China. A natureza também fazia a sua parte. No período entre o fim da Era do Gelo e o início da Era Cristã, Europa e Ásia estavam muito mais cheias de animais selvagens de grande porte – parte deles depois extinta. Cavalos selvagens, cervos e outros animais em bandos livremente.

As artimanhas evolutivas têm uma verdade simples: frutos pequenos “querem” atrair aves – que os comem e acabam por espalhar as sementes. Frutos grandes não podem ser carregados por aves. Evoluíram para ser apetitosos para animais grandes. Foram esses  que se deliciaram e ajudaram a espalhar as maçãs.

Entretanto, ao contrário das aves, os mamíferos não levam as sementes para longe. É por isso que, conforme concluiu o investigador, geneticamente as maçãs selvagens são diferentes em diversas zonas consideradas “de refúgio glacial” desde a Era do Gelo. Não se espalharam muito, evoluíram a seu modo em variedades.

Essas “ilhas” de maçãs foram rompidas com a acção humana, de modo especial ao longo da Rota da Seda. As árvores passaram a ter contacto umas com as outras. Abelhas e outros polinizadores encarregaram-se de fazer sua parte. A descendência híbrida resultante originou frutos maiores, o que despertou a atenção dos humanos – que acabaram por dar uma mãozinha, replantando mudas das árvores mais favorecidas e realizando enxertos.

Spengler ressalta que esse processo foi muito mais rápido do que ocorreria em condições naturais. “O processo de hibridização não é o mesmo para todas as plantas. Ainda não sabemos muito sobre como ocorre em árvores de longa duração”, comenta o cientista. “Há centenas de plantas domesticadas no planeta”. A maçã é resultado da megafauna pós-Era do Gelo e dos mercadores da Antiguidade, portanto.

O fruto proibido

No relato bíblico da criação o mundo, no livro do Génesis, Eva desobedece à ordem de não comer o fruto da frondosa árvore do paraíso. Experimenta, gosta e acaba por oferecê-la a Adão. A fruta acabou por ser descrita como uma maçã. É assim que aparece em pinturas e configurou-se no imaginário humano.

O relato original, contudo, não menciona nome algum. Diz que era o “fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal”. A ideia de considerar esse fruto uma maçã veio aos poucos, muito provavelmente por obra dos antigos tradutores da Bíblia. Ao versarem o texto do grego antigo para o latim, utilizaram a palavra “pomum”, que acabaria por ser maçã, nas línguas modernas – mas poderia ser qualquer fruto com formato semelhante, como um figo ou uma pêra.

Uma outra versão também corrente entre investigadores é a de que a fruta acabou por ser chamada de maçã por causa de uma confusão entre as palavras malus – do latim, significando mal – com malum – do grego antigo, que significava maçã.

Facto é que a fruta tornou-se símbolo de pecado e tentação. Mas também de conhecimento. A historiadora Janik afirma que a maçã traz, nas diversas culturas, significados de amor, imortalidade, dom e amizade.

No livro apócrifo de Enoque, a árvore do Éden é descrita como “uma espécie de tamarineira, produzindo frutos que se assemelhavam a uvas”. O antigo texto diz que a “fragrância” podia ser sentida a uma distância considerável.

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30 Maio, 2019


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1843: Um gémeo foi ao espaço e o outro ficou na Terra. Um ano depois, estão diferentes

NASA

Um gémeo foi ao espaço, o outro ficou na Terra e mais de 80 cientistas de 12 universidades estudaram os dados vitais de ambos.

Scott Kelly passou um ano na Estação Espacial Internacional, enquanto Mark ajudou os investigadores agindo como contraponto ao que foi registado no corpo do seu irmão.

“Este é o começo do estudo do genoma humano no Espaço“, afirmou Andrew Feinberg, da universidade Johns Hopkins, referindo que foram criados métodos que servirão para “mais investigação para concluir o que acontece aos humanos” fora da Terra.

Os investigadores descobriram nas análises a Scott Kelly um aumento de comprimento dos telómeros, estruturas que fazem parte dos cromossomas, mas tudo voltou ao normal seis meses após o regresso à Terra. Descobriram ainda que a vacina da gripe funciona do mesmo modo no espaço e que não houve alterações significativas da flora intestinal do gémeo astronauta.

O estudo é descrito na edição da revista Science que será publicada na sexta-feira e baseia-se em amostras de sangue, dados fisiológicos e outras medições feitas com os gémeos Kelly ao longo de um período de 27 meses antes, durante e depois da missão espacial de Scott.

Amostras do astronauta foram recolhidas na estação espacial e enviadas de volta à Terra durante um reabastecimento da estação espacial por uma nave russa, para serem analisadas num prazo de 48 horas.

Os resultados levantam preocupações sobre a forma como os astronautas devem ser preparados para viagens espaciais – sobretudo nos planos futuros para uma missão com humanos até Marte, por exemplo.

De modo simplificado, dá para afirmar que Scott voltou para a Terra mais velho que seu irmão. Pelo menos com sintomas parecidos com os do envelhecimento: comprometimento cognitivo, perda de densidade óssea e até alterações cardiovasculares – como o espessamento da artéria carótida.

As conclusões sobre os perigos das viagens espaciais para o genoma humano não são ainda evidentes, afirmam os cientistas, mas fazer o mesmo tipo de estudo em astronautas de missões espaciais futuras poderá ajudar a prever o tipo de riscos médicos que poderão enfrentar em viagens prolongadas, sem gravidade e com exposição a raios ultra-violeta nocivos e outros riscos para a saúde humana.

Feinberg assinalou que estudar um par de gémeos idênticos foi uma oportunidade rara de comparar mudanças fisiológicas e genéticas mas frisou que não se pode atribuir as mudanças apenas à viagem espacial, sendo necessário continuar a investigação com outros astronautas. A sua equipa estudou dois tipos de glóbulos brancos e descobriu que em ambos os irmãos se verificaram alterações epigenéticas.

Professor da Weill Cornell Medicine, a unidade de pesquisa biomédica da Universidade Cornell, Chris Mason disse que foi observada “uma mudança realmente de grande escala em mais de mil genes”.

“Houve activação de funções que regulam a resposta a danos e reparos no ADN e, mais notavelmente, um fortalecimento do conjunto de genes envolvidos no sistema imunológico – o que indicou que a defesa do organismo estava em alerta alto, como uma maneira de tentar compreender o novo ambiente.”

O investigador ressaltou que embora muitas das funções do organismo de Scott tenham voltado à normalidade depois do fim da missão, ainda há desajustes no corpo. “90% das alterações regressaram à linha de base”, explicou. Mas o sistema imunológico não está a funcionar correctamente e a reposição das células – naturalmente feita pelo organismo – também não ocorre da maneira esperada.

Brinda Rana, da Universidade da Califórnia, enumerou outros problemas identificados no organismo do astronauta. “Esta investigação inédita forneceu pistas sobre como um voo espacial de longa duração altera a regulação das moléculas no corpo e a relação dessas mudanças com as mudanças fisiológicas no corpo causadas pelo voo espacial, de questões vasculares a problemas de visão”, disse ela.

“Muitos astronautas desenvolvem um problema de visão que pode ser o resultado de mudanças de fluidos relacionadas à micro-gravidade. Alterações cardiovasculares semelhantes à aterosclerose também foram observadas.”

Rana acredita que estas questões são “grandes obstáculos fisiológicos” que a NASA precisa de resolver “antes de embarcar em missões espaciais mais longas, como a proposta missão a Marte”. A investigação indicou ainda que o ambiente com privação de oxigénio influencia o metabolismo, causando um aumento de inflamações interiores e nos nutrientes do corpo.

Exames de fezes também demonstraram que a jornada espacial interferiu nas proporções das bactérias da flora intestinal de Scott. Investigadores da Universidade Northwestern analisaram duas amostras fecais do astronauta antes da viagem, quatro durante a jornada espacial e três após o fim da missão. A diversidade das bactérias não mudou – mas a proporção delas sim.

Scott Kelly esteve a bordo da estação espacial durante 342 dias durante 2015 e 2016.

ZAP // Lusa

Por ZAP
13 Abril, 2019

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1516: Existência de vida na Terra só foi possível graças a colisão que formou a Lua

© TVI24 PIXABAY

A existência de vida na Terra só foi possível porque, há cerca de quatro mil milhões de anos, houve uma colisão entre o planeta azul e um outro planeta com um tamanho semelhante ao de Marte que coincidiu com a formação da Lua. Esta é a conclusão de um novo estudo divulgado esta quarta-feira pela publicação científica Science Advances.

De acordo com esta investigação, foi graças a esta colisão que foram introduzidos na Terra elementos voláteis como o carbono, o nitrogénio ou enxofre nas quantidades suficientes para que o planeta azul pudesse ser habitável. É que os planetas rochosos como é o caso da Terra não são ricos estes elementos

O fenómeno aconteceu há 4,4 mil milhões de anos.

Os cientistas já sabiam que os elementos voláteis foram, de alguma forma, introduzidos na Terra. Mas o timing e o mecanismo através do qual isto aconteceu têm suscitado grande debate na comunidade científica.

Ora, os investigadores acreditam que o estudo agora publicado apresenta o cenário que melhor explica o timing e o sistema através do qual ocorreu a introdução dos elementos voláteis na Terra. Os autores frisam que o estudo é consistente com as provas geoquímicas encontradas.

