681: VLT TESTA TEORIA DA RELATIVIDADE GERAL DE EINSTEIN FORA DA VIA LÁCTEA

Imagem da galáxia próxima ESO 325-G004 criada a partir de dados recolhidos pelo Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA e pelo instrumento MUSE montado no VLT do ESO. O MUSE mediu a velocidade das estrelas em ESO 325-G004, o que resultou no mapa de dispersão de velocidades que está sobreposto à imagem do Telescópio Espacial Hubble. O conhecimento da velocidade das estrelas permitiu aos astrónomos inferir a massa de ESO 325-G004. A imagem inserida mostra o anel de Einstein que resulta da distorção da luz emitida por uma fonte mais distante devido à intervenção da lente ESO 325-G004, o qual se torna visível após subtracção da luz emitida pela galáxia lente.
Crédito: ESO, ESA/Hubble, NASA

Com o auxílio do instrumento MUSE montado no VLT (Very Large Telescope) do ESO, no Chile, e do Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA, os astrónomos fizeram o teste mais preciso, executado até à data, da teoria da relatividade geral de Einstein fora da Via Láctea. A galáxia próxima ESO 325-G004 actua como uma forte lente gravitacional, distorcendo a radiação emitida por uma galáxia distante situada por trás dela e dando origem a um anel de Einstein em torno do seu centro. Ao comparar a massa de ESO 325-G004 com a curvatura do espaço em sua volta, os astrónomos descobriram que a gravidade a estas escalas astronómicas se comporta como previsto pela relatividade geral, eliminando assim algumas teorias de gravidade alternativas.

Com o auxílio do instrumento MUSE montado no VLT do ESO, uma equipa liderada por Thomas Collett, da Universidade de Portsmouth no Reino Unido, calculou a massa de ESO 325-G004 ao medir o movimento das estrelas no seio desta galáxia elíptica próxima.

Collett explica: “Usámos dados obtidos pelo VLT do ESO, no Chile, para medir quão rapidamente as estrelas se estavam a mover em ESO 325-G004, o que nos permitiu inferir a quantidade de massa que deve existir na galáxia para manter estas estrelas em órbita.”

Por outro lado, a equipa conseguiu também medir outro aspecto da gravidade. Com o Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA, observou-se um anel de Einstein, um fenómeno que resulta da luz de uma galáxia distante estar a ser distorcida por ESO 325-G004. A observação deste anel permitiu aos astrónomos medir como é que a luz, e consequentemente o espaço-tempo, está a ser distorcida pela enorme massa de ESO 325-G004.

A teoria da relatividade geral de Einstein prevê que os objectos deformem o espaço-tempo à sua volta, fazendo com que a luz que passa por ele seja desviada e dando origem a um fenómeno conhecido por lente gravitacional. Este efeito apenas se torna evidente para objectos muito massivos. São conhecidas algumas centenas de lentes gravitacionais fortes, mas muitas estão demasiado distantes para se medir com precisão as suas massas. No entanto, a galáxia ESO 325-G004 constitui uma das lentes mais próximas de nós, situada a apenas 450 milhões de anos-luz de distância da Terra.

Collett continua: “Com dados obtidos pelo MUSE determinámos a massa da galáxia situada em primeiro plano e com o Hubble medimos a quantidade de efeito de lente gravitacional observado. Seguidamente comparámos estas duas maneiras de medir a força da gravidade — e o resultado foi exactamente o previsto pela relatividade geral, com uma incerteza de apenas 9%. Trata-se do teste mais preciso feito à relatividade geral, fora da Via Láctea, realizado até à data. E usámos apenas uma galáxia!”

A relatividade geral foi testada com muita precisão às escalas do Sistema Solar e alguns trabalhos observaram estrelas no centro da Via Láctea, mas até à data não tinha havido testes precisos para escalas astronómicas maiores. Testar o longo alcance das propriedades da gravidade é vital para validar o atual modelo cosmológico.

Esta descoberta pode ter implicações importantes para os modelos de gravidade alternativos à relatividade geral. Estas teorias alternativas prevêem que os efeitos da gravidade na curvatura do espaço-tempo são “dependentes da escala”, o que significa que a gravidade se deveria comportar de maneira diferente a escalas astronómicas do que se comporta às escalas mais pequenas do Sistema Solar. Collett e a sua equipa descobriram que este não é muito provavelmente o caso, a menos que estas diferenças ocorram apenas a escalas maiores que 6000 anos-luz.

“O Universo é um lugar espantoso, dando-nos acesso a estas lentes gravitacionais que podemos usar como laboratórios,” acrescenta o membro da equipa Bob Nichol da Universidade de Portsmouth. “É extremamente satisfatório usar os melhores telescópios do mundo para desafiar Einstein e descobrir que afinal ele tinha razão.”

Astronomia On-line
22 de Junho de 2018

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