814: Arrancar o fogo do Sol para produzir energia limpa e ilimitada

“A ideia de estar a lutar para tirar o fogo ao Sol e trazê-lo para a Terra.” A descrição do seu trabalho feita por Alex Martín, chefe de engenheiros da câmara de vácuo do ITER, parece um mito. Relacionar a sua missão com o roubo do fogo por Prometeu, arrebatando-o aos deuses para o dar aos homens. E bem caro pagou a sua ousadia: foi acorrentado a uma rocha onde todos os dias uma águia devorava o seu fígado que voltava a crescer durante a noite para a sua tortura ser eterna.

O ITER é provavelmente o maior projecto de ciência e engenharia da história da humanidade; é algo de mítico (no sentido em que merece uma admiração especial, não por ser uma história fictícia) e tem o dedo de Alex Martín. O objectivo de quem trabalha no ITER é demonstrar a viabilidade científica e tecnológica da fusão nuclear. Ou, como explica Bernard Bigot, o seu CEO: “Queremos demonstrar que o fenómeno que acontece nas estrelas e no sol, ou seja, a fusão de núcleos de hidrogénio, é possível de se realizar na Terra”.

ITER significa “caminho” em latim, um nome que remete para uma direcção e um destino, pois se tiver êxito, significa que foi encontrada uma fonte de energia limpa e inesgotável, já que o hidrogénio é uma das substâncias mais abundantes no universo. Os números relativos a uma investigação deste calibre são igualmente esmagadores: milhares de engenheiros e cientistas têm trabalhado desde o lançamento da ideia em 1985, há 35 países a colaborar na pesquisa (todos os países da UE mais os Estados Unidos, Japão, Rússia, China, Índia e Coreia do Sul), os investimentos serão superiores a 20.000 milhões de euros, o reactor experimental (chamado Tokamak) está a ser construído num terreno de 42 hectares no sul de França e para o concluir será necessário, segundo Bigot, a montagem de mais de um milhão de peças diferentes. “Nenhum país do mundo por si só tem capacidade para fornecer este equipamento num tempo razoável”, diz o CEO. Na verdade, um dos maiores riscos que este projecto enfrenta, diz Bigot, é que algum dos países membros decida sair ou não honrar os seus compromissos.

Segundo a própria descrição do ITER sobre as suas pesquisas, três condições têm de ser satisfeitas para conseguir a fusão num laboratório: alta temperatura (cerca de 150 milhões de graus, dez vezes mais que no núcleo solar); densidade suficiente de partículas de plasma (para aumentar a probabilidade de colisões); e tempo de confinamento suficiente (para manter o plasma, que tem propensão a expandir-se). Se, apesar da complexidade logística, científica e até mesmo a política de prazos for cumprida conforme o previsto, em Dezembro 2025 o Tokamak poderá entrar em funcionamento para efectuar as primeiras experiências baptizadas como “o primeiro plasma”. E apenas três décadas depois, em 2055, a electricidade produzida por meio da fusão poderá chegar aos nossos lares. Seria um avanço gigantesco. Um dos maiores a nível tecnológico da nossa espécie. Alex Martín volta a recorrer a uma frase sem rodeios para o exprimir: “Embora possa parecer bombástico, estamos a preparar o futuro da humanidade a longo prazo.”

Entrevista e edição: Maruxa Ruiz del Árbol, Douglas Belisario
Texto: José L. Álvarez Cedena

Diário de Notícias

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