O que descobrimos é que todas as provas são consistentes com um impacto que formou uma lua e que envolveu um planeta do tamanho de Marte, volátil, com um núcleo rico em enxofre”, sublinhou Damanveer Grewal, que liderou o estudo.

msn notícias
Redacção TVI24
24/01/2019

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1495: Antárctida está a derreter 6 vezes mais depressa (com consequências trágicas)

ravas51 / Wikimedia

A Antárctida está a derreter a uma velocidade inesperada, de acordo com um novo estudo que concluiu que entre 2000 e 2017, a perda de gelo aumentou 280% devido ao aquecimento global e ao influxo de água morna do oceano.

Este novo estudo publicado no jornal científico Proceedings of the National Academy of Sciences demonstra os resultados da “avaliação mais duradoura da massa de gelo antárctica remanescente”, considerando imagens aéreas e de satélite das 18 regiões da Antárctida, incluindo 176 bacias e algumas ilhas vizinhas, para analisar como mudaram ao longo das últimas quatro décadas, como destaca o comunicado dos autores da pesquisa.

A equipa internacional de cientistas das Universidades da Califórnia em Irvine (UCI), nos EUA, do Laboratório de Propulsão da NASA e da Universidade de Utrecht, na Holanda, concluiu que a Antárctida perdeu cerca de 40 mil milhões de toneladas de gelo por ano entre 1970 e 1990.

Mas entre 2000 e 2017, esse número aumentou para os 252 mil milhões de toneladas. Uma subida assinalável e preocupante de 280% que está intimamente relacionada com o aquecimento global e com um influxo de água morna do oceano, notam os autores do estudo.

Os cientistas frisam que a Antárctida está a perder seis vezes mais gelo do que há quatro décadas, o que constitui um sinal de alarme.

Esta perda de gelo levou a um aumento do nível do mar de 1,27 centímetros entre 1970 e 2017. Mas “é apenas a ponta do icebergue”, como destaca o investigador que liderou o estudo, Eric Rignot, professor na UCI.

“À medida que o manto de gelo da Antárctida continua a derreter, esperamos uma elevação do nível do mar de vários metros nos próximos Séculos”, alerta Rignot.

Calor nos oceanos atingiu valor mais alto de sempre

O aquecimento dos oceanos a ritmos inesperados, devido às alterações climáticas, também contribui para o aumento do nível do mar, bem como para o derretimento do gelo antárctico.

E os mais recentes dados apontam que o calor contido no oceano atingiu o valor mais alto de sempre em 2018. Estamos perante um aumento que, comparativamente com 2017, “representa o equivalente a 100 milhões de vezes o calor produzido pela bomba atómica em Hiroxima”, como destaca a Lusa com base na medição de uma equipa internacional de investigadores que analisou a temperatura do mar em profundidades de até 2000 metros.

Este tipo de análise é visto como a melhor forma de aferir as consequências climáticas da concentração de gases com efeito de estufa resultantes da actividade humana.

“Os novos dados, juntamente com vasta literatura, servem como mais um aviso aos governos e ao público em geral sobre o inevitável aquecimento global que vivemos”, aponta o cientista Lijing Cheng, o principal autor desta investigação que foi publicada na revista científica Advances in Atmospheric Sciences.

O aumento do calor oceânico em 2018, comparativamente com 2017, é equivalente a 388 vezes a produção de electricidade da China no mesmo ano, frisa-se no estudo.

Contribuindo para a subida do nível do mar, o aumento da concentração de calor nos oceanos promove os riscos de inundações e coloca em perigo comunidades costeiras, além de fomentar o colapso do gelo antárctico.

As consequências podem ser catastróficas se não forem tomadas medidas para evitar esta tendência.

“O gelo da Antárctida contém 57,2 metros” de “aumento do nível do mar potencial”, atestam os investigadores da UCI. Se a queda de neve não ultrapassar o fluxo de gelo para o oceano, o nível do mar subirá de forma trágica.

Outro dado preocupante deste estudo concluiu que a Antárctida Oriental contribui de forma relevante para a perda de gelo – esta região pode, só por si, representar 52 metros para o potencial aumento do nível do mar.

“Esta região é, provavelmente, mais sensível ao clima do que foi tradicionalmente assumido, e é importante sabe-lo porque contém mais gelo do que a Antárctida Ocidental e do que a Península Antárctida juntas”, destaca Rignot.

“Não quero ser alarmista”. Mas “os locais que passam por mudanças na Antárctida não se limitam a um par deles” e “parecem ser mais extensos do que pensávamos”, o que é “motivo para preocupação”, conclui Rignot em declarações ao The Washington Post.

SV, ZAP //

Por SV
20 Janeiro, 2019

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1371: Em demanda das relíquias galácticas do Universo primordial

Galáxias massivas ultra-compactas (assinaladas com uma seta amarela, no centro das imagens) com massas estelares superiores a 80 mil milhões de sóis. Situam-se a distâncias entre 2 e 5 mil milhões de anos-luz. Imagens obtidas com o rastreio KiDS, realizado com o telescópio VST, do ESO.
Crédito: Buitrago et al, 2018

São massivas, são muito pequenas e são extremamente raras, mas podem albergar os segredos de como as galáxias se formam e evoluem. Um novo estudo levanta a ponta do véu sobre a vida tímida das galáxias massivas ultra-compactas. Foi publicado no dia 16 de Novembro, na revista científica Astronomy & Astrophysics, e produzido por uma equipa internacional liderada por Fernando Buitrago, do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL).

As galáxias massivas ultra-compactas têm várias vezes mais estrelas do que a Via Láctea, mais do que o equivalente a 80 mil milhões de sóis, e são por isso muito brilhantes, mas as suas estrelas estão densamente empacotadas num tamanho muito menor do que o da nossa Galáxia. Os investigadores identificaram um novo conjunto de 29 galáxias com estas características, a distâncias entre os dois e os cinco mil milhões de anos-luz da Terra.

Sete destes modestos pesos pesados são de facto galáxias primordiais que permaneceram intactas, sem interagir com outras desde a sua formação, há mais de dez mil milhões de anos. Estas relíquias abrem janelas sobre o aspecto e a constituição das galáxias nas primeiras idades do Universo, embora estejam na nossa vizinhança galáctica.

“Quando estudamos objectos muito pequenos e os estudamos no Universo distante, é muito difícil dizer o que quer que seja sobre eles”, diz Fernando Buitrago. “Como este conjunto de galáxias que estudámos está no Universo próximo e relativamente perto de nós, mesmo sendo verdadeiramente pequenas, temos melhores condições para as sondar.”

Um dos avanços deste artigo agora publicado é a apresentação da densidade destas galáxias massivas ultra-compactas no Universo, no seu conjunto, relíquias e as que o não são. Os investigadores encontraram apenas 29 no mais completo rastreio de galáxias no Universo local. “São tão raras que precisamos de um volume com quase 500 milhões de anos-luz de lado a lado para encontrar uma delas apenas”, diz Ignacio Ferreras, o segundo autor do estudo.

Ferreras determinou a idade das estrelas nas galáxias, separando as galáxias vermelhas e antigas (as “relíquias”) das azuis e jovens. Como puderam estas relíquias ser preservadas intactas através do tempo cósmico é algo ainda por compreender, diz Fernando Buitrago.

De acordo com o paradigma da formação e evolução das galáxias, estas relíquias ultra-compactas só poderiam ser poupadas à fusão com outras galáxias e impedidas de evoluir se residissem em enxames galácticos sobrepovoados. Poderá soar contra-intuitivo já que se esperaria que em tais ambientes elas mais facilmente interagissem e perdessem as suas propriedades originais, mas Buitrago explica: “Num lugar onde existem muitas galáxias, haverá também muita atracção gravítica e as velocidades relativas das galáxias serão muito elevadas. Por isso, elas irão passar umas pelas outras sem tempo suficiente para interagirem significativamente.”

“A surpresa surgiu quando nos apercebemos de que nem todas as galáxias do nosso conjunto vivem em tais ambientes”, acrescenta Buitrago. “Descobrimo-las numa diversidade de ambientes, e para aquelas que vivem em vizinhanças sub povoadas, isso é muito difícil de explicar.”

Neste estudo, os investigadores tentaram medir algumas das propriedades destes objectos, como os seus tamanhos e idades, mas estão a pedir tempo de observação com grandes telescópios para apontar directamente para eles. De modo a compreender o seu passado, querem estudar em maior detalhe os lugares onde se encontram, as outras galáxias à sua volta, e as suas posições relativas no espaço.

“As galáxias massivas evoluem de forma acelerada quando comparadas com outras galáxias no Universo. Ao tentarmos entender as propriedades das galáxias mais massivas, poderemos vir a entender o eventual destino de todas as outras galáxias, incluindo o da própria Via Láctea”, comenta Fernando Buitrago.

Astronomia On-line
30 de Novembro de 2018

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1226: Em 40 anos, a Terra perdeu 60% dos seus animais selvagens

CIÊNCIA

(CC0/PD) minkewink / Pixabay
O ritmo actual de extinção das espécies é cerca de 100 a 1.000 vezes maior do que há alguns séculos

A população mundial de vertebrados no mundo diminuiu 60% nos últimos 40 anos, aponta um estudo do Fundo Mundial para a Natureza (WWF) divulgado nesta terça-feira. A acção humana é a principal responsável por esta perda em massa de mamíferos, aves, peixes, anfíbios e répteis.

