3536: Hubble encontra as melhores evidências de um elusivo buraco negro de massa intermédia

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Esta impressão de artista ilustra uma estrela sendo dilacerada por um buraco negro de massa intermédia, rodeado por um disco de acreção. Este fino disco giratório de material consiste dos remanescentes de uma estrela que foi despedaçada pela forças de maré do buraco negro.
Crédito: ESA/Hubble, M. Kornmesser

Novos dados do Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA forneceram as evidências mais fortes até agora para buracos negros de tamanho intermédio no Universo. O Hubble confirma que este buraco negro de massa intermédia mora dentro de um denso enxame de estrelas.

Os buracos negros de massa intermédia (BNMIs) são um “elo perdido” há muito procurado na evolução dos buracos negros. Até à data já foram encontrados alguns candidatos a BNMI. São mais pequenos do que os buracos negros super-massivos que se encontram nos núcleos de galáxias grandes, mas maiores do que os buracos negros de massa estelar formados pelo colapso de estrelas massivas. Este novo buraco negro tem mais de 50.000 vezes a massa do Sol.

Os BNMIs são difíceis de encontrar. “Os buracos negros de massa intermédia são objectos muito esquivos e, portanto, é fundamental considerar e descartar cuidadosamente explicações alternativas para cada candidato. Foi isso que o Hubble nos permitiu fazer ao nosso candidato,” disse Dacheng Lin, da Universidade de New Hampshire, autor principal do estudo.

Lin e a sua equipa usaram o Hubble para seguir pistas do Observatório de raios-X Chandra da NASA e do XMM-Newton da ESA, que transporta três telescópios de raios-X e um monitor óptico para fazer exposições longas e ininterruptas, fornecendo observações altamente sensíveis.

“A adição de mais observações de raios-X permitiu-nos compreender a produção total de energia,” disse Natalie Webb, membro da equipa, da Universidade de Toulouse na França. “Isto ajuda-nos a entender o tipo estelar que foi interrompido pelo buraco negro.”

Em 2006, estes satélites de alta energia detectaram uma poderosa explosão de raios-X, mas não ficou claro se tinha origem de dentro ou de fora da nossa Galáxia. Os investigadores atribuíram-na a uma estrela sendo despedaçada depois de chegar muito perto de um objecto compacto e gravitacionalmente poderoso, como um buraco negro.

Surpreendentemente, a fonte de raios-X, de nome 3XMM J215022.4−055108, não estava localizada no centro de uma galáxia, onde os buracos negros massivos geralmente residem. Isto levantou esperanças de que o culpado era um BNMI, mas primeiro outra possível fonte do surto de raios-X tinha que ser descartada: uma estrela de neutrões na nossa própria Via Láctea, arrefecendo depois de ser aquecida a uma temperatura muito alta. As estrelas de neutrões são os remanescentes extremamente densos de uma estrela que explodiu.

O Hubble foi apontado para a fonte de raios-X a fim de resolver a sua localização precisa. Imagens profundas e de alta resolução confirmaram que os raios-X emanavam não de uma fonte isolada na nossa Galáxia, mas sim de um enxame estelar distante e denso nos arredores de outra galáxia – exactamente o tipo de lugar onde os astrónomos esperavam encontrar evidências de BNMIs. Pesquisas anteriores do Hubble mostraram que quanto mais massiva a galáxia, mais massivo é o seu buraco negro. Portanto, este novo resultado sugere que o enxame de estrelas que abriga 3XMM J215022.4−055108 pode ser o núcleo despojado de uma galáxia anã de massa mais baixa que foi gravitacionalmente destruída pelas suas interacções íntimas com a sua galáxia hospedeira maior.

Os BNMIs têm sido particularmente difíceis de encontrar porque são mais pequenos e menos activos do que os buracos negros super-massivos; não têm fontes de combustível prontamente disponíveis, nem uma atracção gravitacional forte o suficiente para atrair constantemente estrelas e outro material cósmico e produzir brilho em raios-X. Os astrónomos, portanto, precisam de avistar um BNMI em flagrante, no ato relativamente raro de devorar uma estrela. Lin e colegas vasculharam o arquivo de dados do XMM-Newton, procurando entre centenas de milhares de fontes, a fim de encontrar evidências fortes deste candidato a BNMI. Uma vez encontrado, o brilho dos raios-X da estrela devorada permitiu aos astrónomos estimar a massa do buraco negro.

A confirmação de um BNMI abre a porta à possibilidade de que muito mais se escondam no escuro, à espera de serem denunciados por uma estrela que passe demasiado perto. Lin planeia continuar este meticuloso trabalho de detective, usando os métodos que a sua equipa provou serem bem-sucedidos.

“O estudo da origem e da evolução dos buracos negros de massa intermédia dará finalmente uma resposta sobre como os buracos negros super-massivos que encontramos nos centros das galáxias massivas surgiram,” acrescentou Webb.

Os buracos negros são dos ambientes mais extremos que os humanos conhecem e, portanto, são um campo de teste para as leis da física e para a nossa compreensão de como o Universo funciona. Será que os buracos negros super-massivos crescem a partir de BNMIs? Como é que os BNMIs, propriamente ditos, se formam? Os enxames de estrelas são a sua casa favorita? Com uma conclusão confiante de um mistério, Lin e outros astrónomos apercebem-se que têm muitas outras questões interessantes a perseguir.

Astronomia On-line
3 de Abril de 2020

 

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3498: Sais de amónio descobertos no cometa da Rosetta

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Esquerda – uma superfície cometária “artificial” criada em laboratório; Direita – imagem do Cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko.
Crédito: Esquerda – O. Poch, IPAG, UGA/CNES/CNRS; Direita – ESA/Rosetta/NavCam

Através da análise de dados recolhidos pelo instrumento VIRTIS (Visible, Infrared and Thermal Imaging Spectrometer) da missão Rosetta da ESA, entre Agosto de 2014 e Maio de 2015, os cientistas detectaram sais de amónio na superfície do Cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko.

O novo estudo, liderado por Olivier Poch do Instituto de Planetologia e Astrofísica de Grenoble, França, e publicado na revista Science, acrescenta às medições complementares obtidas na atmosfera do cometa, ou cabeleira, usando outro instrumento, o ROSINA (Rosetta Orbiter Spectrometer for Ion and Neutral Analysis) da Rosetta e publicadas na Nature Astronomy no início deste ano.

À medida que o VIRTIS mapeava o cometa durante a primeira metade da missão da Rosetta, os dados revelaram como a sua superfície é tão escura quanto carvão e ligeiramente avermelhada por uma mistura de compostos à base de carbono e minerais opacos. O instrumento também detectou manchas locais de água gelada e dióxido de carbono gelado, juntamente com uma característica de absorção intrigante, mas quase omnipresente, que ronda os 3,2 µm (no infravermelho). A natureza da substância que podia provocar esta característica, no entanto, permaneceu incerta até agora.

Para resolver o enigma, uma equipa de cientistas tem criado superfícies cometárias “artificiais” em laboratório, testando as suas propriedades e comparando-as com as observações VIRTIS. Com este objectivo, os cientistas produziram finas partículas de água gelado contendo grãos de poeira escura e uma variedade de compostos. Em seguida, expuseram estas partículas a condições semelhantes às dos cometas – vácuo e baixa temperatura. Após várias horas, todo o gelo havia sublimado, deixando uma superfície feita de poeira porosa, análoga a uma superfície cometária.

O resultado de tais experiências indica que a misteriosa característica de absorção observada pelo VIRTIS no Cometa 67P é predominantemente devida a sais de amónio (NH4+), misturados com poeira escura e detectados em todos os tipos de terrenos do cometa.

A presença destes sais pode aumentar consideravelmente a quantidade de azoto que os cientistas esperavam encontrar anteriormente neste cometa e, possivelmente, noutros cometas também. Os resultados estão em concordância com a detecção recente, pelo instrumento ROSINA na Rosetta, de gases produzidos pela sublimação de sais de amónio em grãos de poeira ejectados do cometa.

Uma característica de absorção parecida também foi observada em vários asteróides, tanto nos da cintura principal como na família de Troianos de Júpiter, além de na lua de Júpiter, Himalia, sugerindo que estes corpos também contêm sais de amónio. A presença destes sais pode sugerir uma ligação na composição química entre asteróides, cometas e possivelmente a nebulosa proto-solar, fornecendo um cenário tentador para a entrega do azoto – um elemento-chave para a química da vida como a conhecemos na Terra – aos planetas do Sistema Solar interior.

Astronomia On-line
17 de Março de 2020

 

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3496: Astrónomos usam bolor para mapear as maiores estruturas do Universo

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Os astrónomos desenvolveram um algoritmo de computador, inspirado pelo comportamento do mofo limoso, e testaram-no contra uma simulação de computador do crescimento de filamentos de matéria escura no Universo. Os cientistas então aplicaram o algoritmo de bolor limoso aos dados contendo as localizações de mais de 37.000 galáxias mapeadas pelo SDSS (Sloan Digital Sky Survey). O algoritmo produziu um mapa tridimensional da estrutura da teia cósmica subjacente.
Seguidamente, analisaram a luz de 350 quasares distantes catalogados no Arquivo Espectroscópico do Legado Hubble. Estas distantes lanternas cósmicas são os brilhantes núcleos alimentados a buracos negros de galáxias activas, cuja luz brilha através do espaço e através da teia cósmica em primeiro plano.
Crédito: NASA, ESA e J. Burchett e O. Elek (UC Santa Cruz)

O comportamento de uma das criaturas mais humildes da natureza e dados de arquivo do Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA estão a ajudar os astrónomos a estudar as maiores estruturas do Universo.

O organismo unicelular conhecido como mofo limoso (Physarum polycephalum) constrói redes filamentosas complexas semelhantes a teias em busca de alimentos, sempre encontrando percursos quase óptimos para ligar locais diferentes.

Ao moldar o Universo, a gravidade constrói uma vasta estrutura filamentar em forma de teia de aranha, ligando galáxias e enxames de galáxias ao longo de pontes invisíveis de gás e matéria escura com centenas de milhões de anos-luz de comprimento. Há uma estranha semelhança entre as duas redes, uma produzida pela evolução biológica e a outra pela força primordial da gravidade.

A teia cósmica é a espinha dorsal em larga escala do cosmos, consistindo principalmente de matéria escura entrelaçada com gás, sobre a qual as galáxias são construídas. Embora não possamos ver a matéria escura, constitui a maior parte do material do Universo. Os astrónomos tiveram dificuldade em encontrar estas teias elusivas porque o gás no seu interior é demasiado ténue para ser detectado.

A existência de uma estrutura semelhante a uma teia de aranha, para o Universo, foi sugerida pela primeira vez em levantamentos galácticos na década de 1980. Desde esses estudos, a grande escala desta estrutura filamentar foi revelada por levantamentos subsequentes do céu. Os filamentos formam as fronteiras entre grandes vazios no Universo. Agora, uma equipa de investigadores recorreu ao bolor limoso para os ajudar a construir um mapa dos filamentos do Universo local (até 100 milhões de anos-luz da Terra) e a encontrar o gás no seu interior.

Desenvolveram um algoritmo de computador, inspirado pelo comportamento do mofo limoso, e testaram-no contra uma simulação de computador do crescimento de filamentos de matéria escura do Universo. Um algoritmo de computador é essencialmente uma receita que informa o computador exactamente quais as etapas a serem seguidas para resolver um problema.

Os cientistas então aplicaram o algoritmo de bolor limoso aos dados contendo as localizações de mais de 37.000 galáxias mapeadas pelo SDSS (Sloan Digital Sky Survey). O algoritmo produziu um mapa tridimensional da estrutura da teia cósmica subjacente.

Seguidamente, analisaram a luz de 350 quasares distantes catalogados no Arquivo Espectroscópico do Legado Hubble. Estas distantes lanternas cósmicas são os brilhantes núcleos alimentados a buracos negros de galáxias activas, cuja luz brilha através do espaço e através da teia cósmica em primeiro plano. Impressa nessa luz estava a assinatura reveladora do hidrogénio gasoso invisível que a equipa analisou em pontos específicos ao longo dos filamentos. Estes locais-alvo estão longe das galáxias, o que permitiu à equipa de investigação vincular o gás à estrutura de larga escala do Universo.

“É realmente fascinante que uma das formas mais simples de vida realmente permita desvendar mais sobre as estruturas de maior escala do Universo,” disse o investigador Joseph Burchett, da Universidade da Califórnia, EUA. “Usando a simulação de mofo limoso para encontrar a localização dos filamentos da teia cósmica, incluindo aqueles longe das galáxias, pudemos usar dados de arquivo do Telescópio Espacial Hubble para detectar e determinar a densidade do gás frio nos arredores desses filamentos invisíveis. Os cientistas detectam assinaturas deste gás há mais de meio século e agora provámos a expectativa teórica de que este gás compreende a teia cósmica.”

