4446: Estrelas de rápida rotação no centro da Via Láctea podem ter migrado da periferia da Galáxia

CIÊNCIA/ASTRONOMIA

Perscrutando o coração profundo da Via Láctea, o Hubble revela uma tapeçaria rica de mais de meio milhão de estrelas. À excepção de algumas estrelas azuis, no plano da frente, as estrelas fazem parte do Enxame Nuclear Estelar da Via Láctea, o enxame de estrelas mais massivo e mais denso da nossa Galáxia. Tão cheio de estrelas, é equivalente a ter um milhão de sóis amontoados no volume de espaço entre nós e a nossa vizinha estelar mais próxima, Alpha Centauri, a 4,3 anos-luz de distância. Bem no centro da nossa Galáxia, este enxame estelar rodeia o buraco negro super-massivo da Via Láctea, que tem cerca de 4 milhões de vezes a massa do nosso Sol.
Esta imagem, que abrange 50 anos-luz, é um mosaico composto por nove imagens separadas obtidas pelo instrumento WFC3 (Wide Field Camera 3) do Hubble. O centro de Via Láctea está localizado a 27.000 anos-luz de distância. Esta “tempestade” de estrelas é apenas a ponta do icebergue: os astrónomos estimam que cerca de 10 milhões de estrelas neste enxame sejam demasiado ténues para ser capturadas na imagem.
Crédito: NASA, ESA, e Equipa do Legado Hubble (STScI/AURA); Reconhecimento: T. Do e A. Ghez (UCLA), e V. Bajaj (STScI)

Num artigo científico publicado na revista The Astrophysical Journal Letters, uma equipa internacional de astrofísicos, incluindo cientistas da Universidade de Surrey, relata como descobriram um grupo de estrelas com características diferentes das suas vizinhas encontradas no Enxame Estelar Nuclear da Via Láctea.

Um enxame estelar nuclear é um aglomerado de estrelas muito denso e de alta luminosidade perto do centro de massa de uma galáxia. Geralmente encontram-se em galáxias de baixa massa onde os buracos negros super-massivos não estão presentes. E geralmente não existem em galáxias com buracos negros super-massivos. No entanto, algumas galáxias podem conter as duas categorias de objectos no núcleo galáctico, e a Via Láctea é um desses exemplos.

A equipa usou simulações de computador de alta resolução e de última geração para explicar como este grupo de estrelas pobres em metais e de rápida rotação veio a estar localizado no centro da nossa Galáxia.

Os seus cálculos descobriram que é provável que este grupo de estrelas seja um remanescente da migração de um enorme enxame estelar que se formou a alguns anos-luz de distância do centro da Via Láctea. Alternativamente, embora não seja tão provável quanto o cenário do enxame, a equipa também observou que o grupo de estrelas pode ter tido origem numa galáxia anã localizada a 320.000 anos-luz do Centro Galáctico.

Todas as evidências apontam para um evento de acreção que aconteceu há 3-5 mil milhões de anos, durante o qual um grande enxame migrou em direcção ao centro da Via Láctea e foi perturbado pelas fortes forças de maré do Enxame Estelar Nuclear, região esta com uma densidade estelar alta. As estrelas do enxame foram depositadas na região e foram descobertas com base nas suas velocidades peculiares e baixo teor de metal.

A Dra. Alessia Gualandris, professora de física da Universidade de Surrey, acrescentou: “Esta descoberta pode ser a ‘arma fumegante’ de que a Via Láctea tem vindo a acumular enxames estelares de galáxias anãs ao longo da sua vida. O seu passado foi muito mais activo do que pensávamos anteriormente.”

O Dr. Tuan Do, professor assistente da UCLA (Universidade da Califórnia em Los Angeles), disse: “É notável como estas novas observações do Enxame Estelar Nuclear podem revelar tanto sobre a história de toda a Galáxia.”

O Dr. Manuel Arca-Sedda, do Instituto de Cálculo Astronómico, em Heidelberg, Alemanha, concluiu: “Uma estreita colaboração entre observadores e teóricos foi fundamental neste estudo. A combinação de novas observações requintadas com modelos de computador de última geração permitiu-nos descobrir o local de nascimento destas estrelas peculiares.”

Astronomia On-line
6 de Outubro de 2020