As regiões que mais perderam animais selvagens entre 1970 e 2014 foram as Américas do Sul e Central, onde as populações de vertebrados diminuíram 89%. O Relatório Planeta Vivo analisou o estado de 16.704 grupos de 4.005 espécies de vertebrados durante estes 40 anos.

Entre as espécies de fauna mais afectadas e com a maior taxa de extinção estão as de água doce, cuja redução nas populações atingiu os 83%.

Dependendo do tipo de animais em análise, o ritmo actual de extinção das espécies é cerca de 100 a 1.000 vezes maior do que há alguns séculos, quando a actividade humana começou a alterar a Biologia e a Química do planeta.

Segundo o relatório agora apresentado, a principal causa do declínio da biodiversidade é o modelo descontrolado de consumo do ser humano, que explora extensivamente os ecossistemas e a agricultura. A Humanidade é ainda responsável pela poluição, introdução de espécies invasoras e pelo aquecimento global, factores que também impactam negativamente a vida selvagem.

“A enorme pressão feita sobre os recursos naturais está a ameaçar a estrutura viva que sustenta a Humanidade”, afirmou Marco Lambertini, director-geral da organização ambientalista internacional.

Em todo o mundo, a natureza proporciona serviços avaliados em, aproximadamente, 125 mil milhões de dólares por ano, ajudando a garantir o fornecimento de ar fresco, água potável, alimentos, energia e medicamentos.

Segundo aponta o relatório, os manguezais, por exemplo, – árvores rizoforáceas da América e da África -, capturam quase cinco vezes mais carbono do que as florestas tropicais; as culturas parcialmente polinizadas por animais correspondem a 35% da produção mundial de alimentos e os recifes de corais protegem cerca de 200 milhões de pessoas contra ondas e tempestades.

O WWF destaca ainda que a pegada ecológica do planeta – parâmetro que mede o consumo de recursos naturais – aumentou quase 190% nos últimos 50 anos.

ZAP // Deutsche Welle

Por ZAP
1 Novembro, 2018

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1190: O cérebro é o equivalente a milhares de milhões de mini-computadores a trabalhar em conjunto

CIÊNCIA

(CC0/PD) David Cassolato / Pexels

Um estudo recente revelou uma diferença estrutural fundamental entre os neurónios humanos e de cobaias que poderia ajudar a explicar os nossos poderes de inteligência.

Concluído o primeiro registo de actividade eléctrica em células humanas a um nível incrivelmente detalhado, os cientistas afirmam agora que cada uma das nossas células cerebrais poderiam funcionar como um mini-computador, escrevem os cientistas no novo estudo científico, publicado no dia 18 de Outubro na Cell.

Humanos e ratos de laboratório são diferentes, começando pelos neurónios. As células cerebrais comunicam-se disparando impulsos eléctricos, que os investigadores conseguem detectar e medir colocando eléctrodos microscópicos dentro dos neurónios.

Apesar de os cientistas já terem tido oportunidade de realizar essa experiência em cobaias, Mark Harnett, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em Cambridge, ambicionava ir mais longe: observar de que forma os neurónios humanos se poderiam destacar dos dos ratinhos.

Assim, o cientista utilizou tecido vivo obtido através de cirurgias nas quais os especialistas removiam pedaços de cérebro de pessoas com epilepsia. A equipa de Harnett usou então eléctrodos muito finos para registar a actividade dentro dos ramos mais finos, conhecidos como dendrites, no final do tronco cerebral.

Cada neurónio pode ter até 50 dendrites e cada dendrite tem centenas de sinapses ou pontos de conexão com outros neurónios. Os sinais cerebrais passam por essas sinapses entrando na dendrite, tornando assim provável que a própria dendrite lance um sinal eléctrico ao longo do seu comprimento.

Em comparação com as cobaias, as dendrites de neurónios humanos apresentam menos canais de iões, moléculas inseridas na membrana externa da célula que deixam a electricidade fluir ao longo da dendrite.

À primeira vista, esta informação pode parecer desvantajosa, mas na verdade esta característica denota aos humanos maiores e melhores “poderes de computação” para cada célula do cérebro.

Na prática, num neurónio de uma cobaia, se um sinal iniciar numa dendrite, existem imensos canais iónicos para conduzir a electricidade, o que irá fazer com que o sinal, provavelmente, continue no tronco principal do neurónio. Por sua vez, num neurónio humano, é menos certo que o sinal rume até tronco principal: tudo dependerá da actividade nas outras dendrites.

Esta dinâmica, explica o New Scientist, permite que as milhares de sinapses das dendrites de cada neurónio determinem colectivamente a “decisão” final. “Em conjunto, procuram padrões específicos de entrada para se unirem e, finalmente, produzirem um sinal”, explica Harnett.

No fundo, podemos imaginar o nosso cérebro como sendo o repositório de milhares de milhões de mini-computadores a trabalhar em conjunto. Uma autêntica máquina que nos permite, entre muitas outras tarefas, ler esta peça até ao fim.

ZAP //

Por ZAP
24 Outubro, 2018

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1042: Depois do gato, o termómetro de Schrodinger

CIÊNCIA

apionid / Flickr
O Gato de Schrödinger, que está vivo e morto enquanto está dentro da caixa, é um dos paradigmas da Mecânica Quântica

À semelhança da teoria do gato de Schrodinger, em que o gato dentro da caixa pode estar ao mesmo tempo vivo e morto, um novo princípio de incerteza sustenta que os objectos quânticos podem estar a duas temperaturas diferentes.

A famosa experiência do gato de Schrodinger, que implicava que um gato numa caixa poderia estar vivo e morto ao mesmo tempo, ganhou um novo parceiro na lista dos fenómenos bizarros da mecânica quântica.

Físicos da Universidade de Exeter, em Inglaterra, descobriram que poderá existir um limbo semelhante ao gato na temperatura: a nível quântico, os objectos podem apresentar duas temperaturas diferentes. Este paradoxo quântico é a primeira nova relação de incerteza quântica a ser formulada em décadas.

O estudo publicado a 6 de Junho na Nature Communications mostra que, através desta nova incerteza quântica, quanto mais precisa for a medição da temperatura do objecto em estudo, menor é a precisão da medição da energia do corpo.

Esta é na prática uma nova aplicação do primeiro dos Princípios da Incerteza de Heisenberg, segundo o qual, na escala dos objectos quânticos, não se consegue medir com igual rigor a posição e a velocidade de um dado corpo.

A descoberta tem grandes implicações para a nano-ciência, que estuda objectos extremamente pequenos, mais diminutos que um nanómetro. Este novo princípio altera a maneira como os cientistas medem a temperatura destes pequenos objectos, tão pequenos como pontos quânticos, pequenos semi-condutores ou células isoladas.

Mesmo que um típico termómetro mostre a subida e descida da sua energia, a energia é sempre contida dentro de uma faixa pequena. A nível quântico, isso já não acontece como mostrou a pesquisa inspirada no gato de Schrodinger.

Na teoria de Schrodinger, é proposto que um gato entre numa caixa com um veneno que pode ser activado pela decaimento de uma partícula radioactiva. Seguindo as leias da mecânica quântica, a partícula pode decair e não decair ao mesmo tempo, o que significa que, até a caixa ser aberta, o gato permanece morto e vivo ao mesmo tempo – um fenómeno conhecido como sobreposição.

Nesta nova pesquisa, os cientistas usaram a matemática teórica para prever quanta sobreposição afectaria a medição da temperatura de um objecto quântico.

“No caso quântico, um termómetro quântico estará numa sobreposição de estados de energia simultaneamente”, afirmou Harry Miller, um dos investigadores da Universidade de Exeter que desenvolveu o novo princípio.

“O que descobrimos é que o termómetro não tem uma energia definida e está na verdade, numa combinação de diferentes estados de uma só vez, o que contribui para a incerteza na temperatura que podemos definir”, revelou.

No mundo observável, um termómetro pode dizer-nos que um dado objecto se encontra entre os -0,5ºC e os 0ºC. No mundo quântico, o termómetro diz-nos que o objecto está em ambas as temperaturas ao mesmo tempo. Este novo principio quântico explica a estranheza quântica registada.

O novo estudo pode ajudar os cientistas nos novos projectos em que é necessário medir as mudanças de temperatura em objectos abaixo da escala nanométrica. “Os nossos resultados vão dizer exactamente como projectar as suas sondas e explicar a incerteza quântica adicional que se obtém”, conclui Harry Miller.

ZAP // Live Science

Por ZAP
19 Setembro, 2018

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1014: Os mundos de água podem suportar vida alienígena

CIÊNCIA

NASA/JPL-Caltech

Investigadores da Universidade de Chicago e da Pensilvânia, nos Estados Unidos, sugerem que os “mundos de água” podem mesmo suportar vida extraterrestre – apesar de os cientistas assumirem até então que é bastante improvável. 

A comunidade científica tem assumido que os planetas de água – mundos totalmente cobertos por oceanos profundos – são hostis à vida, uma vez que não permitem o ciclo de minerais e gases que mantêm o clima da Terra estável.