O levantamento ainda valida investigações que indicam que o gás intergaláctico está organizado em filamentos e também revela a que distância das galáxias o gás é detectado. Os membros da equipa ficaram surpresos ao encontrar gás associado aos filamentos da teia cósmica a mais de 10 milhões de anos-luz das galáxias.

Mas essa não foi a única surpresa. Também descobriram que a assinatura ultravioleta do gás fica mais forte nas regiões mais densas dos filamentos, mas que depois desaparece. “Achamos que esta descoberta nos diz mais sobre as interacções violentas que as galáxias têm nas regiões densas do meio intergaláctico, onde o gás se torna demasiado quente para detectar,” explicou Burchett.

Os cientistas voltaram-se para as simulações de bolor limoso quando procuravam uma maneira de visualizar a ligação teorizada entre a estrutura da teia cósmica e o gás frio, detectado em estudos espectroscópicos anteriores do Hubble.

Oskar Elek, na altura membro da equipa e cientista da computação na Universidade da Califórnia em Santa Cruz, descobriu online o trabalho de Sage Jenson, artista de Berlim. Entre os trabalhos de Jenson, visualizações artísticas fascinantes que mostram o crescimento de uma rede de bolor, parecida com tentáculos, movendo-se de uma fonte de alimento para outra. A arte de Jenson baseou-se no trabalho científico de 2010 de Jeff Jones, da Universidade do Oeste da Inglaterra, em Bristol, que detalhou um algoritmo para simular o crescimento destes organismos unicelulares.

A equipa de investigação foi inspirada pelo modo como o mofo limoso constrói filamentos complexos para capturar novos alimentos e como este mapeamento podia ser aplicado à forma como a gravidade molda o Universo, à medida que a teia cósmica constrói os filamentos entre galáxias e enxames de galáxias. Com base na simulação descrita no artigo de Jones, Elek desenvolveu um modelo tridimensional do crescimento do bolor para estimar a localização da estrutura filamentar da teia cósmica.

Esta análise da teia cósmica no Universo local também encaixa com observações publicadas no outono passado na revista Science da estrutura filamentar do Universo muito mais distante, a cerca de 12 mil milhões de anos-luz da Terra, perto do início do Universo. Nesse estudo, os astrónomos analisaram a luz energética de um jovem enxame de galáxias iluminando os filamentos de hidrogénio gasoso que as ligam.

Astronomia On-line
13 de Março de 2020

 

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3493: ExoMars adiada para 2022 devido ao Covid-19

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

A ExoMars tem como objectivo detectar a existência de água em Marte Ilustração produzida pela ESA

“Ambas as partes reconhecem que a fase final das actividades da ExoMars ficaram comprometidas pelo agravamento geral da situação epidemiológica nos países europeus”, refere o comunicado conjunto da ESA e da Roscosmos.

Os responsáveis máximos da Agência Espacial Europeia (ESA) e da agência espacial da Rússia (Roscosmos) concordaram esta quinta-feira em adiar o lançamento da missão espacial ExoMars para 2022. Em comunicado conjunto, as duas agências espaciais confirmam que os efeitos produzidos pelo novo Coronavirus inviabilizaram o cumprimento do calendário previsto para a fase final de preparativos, e em consequência o lançamento da sonda, originalmente agendado para Julho de 2020. A nova data prevê que o lançamento da ExoMars se faça entre Agosto e Outubro de 2022.

“Ambas as partes reconhecem que a fase final das actividades da ExoMars ficaram comprometidas pelo agravamento geral da situação epidemiológica nos países europeus”, refere o comunicado conjunto da ESA e da Roscosmos.

A escolha da nova data teve em conta o facto de que as órbitas e respectivos posicionamentos de Marte e Terra restringem o período de lançamento de missões espaciais que partem da Terra em direcção a Marte a períodos de 10 dias que só ocorrem de dois em dois anos.

O adiamento do lançamento da ExoMars foi decidido após reunião entre Jan Wörner, director geral da ESA, e Dmitry Rogozin, líder da Roscosmos.

Os responsáveis das duas agências espaciais informam que tomaram esta decisão depois de tomarem conhecimento das opiniões fornecidas pelos inspectores gerais das duas agências espaciais. Os próprios especialistas envolvidos no desenvolvimento da ExoMars terão concluído que era necessário mais tempo para testar os diferentes componentes antes de levar a cabo o lançamento da ExoMars.

“Queremos ter a certeza a 100% de que esta será uma missão bem-sucedida. Não podemos permitir-nos nenhuma margem de erro. Mais actividades de verificação deverão assegurar uma viagem segura e os melhores resultados”, reiterou Jan Wörner, citado pelo comunicado conjunto das duas agências espaciais.

À decisão de adiamento do lançamento da ExoMars não será alheio o desfecho menos feliz da primeira missão, que logrou lançar um orbitador em torno do “planeta vermelho”, mas que acabou por fracassar no que toca à aterragem de uma sonda no solo marciano (a sonda despenhou-se violentamente no solo).

Entre os principais objectivos da ExoMars destaca-se a busca e detecção de água em Marte. “ A ExoMars será a primeira missão que vai à procura de sinais de vida em profundidades a mais de dois metros abaixo da superfície marciana, onde as assinaturas biológicas de vida deverão estar preservadas de uma forma considerada única”, refere o comunicado relativo ao adiamento da missão.

ESA e Roscosmos garantem já ter integrado todos os componentes necessários para a viagem espacial – e até o rover Rosalind Franklin, que deverá explorar a superfície de Marte com novo instrumentos científicos a bordo, já havia passado com sucesso os testes térmicos e em vácuo.

A plataforma de aterragem que é conhecida por Kazachok também já se encontra completamente equipada com 13 equipamentos científicos. Também os sistemas de para-quedas dinâmicos já começaram a ser testados – prevendo-se que a última vaga de testes, que envolve os para-quedas principais possa ser realizada ainda em Março, nos EUA. O módulo que deverá descer até Marte também já foi alvo de testes em França, no passado mês.

Exame Informática
12.03.2020 às 12h48
Hugo Séneca
Hugo Séneca

 

 

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3486: Gaia sugere que distorção da Via Láctea foi provocada por colisão galáctica

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

O disco galáctico da Via Láctea, a nossa Galáxia, não é achatado mas distorcido para cima num lado e para baixo no outro. Dados do satélite de mapeamento estelar da ESA, Gaia, fornecem novas informações sobre o comportamento da distorção e das suas possíveis origens.
As duas galáxias mais pequenas perto do canto inferior direito são as Nuvens de Magalhães, duas galáxias satélite da Via Láctea.
Crédito: Stefan Payne-Wardenaar; Nuvens de Magalhães: Robert Gendler/ESO

Os astrónomos ponderam há anos porque é que a nossa Galáxia, a Via Láctea, é distorcida. Dados do satélite de mapeamento estelar da ESA, Gaia, sugerem que a distorção pode ser provocada por uma colisão, em curso, com outra galáxia mais pequena, que envia ondulações através do disco galáctico como uma rocha atirada para a água.

Os astrónomos sabem desde o final da década de 1950 que o disco da Via Láctea – onde reside a maioria das centenas de milhares de milhões de estrelas – não é plano, mas um pouco curvo para cima num lado e para baixo no outro. Durante anos, debateram o que está a provocar esta distorção. Propuseram várias teorias, incluindo a influência do campo magnético intergaláctico ou os efeitos de um halo de matéria escura, uma grande quantidade de matéria invisível que se pensa rodear as galáxias. Se tal halo tivesse uma forma irregular, a sua força gravitacional podia dobrar o disco galáctico.

Mais depressa do que o esperado

Com o seu levantamento único de mais de mil milhões de estrelas na nossa Galáxia, o Gaia pode ser a chave para resolver este mistério. Uma equipa de cientistas que utiliza dados do segundo lançamento do Gaia confirmou agora pistas anteriores de que esta distorção não é estática, mas que muda a sua orientação ao longo do tempo. Os astrónomos chamam a este fenómeno precessão e pode ser comparado à oscilação de um pião à medida que o seu eixo gira.

Além disso, a velocidade com que a distorção precede é muito superior ao esperado – mais rápida do que o campo magnético intergaláctico ou do que o halo de matéria escura podiam permitir. Isto sugere que a distorção deve ser provocada por outra coisa. Algo mais poderoso – como uma colisão com outra galáxia.

“Nós medimos a velocidade da distorção comparando os dados com os nossos modelos. Com base na velocidade obtida, a distorção completaria uma rotação em torno do centro da Via Láctea em 600 a 700 milhões de anos,” diz Eloisa Poggio, do Observatório Astrofísico de Turim, na Itália, autora principal do estudo, publicado na revista Nature. “Isto é muito mais depressa do que esperávamos, com base em previsões de outros modelos, como aqueles que observam os efeitos do halo não esférico.”

O poder estelar do Gaia

A velocidade da distorção é, no entanto, inferior à velocidade a que as estrelas propriamente ditas orbitam o centro galáctico. O Sol, por exemplo, completa uma rotação em cerca de 220 milhões de anos.

Estas informações só foram possíveis graças à capacidade sem precedentes da missão Gaia em mapear a nossa Galáxia, a Via Láctea, em 3D, determinando com precisão as posições de mais de mil milhões de estrelas no céu e estimando a sua distância. O telescópio parecido com um disco voador também mede as velocidades nas quais as estrelas individuais se movem no céu, permitindo que os astrónomos “vejam o filme” da história da Via Láctea para trás e para a frente no tempo, ao longo de milhões de anos.

“É como ter um carro e tentar medir a velocidade e a direcção da viagem deste carro ao longo de um período muito curto e, com base nesses valores, tentar modelar a trajectória passada e futuro do carro,” diz Ronald Drimmel, investigador do Observatório Astrofísico de Turim e co-autor do artigo. “Se fizermos essas medições para muitos carros, podemos modelar o fluxo de tráfego. Da mesma forma, medindo os movimentos aparentes de milhões de estrelas no céu, podemos modelar processos em larga escala, como o movimento da distorção.”

Sagitário?

Os astrónomos ainda não sabem qual é a galáxia que pode estar a provocar a ondulação nem quando a colisão começou. Um dos candidatos é Sagitário, uma galáxia anã que orbita a Via Láctea, que se pensa ter atravessado o disco galáctico da Via Láctea várias vezes no passado. Os astrónomos pensam que Sagitário será gradualmente absorvida pela Via Láctea, um processo que já está em andamento.

“Com o Gaia, pela primeira vez, temos uma grande quantidade de dados sobre uma grande quantidade de estrelas, cujo movimento é medido com precisão para que possamos tentar entender os movimentos em larga escala da galáxia e modelar a sua história de formação,” diz Jos de Bruijne, vice-cientista do projecto Gaia da ESA. “Isto é algo único. Esta é realmente a revolução do Gaia.”

Por mais impressionantes que a distorção e a sua precessão pareçam ser à escala galáctica, os cientistas asseguram que não tem efeitos visíveis na vida no nosso planeta.

Distante o suficiente

“O Sol está a uma distância de 26.000 anos-luz do centro galáctico, onde a amplitude da distorção é muito pequena,” diz Eloisa. “As nossas medições foram dedicadas principalmente às partes externas do disco galáctico, a 52.000 anos-luz do centro galáctico e além.”

O Gaia já tinha descoberto anteriormente evidências de colisões entre a Via Láctea e outras galáxias no passado recente e distante, que ainda podem ser observadas nos padrões de movimento de grandes grupos de estrelas milhares de milhões de anos após os eventos terem ocorrido.

Entretanto, o satélite, actualmente no seu sexto ano de missão, continua a estudar o céu e um consórcio europeu está ocupado a processar e a analisar os dados que continuam a ser transmitidos para a Terra. Os astrónomos de todo o mundo estão ansiosos pelos próximos dois lançamentos de dados do Gaia, planeados para o final de 2020 e para a segunda metade de 2021, respectivamente, para continuar a enfrentar os mistérios da galáxia a que chamamos casa.

Astronomia On-line
6 de Março de 2020

 

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3478: Descoberta explosão recorde por buraco negro

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

As evidências da maior explosão alguma vez vista no Universo surgem de uma combinação de dados de raios-X obtidos pelo Chandra e pelo XMM-Newton, com dados de rádio obtidos pelo MWA e pelo GMRT. A erupção foi desencadeada por um buraco negro localizado na galáxia central do enxame, que expeliu jactos e esculpiu uma grande cavidade no gás quente em redor. Os investigadores estimam que esta explosão libertou cinco vezes mais energia do que o recordista anterior e centenas de milhares de vezes mais do que um típico enxame galáctico. Crédito: raios-X – NASA/CXC/NRL/S. Giacintucci, et al., XMM-Newton; ESA/XMM-Newton; rádio – NCRA/TIFR/GMRT; infravermelho – 2MASS/UMass/IPAC-Caltech/NASA/NSF

Foi encontrada a maior explosão já vista no Universo. Esta gigantesca erupção recorde veio de um buraco negro num distante enxame galáctico a centenas de milhões de anos-luz de distância.