No entanto, um novo estudo publicado no dia 31 de Agosto no The Astrophysical Journal, afirma o contrário, sugerindo que os planetas oceânicos podem sustentar vida. Quanto ao tempo em que a vida seria possível, dependeria das condições do planeta.

Nas últimas duas décadas, os cientistas descobriram milhares de exoplanetas, muitos dos quais rochosos e na chamada “zona habitável” das suas estrelas-mãe. Apesar das descobertas, os investigadores não conhecem todas as condições de habitabilidade porque, até agora, só conhecemos um mundo habitável – a Terra.

Muitas vezes, os cientistas usam o clima da Terra para entender de que forma é que os planetas em geral poderiam manter as suas condições climatéricas estáveis por milhões ou biliões de anos – tempo suficiente para que a vida se conseguisse manter.

Condições necessárias

A nova pesquisa, baseada em mais de 1.000 simulações com exoplanetas, sugere que os planetas de água poderiam ser habitáveis se satisfizessem certas condições.

Segundo o estudo, os planetas precisariam de ter uma certa quantidade de carbono – elemento no qual a vida na Terra é baseada. Além disso, o exoplaneta iria precisar de muita água no início da sua formação bem como, ter capacidade de alternar entre a atmosfera e o oceano para estabilizar o seu sistema.

A estas condições soma-se a necessidade de o planeta manter os seus elementos e minerais originais, em vez de os dissolver no oceano e retirar o carbono da atmosfera.

“Isto realmente muda a ideia de que é necessário um clone da Terra – isto é, um planeta com alguma terra e um oceano raso [para sustentar vida]”, disse o autor principal do estudo Edwin Kite, geofísico da Universidade de Chicago.

De acordo com Kite, e enquanto a equipa conduzia simulações para encontrar planetas que orbitam à volta de estrelas semelhantes ao Sol, cresceu o optimismo relativamente à procura de estrelas anãs vermelhas – outro ponto importante na procura de vida extraterrestre.

As anãs vermelhas são mais fracas do que o Sol mas, se o planetas estiverem próximos o suficiente da estrela, podem, em teoria, ter água na sua superfície e encontrar as condições necessárias para a habitabilidade. No entanto, importa referir que estas estrelas são extremamente variáveis, podendo enviar radiações fatais para os seus planetas.

A quantidade certa de carbono, poucos elementos e cristais da crosta dissolvidos no oceano e a luz constante de uma estrela são os elementos necessários para que um mundo de água possa sustentar vida – e se possa juntar ao “pódio da habitabilidade” da Terra.

Por ZAP
14 Setembro, 2018

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1011: “Migrantes climáticos” podem ser mais de 200 milhões no século XXI

(CC0/PD) josealbafotos / pixabay

As alterações climáticas podem forçar a deslocação de 120 milhões de pessoas em idade activa e suas famílias, num total de 200 milhões, ao longo do século XXI, mas menos de 20% serão migrações internacionais.

A conclusão é de um estudo dos investigadores Frederic Docquier, Michael Burzynskia, Christoph Deusterce e Jim de Melo, que foi esta quinta-feira apresentado num seminário promovido pelo Centro NOVAFRICA, da Nova SBE (Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa), em Carcavelos.

O estudo analisa os efeitos de longo prazo das alterações climáticas sobre as migrações laborais, sendo incluídos nos diferentes países (145 países em desenvolvimento mais 34 do grupo da OCDE) factores como o efeito do aumento das temperaturas e da subida do nível do mar, o crescimento demográfico e populacional, decisões educativas, desigualdade salarial, pobreza extrema e decisões de mobilidade.

Os modelos matemáticos criados pelos investigadores revelam que as alterações climáticas têm efeitos limitado nas taxas de emigração e imigração internacionais, mesmo nos cenários mais extremos, demonstrando que a migração internacional é uma estratégia de adaptação dispendiosa, e por isso mesmo, de último recurso.

Num cenário climático moderado (considerando um aumento de dois graus centígrados e subida de um metro no nível do mar), os cientistas prevêem deslocações forçadas e voluntárias de cerca de 200 milhões de pessoas, dos quais só 19% irão optar por uma migração de longo distância, para um dos países desenvolvidos da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico).

“Estas condições são favoráveis ao aumento da mobilidade internacional dos trabalhadores”, escrevem os autores, acrescentando que com as actuais leis e políticas migratórias, os migrantes climáticos tenderão a deslocar-se mais no interior dos seus próprios países do que atravessando fronteiras.

As alterações climáticas deverão também aumentar a diferença de rendimentos entre os países mais pobres e os mais ricos em 25%, influenciar a pobreza extrema e forçar milhões de adultos a fugir das áreas onde vivem inundadas.

Outros factores como perdas directas de serviços públicos ou conflitos sobre recursos vão também determinar o maior ou menor fluxo de migrações internas ou internacionais, embora estes mecanismos sejam mais difíceis de quantificar, salientam.

Os migrantes são sobretudo originários de países que menos contribuíram para as alterações climáticas, mas mais vão sofrer os seus efeitos, incluindo países africanos como Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Moçambique.

O estudo realça que as alterações climáticas exigem “mais coerência entre políticas de migração, desenvolvimento e ambientais” e acrescenta que “são necessárias medidas preventivas para encorajar a adaptação às alterações climáticas, redução do risco de desastres a nível local, desenvolvimento sustentável em geral e desenvolvimento urbano sustentável em particular”, sobretudo nos países mais pobres, onde as pessoas têm também menos mobilidade devido às dificuldades financeiras.

ZAP // Lusa

Por Lusa
13 Setembro, 2018

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1010: Humanos levaram milhares de anos a extinguir as aves-elefante

Faziam parte da megafauna que habitou Madagáscar durante milhares de anos. Pesavam meia tonelada, atingiam três metros de altura e já eram caçadas pelo homem há 10 mil anos, o que levou a uma revisão radical das estimativas do início da presença humana na ilha

Durante milhares de anos, a ilha de Madagáscar foi o habitat de uma megafauna – hoje integralmente extinta – onde se incluíam lémures e tartarugas gigantes, hipopótamos e dois géneros distintos de “aves elefantes”, incapazes de voar, de uma família intitulada Aepyornithidae. A maior, a Aepyornis, chegava à meia tonelada de peso e aos três metros de altura, pondo ovos maiores do que os dos dinossauros, com um volume 160 vezes superior aos das galinhas. Extinguiu-se há pouco mais de mil anos. A segunda, Mulleronis, pesava cerca de 150 quilos. Os restos mortais mais recentes foram datados de meados do século XIII. Ambas eram caçadas pelo homem. Mas, agora, descobriu-se que isso já acontecia há muito mais tempo do que se suspeitava.

De acordo com um estudo publicado na revista científica Advances Science Mag, investigadores de Madagáscar, Estados Unidos e Reino Unido descobriram sinais de acção humana em ossadas de aves-elefante datadas de há 10.500 anos, incluindo “marcas de corte e fracturas consistentes com imobilização e desmembramento”. Uma descoberta que obrigará os cientistas a reavaliarem toda a dinâmica da extinção da megafauna da ilha, da intervenção humana nesse processo e da própria colonização humana do território.

Com base em investigações anteriores, estimava-se que a presença humana na ilha tivesse começado há cerca de 2500 anos. Ou seja: seis mil anos mais tarde do que agora é revelado. Acreditava-se, igualmente, que esta presença tivesse ditado a extinção relativamente rápida de todos os “gigantes” da ilha. Mas, ao serem encontrados vestígios tão antigos da caça destes animais, as evidências mostram agora que esta actividade não terá impedido a coexistência entre o homem e a megafauna durante largos milhares de anos.

Diário de Notícias
Pedro Sousa Tavares
13 Setembro 2018 — 10:53

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993: Astrofísicos desconfiam que há uma galáxia invisível na Via Láctea

D. Minniti / VVV Survey / ESO

Os cientistas acreditam que no coração de quase todas galáxias, incluindo na Via Láctea, exista um buraco negro super-massivo com grande gravidade. Este buracos negro pode “alojar” outros menores, formando uma estrutura à sua volta, aponta uma nova investigação.

Estes buracos negros, conhecidos como SMBHs, estão rodeados por aglomerados densos de milhões de estrelas e, de acordo com descobertas recentes, existem provavelmente milhares do buracos negros menores, do tamanho de estrelas, que orbitam a poucos anos-luz do centro galáctico.

Astrofísicos da Universidade Eotvos Loránd, na Hungria, detalharam num novo estudo, publicado na semana passada na Physical Review Letters, que os objectos mais massivos formam uma estrutura à volta do buraco negro super-massivo central, onde se ocultariam milhares de outros buracos negros.

Até então, os cientistas acreditavam que as órbitas dos objectos estelares ligeiros e massivos se distribuíam de forma uniforme em todas as direcções à volta dos buracos negros supermassivos, explicou Akos Szolgyen, um dos autores do estudo acrescentado que agora os investigadores “sabem que as as estrelas massivas e os buracos negros separam-se tipicamente num disco“.

Segundo a investigação, os investigadores simularam a interacção das órbitas estelares em “agrupamentos de estrelas nucleares” – grupos de estrelas com alta densidade e luminosidade -, que se encontram perto do centro de massa da maioria das galáxias.