“De certa forma, esta explosão é semelhante ao modo como a erupção do Monte Santa Helena em 1980 destruiu o topo da montanha,” disse Simona Giacintucci do Laboratório Naval de Investigação em Washington, DC, EUA, autora principal do estudo. “Uma diferença fundamental é que podíamos colocar quinze Vias Lácteas seguidas na cratera criada pela erupção que perfurou o gás quente do enxame.”

Os astrónomos fizeram esta descoberta usando dados de raios-X do Observatório de raios-X Chandra da NASA, do XMM-Newton da ESA, e dados rádio do MWA (Murchison Widefield Array) na Austrália e do GMRT (Giant Metrewave Radio Telescope) na Índia.

A incomparável explosão foi detectada no enxame galáctico de Ofiúco, que fica a cerca de 390 milhões de anos-luz da Terra. Os enxames de galáxias são as maiores estruturas do Universo mantidas juntas pela gravidade, contendo milhares de galáxias individuais, matéria escura e gás quente.

No centro do enxame de Ofiúco, existe uma grande galáxia que contém um buraco negro super-massivo. Os cientistas pensam que a fonte da erupção gigantesca é este buraco negro.

Embora os buracos negros sejam famosos por puxar material na sua direcção, normalmente expelem quantidades prodigiosas de material e energia. Isto ocorre quando a matéria que cai em direcção ao buraco negro é redireccionada para jactos, ou feixes, expelidos para o espaço e que chocam com qualquer material circundante.

As observações do Chandra relatadas em 2016 revelaram pela primeira vez pistas da explosão gigante no enxame de galáxias de Ofiúco. Norbert Werner e colegas divulgaram a descoberta de uma invulgar borda curva na imagem do enxame pelo Chandra. Consideraram se isso representava parte da parede de uma cavidade no gás quente criado pelos jactos do buraco negro super-massivo. No entanto, descartaram essa possibilidade, em parte porque seria necessária uma quantidade enorme de energia para o buraco negro criar uma cavidade tão grande.

O estudo mais recente por Giacintucci e colegas mostra que ocorreu, de facto, uma enorme explosão. Primeiro, mostraram que a aresta curva também é detectada pelo XMM-Newton, confirmando a observação do Chandra. O seu avanço crucial foi a utilização de novos dados de rádio do MWA e do arquivo do GMRT para mostrar que a orla curva faz realmente parte da parede de uma cavidade, porque faz fronteira com uma região cheia de emissão de rádio. Esta emissão é de electrões acelerados até quase à velocidade da luz. A aceleração provavelmente teve origem no buraco negro super-massivo.

“Os dados de rádio cabem dentro dos de raios-X como uma mão numa luva,” disse Maxim Markevitch do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA em Greenbelt, no estado norte-americano de Maryland. “Este é o argumento decisivo que nos diz que ocorreu aqui uma erupção de tamanho sem precedentes.”

A quantidade de energia necessária para criar a cavidade em Ofiúco é cerca de cinco vezes maior que o recordista anterior, MS 0735+74, e centenas de milhares de vezes maior que os enxames típicos.

A erupção do buraco negro deve ter terminado porque os cientistas não vêm nenhuma evidência de jactos actuais nos dados de rádio. Este desligar pode ser explicado pelos dados do Chandra, que mostram que o gás mais denso e mais frio visto em raios-X está actualmente localizado numa posição diferente da galáxia central. Se este gás se tiver afastado da galáxia, terá privado o buraco negro de combustível para o seu crescimento, desligando os jactos.

Este deslocamento de gás é provavelmente provocado pelo “vascolejar” do gás em torno do meio do enxame, como vinho num copo. Normalmente, a fusão de dois enxames de galáxias desencadeia tal agitação, mas aqui pode ter sido despoletada pela erupção.

Um enigma é que apenas é vista uma região gigante de emissão de rádio, pois estes sistemas geralmente contêm duas em lados opostos do buraco negro. É possível que o gás do outro lado da cavidade do enxame seja menos denso, de modo que as emissões de rádio desvaneceram mais rapidamente.

“Como costuma ser o caso na astrofísica, precisamos realmente de observações em vários comprimentos de onda para entender verdadeiramente os processos físicos em funcionamento,” disse Melanie Johnston-Hollitt, co-autora do ICRAR (International Centre for Radio Astronomy) na Austrália. “Graças às informações combinadas de telescópios de raios-X e de rádio, conseguimos revelar esta fonte extraordinária, mas serão necessários mais dados para responder às muitas perguntas restantes que este objecto coloca.”

O artigo que descreve estes resultados foi publicado na edição de 27 de Fevereiro da revista The Astrophysical Journal.

Astronomia On-line
3 de Março de 2020

 

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Telescópio espacial com “ADN” português envia primeira imagem

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Acaba de ser revelada a primeira imagem científica do CHEOPS, que teve a participação activa de membros do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço.

“Pode não ser de tirar o fôlego e com potencial para inspirar a imaginação do público”, mas “traz perspectivas bem melhores do que as que eram esperadas, para alcançar os objectivos científicos da missão”. As palavras são de Sérgio Sousa, investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) / Universidade do Porto, e espelham o estado de espírito da equipa envolvida no desenvolvimento do telescópio espacial CHEOPS, que acaba de “relevar” a sua primeira imagem

Imagem da estrela HD 70843. A imagem está desfocada de propósito, para maximizar a precisão das medições do brilho das estrelas. (Crédito: ESA/Airbus/CHEOPS Mission Consortium)

Foi no passado dia 29 de Janeiro que o telescópio espacial da Agência Espacial Europeia (ESA) abriu a tampa de protecção. Desde então, todos os sistemas têm sido preparados para a aquisição da primeira imagem captada pelo CHEOPS. No caso, de um campo de estrelas centrado na estrela HD 70843 – localizada  a 150 anos-luz de distância da Terra -, escolhida por ter brilho e localização no céu ideais para os testes aos instrumentos.

Para Olivier Demangeon, investigador do IA, “estas primeiras imagens do CHEOPS representam o culminar de 10 anos de trabalho e investimento da parte do IA e do consórcio do CHEOPS. Estas são uma ante-visão de um futuro científico brilhante para a missão e para a nossa equipa.”

Para além da participação activa do IA, o CHEOPS contou também com o contributo da Deimos Engenharia. Segundo Antonio Gutiérrez Peña, director da empresa, “o sistema de planeamento da missão foi usado nas operações de In-Orbit Commissioning e parece estar tudo a funcionar na perfeição. Estamos muito excitados e esperamos que a missão esteja totalmente operacional dentro de pouco tempo.”

Lançado para o espaço em Dezembro do ano passado, o CHEOPS produz imagens propositadamente desfocadas das estrelas, de modo a poder distribuir a luz de cada estrela por vários pixeis do detector. Isto aumenta a precisão das medições, pois cada medição fica menos sensível a variações da resposta de cada pixel individual ou da maneira como o telescópio é apontado.

À descoberta de “novos mundos”

Esta é a primeira missão dedicada a observar trânsitos exoplanetários em estrelas onde já se conhecem planetas, em praticamente qualquer direcção do céu. A grande inovação introduzida pelo CHEOPS prende-se com a sua capacidade única de determinar com precisão a dimensão de exoplanetas na gama entre as super Terras e os Neptunos, para os quais já se conhece a massa.

O telescópio vai ainda permitir determinar com precisão o diâmetro de novos exoplanetas descobertos pela próxima geração de instrumentos em observatórios à superfície da Terra ou ainda identificar potenciais alvos cujas atmosferas possam ser caracterizadas por esses instrumentos. Ter medições precisas do brilho das estrelas e sua variação é por isso crítico para os investigadores poderem aprender o máximo possível acerca dos planetas que se sabe orbitarem essas estrelas.

Imagem artística do telescópio espacial CHEOPS em órbita (Crédito: ESA/ATG medialab)

O consórcio do CHEOPS é liderado pela Suíça e pela ESA. Conta com a participação de 11 países europeus, sendo que em Portugal a participação científica é liderada pelo IA.

A participação do IA no consórcio do CHEOPS faz, de resto, parte de uma estratégia mais abrangente para promover a investigação em exoplanetas em Portugal, através da construção, desenvolvimento e definição científica de vários instrumentos e missões espaciais. Entre eles incluem-se o CHEOPS ou o espectrógrafo ESPRESSO, já em funcionamento no Observatório do Paranal (ESO). Esta estratégia irá continuar durante os próximos anos, com o lançamento do telescópio espacial PLATO (ESA), ou a instalação do espectrógrafo HIRES no maior telescópio da próxima geração, o ELT (ESO).

Sobre o IA

Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) é a maior unidade de investigação na área das Ciências do Espaço em Portugal, integrando investigadores da Universidade do Porto e da Universidade de Lisboa, e englobando a maioria da produção científica nacional na área. Foi avaliado como “Excelente” na última avaliação que a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) encomendou à European Science Foundation (ESF). A actividade do IA é financiada por fundos nacionais e internacionais, incluindo pela FCT/MCES (UID/FIS/04434/2019).

Universidade do Porto
11.02.20
Por Ricardo Reis / CAUP

 

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3434: Satélite de observação do sol com tecnologia portuguesa vai ser lançado esta segunda-feira

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Satélite europeu vai permitir obter as primeiras imagens dos pólos do Sol. Vai ser lançado esta segunda-feira, nos Estados Unidos da América, e tem tecnologia portuguesa.

O satélite europeu que vai permitir obter as primeiras imagens dos pólos do Sol, o Solar Orbiter, vai ser lançado esta segunda-feira e leva a bordo tecnologia portuguesa, das empresas Critical Software, Active Space Technologies e Deimos Engenharia.

O engenho, cujo lançamento chegou a ser apontado para 05, 06 e 08 de Fevereiro, será enviado para o espaço a partir da base de Cabo Canaveral, nos Estados Unidos, às 23:03 de domingo na hora local (04:03 de segunda-feira em Portugal), de acordo com o mais recente calendário divulgado pela Agência Espacial Europeia (ESA), que conduz a missão em conjunto com a congénere norte-americana NASA.

A Critical Software concebeu vários sistemas de ‘software’ do satélite, como os sistemas centrais de comando e controlo, de detecção e recuperação de falhas e de gestão de comportamento térmico, segundo informação da empresa.

A Active Space Technologies fabricou componentes em titânio para o braço de suporte e orientação da antena de comunicação do satélite com a Terra e canais igualmente de titânio, para a passagem de luz, que atravessam o escudo térmico do aparelho, adiantou a companhia à Lusa.

A Deimos Engenharia, braço português da componente tecnológica do grupo espanhol de engenharia e construção de infra-estruturas Elecnor, trabalhou na definição e implementação da estratégia para testar os sistemas de voo do Solar Orbiter.

A missão do Solar Orbiter (Orbitador Solar) vai permitir obter as primeiras imagens dos pólos do Sol, considerados a chave para se compreender a actividade e o ciclo solares.

Por outro lado, salienta a ESA, será o primeiro satélite europeu a entrar na órbita de Mercúrio e a explorar a conexão entre o Sol e a Terra para entender melhor o clima extremo no espaço.

O aparelho, que estará a 42 milhões de quilómetros do Sol na sua maior aproximação, o equivalente a um quarto da distância que separa a estrela da Terra, está equipado com dez instrumentos para observar a superfície turbulenta do Sol, a sua atmosfera exterior e as alterações no vento solar (emissão contínua de partículas energéticas a partir da coroa, a camada mais externa da atmosfera solar).

O Solar Orbiter, preparado para enfrentar temperaturas de 500ºC, trabalhará em complemento com a sonda norte-americana Parker Solar Probe, em órbita desde 2018, e que tem quatro instrumentos para estudar o campo magnético do Sol, o plasma, as partículas energéticas e o vento solar.

Os cientistas esperam obter com este satélite respostas sobre o que leva à aceleração das partículas energéticas, o que acontece nas regiões polares por acção do campo magnético, como é que o campo magnético é gerado no Sol e como se propaga através da sua atmosfera e pelo espaço, como a radiação e as emissões de plasma (gás ionizado formado a elevadas temperaturas) da coroa afectam o Sistema Solar e como as erupções solares produzem as partículas energéticas que conduzem ao clima espacial extremo próximo da Terra.

Observador

Agência Lusa
Texto
10 Fev 2020, 00:18

 

 

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3431: Descolagem do Solar Orbiter, a missão da ESA que olhará o Sol de frente

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Lançamento da missão Solar Orbiter da ESA/NASA, com o objectivo de estudar o Sol, a partir da Estação da Força Aérea de Cabo Canaveral, no estado norte-americano da Florida.
Crédito: Jared Frankie

A missão Solar Orbiter da ESA descolou num Atlas V 411, a partir do Cabo Canaveral, Florida, às 05:03 CET de 10 de Fevereiro, na sua missão de estudar o Sol sob novas perspectivas.

Os sinais da aeronave foram recebidos na estação terrestre New Norcia às 06:00 CET, após a separação do estágio superior do lançador em baixa órbita terrestre.

De frente para o sol

A Solar Orbiter, uma missão liderada pela ESA com forte participação da NASA, fornecerá as primeiras imagens das regiões polares desconhecidas do Sol, fornecendo uma visão sem precedentes de como a nossa estrela-mãe funciona.

Investigará também como a radiação intensa e as partículas energéticas que são expelidas do Sol e transportadas pelo vento solar através do Sistema Solar afectam o nosso planeta natal, para melhor entender e prever períodos de “clima espacial” tempestuoso. As tempestades solares têm o potencial de derrubar redes eléctricas, interromper o tráfego aéreo e as telecomunicações e colocar em risco os astronautas que andam no espaço, por exemplo.

“Como seres humanos, sempre estivemos familiarizados com a importância do Sol para a vida na Terra, observando-o e investigando em detalhe como este funciona; mas também sabemos, há muito tempo, que tem o potencial de atrapalhar a vida quotidiana se estivermos na mira de uma poderosa tempestade solar”, afirma Günther Hasinger, Diretor de Ciências da ESA.

“No final da nossa missão Solar Orbiter, saberemos mais do que nunca sobre a força oculta responsável pelas mudanças de comportamento do Sol e a sua influência no nosso planeta natal.”

“O Solar Orbiter fará coisas incríveis. Combinado com as outras missões da NASA recentemente lançadas para estudar o Sol, estamos a adquirir novos conhecimentos sem precedentes sobre a nossa estrela,” disse Thomas Zurbuchen, administrador associado de Ciências da NASA na sede da agência em Washington DC.

“Juntamente com os nossos parceiros europeus, estamos a entrar numa nova era da heliofísica que transformará o estudo do Sol e ajudará a tornar os astronautas mais seguros enquanto viajam nas missões do programa Artemis até a Lua.”

No ponto mais próximo, o Solar Orbiter enfrentará o Sol dentro da órbita de Mercúrio, a aproximadamente 42 milhões de quilómetros da superfície solar. A tecnologia de ponta do escudo de calor garantirá que os instrumentos científicos da aeronave estejam protegidos, já que o escudo de calor suportará temperaturas de até 500ºC – até 13 vezes o calor experienciado pelos satélites na órbita da Terra.

“Após cerca de vinte anos desde o início, seis anos de construção e mais de um ano de testes, juntamente com os nossos parceiros industriais, estabelecemos novas tecnologias de alta temperatura e concluímos o desafio de construir uma aeronave pronta para enfrentar o Sol e estudá-lo de perto”, acrescenta César García Marirrodriga, Director de Projectos do Solar Orbiter da ESA.

Novas perspectivas sobre a nossa estrela-mãe

O Solar Orbiter levará pouco menos de dois anos para alcançar a sua órbita operacional inicial, usando sobrevoos com auxílio da gravidade da Terra e Vénus para entrar numa órbita altamente elíptica ao redor do Sol. O satélite usará a gravidade de Vénus para lançar-se fora do plano eclíptico do Sistema Solar, que abriga as órbitas planetárias, e aumentará a inclinação da sua órbita para nos dar novas imagens, até agora desconhecidas, das regiões polares da nossa estrela-mãe.

Os pólos estão fora do campo de visão da Terra e de outras naves espaciais, mas os cientistas pensam que são essenciais para entender a actividade do Sol. Ao longo da sua missão, projectada para cinco anos, o Solar Orbiter alcançará uma inclinação de 17º acima e abaixo do equador solar. A missão estendida proposta alcançaria 33º de inclinação.

“Operar um satélite nas proximidades do Sol é um enorme desafio,” diz Sylvain Lodiot, Director de Operações do Solar Orbiter da ESA.

“A nossa equipa terá de garantir a pontaria contínua e precisa do campo de protecção para evitar possíveis danos causados pela radiação e pelo fluxo térmico do Sol. Ao mesmo tempo, teremos de garantir uma resposta rápida e flexível às solicitações dos cientistas para adaptar as operações dos seus instrumentos de acordo com as observações mais recentes da superfície solar.”

O Solar Orbiter usará uma combinação de 10 instrumentos in situ e de deteção remota para observar a superfície solar turbulenta, a atmosfera externa quente do Sol e as mudanças no vento solar. As cargas úteis de detecção remota concretizarão imagens de alta resolução da atmosfera do Sol – a coroa – e também do disco solar. Os instrumentos in situ medirão o vento solar e o campo magnético solar nas proximidades do satélite.

“A combinação de instrumentos de detecção remota, que olham para o Sol e medições in situ, que sentem o seu poder, permitir-nos-ão juntar os pontos entre o que vemos no Sol e o que experienciamos enquanto absorvemos o vento solar”, diz Daniel Müller, Cientista do Projecto Solar Orbiter da ESA.

“Isto fornecerá informações sem precedentes sobre como a nossa estrela-mãe trabalha em termos do seu ciclo de actividade solar de 11 anos e como o Sol cria e controla a bolha magnética – a heliosfera – na qual o nosso planeta reside.”

Somos todos satélites solares

O Solar Orbiter será uma das duas naves complementares que estudam o Sol nas proximidades: juntar-se-á à sonda Parker Solar da NASA, que já está ocupada na sua missão.

O Solar Orbiter e a sonda Parker Solar têm objetivos diferentes, se complementares, e foram projetados e colocados numa órbita única para atingir os seus objetivos diferentes, se complementares. A sonda Parker Solar ‘toca’ a nossa estrela a distâncias muito mais próximas que o Solar Orbiter, para estudar como o vento solar se origina – mas não possui câmaras para ver o Sol diretamente; enquanto o Solar Orbiter voa a uma distância ideal para alcançar uma perspectiva abrangente da nossa estrela, incluindo imagens remotas e medições in situ e visualizará, pela primeira vez, as regiões polares do Sol.

Além de atingir os seus próprios objectivos científicos, o Solar Orbiter fornecerá informações contextuais para melhorar o entendimento das medições da sonda Parker Solar. Ao trabalharem juntas dessa maneira, as duas aeronaves colectarão conjuntos de dados complementares que permitirão que mais ciência seja destilada das duas missões do que estas poderiam gerir por conta própria.

“O Solar Orbiter é a mais nova adição ao Observatório do Sistema Heliofísico da NASA, juntando-se à sonda Parker Solar numa aventura extraordinária para desvendar os maiores mistérios do Sol e da sua atmosfera alargada,” diz Holly Gilbert, Cientista do Projecto Solar Orbiter da NASA.

“A poderosa combinação destas duas missões e os seus impressionantes avanços tecnológicos impulsionarão o nosso conhecimento para novos patamares.

O Solar Orbiter baseia-se no legado de missões, tais como o Ulysses e o Observatório Solar e Heliofísico (SOHO) da ESA/NASA, para nos dar a visão mais avançada da nossa estrela e a sua influência na Terra.

Astronomia On-line
11 de Fevereiro de 2020

 

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3425: Solar Orbiter, a missão espacial que vai captar imagens dos pólos do Sol

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Sonda da Agência Espacial Europeia, em cooperação com a NASA, irá tentar capturar as imagens mais próximas do Sol até agora registadas. Irá aproximar-se até 42 milhões de km do Sol, a uma velocidade máxima de 245 mil km/h.

A Solar Orbiter deve capturar as primeiras imagens dos polos solares
© EPA/ESA/ATG MediaLab/NASA

A missão Solar Orbiter iniciará domingo uma viagem espacial para explorar os ventos solares, um fenómeno carregado de partículas potencialmente nocivas para as telecomunicações, e capturar imagens inéditas do Sol. A sonda da Agência Espacial Europeia (ESA) será lançada de Cabo Canaveral, na Florida, em cooperação com a NASA. A bordo: dez equipamentos científicos, que somam 209 quilos de carga útil.

Após passar pelas órbitas de Vénus e Mercúrio, o satélite, cuja velocidade máxima será de 245.000 km/h, poderá aproximar-se a até 42 milhões de km do Sol, ou seja, menos de um terço da distância entre a estrela da Terra.

Com essa trajectória, a Solar Orbiter “terá a capacidade de voltar-se directamente para o Sol”, explicou à AFP Matthieu Berthomier, investigador do Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS) francês.

Os novos dados completarão os compilados pela sonda Parker da NASA, lançada em 2018, que se aproximou ainda mais da superfície do astro (entre 7 e 8 milhões de km), mas sem a tecnologia de observação directa.

Com seis instrumentos de tomografia, a sonda europeia revelará as imagens mais próximas do sol já capturadas. Mostrará, ainda, pela primeira vez os pólos do sol, do qual só se conhecem actualmente as regiões equatoriais.

O objectivo principal da missão é “compreender como o Sol cria e controla a heliosfera”, a bolha magnética que rodeia todo o sistema solar, resumiu Anne Pacros, encarregada da missão da ESA.

Meteorologia espacial

Esta bolha está impregnada de um fluxo ininterrupto de partículas chamado ventos solares. “Os ventos solares podem ser lentos ou rápidos e ignoramos do que depende esta variabilidade. É o mesmo vento que varia ou são diferentes? Esse é um dos mistérios que esperamos resolver“, explica Miho Janvier, do Instituto de Astrofísica Espacial.

Às vezes os ventos solares são perturbados por erupções que ejectam partículas carregadas que se propagam no espaço.
Estas tempestades, difíceis de prever, têm um impacto directo na Terra: quando atingem a magnetosfera, provocam no mínimo as belas e inofensivas auroras polares. Mas o impacto também pode ser mais perigoso.

“Os ventos solares alteram o nosso ambiente electromagnético. É o que chamamos de meteorologia do espaço, que pode afectar nossa vida quotidiana”, afirma Berthomier.

A maior tempestade solar conhecida é o “evento de Carrington”, de 1859: destruiu a rede de telégrafos nos Estados Unidos, gerou descargas eléctricas, queimou papel nas estações e a aurora boreal tornou-se visível em latitudes inéditas, até na América Central.

Em 1989, em Quebeque, a modificação do campo magnético da Terra criou uma corrente eléctrica em larga escala que, por efeito dominó, fez saltarem os circuitos eléctricos, provocando um enorme apagão.

As erupções podem ainda perturbar os radares no espaço aéreo – como em 2015 na Escandinávia -, as frequências de rádio e destruir satélites.

Cortar a electricidade no espaço

Embora se tratem de acontecimentos invulgares, “a nossa sociedade depende cada vez mais do que acontece no espaço, por isso também é mais dependente da atividade solar, visto que quanto mais nos distanciamos da Terra, a magnetosfera protege-nos menos”, segundo Etienne Pariat, cientista do CNRS no Observatório de Paris.

“Imagine que metade dos satélites em órbita eram destruídos, seria uma catástrofe para a humanidade!”, diz Berthomier. Daí a necessidade crescente de contar com uma previsão meteorológica espacial.

Ao observar as regiões solares onde surgem estes ventos, a Solar Orbiter “permitirá elaborar modelos para melhorar as previsões”, diz Pacros. “Se sabemos que uma tempestade solar vai incidir sobre nós num ou dois dias, teremos tempo de proteger-nos, interrompendo os sistemas eléctricos dos satélites”, antecipa Berthomier.

A missão dirigida pela ESA, com um custo total de 1,5 mil milhões de euros, está prevista para descolar a bordo de um foguete Atlas V 411 do Kennedy Space Center, no domingo, às 23h locais.

A viagem vai durar dois anos e a missão científica, entre 5 e 9 anos.

Diário de Notícias

DN/AFP

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3393: Campanha global do Gaia revela segredos de par estelar

Impressão de artista do sistema binário descoberto no evento de micro-lente Gaia16aye, a sua gravidade distorcendo o tecido do espaço-tempo e o percurso da luz de uma estrela ainda mais distante.
Crédito: M. Rębisz

Uma campanha de observação global de 500 dias, liderada há mais de três anos pelo Gaia da ESA, forneceu informações sem precedentes sobre o sistema binário que provocou um aumento invulgar de brilho de uma estrela ainda mais distante.

O aumento no brilho estelar, localizado na constelação de Cisne, foi detectado pela primeira vez em Agosto de 2016 pelo programa Alertas de Ciência Fotométrica do Gaia.

Este sistema, gerido pelo Instituto de Astronomia da Universidade de Cambridge, Reino Unido, varre diariamente a enorme quantidade de dados provenientes do Gaia e alerta os astrónomos para o aparecimento de novas fontes ou variações invulgares de brilho em fontes conhecidas, para que possam apontar rapidamente outros telescópios terrestres e espaciais e assim estudar os eventos em detalhe. Os fenómenos podem incluir explosões de super-nova e outros surtos estelares.

Neste caso em particular, as observações de acompanhamento realizadas com mais de 50 telescópios em todo o mundo revelaram que a fonte – desde então denominada Gaia16aye – estava a comportar-se de uma maneira bastante estranha.