Szolgyen acredita que os aglomerados das estrelas nucleares se podem formar de duas formas distintas: a primeira sugere que o gás voou para o centro da galáxia e formou estrelas à volta do agrupamento do buraco negro super-massivo; a sua forma aponta que os aglomerados globulares antigos se deslocaram em espiral até o centro galáctico, onde acabaram por ser destruídos pelas forças gravitacionais do buraco negro.

Com o tempo, as estrelas mais massivas formaram discos à volta do buraco negro super-massivo central, e os objectos estrelares mais rápidos à volta deste acabaram repartidos esfericamente em torno do núcleo galáctico.

Posto isto, os astrofísicos concluíram que os milhares de buracos negros já previstos à volta do centro galáctico escondem-se dentro da estrutura do disco já demonstrado – incluindo mesmo a Via Láctea.

“Se milhares de buracos negros residem num disco à volta de um buraco negro super-massivo central, estes podem deformar e perfurar colectivamente as nuvens de gás ambiente em núcleos galácticos activos, dos quais fluxos de saída altamente energéticos são observados”, explicou Bence Kocsis, um dos participantes do estudo.

“Estas saídas podem afectar fundamentalmente a estrutura em grande escala da galáxia hospedeira, mesmo a milhares de anos-luz de distância”, concluiu.

Esta previsão pode ter importantes implicações para a nossa compreensão da dinâmica estelar, dos núcleos galácticos, da evolução das galáxias e da origem das ondas gravitacionais – ou ondulações no tecido do espaço-tempo.

Por ZAP
11 Setembro, 2018

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992: O feedback deixa-nos confiantes de que estamos certos (mesmo quando não estamos)

CIÊNCIA

PhotoXpress

Porque é que, muitas vezes, é difícil convencer alguém de que o mundo é redondo ou que as alterações climáticas são mesmo causadas pela actividade humana, apesar das evidências esmagadoras? Os cientistas responderam agora a esta questão e não, não se trata de uma questão de inteligência.

Receber reacções positivas ou negativas em relação ao que fazemos ou dizemos tem uma influência muito maior no nosso pensamento do que a lógica ou o raciocínio. Segundo esta linha de pensamento, receber feedback encoraja-nos a pensar que sabemos mais do que o que, na verdade, sabemos.

No fundo, quanto mais seguros nos tornamos de que a nossa posição é a correta, menor a probabilidade de levarmos em conta outras opiniões ou até mesmo dados científicos.

“Se achamos que sabemos muito sobre algo, mesmo que não saibamos, é menos provável que sejamos curiosos o suficiente para explorar mais o assunto”, explica um dos autores do estudo, publicado recentemente na Open Mind, Louis Marti, da Universidade da Califórnia.

Numa experiência em que participaram 500 voluntários, os cientistas mostravam aos participantes uma série de formas coloridas e perguntaram se eram um “Daxxy” – uma palavra criada para esta experiência – sem lhes explicar, contudo, o que significava.

Apesar de não fazerem a mínima ideia do que era um Daxxy, os participantes obtinham feedback após cada resposta. Desta forma, os investigadores foram capazes de medir a certeza em relação ao feedback recebido por cada participante.

Os resultados mostraram que a confiança dos voluntários foi amplamente baseada nos resultados dos últimos quatro ou cinco palpites, e não no desempenho geral.

“Achamos muito interessante o facto de eles errarem os primeiros 19 palpites, mas como acertaram os cinco últimos, sentiram-se muito confiantes”, disse Marti. O feedback recente tem mais peso, mostrou a experiência, mas essa tendência pode ser aplicada num sentido mais amplo.

“Se usar uma teoria maluca para fazer uma previsão correta, e se isso se repetir algumas vezes, pode ficar preso a essa crença de tal forma a deixar de ter interesse em recolher mais informações, exemplificou a psicóloga Celeste Kidd, autora do estudo.

Em suma, se acha que as vacinas são prejudiciais, provavelmente baseou essa ideia no feedback mais recente que teve sobre os seus pontos de vista, em vez do panorama geral. O ideal, dizem os investigadores, é que as nossas crenças se baseiem em observações ponderadas ao longo do tempo – mesmo que não seja este o caminho escolhido pelo cérebro a maioria das vezes.

“Se o seu objectivo é chegar à verdade, a estratégia de usar o feedback mais recente, em vez de todas as informações que acumulou, não é uma boa táctica”, concluiu Martin.

Por ZAP
10 Setembro, 2018

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973: Corais nos recifes profundos da Grande Barreira também estão a morrer

CIÊNCIA

Keith Ellenbogen

Um estudo recente mostra que 40% dos corais de recifes a 40 metros de profundidade da Grande Barreira de Coral branquearam em 2016.

Na costa Leste da Austrália, há um ecossistema com cerca de 3000 recifes e 900 ilhas, que se estende por mais de dois mil quilómetros: a Grande Barreira de Coral. Esta é a casa de corais, animais coloniais que surgiram há cerca de 400 milhões de anos e que são formados por pólipos, unidades que segregam o esqueleto de carbonato de cálcio e, ao longo de milhares de anos, formam um recife.

Já se sabia que um terço dos corais rasos da Grande Barreira morreu em 2016. Agora, um estudo recente, liderado pelo português Pedro Frade, do Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve, revela que 40% dos corais a 40 metros de profundidade (nos locais visitados pela equipa) branquearam.

Aliás, o estudo refere ainda que 6% deles morreram devido ao branqueamento de 2016. O artigo científico foi publicado na última edição da Nature Communications.

O branqueamento acontece quando a água aquece mais do que o suposto, explica o jornal Público. Esse aquecimento faz com que as algas, que vivem em simbiose com os corais, comecem a produzir substâncias tóxicas e deixem de fazer fotossíntese. Os corais acabam por expulsar as algas e a cor esbranquiçada do seu esqueleto fica visível.

Mas a ausência de cor não é o mais preocupante: isso deixa-os desnutridos e pode mesmo levá-los à morte, porque ficam sem acesso aos nutrientes fornecidos pelas algas através da fotossíntese. Este fenómeno foi observado pela primeira vez nos anos 80 e ocorreu em massa a nível global em 1998, em 2010, em 2016 e 2017.

Pedro Frade estava na Austrália quando aconteceu um dos branqueamentos mais devastadores, que vitimou cerca de 30% dos corais rasos, mas queria também perceber o que acontecia aos recifes mesofóticos (ou profundos) que se situam entre os 30 e os 100 metros.

“A diferença mais óbvia entre os recifes rasos e profundos é a quantidade de luz que penetra até aos profundos”, explica. Regra geral, os recifes mesofóticos crescem mais lentamente, acumulam menos energia e são mais escuros.

Estas características fizeram os cientistas questionar se o branqueamento dos corais afectava estes recifes profundos. Para responder a esta pergunta, a equipa estudou vários locais da parte Norte da Grande Barreira, monitorizando a temperatura e fazendo o levantamento da saúde das comunidades de corais entre os cinco e os 40 metros de profundidade, em maio de 2016.

Apesar de haver algum alívio de temperaturas elevadas, os corais nos recifes profundos são também afectados pelo branqueamento: nos recifes mesofóticos, contabilizou-se que 40% dos corais branquearam e 6% morreram.

“Podemos descartar a hipótese de que poderemos dormir descansados porque o recife profundo vai salvar o recife raso”, comenta o cientista. “O branqueamento de 2016 deixou uma cicatriz que não irá desaparecer tão rapidamente e vão ser precisos muitos anos até os recifes voltem a ter a aparência e funcionalidade que tinham.”

ZAP //

Por ZAP
7 Setembro, 2018

(Foram corrigidos 2 erros ortográficos ao texto original)

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919: Há um peixe que mata as suas crias (se não forem suficientemente boas)

 

CIÊNCIA

(CC0/PD) joakant / pixabay

O peixe macho da espécie Rhabdoblennius nitidus come as suas crias porque a presença dos ovos faz com que os seus níveis de androgénio caiam vertiginosamente, o que o impede de acasalar.

O canibalismo filial – no qual os espécimes adultos comem as suas crias – não é um fenómeno assim tão raro no reino animal: ursos, felinos, primatas, canídeos, roedores, insectos, peixes, anfíbios, repteis e pássaros são alguns dos exemplos que o fazem.

Agora, de acordo com o IFLScience, há mais um nome para acrescentar a esta lista: o peixe macho da espécie Rhabdoblennius nitidus, geralmente encontrado nos recifes de corais no Oceano Pacífico ocidental, no continente asiático.

Os casos de canibalismo filial variam um pouco entre as espécies mas, geralmente, o factor determinante é o mesmo: gestão de recursos. Todas as crias precisam de ser alimentadas, especialmente as que não são tão saudáveis. Se saírem da equação, deixam de ser um problema, digamos assim.

Tal como se explica num artigo publicado na semana passada na revista científica Current Biology, a principal hipótese de o canibalismo filial acontecer é conhecida por canibalismo baseado em energia – “energy-based (EB) cannibalism” em inglês – que explica que os benefícios nutricionais de comer as crias superam os de marcar o chamado “pool genético”.

Para muitos casos isso é verdade, mas foram registadas excepções em alguns peixes. Os investigadores da Universidade de Nagasaki notaram que, em algumas espécies, o macho que fica responsável por tomar conta dos ovos enquanto estes se desenvolvem decide comê-los quando o número total é pequeno e, assim, a reprodução recomeça.