“Vimos a estrela a ficar cada vez mais brilhante e então, no espaço de apenas um dia, o seu brilho caiu rapidamente,” diz Lukasz Wyrzykowski do Observatório Astronómico da Universidade de Varsóvia, Polónia, um dos cientistas do programa Alertas de Ciência Fotométrica do Gaia.

“Este foi um comportamento muito invulgar. Quase nenhum tipo de super-nova ou outra estrela faz isto.”

Lukasz e colaboradores perceberam em pouco tempo que este aumento de brilho foi provocado por uma micro-lente gravitacional – um efeito previsto pela teoria da relatividade geral de Einstein, que curva o espaço-tempo na vizinhança de objectos muito grandes, como estrelas ou buracos negros.

Quando um objecto tão grande, que pode ser demasiado fraco para ser observado da Terra, passa em frente de outra fonte de luz mais distante, a sua gravidade curva o tecido do espaço-tempo nas proximidades. Isto distorce o percurso da radiação oriunda da fonte de fundo – essencialmente comportando-se como uma lupa gigante.

Gaia16aye é o segundo evento de micro-lentes detectado pelo satélite da ESA. No entanto, os astrónomos notaram que se comportava estranhamente, mesmo para este tipo de evento.

“Se tivermos uma única lente, provocada por um único objecto, haverá apenas um pequeno e constante aumento de brilho e haverá um declínio suave à medida que a lente passa em frente da fonte distante e depois se afasta,” diz Lukasz.

“Neste caso, não só o aumento de brilho estelar caiu acentuadamente, em vez de a um ritmo constante, como após algumas semanas, subiu novamente de brilho, o que é muito invulgar. Ao longo de 500 dias de observações, vimos o aumento e declínio de brilho cinco vezes.”

Esta queda repentina e acentuada no brilho sugeriu que a lente gravitacional que provocava o aumento de brilho devia consistir de um sistema binário – um par de estrelas ou outros objectos celestes, ligados entre si pela gravidade mútua.

Os campos gravitacionais combinados dos dois objectos produzem uma lente com uma rede bastante complexa de regiões de alta ampliação. Quando uma fonte de fundo passa por estas regiões no céu, aumenta de brilho e depois cai imediatamente ao sair delas.

A partir do padrão de aumentos e quedas de brilho subsequentes, os astrónomos conseguiram deduzir que o sistema binário estava a orbitar a um ritmo bastante rápido.

“As órbitas eram rápidas o suficiente e o evento geral de micro-lente era lento o suficiente para a estrela de fundo entrar na região de alta ampliação, sair e entrar novamente,” explica Lukasz.

O longo período de observações, que durou até ao final de 2017, e a grande participação de telescópios terrestres espalhados por todo o mundo, permitiram aos astrónomos recolher uma grande quantidade de dados – quase 25.000 pontos de dados individuais.

Além disso, a equipa também utilizou dúzias de observações desta estrela obtidas pelo Gaia, enquanto continuava a vasculhar o céu ao longo dos meses. Estes dados foram submetidos a calibração preliminar e foram tornados públicos como parte do programa Alertas de Ciência Fotométrica do Gaia.

A partir deste conjunto de dados, Lukasz e colegas foram capazes de aprender muitos detalhes sobre o sistema binário de estrelas.

“Nós não vemos este sistema binário mas, observando apenas os efeitos que criou ao agir como lente sob uma estrela de fundo, fomos capazes de saber tudo sobre ele,” diz o co-autor Przemek Mróz, estudante de doutoramento na Universidade de Varsóvia durante o início da campanha e que é actualmente bolsista de pós-doutoramento no Instituto de Tecnologia da Califórnia.

“Pudemos determinar o período de translação do sistema, as massas dos componentes, a sua separação, a forma das suas órbitas – basicamente tudo – sem ver a luz dos componentes binários.”

O par consiste de duas estrelas bastante pequenas, com 0,57 e 0,36 vezes a massa do nosso Sol, respectivamente. Separadas por aproximadamente o dobro da distância Terra-Sol, as estrelas orbitam em torno do seu centro de massa comum em menos de três anos.

“Se não fosse o Gaia a estudar todo o céu e a enviar os alertas imediatamente, nunca teríamos sabido sobre este evento de micro-lentes,” diz o co-autor Simon Hodgkin da Universidade de Cambridge, que lidera o programa Alertas de Ciência Fotométrica do Gaia.

“Talvez o encontrássemos mais tarde, mas aí se calhar já seria tarde demais.”

A compreensão detalhada do sistema binário dependia da extensa campanha de observação e do amplo envolvimento internacional que o evento Gaia16aye atraiu.

“Reconhecemos os astrónomos profissionais, astrónomos amadores e voluntários de todo o mundo que observaram este evento: sem a dedicação de todas estas pessoas, não teríamos sido capazes de obter estes resultados,” diz Lukasz.

“Os eventos de micro-lente como este podem lançar luz sobre objectos celestes que, de outra forma, não poderíamos ver,” diz Timo Prusti, cientista do projecto Gaia na ESA.

“Estamos muito satisfeitos que a detecção do Gaia tenha desencadeado a campanha de observação que tornou este resultado possível.”

Astronomia On-line
24 de Janeiro de 2020

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3392: XMM-Newton mapeia os arredores de um buraco negro

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Esta animação mostra os arredores de um buraco negro que se alimenta de gás circundante. À medida que este material cai para o buraco negro, espirala para formar um disco achatado aquecido. No próprio centro do disco, perto do buraco negro, uma região de electrões muito quentes – com temperaturas na ordem dos mil milhões de graus – conhecida como coroa produziu raios-X altamente energéticos que são expelidos para o espaço.
Crédito: ESA

O material que cai num buraco negro lança raios-X para o espaço – e agora, pela primeira vez, o observatório de raios-X XMM-Newton da ESA usou os ecos reverberantes desta radiação para mapear o comportamento dinâmico e os arredores do próprio buraco negro.

A maior parte dos buracos negros são demasiado pequenos, no céu, para resolvermos o seu ambiente imediato, mas ainda assim podemos explorar estes objectos misteriosos observando como a matéria se comporta quando se aproxima e cai neles.

À medida que o material espirala em direcção a um buraco negro, é aquecido e emite raios-X que, por sua vez, ecoam e reverberam à medida que interagem com o gás próximo. Estas regiões do espaço são altamente distorcidas devido à natureza extrema e à gravidade esmagadoramente forte do buraco negro.

Pela primeira vez, investigadores usaram o XMM-Newton para rastrear estes ecos de luz e mapear os arredores do buraco negro no núcleo de uma galáxia activa. Com o nome IRAS 13224–3809, a galáxia hospedeira do buraco negro é uma das fontes de raios-X mais variáveis do céu, passando por flutuações muito grandes e rápidas de brilho, na ordem de 50 em poucas horas.

“Todos nós estamos habituados à forma como o eco das nossas vozes soa diferente quando falamos numa sala de aula, em comparação com uma catedral – isto deve-se simplesmente à geometria e aos materiais dos locais, que fazem com que o som se comporte e se mova de maneira diferente,” explica William Alston da Universidade de Cambridge, autor principal do novo estudo.

“De maneira semelhante, podemos observar como os ecos da radiação de raios-X se propagam nas proximidades de um buraco negro, a fim de mapear a geometria de uma região e o estado de um aglomerado de matéria antes de desaparecer na singularidade. É um pouco como eco-localização cósmica.”

Como a dinâmica do gás em queda está fortemente ligada com as propriedades do buraco negro, William e colegas foram também capazes de determinar a massa e a rotação do buraco negro central da galáxia, observando as propriedades da matéria enquanto espiralava para dentro.

O material em espiral forma um disco enquanto cai para o buraco negro. Acima deste disco encontra-se uma região de electrões muito quentes – com temperaturas na ordem dos mil milhões de graus – chamada coroa. Embora os cientistas esperassem ver os ecos de reverberação que usaram para mapear a geometria da região, também avistaram algo inesperado: a própria coroa mudou de tamanho incrivelmente depressa, em questão de dias.

“À medida que o tamanho da coroa muda, o mesmo ocorre com o eco de luz – um pouco como se o tecto da catedral estivesse a subir e a descer, mudando o eco das nossas vozes,” acrescenta William.

“Ao rastrear os ecos de luz, fomos capazes de rastrear esta coroa em mudança e – ainda mais excitante – obter valores muito melhores para a massa e para a rotação do buraco negro do que poderíamos determinar se a coroa não estivesse a mudar de tamanho. Sabemos que a massa do buraco negro não pode estar a flutuar; portanto, qualquer alteração no eco deve ser devida ao ambiente gasoso.”

O estudo usou a observação mais longa de um buraco negro em acreção já obtida com o XMM-Newton, recolhida ao longo de 16 órbitas em 2011 e 2016 e totalizando 2 milhões de segundos – pouco mais de 23 dias. Isto, combinado com a variabilidade forte e de curto prazo do próprio buraco negro, permitiu a William e colaboradores modelarem os ecos de maneira abrangente ao longo de escalas de tempo de um dia.

A região explorada neste estudo não é acessível a observatórios como o EHT (Event Horizon Telescope), que conseguiu obter a primeira imagem do gás na vizinhança imediata de um buraco negro – aquele localizado no centro da massiva galáxia vizinha M87. O resultado, com base em observações realizadas com radiotelescópios em todo o mundo em 2017 e publicado o ano passado, tornou-se imediatamente uma sensação global.

“A imagem do EHT foi obtida usando um método conhecido como interferometria – uma técnica maravilhosa que só pode funcionar nos pouquíssimos buracos negros super-massivos mais próximos da Terra, como o de M87 e o da nossa Galáxia, a Via Láctea, porque o seu tamanho aparente no céu é grande o suficiente para este método funcionar,” diz o co-autor Michael Parker, cientista da ESA no Centro Europeu de Astronomia perto de Madrid, Espanha.

“Em contraste, a nossa abordagem é capaz de investigar as centenas de buracos negros super-massivos mais próximos que consomem activamente matéria – e este número aumentará significativamente com o lançamento do satélite Athena da ESA.

A caracterização dos ambientes próximos dos buracos negros é um objectivo científico essencial da missão Athena da ESA, com lançamento previsto para o início da década de 2030 e que revelará os segredos do Universo quente e energético.

A medição da massa, rotação e ritmos de acreção de uma grande amostra de buracos negros é fundamental para entender a gravidade em todo o cosmos. Além disso, dado que os buracos negros super-massivos estão fortemente ligados às propriedades das suas galáxias hospedeiras, estes estudos também são fundamentais para aprofundar o nosso conhecimento de como as galáxias se formam e evoluem ao longo do tempo.

“O grande conjunto de dados fornecidos pelo XMM-Newton foi essencial para este resultado,” disse Norbert Schartel, cientista do projecto XMM-Newton da ESA.

“O mapeamento da reverberação é uma técnica excitante que promete revelar muito sobre os buracos negros e sobre o Universo em geral nos próximos anos. Espero que o XMM-Newton realize campanhas de observação semelhantes para mais algumas galáxias activas nos próximos anos, para que o método esteja totalmente estabelecido quando a missão Athena for lançada.”

Astronomia On-line
24 de Janeiro de 2020

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3386: XMM-Newton descobre gás escaldante no halo da Via Láctea

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Esta animação mostra a via Láctea (a pequena galáxia no centro da imagem) e o seu halo (a região gasosa estendida).
Ilustra o halo em três tons diferentes – esmeralda, amarelo e verde. Todos estes se misturam ao longo do halo, e cada um representa gás de uma temperatura diferente.
Aparecem pontos por todo o halo; estes representam elementos e a suas abundâncias relativas, conforme detetado pelo observatório de raios-X XMM-Newton da ESA: azoto (preto, 41 pontos), néon (laranja/amarelo, 39 pontos), oxigénio (azul claro, 7 pontos) e ferro (vermelho, 1 ponto).
Crédito: ESA

O XMM-Newton da ESA descobriu que o gás escondido no halo da Via Láctea atinge temperaturas muito mais quentes do que se pensava anteriormente e que tem uma composição química diferente da prevista, desafiando a nossa compreensão do nosso lar galáctico.

Um halo é uma vasta região de gás, estrelas e matéria escura invisível em redor de uma galáxia. É um componente-chave de uma galáxia, ligando-a a um espaço intergaláctico mais amplo e, portanto, pensa-se que desempenhe um papel importante na evolução galáctica.

Até agora, pensava-se que o halo de uma galáxia contivesse gás quente a uma única temperatura, com a temperatura exacta deste gás dependente da massa da galáxia.

No entanto, um novo estudo usando o observatório espacial de raios-X XMM-Newton da ESA mostra agora que o halo da Via Láctea contém não apenas um, mas três componentes diferentes de gás quente, o mais quente destes sendo dez vezes mais quente do que se pensava anteriormente. É a primeira vez que múltiplos componentes de gás, estruturados desta maneira, são descobertos não apenas na Via Láctea, mas em qualquer galáxia.