Embora isto possa encaixar com a hipótese do canibalismo baseado em energia, os investigadores notaram que este é um fenómeno “intrigante”, já que o macho ainda pode cuidar dos ovos enquanto procura outras fêmeas.

No caso do Rhabdoblennius nitidus, os investigadores suspeitaram que o número de ovos controlava algo relacionado com o ciclo de acasalamento que ainda não havia sido observado de uma forma adequada. Para tentar descobrir, a equipa deixou os peixes fazerem o seu ritual de acasalamento, mas controlou sub-repticiamente o número de ovos que estavam presentes após a cópula.

De acordo com as conclusões da pesquisa, está tudo ligado com os níveis de andrógenos do macho, um grupo de hormonas ligadas ao crescimento e desenvolvimento do sistema reprodutor. A presença dos ovos faz com que os seus níveis de androgénio caiam vertiginosamente, o que os impede de acasalar. Nenhum ovo equivale a mais níveis de andrógenos, sejam estes comidos pelo macho ou tenham chocado todos.

Desta forma, a ideia é que estes machos comem pequenos números de ovos não pelo factor nutritivo, mas para que os seus níveis de andrógenos aumentem e possam acasalar novamente, podendo produzir uma ninhada maior. A explicação é corroborada pelo facto de terem comido os ovos, independentemente dos seus níveis de fome, e de até terem cuspido alguns deles depois de já os terem mastigado bem.

Por isso, neste caso não se trata de canibalismo, mas sim de infanticídio ou, mais tecnicamente, “embriocídio”.

ZAP //

Por ZAP
26 Agosto, 2018

(Foram corrigidos 4 erros ortográficos ao texto original)

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904: A desflorestação da antiga civilização maia ainda afecta a América Central

Daniel Schwen / Wikimedia
Pirâmide de Kukulcán, na cidade maia de Chichen Itza, no México

Antes do seu misterioso colapso, há mais de mil anos, a civilização maia foi uma das populações mais densas da história da humanidade. Mas, à medida que a civilização antiga florescia na Península de Yucatán, iam sendo deixadas marcas nefastas no ambiente – que ainda hoje afectam a América Central.

Um novo estudo, publicado esta segunda-feira na revista Nature, mostra que os séculos de desflorestação levada a cabo pela civilização maia mudaram drasticamente a capacidade das florestas locais em armazenar carbono no solo.

Actualmente, as reservas de carbono não estão completamente recuperadas na região – mesmo milhares de anos depois da cidades maias terem sido abandonadas e as florestas terem voltado a crescer.

Este estudo alerta para a desflorestação desconcertante que acontece nos dias de hoje nos trópicos, numa escala que assustaria até a própria civilização maia. A investigação sugere ainda que estes comportamentos podem ter sérias repercussões nos níveis futuros de gases de efeito de estufa.

“Hoje, quando vamos à região de Yucatán, grande parte da região parece ter uma floresta tropical densa e antiga”, disse o autor principal e geoquímico Peter Douglas.

Esclarecendo, contudo, que “quando se olha para o armazenamento de carbono no solo, parece que o solo foi fundamentalmente modificado e nunca voltou ao estado original“.

A importância do solo

O solo é uma peça-chave na investigação sobre as alterações climáticas, uma vez que é capaz de armazenar uma quantidade impressionante do carbono – mais do dobro da quantidade existente na atmosfera da Terra.

Quanto as plantas morrem, o carbono que estas retiram da atmosfera é transferido directamente para o solo. E, se o carbono da planta se ligar a um mineral, este pode ficar no solo durante milhares de anos.

Este é o tipo de carbono que Douglas e a sua equipa planeiam investigar. Pois, embora as reversas no solo tenham sido estudadas durante décadas, os cientistas ainda não têm a certeza do que é que acontece com estas reservas em períodos maiores de tempo, que abrangem séculos ou até mesmo milénio.

Para a investigação, a equipa analisou sedimentos retirados de três lagos nas planícies maias e identificou moléculas específicas nas amostras, chamadas de ceras vegetais, que se ligam a minerais e ficam armazenadas no solo por um longo período de tempo. A idade destas moléculas e das plantas fósseis circundantes foi determinada através do método de datação por radio-carbono.

As conclusões sugerem uma redução de 70 a 90% na idade das ceras vegetais e estas mudanças coincidem com os padrões de uso de terras e solos dos antigos maias. As descobertas implicam que, após a desflorestação maia, o carbono era armazenado no solo por muito menos tempo.

“Analisando estes dados em conjunto, percebemos que havia um importante conjunto de dados ligados à desflorestação da civilização maia e às mudanças no reservatório de carbono no solo”, explicou Douglas.

Estas descoberta não só são importantes para melhor compreender o passado, como também fornecem orientações e avisos para o futuro. Resumidamente, plantar árvores é uma óptima iniciativa mas, se a desflorestação causar danos significativos nas reservas de carbono, pode ser em vão.

Os cientistas esperam agora conseguir aplicar a mesma pesquisa a uma escala global.

“Seria excelente analisar outras florestas tropicais do mundo para perceber se emergem os mesmos padrões – e para observar se a desflorestação humana do passado e a agricultura tiveram impacto sobre os reservatórios de carbono no solo a nível global”, concluiu.

Por ZAP
23 Agosto, 2018

(Foram corrigidos 6 erros ortográficos ao texto original)

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882: Cientistas descobrem que o som tem massa (e é negativa)

(CC0/PD) mtmmonline / pixabay
A descoberta destrói todo o nosso conhecimento convencional sobre as ondas sonoras

O som tem massa negativa e tudo o que está à sua volta está constantemente a mover-se para cima e para baixo – embora muito lentamente, como uma estranha fonte de gravidade negativa, ou “anti-gravidade”.

Esta é a principal conclusão de um novo estudo, realizado na Universidade de Columbia nos EUA e disponibilizado no passado dia 23 em pré-publicação no arXiv.

A descoberta destrói todo o nosso conhecimento convencional sobre as ondas sonoras, estas ondulações sem massa que atravessam a matéria, dando às moléculas uma espécie de empurrão mas balanceando qualquer movimento ascendente com outro movimento descendente igual e oposto.

Os cientistas defendem no novo estudo que este é um modelo simples que explica o comportamento do som na maioria das circunstâncias, mas não se aplica a todos os caos.

O fenómeno da “anti-gravidade”

Quando o som se propaga através do ar, as moléculas à sua volta vibram, mas essa vibração não pode ser facilmente descrita pelo movimento das próprias moléculas.

Em vez disso, e tal como as ondas de luz podem ser descritas como fotões, os fotões são as unidades de vibração usadas para descrever as ondas sonoras que emergem das complicadas interacções entre as moléculas. Nenhuma partícula física emerge, mas os instigadores podem usar a matemática das partículas para a descrever.

E, tal como explica Rafael Krichevsky, aluno de Física da Universidade de Columbia que participou na investigação, o fotão tem uma massa negativa minúscula, o que significa que as ondas sonoras viajam para cima.

Simplificando: quando a gravidade puxa estas partículas, as ondas movem-se na direcção oposta. “Num campo gravitacional, os fotões aceleram-se lentamente na direcção oposta da que é esperada quando um tijolo cai”, exemplificou o investigador.

Para melhor entender como o processo funciona, podemos imaginar um fluído normal, no qual a gravidade actua, empurrando-o para baixo. As partículas fluídas comprimem as partículas que ficam em baixo, de forma que esta parte fica também e de forma consequente mais densa.

Os físicos já sabiam que, por norma, o som move-se mais rapidamente através de meios mais denso, o que aponta que a velocidade do som acima de um fotão também é mais lenta que a velocidade do som através de partículas um pouco mais densas, que estejam um pouco mais abaixo – e este este fenómeno que faz com que o fotão se “desvie” para cima.

Este processo acontece com ondas sonoras de pequena e grande escala. Estão incluídos todos os sons que saem da nossa boca, mesmo que apenas de forma ligeira. Ou seja, numa distância longa o suficiente, o som de uma pessoa a dizer “olá” inclinar-se-ia para o céu, de acordo com o estudo.

Por enquanto, a pesquisa é totalmente teórica. Segundo os investigadores, o efeito é demasiado pequeno para ser medido com qualquer tecnologia actual. No entanto, no futuro, talvez possa ser feita uma medição muito precisa, que detecte a ligeira curvatura no percurso de um fotão.

A confirmar-se a descoberta, existem consequências reais para o fenómeno. Por exemplo, nos núcleos densos de estrelas de neutrões, onde as ondas sonoras se movem quase à velocidade da luz, um som “anti-gravitacional” deve ter algum efeito no comportamento de todo o objecto.

Por HS
16 Agosto, 2018

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642: CHANDRA EXPLORA SISTEMA ESTELAR MAIS PRÓXIMO EM BUSCA DE POSSÍVEIS PERIGOS

 

Na busca da Humanidade por vida para lá do nosso Sistema Solar, um dos melhores lugares considerados pelos cientistas é Alpha Centauri, um sistema que contém as três estrelas mais próximas do Sol.

Um novo estudo que envolveu a monitorização de Alpha Centauri por mais de uma década pelo Observatório de raios-X Chandra da NASA fornece notícias encorajadoras sobre um aspecto chave da habitabilidade planetária. O estudo indica que quaisquer planetas em órbita das duas estrelas mais brilhantes no sistema Alpha Cen provavelmente não serão atingidos por grandes quantidades de raios-X das suas estrelas hospedeiras. Os raios-X e os efeitos do “clima espacial” são nocivos para a vida desprotegida, directamente através de doses elevadas de radiação e indirectamente através da remoção de atmosferas planetárias (um destino que se pensa ter acontecido em Marte).

Alpha Centauri é um sistema triplo localizado a pouco mais de 4,3 anos-luz, ou cerca de 4,1 biliões de quilómetros da Terra. Embora esta seja uma grande distância em termos terrestres, o sistema está muito mais perto do que a mais próxima estrela do tipo solar.

“Por estar relativamente perto, o sistema Alpha Centauri é visto por muitos como o melhor candidato a explorar em busca de sinais de vida,” realça Tom Ayres, da Universidade do Colorado em Boulder. “A questão é, vamos encontrar planetas num ambiente propício à vida como a conhecemos?”

As estrelas no sistema Alpha Centauri incluem um par chamado “A” e “B” (abreviação AB) que orbitam relativamente perto uma da outra. Alpha Cen A é um gémeo semelhante ao nosso Sol em quase todos os sentidos, incluindo a idade, enquanto Alpha Cen B é um pouco menor e mais fraca, mas ainda bastante parecida com o Sol. O terceiro membro, Alpha Cen C (também conhecida como Proxima), é uma estrela anã vermelha muito mais pequena que viaja em redor do par AB numa órbita muito maior que a leva mais de mil vezes mais longe do par AB do que a distância Terra-Sol. Proxima actualmente detém o título de estrela mais próxima da Terra, embora AB esteja em segundo lugar.

Um novo estudo que envolve a monitorização a longo prazo de Alpha Centauri pelo Observatório de raios-X Chandra da NASA indica que quaisquer planetas em órbita das duas estrelas mais brilhantes não são provavelmente atingidos por grandes quantidades de raios-X. Isto é importante para a viabilidade da vida no sistema estelar mais próximo do Sistema Solar. A imagem no canto superior esquerdo foi obtida pelo Chandra no dia 2 de maio de 2017, vista em contexto com uma imagem óptica de campo largo obtida no solo. Alpha Centauri é um sistema estelar triplo localizado a pouco mais de 4 anos-luz da Terra.
Crédito: ótico – Zdenek Bardon; raios-X – NASA/CXC/Universidade do Colorado/T. Ayres et al.

Os dados do Chandra revelam que as perspectivas de vida em termos de bombardeamento actual de raios-X são na verdade melhores em torno de Alpha Cen A do que em torno do Sol, e Alpha Cen B é apenas ligeiramente pior. Proxima, por outro lado, é um tipo de estrela anã vermelha activa conhecida por libertar perigosas explosões de raios-X e provavelmente hostil à vida.

“Esta é uma notícia muito boa para Alpha Cen AB em termos da capacidade da vida (em qualquer um dos seus planetas) em sobreviver aos ataques de radiação das estrelas,” comenta Ayres. “O Chandra mostra-nos que a vida deverá ter uma chance de luta nos planetas em torno de qualquer uma destas estrelas.”

Apesar de já ter sido descoberto um planeta do tamanho da Terra em torno de Proxima, os astrónomos continuam à procura, sem sucesso, de exoplanetas em torno de Alpha Cen A e B. A caça exoplanetária em redor destas estrelas provou recentemente ser mais difícil devido à órbita do par, que aproximou as duas estrelas brilhantes uma da outra no céu na última década.

Para ajudar a determinar se as estrelas de Alpha Cen são hospitaleiras à vida, os astrónomos realizaram uma campanha de longo prazo na qual o Chandra observa as duas principais estrelas do sistema a cada seis meses desde 2005. O Chandra é o único observatório de raios-X capaz de resolver AB durante a sua actual aproximação orbital, a fim de determinar o que cada estrela está a fazer.

Estas medições a longo prazo capturaram os altos e baixos da actividade de raios-X de AB, análoga ao ciclo de 11 anos das manchas solares do Sol. Mostram que quaisquer planetas na zona habitável da estrela A receberiam uma dose mais pequena de raios-X, em média, do que planetas semelhantes em torno do Sol. Para a companheira B, a dose de raios-X para planetas na zona habitável é maior do que a do Sol, mas só por um factor de aproximadamente 5.

Em comparação, os planetas na zona habitável em torno de Proxima recebem uma dose média de raios-X cerca de 500 vezes maior que a da Terra e 50.000 vezes maior durante uma grande erupção estelar.

Além de iluminar a possível habitabilidade dos planetas de Alpha Cen, a história de raios-X do par AB, pelo Chandra, ajuda às explorações teóricas da actividade cíclica de raios-X do nosso Sol. A sua compreensão é fundamental para os perigos cósmicos como o Clima Espacial, que podem impactar a tecnologia da nossa civilização cá na Terra.

Tom Ayres apresentou estes resultados na 232.ª reunião da Sociedade Astronómica Americana em Denver, no estado norte-americano do Colorado, e alguns dos resultados foram publicados na edição de Janeiro de 2018 da revista científica Research Notes of the American Astronomical Society.

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Observatório de raios-X Chandra (comunicado de imprensa)
Artigo científico (Research Notes of the American Astronomical Society)
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Astronomia On-line
12 de Junho de 2018

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A GRAVIDADE COLECTIVA, NÃO O PLANETA NOVE, PODE EXPLICAR AS ÓRBITAS DE “OBJECTOS ISOLADOS”

Impressão de artista de Sedna, que em imagens de telescópios tem um tom avermelhado.
Crédito: NASA/JPL-Caltech

De acordo com um novo estudo, interacções parecidas com as dos carrinhos de choque, nas orlas do nosso Sistema Solar – e não um misterioso Planeta Nove – podem explicar a dinâmica de corpos estranhos chamados “objectos isolados”.

A professora assistente Ann-Marie Madigan da Universidade do Colorado em Boulder, EUA, e sua equipa de investigadores, desenvolveram uma nova teoria para a existência de objectos esquisitos como Sedna – um planeta menor gelado que orbita o Sol a uma distância de quase 12,8 mil milhões de quilómetros. Os cientistas têm tentado explicar por que Sedna e um punhado de outros corpos àquela distância pareciam separados do resto do Sistema Solar.

Uma teoria sugere um novo planeta, ainda invisível, à espreita para lá de Neptuno, que pode ter empurrado as órbitas destes objectos isolados.

Mas Madigan e colegas calcularam que as órbitas de Sedna e de outros objectos semelhantes podem resultar da “luta” gravitacional entre estes corpos e detritos espaciais no Sistema Solar exterior.

“Existem muitos destes corpos por aí. O que é que a sua gravidade colectiva faz?” comenta Madigan. “Podemos resolver muitos desses problemas apenas levando em conta esta questão.”

Os cientistas apresentaram os seus achados numa conferência de imprensa da 232.ª reunião da Sociedade Astronómica Americana, que se realizou entre os dias 3 e 7 de Junho em Denver, no estado norte-americano do Colorado.

O projecto debruça-se sobre o Sistema Solar exterior, um local ocupado por planetas menores, como Plutão, luas geladas e outros detritos espaciais.

É também um lugar invulgar, gravitacionalmente falando. “Assim que nos afastamos para lá de Neptuno, as coisas não fazem sentido, o que é realmente emocionante,” realça Madigan.

Entre as coisas que não fazem sentido: Sedna. Este planeta menor demora mais de 11.000 anos para completar uma órbita em torno do Sol e é um pouco mais pequeno que Plutão. Ao contrário do nono planeta original, Sedna e outros objectos isolados completam órbitas enormes e excêntricas que os mantêm bem longe dos gigantes planetários como Júpiter ou Neptuno. Como lá chegaram permanece um mistério.

Entra aqui o hipotético Planeta Nove. Os astrónomos têm vindo a procurar um planeta como este, que teria cerca de 10 vezes o tamanho da Terra, há já aproximadamente dois anos, mas ainda não o localizaram com telescópios.

A equipa de Madigan originalmente não pretendia procurar outra explicação para estas órbitas. Ao invés, Jacob Fleisig, estudante de astrofísica da mesma universidade norte-americana, estava a desenvolver simulações de computador para explorar a dinâmica dos objectos isolados.

“Ele veio ao meu escritório um dia e disse, ‘estou a ver aqui algumas coisas muito interessantes,'” lembrou Madigan.

Fleisig havia calculado que as órbitas de objectos gelados para lá de Neptuno orbitam o Sol como os ponteiros de um relógio. Algumas dessas órbitas, como as de asteróides, movem-se como o ponteiro dos minutos, ou relativamente depressa e em conjunto. Outras, como as órbitas de objectos maiores como Sedna, movem-se mais devagar. Correspondem ao nosso ponteiro da hora. Eventualmente, esses ponteiros encontram-se.

“Vemos um amontoado de órbitas de objectos mais pequenos num lado do Sol,” comenta Fleisig, autor principal do novo estudo. “Estas órbitas ‘colidem’ com o corpo maior, e o que acontece é que essas interacções mudam a sua órbita de uma forma oval para uma forma mais circular.”