“Pensávamos que as temperaturas do gás nos halos galácticos variavam entre 10.000 e um milhão de graus – mas parece que parte do gás no halo da Via Láctea pode atingir 10 milhões de graus,” disse Sanskriti Das, estudante na Universidade Estatal do Ohio, EUA, autor principal do novo estudo.

“Embora pensemos que o gás é aquecido a cerca de um milhão de graus quando uma galáxia se forma inicialmente, não temos a certeza de como este componente ficou tão quente. Pode ser devido aos ventos que emanam do disco de estrelas da Via Láctea.”

O estudo usou uma combinação de dois instrumentos a bordo do XMM-Newton: o RGS (Reflection Grating Spectrometer) e o EPIC (European Photon Imaging Camera). O EPIC foi usado para estudar a luz emitida pelo halo e o RGS para estudar como o halo afecta e absorve luz que passa por ele.

Para estudar o halo da Via Láctea no que toca à sua absorção, Sanskriti e colegas observaram um objecto conhecido como blazar: o núcleo energético e muito activo de uma galáxia distante que emite feixes intensos de luz.

Tendo viajado quase cinco mil milhões de anos-luz através do cosmos, a luz de raios-X deste blazar também passou pelo halo da nossa Galáxia antes de atingir os detectores do XMM-Newton e, portanto, contém pistas sobre as propriedades desta região gasosa.

Ao contrário dos estudos anteriores do halo da Via Láctea em raios-X, que normalmente duram um ou dois dias, a equipa realizou observações durante um período de três semanas, permitindo a detecção de sinais que geralmente são demasiado fracos para serem vistos.

“Nós analisámos a luz do blazar e concentrámo-nos nas suas assinaturas espectrais individuais: as características da luz que nos podem dizer mais sobre o material pelo qual passou a caminho de nós,” disse a co-autora Smita Mahur, também da Universidade Estatal do Ohio e orientadora de Sanskriti.

“Há assinaturas específicas que existem apenas em temperaturas específicas, de modo que fomos capazes de determinar o quão quente o halo gasoso deve ter estado para afectar a luz do blazar da maneira como afectou.”

O halo quente da Via Láctea também tem quantidades significativas de elementos mais pesados que o hélio, que geralmente são produzidos nas fases posteriores da vida de uma estrela. Isto indica que o halo recebeu material fabricado por certas estrelas durante as suas vidas e estágios finais, e que foi lançado para o espaço quando morreram.

“Até agora, os cientistas procuravam principalmente oxigénio, pois é abundante e, portanto, mais fácil de encontrar do que outros elementos,” acrescentou Sanskriti. “O nosso estudo foi mais detalhado: analisámos não apenas o oxigénio, mas também o azoto, o néon e o ferro, e encontrámos alguns resultados extremamente interessantes.”

Os cientistas esperam que o halo contenha elementos em proporções semelhantes às vistas no Sol. No entanto, Sanskriti e colegas notaram menos ferro no halo do que o esperado, indicando que o halo foi enriquecido por estrelas moribundas massivas, e também menos oxigénio, provavelmente devido a esse elemento ser absorvido por partículas poeirentas no halo. “Isto é realmente emocionante – foi completamente inesperado e diz-nos que temos muito a aprender sobre como a Via Láctea evoluiu para a Galáxia que é hoje,” acrescentou Sanskriti.

O recém-descoberto componente de gás quente também tem implicações mais amplas que afectam a nossa compreensão geral do cosmos. A nossa Galáxia contém muito menos massa do que esperávamos: isto é conhecido como o “problema da matéria em falta”, pois o que observamos não corresponde às previsões teóricas.

A partir do mapeamento a longo prazo do cosmos, a sonda Planck da ESA previu que pouco menos de 5% da massa do Universo deveria existir na forma de matéria “normal” – o tipo que compõe estrelas, galáxias, planetas e assim por diante.

“No entanto, quando somamos tudo o que vemos, o nosso valor não chega nem perto desta previsão,” salientou o co-autor Fabrizio Nicastro do Observatório Astronómico de Roma – INAF, Itália, e do Centro Harvard-Smithsonian para Astrofísica, EUA. “Então, onde está o resto? Há quem sugira que pode estar escondido nos halos extensos e massivos que rodeiam as galáxias, tornando a nossa descoberta realmente excitante.”

Dado que este componente quente do halo da Via Láctea nunca tinha sido visto antes, pode ter sido negligenciado em análises anteriores – e, portanto, pode conter uma grande quantidade desta matéria “em falta”.

“Estas observações fornecem novas ideias sobre a história térmica e química da Via Láctea e do seu halo e desafiam o nosso conhecimento de como as galáxias se formam e evoluem,” disse Norbert Schartel, cientista do projecto XMM da ESA.

“O estudo analisou o halo ao longo de uma linha de visão – aquela em direcção ao blazar -, de modo que será extremamente empolgante ver investigações futuras expandirem esta descoberta.”

Astronomia On-line
21 de Janeiro de 2020

spacenews

 

3374: Portuguesa Zita Martins participa em missão espacial inédita que vai interceptar cometa primitivo

CIÊNCIA

Uma missão espacial europeia, com a participação da astro-bióloga portuguesa Zita Martins, vai procurar interceptar pela primeira vez um cometa primitivo, inalterado pela radiação do Sol, para obter respostas sobre a origem da vida na Terra.

© Orlando Almeida / Global Imagens

A missão da Agência Espacial Europeia (ESA) “Comet Interceptor” (Interceptor de Cometa, em tradução livre) tem lançamento previsto para 2028 e será a primeira a recolher informação sobre um cometa que nunca se aproximou do Sol e, por isso, se manteve inalterado desde a sua formação.

“Apanhar” tais cometas tem sido difícil, uma vez que só podem ser detectados quando se aproximam do Sol pela primeira vez, deixando pouco tempo para planear e enviar uma missão espacial na sua direcção.

A missão “Comet Interceptor”, que conta com a colaboração da agência espacial japonesa (JAXA), vai colocar uma sonda a 1,5 milhões de quilómetros da Terra, na direcção contrária ao Sol.

Em conjunto com telescópios terrestres, um deles a ser construído no Chile, o aparelho irá permitir detectar um cometa proveniente da Nuvem de Oort, região nos confins do Sistema Solar, e eventualmente corpos interestelares que entraram no Sistema Solar pela primeira vez e estão na trajectória de aproximação ao Sol.

Assim posicionada, a sonda, a principal, será um “ponto de espera” a um desses cometas, disse à Lusa Zita Martins, especialista no estudo da origem da vida na Terra e a única cientista portuguesa que integra a equipa internacional que vai analisar os dados recolhidos na missão.

Depois de identificar o cometa até então desconhecido, a sonda viajará durante meses ou anos pelo espaço para estar no sítio e no momento certos para interceptar o cometa quando este cruzar o plano da elíptica, o plano da órbita da Terra em relação ao Sol.

Duas sondas mais pequenas serão libertadas da sonda principal antes de se aproximarem do cometa. São estes dois aparelhos que vão circundar o cometa e recolher o máximo de informação possível, incluindo sobre a composição da sua superfície, a forma e estrutura.

Todos os dados obtidos serão transmitidos para telescópios terrestres através da sonda principal com a qual comunicam.

Para Zita Martins, professora no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, interceptar um cometa primitivo é como entrar na “máquina do tempo”, uma vez que possibilitará desvendar quais “as moléculas orgânicas” disponíveis no início da formação do Sistema Solar e, assim, dar pistas mais concretas sobre a origem da vida na Terra.

Os cometas, vulgarmente descritos como “bolas de gelo sujas”, têm na sua composição, além de gelo, poeira, fragmentos rochosos, gás e compostos orgânicos (estes últimos terão chegado à Terra fruto do impacto dos cometas na superfície terrestre).

Missões espaciais anteriores estudaram cometas que entraram várias vezes no Sistema Solar e passaram perto do Sol, que produziu alterações na sua superfície, escondendo a sua aparência original.

A sonda europeia Rosetta orbitou durante dois anos, entre 2014 e 2016, o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, que viaja entre as órbitas da Terra e de Júpiter. Foi a primeira vez que uma sonda orbitou um cometa e teve um módulo robótico na sua superfície.

A missão “Comet Interceptor” será lançada à boleia de uma outra, a Ariel, também da ESA, que vai estudar a composição química da atmosfera de exoplanetas (planetas fora do Sistema Solar) já descobertos e que conta também com a participação de cientistas portuguesas.

Diário de Notícias

DN/Lusa

spacenews

 

3369: Sem ele não haveria vida na Terra. Cientistas traçam viagem cósmica do fósforo

CIÊNCIA

Forma-se nas correntes de gás que dão origem às estrelas e viaja à boleia de cometas. Foi assim que o fósforo, um dos constituintes da vida, chegou à Terra, há cerca de 4,5 mil milhões de anos. Astrónomos traçaram pela primeira vez o seu roteiro

Dizem os poetas que somos feitos do pó de estrelas, e não podiam estar mais certos, porque são as estrelas que forjam os elementos constituintes da vida. Toda ela: das bactérias e das plantas aos crustáceos ou aos vermes, dos linces, aos elefantes, e dos cachalotes aos seres humanos. Mas como surgiu, afinal, a vida na Terra, há cerca de quatro mil milhões de anos?

Esse processo é ainda hoje bastante misterioso, mas a ciência começa a ter algumas respostas, e uma delas tem a ver com o fósforo, um desses elementos essenciais à vida. Combinando dados de observações do telescópio ALMA, do ESO (European Southern Observatory), instalado no deserto de Atacama, no Chile, e da sonda Rosetta, da ESA, a agência espacial europeia, uma equipa de internacional de astrónomos traçou agora pela primeira vez o roteiro de viagem do fósforo, das estrelas, onde se forma, até à Terra, onde se juntou a outros elementos básicos para aqui fazer despontar a vida.

Os dados, publicados hoje na revista científica Monthly Notices of the Royal Astronomical Society mostram que o fósforo se constitui durante a própria formação de um certo tipo de estrelas, e que viaja depois através do cosmos à boleia de cometas, dispersando-se assim no espaço.

“A vida apareceu na Terra há cerca de 4 mil milhões de anos, mas ainda não sabemos bem que processos a tornaram possível”, afirma o principal autor do estudo, Víctor Rivilla, do Instituto Nacional de Astrofísica de Itália, sublinhando que os “dados combinados” do telescópio ALMA e do ROSINA, um dos instrumentos da sonda Rosetta, que estudou em detalhe o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, acabam por mostrar como se dá a sua génese, como se dispersa e como se tornou uma peça vital “no puzzle da origem da vida” na Terra.

Graças ao telescópio ALMA, os astrónomos observaram em grande detalhe uma região de formação de estrelas chamada AFGL 5142, e foi assim que conseguiram traçar o rasto ao fósforo. O que verificaram foi que as moléculas com fósforo, nomeadamente o monóxido de fósforo, se formam nas correntes de gás emitidas pelas estrelas massivas quando elas próprias estão a nascer.

É um processo complexo. As estrelas massivas em formação abrem grandes cavidades nas nuvens interestelares (as regiões nebulosas de gás e poeira que existem entre as estrelas) e é então nas paredes dessas cavidades que se formam as moléculas com fósforo, pela acção combinada da radiação e dos choques que são produzidos pela estrela bebé. Estava assim encontrada a sua origem. Mas o que aconteceria depois?

Das estrelas para o espaço

Para tentar responder à pergunta, os investigadores concentraram-se no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, do qual a missão europeia Rosetta traçou um dos mais detalhados retratos de um destes astros viajantes, e a ideia era tentar seguir o percurso das moléculas de fósforo, ou à base de fósforo, após a sua formação inicial. É que, após o colapso das tais cavidades nas nuvens interstelares, o fósforo ali criado agrega-se a poeiras que, por sua vez se agregam entre si, formando lentamente outros astros, como os cometas, que se tornam assim os seus veículos de transporte através do espaço.

Olhando para os dados do 67P/Churyumov-Gerasimenko, os astrónomos acabaram por encontrar o que procuravam: lá estava, sem margem para dúvida, a assinatura química do monóxido de fósforo.

O cometa 67P, fotografado pela sonda Rosetta
© ESA/Rosetta/NAVCAM

“A combinação de dados ALMA e ROSINA [o instrumento da sonda Rosetta que identificou os seus elementos] revelou uma espécie de linha condutora química durante todo o processo de formação estelar e onde o monóxido de fósforo desempenha um papel principal,” explica Victor Rivilla.

Kathrin Altwegg, investigadora principal de ROSINA e também autora do estudo acrescenta que “o monóxido de fósforo encontrado no cometa 67P poderá fortalecer [a tese] da ligação entre cometas e a vida na Terra”. O fósforo, diz, “é essencial à vida tal como a conhecemos” e, “muito provavelmente, os cometas transportaram enormes quantidades de compostos orgânicos para a Terra”.

Já Leonardo Testi, astrónomo do ESO e o gestor de operações do ALMA na Europa, sublinha a importância da “sinergia entre infra-estruturas líder mundiais no solo [o ALMA] e no espaço [a Rosetta], através da colaboração entre o ESO e a ESA”, para se chegar a esta “descoberta transformadora”, que permite ir mais além no conhecimento das “nossas origens cósmicas”.

Diário de Notícias

Filomena Naves

spacenews

 

3290: Europa parte para Marte em 2020. E há portugueses na missão

CIÊNCIA/ESPAÇO

É segunda fase da missão Exomars, que já colocou em 2016 uma sonda na órbita marciana. No próximo ano, parte um robô móvel europeu que vai procurar vida na superfície de Marte. E também há portugueses na missão

Em teste num campo “marciano” simulado © ALTEC

A ExoMars, a missão conjunta da agência espacial europeia ESA e da Rússia a Marte, cujo ambicioso objectivo é procurar sinais de vida no subsolo daquele planeta, tem em 2020 o seu primeiro grande momento: o do lançamento. Se tudo correr como está previsto, a partida deverá acontecer entre 26 de Julho e 11 de Agosto, a partir de do centro espacial da agência espacial Roscosmos, em Baikonur, no Cazaquistão. A chegada a Marte tem data marcada para Março de 2021. Uma missão ambiciosa, na qual não falta também a participação portuguesa.

A pouco mais de meio ano da hora H para a partida, a ESA anunciou agora que os testes dos para-quedas – que serão cruciais para amortecer a aterragem do rover europeu e da plataforma científica russa que lhe está acoplada – passaram com sucesso os primeiros testes realizados nos Estados Unidos com a colaboração de equipamentos da NASA.

Descer em Marte é uma operação delicada e muitas vezes fatal, como mostra o extenso rol de missões falhadas que já se contam na curta história espacial da humanidade.

Na prática, contadas todas as missões ao Planeta Vermelho, incluindo as que se destinaram somente à sua órbita, a maioria, por um motivo ou por outro, saldou-se em falhanço, embora as mais recentes da NASA, que colocaram vários rovers na superfície marciana, tenham sido coroadas de êxito.

A própria ESA tem o seu quinhão de sucessos e fracassos em missões marcianas, incluindo, em 2016, a primeira fase da ExoMars, de resultado misto, que colocou sem mácula a sonda TGO na órbita marciana para estudar a sua atmosfera, mas não conseguiu fazer aterrar o módulo Schiapareli, que integrava a missão.

Soube-se semanas depois que o Schiaparelli, que servia sobretudo para testar a manobra de aterragem e cujos dados acabaram por ser importantes para esta segunda fase da missão, se tinha despenhado devido a uma avaria que comprometeu os dados do sistema de navegação.

Uma falha num sensor, levou o sistema a disparar o para-quedas e a activar os travões antes de tempo, quando o pequeno módulo ainda estava a 3,7 quilómetros da superfície do planeta. Foi um desaire para a ESA, que ocorreu 13 anos depois de o também europeu Beagle 2 se ter despenhado ali também.

“Aterrar em Marte é difícil”

Com duas tentativas falhadas de pisar Marte para trás, a ESA abalança-se agora a uma terceira e, desta vez, com ambições maiores. A ideia é fazer descer em Marte um rover, ou robô móvel, equipado com uma plataforma científica, capaz de se deslocar e de escavar o solo até à profundidade de dois metros para aí recolher amostras e depois as analisar. A ideia é procurar aí, em profundidade, a resguardo das radiações cósmicas que fustigam a superfície, sinais da existência de vida no planeta.

A existir, os cientistas pensam que essa vida, feita provavelmente de microrganismos, poderá estar no subsolo, a salvo das radiações cósmicas, e por isso esta segunda fase da Exomars foi concebida para aí a procurar aí e, quem sabe, talvez encontrá-la. Afinal, o nome da missão, ExoMars, cita expressamente esse propósito, porque exo refere-se a exobiologia, ou seja, a biologia fora da Terra.

Até lá, porém, há várias etapas ainda a vencer, com alguns dos derradeiros testes a decorrer, como aconteceu agora em relação aos para-quedas que vão amortecer a aterragem e que obtiveram bons resultados, segundo Thierry Blancquaert, chefe da equipa de engenharia da ExoMars.

“Aterrar em Marte é difícil e não nos podemos dar ao luxo de deixar pontas soltas”, disse Thierry Blancquaert, citado num comunicado da ESA, sublinhando que “depois de vários problemas, as modificações no sistema de para-quedas estão a avançar. Os resultados dos testes preliminares são muito promissores e abrem caminho aos próximos testes de qualidade”.

Também o robô móvel está nesta mesma altura em fase final de testes, para ficar pronto, com todos os sistemas e equipamentos integrados e operacionais, no final de Março de 2020.

Tal como aconteceu com a primeira fase da missão ExoMars, que embora não tenha conseguido fazer aterrar o Schiapareli colocou com sucesso na órbita marciana a sonda Trace Gas Orbiter, ou TGO, também esta segunda fase conta com a participação de portugueses.

Sediada em Coimbra, a Critical Software, nomeadamente, participou no desenvolvimento dos sistemas de controlo de bordo da TGO, que continua a recolher dados na órbita do planeta e que já produziu o retrato mais detalhado de sempre das manchas de água gelada na superfície e de minerais com sinais de água no subsolo. A empresa participa igualmente nesta segunda fase da missão.

Outras das empresas que participou nesta segunda fase da missão ExoMars, nomeadamente com a concepção de algumas das peças da estrutura do robô móvel, é a Activespace Technologies, também de Coimbra.

Diário de Notícias
Filomena Naves
29 Dezembro 2019 — 20:35

 

spacenews

 

3264: Astrónomos descobrem uma das “fusões mais violentas” entre dois grupos de galáxias

CIÊNCIA

Chandra / NASA / CXC / SAO / E. O’Sullivan / ESA / XMM / SDSS

Uma equipa de astrónomos descobriu dois grupos de galáxias no sistema de fusão NGC 6338 a colidir a uma velocidade gritante de cerca de 6,4 milhões de quilómetros por hora.

Através dos dados fornecidos pelo Observatório de Raios-X Chandra da NASA, do XMM-Newton da ESA, do Telescópio Gigante de Metaveave e do Observatório Apache Point, uma equipa de astrónomos descobriu dois grupos de galáxias a colidir a grande velocidade –  a 6,4 milhões de quilómetros por hora. Esta pode ser a colisão mais violenta alguma vez observada entre grupos de galáxias.

As observações permitiram também concluir que os núcleos frios destes grupos de galáxias estão embutidos numa grande região de gás aquecido.

O sistema NGC 6338 mora na constelação de Draco, a cerca de 380 milhões de anos-luz do nosso planeta. A massa total deste sistema é de cerca de 100 biliões de massas solares – cerca de 83% na forma de matéria escura, 16% na forma de gás quente e 1% de estrelas.

Estudos anteriores indicaram a presença de regiões de gás frio, que emitem raios X em torno dos centros de ambos os grupos de galáxias – conhecidos como “núcleos frios”. Esta descoberta ajudou os cientistas a reconstruir a geometria deste sistema, revelando que a colisão entre os grupos de galáxias aconteceu quase ao longo da linha de visão da Terra. Esta descoberta foi confirmada neste novo estudo.

“Os novos dados mostram que o gás à esquerda e à direita dos núcleos frios, e entre eles, parece ter sido aquecido por frentes de choque formadas pela colisão“, adiantou Ewan O’Sullivan, do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, nos Estados Unidos, citado pelo Sci-News.

Este padrão de gás aquecido por choque foi previsto em simulações de computador, mas o sistema NGC 6338 pode ser a primeira fusão de grupos de galáxias a demonstrar este fenómeno. Por sua vez, o aquecimento impedirá que parte do gás quente arrefeça para formar novas estrelas.

“Uma segunda fonte de calor comummente encontrada em grupos e aglomerados de galáxias é a energia fornecida por explosões e jactos de partículas de alta velocidade geradas por buracos negros super-massivos”, explicaram os astrónomos. Esta fonte de calor parece estar inactiva em NGC 6338.

“Esta ausência pode explicar os filamentos de gás de arrefecimento detectados em raios X e dados ópticos em torno da grande galáxia no centro do núcleo frio no sul”. O artigo científico foi publicado recentemente na Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.

ZAP //

Por ZAP
25 Dezembro, 2019

 

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3263: Investigadores passam o Natal no escuro e no gelo polar pela ciência

CIÊNCIA

Ursos polares registados na missão Árctica Foto: Esther Horvath

Missão de investigação MOSAiC está a estudar o clima do Árctico e as alterações climáticas e investigadores vão ter de passar este Natal no Oceano Árctico em escuridão perpétua (por ser sempre noite).

A história é contada pela Agência Espacial Europeia (ESA) e remete para um grupo de investigadores que vão passar este Natal num dos locais menos confortáveis para a existência humana pelo amor à ciência e com ajuda tecnológica. O grupo vai estar à deriva no Oceano Árctico gelado a bordo do quebra-gelo alemão Polarstern, a temperaturas que podem ir até -45º e na escuridão perpétua do inverno polar.

E quem são eles? Um grupo de participantes na maior e mais longa missão de investigação polar chamada MOSAiC. Apesar da escuridão, os investigadores têm plena noção do que os rodeia graças à ajuda de radares. No total vão ter cerca de 600 investigadores de 20 países que se vão dividindo ao longo de um ano nas várias etapas da expedição do Observatório Multidisciplinar para o Estudo do Clima do Árctico (ou MOSAiC).

Imagens tiradas do navio Polarstern já no Árctico
ESA

Tudo começou em Outubro, quando o Polarstern (cujo nome significa estrela polar) entrou no Oceano Árctico. Agora está a percorrer o Árctico central, cumprindo a distância de 7 km por dia por entre o gelo. O vento e as correntes vão ajudando a levar o veículo para perto do Pólo Norte geográfico antes de sair da zona na próxima primavera ou no verão.

O que fazem por lá? A bordo vão poder realizar várias experiências no gelo do mar em torno do navio para entender melhor o impacto das alterações climáticas no gelo do mar e no ambiente do Árctico, algo que pode ter impacto na subida dos oceanos em todo o planeta. A equipa já colocou centenas de instrumentos no gelo marinho que circunda o navio até uma distância de 50 km.

Enquanto o navio flutua no mar repleto de gelo, os investigadores não estão cegos já que conseguem perceber o que os rodeia com a ajuda de satélites de imagens integrados com o radar do programa Copernicus da Europa, Canadá, Alemanha e Japão.

A tripulação e os cientistas monitorizam o gelo marinho e conseguem elaborar mapas ​​dos blocos de gelo marinho em torno do navio. Esses satélites com radar atravessam o Árctico diariamente e incluem a sua própria fonte de iluminação, o que lhes permite entrar na escuridão do inverno do Árctico à medida que vão mapeando as condições de gelo do mar por baixo.

O navio quebra-gelo Polarstern

Suman Singha, do Instituto de Tecnologia de Sensores Remotos do Centro Aeroespacial Alemão, coordena a recepção de imagens de diferentes satélites e é responsável por retransmitir as informações preciosas para o navio. Em declarações à ESA o especialista indica: “Essa informação é fulcral para Polarstern, especialmente no início da expedição, quando o desafio era encontrar o tipo certo de bloco de gelo capaz de abrigar o Polarstern e implementar todos os instrumentos científicos no gelo”. A ajudar têm imagens de radar de alta resolução do satélite alemão TerraSAR-X para localizar o bloco de gelo mais adequado, que recebeu o nome de Fortaleza.

O Polarstern tem quase 40 anos, 118 metros de comprimento e opera a temperaturas até os -50 graus. Consegue quebrar gelo entre 1,5 e 3 metros de espessura à velocidade de 5 nós (9,26 km/h). Em 1991 tornou-se no primeiro navio motorizado a chegar ao Pólo Norte.

dn_insider
Terça-feira, 24 Dezembro 2019
Por João Tomé

 

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3235: Missão Cheops da ESA levanta voo

CIÊNCIA

A missão Cheops da ESA levanta voo a bordo de um foguetão Soyuz-Fregat.
Crédito: ESA – S. Corvaja

A missão Cheops da ESA levantou voo a partir de um foguetão Soyuz-Fregat a partir do Porto Espacial Europeu em Kourou, Guiana Francesa, às 09:54:20 CET de dia 18 de Dezembro, na sua emocionante missão de caracterizar planetas em órbitas de outras estrelas que não o Sol.

Os sinais da nave, recebidos no centro de controle da missão no INTA, Torrejón de Ardoz, Madrid, via estação de rastreamento Troll às 12:43 CET, confirmaram que o lançamento foi bem-sucedido.