Por outras palavras, a órbita de Sedna passa de normal para isolada, inteiramente por causa dessas interacções a pequena escala. As descobertas da equipa também estão de acordo com observações recentes. Uma investigação de 2012 observou que quanto maior é um objecto isolado, mais distante a sua órbita se torna do Sol – exactamente o que os cálculos de Fleisig mostraram. Alexander Zderic, estudante da Universidade do Colorado em Boulder, é também co-autor do novo estudo.

As descobertas podem fornecer novas pistas sobre outro fenómeno: a extinção dos dinossauros. À medida que os detritos espaciais interagem no Sistema Solar exterior, as órbitas destes objectos estreitam-se e alargam-se num ciclo de repetição. Este ciclo pode acabar por disparar cometas em direcção ao Sistema Solar interior – inclusive na direcção da Terra – numa escala previsível de tempo.

“Embora não possamos dizer que este padrão matou os dinossauros,” realça Fleisig, “é tentador.”

Madigan acrescentou que a órbita de Sedna é mais um exemplo de quão interessante o Sistema Solar exterior se tornou.

“A imagem que temos do Sistema Solar exterior nos livros didácticos pode ter que mudar,” salienta. “Existem por lá mais coisas do que pensávamos, o que é muito excitante.”

Astronomia On-line
8 de Junho de 2018

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583: NOVO ESTUDO DESCREVE PROCESSO GEOLÓGICO POR TRÁS DAS DUNAS DE TITÃ

 

De acordo com um novo estudo, as dunas varridas pelo vento, em Titã, espalham-se por milhões de quilómetros a mais do que se pensava anteriormente e provavelmente foram formadas por processos geológicos semelhantes àqueles na Terra. As novas descobertas podem ajudar os cientistas a procurar vida ou os seus percursores moleculares na maior lua de Saturno.

O estudo, publicado na revista Journal of Geophysical Research – Planets, uma publicação da União Geofísica Americana, usa novos mapas de Titã para explorar duas questões sobre a maior lua de Saturno: como são formadas as dunas de Titã, e de que são feitas?

A atmosfera de Titã é incrivelmente densa, com espessas camadas de compostos orgânicos flutuando por toda a parte. No entanto, ao penetrarmos por essa atmosfera, vemos uma paisagem gelada não muito diferentes dos desertos áridos da Terra.

A superfície de Titã possui vales, desfiladeiros, lagos, montanhas e dunas. Muitas destas características semelhantes às da Terra existem em parte por causa do sistema meteorológico de Titã, onde os hidrocarbonetos líquidos, como o metano, chovem do céu.

Segundo a nova investigação, o processo geológico por trás destas dunas pode ser semelhante àqueles que esculpem desfiladeiros e canais de rios na Terra. Assim como as chuvas lentamente cortam desfiladeiros e canais na Terra, as chuvas de hidrocarbonetos de Titã iniciam um processo que começa no topo das cordilheiras equatoriais da lua e termina nas suas extensas planícies de dunas e tempestades de areia.

Ao analisarem as imagens mais detalhadas, até à data, do equador de Titã, os autores do estudo também sugerem que as dunas cobrem muito mais área do que se pensava anteriormente. As dunas estendem-se por três milhões de quilómetros quadrados mais do que as estimativas anteriores, o equivalente a dez desertos do Namibe.

Como Titã tem uma atmosfera rica em azoto, um sistema climático activo e compostos orgânicos, a sua superfície pode ser hospitaleira à vida ou aos seus constituintes pré-bióticos. A compreensão dos processos geológicos que aí acontecem pode ajudar os cientistas a descobrir onde a vida poderia estar, comenta Jeremy Brossier do Instituto de Investigação Planetária em Berlim, na Alemanha, autor principal do novo estudo.

Brossier disse que a nova pesquisa reforça algumas hipóteses iniciais sobre a superfície de Titã e fornece “evidências muito fortes” de que a água gelada está exposta em Titã e presente durante todo o processo de formação das dunas.

Tanto a imagem como a ilustração da secção este de Xanadu, uma região equatorial de Titã, revela uma paisagem alienígena complexa de montanhas, canais de rios e planícies. Os autores sugerem que as áreas brancas são terras altas, áreas elevadas onde finos revestimentos de material orgânico mascaram a camada gelada por baixo. As áreas azuis denotam regiões onde se acumulam materiais gelados.
Crédito: Jeremy Bossier

Vislumbres precoces

Os cientistas examinaram pela primeira vez a superfície de Titã, em detalhe, com o Telescópio Espacial Hubble em 1994. Os investigadores pensavam que as grandes regiões escuras perto do equador de Titã eram lagos de hidrocarbonetos líquidos.

Anos mais tarde, os cientistas sabem agora que estas regiões grandes e escuras espiadas pelo Hubble não eram lagos, mas sim planícies expansivas cobertas por dunas. Essa observação foi cortesia da sonda Cassini, lançada em 1997, que ardeu na atmosfera superior de Saturno em 2017 e que transportava instrumentos para observar de perto a superfície da lua gelada.

Um desses instrumentos era o instrumento de radar da Cassini, SAR, que mostrou aos investigadores a forma da superfície de Titã graças às ondas de rádio que eram reflectidas pela lua. Com o SAR ligado, montanhas, vales e desfiladeiros saltaram à vista.

O mapeamento da superfície de Titã é um primeiro passo crucial na compreensão dos processos geológicos que ocorrem na sua paisagem gelada. Mas descobrir a composição destas características superfícies – seja ela gelo, rocha, areia ou outro material – é totalmente diferente.

Para atingir este objectivo, os cientistas tiveram que usar um instrumento diferente: VIMS. O VIMS é como uma câmara. Mas, ao contrário da maioria das câmaras, o VIMS grava imagens em 352 cores diferentes e regista comprimentos de onda entre 300 e 5100 nanómetros. O olho humano, em comparação, regista apenas entre 380 e 620 nanómetros.

A análise destes comprimentos de onda permite que os cientistas deduzam a composição da superfície de Titã. Cada composto reflecte luz de maneira diferente, criando uma assinatura de luz. Cientistas como Brossier usam estas assinaturas de luz para restringir a composição da camada superior de uma característica à superfície – a única camada que o VIMS pode ver.

No laboratório, Brossier e colegas modelaram diferentes misturas de substâncias provavelmente à superfície de Titã e avaliaram as suas propriedades espectrais ou assinaturas de luz. Usaram essa informação para construir um modelo que mais tarde os guiou através das diferentes assinaturas de luz que surgiram quando o VIMS obteve imagens do equador de Titã.

Esta ilustração revela o processo geológico que pode estar por trás da formação das dunas de Titã. Começa no topo das montanhas de Titã, onde a água gelada e o material orgânico conhecido como tolinas descem por canais de rios até às bacias das terras baixas, e os pedaços mais pequenos destas misturas é, em última análise, soprado até às dunas geladas da lua.
Crédito: Jeremy Bossier

Como é que as dunas de Titã se formaram?

Usando as novas imagens do VIMS, os autores do estudo propuseram um processo geológico de formação de dunas que começa no topo das cadeias montanhosas equatoriais de Titã. Aí, a densa atmosfera deposita continuamente uma camada fina de material orgânico, como uma camada pulverulenta de neve recém-caída.

Esse revestimento fino é rico em pequenas moléculas orgânicas conhecidas como tolinas, registadas como altamente reflectivas pelos instrumentos da Cassini. Brossier e colegas usaram as assinaturas de luz dessas tolinas, juntamente com água gelada, para desvendar o processo geológico que produz as dunas de Titã.

O novo estudo sugere que as chuvas de metano corroem os picos das montanhas de Titã cortando canais no terreno. Essa erosão lava as tolinas e os pedaços de gelo do topo das montanhas até bacias nas terras baixas, onde se acumulam.

Os ventos de Titã sopram então os grãos mais pequenos dessa mistura para longe das bacias e para as suas planícies de dunas equatoriais. Estes grãos pequenos acumulam-se para formar as dunas de Titã.

Este processo é semelhante ao modo como as dunas se formam na Terra, explica Brossier, excepto que os materiais que compõem as dunas de Titã vêm da sua atmosfera. Essas nuvens densas e espessas de aerossóis orgânicos alimentam camada após camada de material orgânico nos picos das montanhas de Titã, que as chuvas de metano transportam para as planícies das dunas.

De acordo com Brossier, o estudo fornece fortes evidências de água gelada exposta em algumas áreas pequenas e do seu papel geológico na formação das dunas de Titã.

“Um dos tópicos mais debatidos tem sido o arranjo da água gelada no equador de Titã,” salienta Brossier, que acrescentou que alguns investigadores pensavam que não havia água gelada exposta à superfície de Titã. “Nós não só encontrámos assinaturas compatíveis com água gelada em algumas áreas neste estudo, como também mostrámos que temos agora as técnicas necessárias para compreender a superfície de Titã.”

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União Geofísica Americana (comunicado de imprensa)
Artigo científico – Journal of Geophysical Research – Planets
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Titã:
Solarviews
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Saturno:
Solarviews
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Cassini:
Página oficial (NASA)
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CCVAlg – Astronomia
Edição n.º 1483
25/05 a 28/05/2018

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