O satélite Cheops (Characterising Exoplanet Satellite) é uma parceria entre a ESA e a Suíça, com importantes contribuições de 10 outros países membros da Agência Espacial Europeia. A primeira missão da ESA dedicada aos exoplanetas, vai investigar planetas conhecidos para lá do nosso Sistema Solar e fornecer informações importantes sobre a natureza desses mundos alienígenas distantes.

Os cientistas especulavam há muito tempo a existência de exoplanetas até à descoberta de 51 Pegasi b, o primeiro planeta descoberto em torno de uma estrela parecida com o Sol, anunciada em 1995. Os descobridores, Didier Queloz e Michel Mayor, partilharam o Prémio Nobel da Física de 2019 pela descoberta inovadora, que marcou o início de uma nova era de investigação e transformou a investigação exoplanetária numa das áreas de mais rápido crescimento da astronomia.

Nos últimos 25 anos, astrónomos usando telescópios na Terra e no espaço descobriram mais de 4000 exoplanetas em torno de estrelas próximas e distantes, a maioria dos quais não possui homólogos no Sistema Solar. Esta variedade amplamente diversificada estende-se de mundos gasosos maiores que Júpiter a planetas rochosos e pequenos cobertos de lava, o tipo de exoplaneta mais abundante estando entre o tamanho da Terra e o de Neptuno.

“O Cheops levará a ciência exoplanetária a um nível totalmente novo,” diz Günther Hasinger, Diretor Científico da ESA.

“Depois da descoberta de milhares de planetas, a busca pode agora virar-se para a caracterização, investigando as propriedades físicas e químicas de muitos exoplanetas para realmente conhecer do que são feitos e como se formaram. O Cheops também abrirá caminho para as nossas futuras missões exoplanetárias, desde o internacional Telescópio James Webb até aos satélites Plato e Ariel da ESA, mantendo a ciência europeia na vanguarda da investigação sobre exoplanetas.”

O Cheops não vai concentrar-se na procura de novos planetas. Em vez disso, acompanhará centenas de planetas conhecidos que foram descobertos por outros métodos. A missão vai observar estes planetas exactamente quando passam em frente da sua estrela hospedeira e bloqueiam uma fracção da sua luz, para medir os seus tamanhos e com uma precisão e exactidão sem precedentes.

As medições dos tamanhos dos exoplanetas serão combinadas com informações existentes sobre as suas massas para derivar a densidade do planeta. Este é um factor chave para estudar a estrutura interna e a composição de planetas e para determinar se são gasosos como Júpiter ou rochosos como a Terra, se estão envoltos numa atmosfera ou cobertos por oceanos.

“Estamos muito empolgados por ver o satélite ser lançado para o espaço,” diz Kate Isaak, cientista do projecto Cheops da ESA.

“Existem muitos exoplanetas interessantes e iremos acompanhar várias centenas, concentrando-nos em particular nos planetas mais pequenos de tamanho entre a Terra e Neptuno. Parecem ser os planetas mais comuns da Via Láctea, mas ainda não sabemos muitos sobre eles. O Cheops vai ajudar-nos a revelar os mistérios destes mundos fascinantes e levar-nos mais perto de responder a uma das perguntas mais profundas que os humanos ponderam: estamos sozinhos no Universo?”

Para alguns planetas, o Cheops vai conseguir revelar detalhes sobre a sua atmosfera, incluindo a presença de nuvens e possivelmente até pistas da sua composição. A missão também tem a capacidade de descobrir planetas anteriormente desconhecidos, medindo pequenas variações no tempo de trânsito de um planeta conhecido, que também podem ser usadas para procurar luas ou anéis em torno de alguns planetas.

O Cheops é a primeira missão de classe ‘Pequena’ implementada no programa Cosmic Vision 2015-25, o actual ciclo de planeamento de missões de ciências espaciais da ESA e a primeira missão do programa a ser lançada. Como missão de classe-Pequena com um desenvolvimento relativamente curto – apenas cinco anos – do início ao lançamento do projecto, envolveu vários desafios, tornando necessária a utilização de tecnologias e aspectos de design de satélites já testados no espaço.

“Tanto o instrumento Cheops como a nave estão construídos para serem extremamente estáveis, de modo a medir as variações incrivelmente pequenas na luz de estrelas distantes à medida que os planetas passam em frente,” diz Nicola Rando, gestor do projecto Cheops da ESA.

“Para um planeta como a Terra, isto equivale a observar o Sol a partir de uma estrela distante e a medir a diminuição da sua luz por uma pequena fracção de um por cento.

“Agora, estamos ansiosos pela primeira parte das actividades operacionais, garantindo que o satélite e o instrumento funcionam conforme esperado e que estão prontos para os cientistas realizarem a sua ciência de classe mundial.”

O Cheops partilhou a sua viagem para o espaço com o satélite de segunda geração Cosmo-Skymed da Agência Espacial Italiana, que se separou 23 minutos após levantar voo.

O Cheops é uma missão da ESA implementada em parceria com a Suíça, com importantes contribuições da Áustria, Bélgica, França, Alemanha, Hungria, Itália, Portugal, Espanha, Suécia e Reino Unido.

Astronomia On-line
20 de Dezembro de 2019

 

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3215: À espera de nova data para o lançamento do satélite CHEOPS

CIÊNCIA/ESPAÇO

Depois de uma falha técnica ter adiado esta terça-feira o lançamento do CHEOPS, a ESA promete anunciar “assim que seja possível” a nova data para o lançamento, que pode ser já esta quarta-feira, à mesma hora

A ante-visão do CHEOPS em órbita
© EPA/ATG medialab / ESA

Uma falha no software que comanda a contagem decrescente fez abortar esta terça-feira o lançamento do CHEOPS, o satélite europeu que durante os próximos três anos e meio vai estudar os exoplanetas, a partir da órbita terrestre.

A agência espacial europeia ESA, adianta na sua homepage que anunciará “assim que possível” a nova data para o lançamento, que poderá ser já amanhã, no mesmo horário, ou seja às 8.54 (hora de Lisboa).

Lançado a partir do centro espacial de Kourou, na Guiana Francesa por foguetão russo Soyuz-Fregat, que transporta outros passageiros congéneres, o CHEOPS foi desenhado e concebido por um consórcio europeu que inclui desde o início cientistas e engenheiros portugueses, do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) – instituição que lidera a participação científica portuguesa na missão – e a Deimos Engenharia, que concebeu o software de decisão para as observações a serem feitas em cada momento pelo satélite.

O novo telescópio europeu ficará numa órbita entre os 800 e os 1200 km de altitude e vai observar durante os próximos três anos e meio mais de mil exoplanetas dos 4143 actualmente conhecidos.

Os exoplanetas seleccionados para este estudo aprofundado a partir das observações do CHEOPS são aqueles que têm dimensões entre as da Terra e Neptuno, para se fazer uma caracterização detalhada de cada um deles.

A ideia é levar o conhecimento sobre estes mundos distantes a um novo patamar, medindo-lhes o raio com um rigor sem precedentes, verificar a existência ou não de atmosferas, medir-lhes a temperatura e tentar perceber se algum deles poderá ter luas e anéis como acontece com alguns planetas do sistema solar.

Cerca de um mês após o lançamento, os dados do CHEOPS os cientistas poderão em terra o seu trabalho a partir dos dados enviados pelo novo telescópio espacial.

Diário de Notícias
Filomena Naves
17 Dezembro 2019 — 13:51

 

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3183: ESA declara guerra ao lixo espacial com um robô de quatro braços

CIÊNCIA

A Agência Espacial Europeia (ESA) acaba de assinar um contrato com a startup suíça ClearSpace para levar a cabo tarefas de limpeza de lixo orbital.

Em comunicado, a agência espacial aponta que a empresa vai desenvolver e lançar em 2025 a missão ClearSpace-1, visando capturar e remover de órbita o sistema Vespa para a separação de satélites deixado no Espaço pelo foguete Vega, em 2013.

A empresa suíça vai liderar um consórcio de empresas europeias na construção de um aparelho espacial com quatro braços, especialmente projectado para capturar fragmentos de lixo. Depois de capturados, estes detritos serão levados até à atmosfera da Terra, onde acabarão por ser queimados durante a sua reentrada.

Os custos da missão devem ascender aos 117 milhões de euros, de acordo com um porta-voz da ESA citado pelo portal Russia Today. O desenvolvimento do aparelho e os custos de lançamento serão suportados pela ESA.

A agência espacial e a ClearSpace planeiam lançar a sonda numa órbita de 500 quilómetros de altitude, onde o dispositivo será testado. Depois da provação nos testes iniciais, o dispositivo chegará à órbita de Vespa, que está a uma altitude entre 660 e 800 quilómetros e tem uma massa de 100 quilogramas.

Tanto o sistema Vespa como o próprio dispositivo da ClearSpace vão queimar-se no final da primeira missão, embora os dispositivos que serão lançados posteriormente serão capazes de eliminar lixo espacial sem que se tenham de destruir.

O objectivo final deste projecto, frisa a ClearSpace, passa por construir um instrumento de limpeza no Espaço com “alto nível de autonomia“.

Meio milhão de detritos em órbita

De acordo com a agência espacial norte-americana (NASA), há no Espaço meio milhão de detritos resultantes de lançamentos espaciais. Este lixo pode representar uma ameaça para missões actuais e futuras devido ao risco de colisão.

“Imaginem como seria perigoso navegar pelos mares se todos os navios perdidos na história continuassem à tona. Essa é a actual situação em órbita que não pode continuar”, disse o director geral da ESA, Jan Wörner, citado na mesma nota de imprensa.

De acordo com o CEO da ClearSpace, Luc Piguet, o problema do lixo espacial é agora mais urgente do que nunca. “Hoje temos quase 2.000 satélites operacionais e mais de 3.000 inactivos no Espaço (…) Nos próximos anos, o número de satélites no Espaço aumentará (…) com várias mega-constelações compostas por centenas ou mesmo milhares de satélites planeados para a órbita baixa da Terra”, apontou.

ZAP //

Por ZAP
13 Dezembro, 2019

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3131: Da Sagrada Família ao Coliseu de Roma. ESA mostra como se veriam asteróides a aproximar-se de monumentos emblemáticos

CIÊNCIA

A Agência Espacial Europeia (ESA) publicou no Twitter imagens de um sistema binário de asteróides a aproximar-se de alguns monumentos emblemáticos, ilustrando um cenário hipotético em que estas rochas chegariam até à Terra.

O Coliseu de Roma, em Itália, o Parlamento britânico e o Big Ben na capital londrina, a Torre Eiffel, em Paris, ou a Sagrada Família, em Barcelona, são alguns dos cenários escolhidos pela agência espacial para retratar esta situação.

Em causa estaria o sistema binário Didymos que, tal como o nome indica, consiste em duas rochas espaciais: Didymos, com cerca de 780 metros de diâmetro, e a sua lua lunar Didymoon, com cerca de 160 metros.

Embora Didymoon seja o menor corpo do sistema, o seu tamanho seria suficiente para destruir uma cidade, observa a ESA na imagem publicada no Twitter em que se pode ver este corpo sobre o Parlamento britânico e o Big Ben, no Reino Unido.

A lua de Didymos “será o menor corpo natural que foi alvo de uma missão espacial, mas ainda assim é bastante grande em termos humanos“, lê-se noutra publicação na rede social, que é acompanhada pela imagem do Coliseu de Roma, em Itália.

ESA Technology @ESA_Tech

… and while #HeraMission‘s ‘Didymoon’ asteroid moonlet is the smaller of the two #DidymosAsteroid pair, at 160 m across, this size would still make it ‘city-killer’ if it ever hit Earth. Didymoon is seen here above #London‘s #HousesOfParliament http://www.esa.int/Hera

No fim de Novembro, recorda a Russia Today, a agência espacial europeia aprovou a missão Hera, cujo objectivo passa por testar as capacidades do desvio de asteróides potencialmente perigosos para a Terra.

Esta missão faz parte de um projecto maior que será levado a cabo em colaboração com a agência espacial norte-americana. Trata-se da iniciativa AIDA (Avaliação de Desvio e Impacto de Asteróides) que, para além da Hera, incluirá também a missão DART, da NASA.

A missão pretende fazer colidir a sonda DART contra Didymoon em 2022, esperando modificar a sua órbita em torno de Didymos. Com este procedimento, os cientistas pretendem estudar o impacto e perceber quão viável é para a Humanidade desviar um corpo rochoso da sua trajectória, caso estivesse em rota de colisão com a Terra.

Posteriormente, Hera analisará a composição de Didymoon.

Apesar de ser muito pouco provável que um asteróide venha a colidir com a Terra nos próximos anos – a probabilidade é de 1 em 300.000, segundo a NASA -, as agências espaciais têm reunido esforços para melhorar os programas destinados para o acompanhamento e desvio destes corpos em rota de colisão com a Terra.

ZAP //

Por ZAP
2 Dezembro, 2019

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