2413: Renas estão a morrer à fome na Noruega. A culpa é das alterações climáticas

(dr) Elin Vinje Jenssen / Norsk Polarinstitutt

Investigadores descobriram que as mais de 200 renas encontradas mortas no arquipélago Svalbard, na Noruega, morreram à fome por causa das consequências das alterações climáticas.

Todos os anos, ecologistas do Instituto Polar Norueguês (NPI) fazem uma pesquisa sobre a população de renas em Svalbard, um arquipélago na Noruega composto por glaciares e tundra congelada (um bioma no qual a baixa temperatura e estações de crescimento curtas impedem o desenvolvimento de árvores).

Depois de dez semanas de investigação, os cientistas concluíram não só que a população de renas está a diminuir, mas também que os animais estão a perder peso. De acordo com o canal estatal NRK, citado pelo Live Science, as centenas de carcaças encontradas mostram que as renas estão a passar fome. “É assustador encontrar tantos animais mortos”, afirmou Åshild Ønvik Pedersen, um membro do NPI, à televisão.

As alterações climáticas estão a levar as temperaturas mais quentes para Svalbard, o que se traduz em maior precipitação. Segundo os investigadores do NPI, as fortes chuvas, ocorridas em Dezembro do ano passado, foram responsáveis pelo número excepcionalmente alto de mortes.

Depois de ter atingido o solo, a precipitação congelou, criando “cápsulas de gelo” na tundra, uma espessa camada que impedia as renas de alcançar a vegetação nos seus pastos de inverno habituais. Isto forçou os animais a cavarem poços na neve da orla costeira para encontrar algas, que são menos nutritivas do que a sua dieta habitual.

Os cientistas também observaram renas a pastar nas falésias, algo que estes animais raramente fazem durante o inverno, quando a comida é mais abundante. As regiões montanhosas e rochosas de Svalbard não têm muita vida vegetal, sendo esta “estratégia de cabras da montanha” arriscada para as renas, porque as falésias são muito íngremes.

Sem conseguir chegar às pastagens, as renas também se deslocam até mais longe para encontrar comida. E, quando há pouco para comer, os animais mais jovens e mais velhos são geralmente os primeiros a morrer, disse Pedersen à NRK.

Em 2016, um estudo da Sociedade Ecológica Britânica feito na Noruega também concluiu que as renas estão a encolher e o seu peso diminuiu 12% em 16 anos por causa do aumento das temperaturas.

ZAP //

Por ZAP
7 Agosto, 2019

 

502: “É o fim da maior parte da vida no planeta”, afirma cientista

Numa inquietante entrevista ao The Guardian, o cientista britânico Mayer Hillman diz que “não há forma de reverter o processo de alteração climática que está a derreter as calotas polares”.

O nome Mayer Hillman talvez pouco lhe dirá. Porém, este cientista social britânico de 86 anos, que tem ao longo da sua vida académica estudado dossiers ligados aos transportes, planeamento urbano, segurança rodoviária, ambiente e alterações climáticas, tem revelado através das suas teses, uma grande assertividade e uma invulgar capacidade de projectar ideias à frente do seu tempo e de antever, nas suas dissertações, aspectos que, mais tarde, se vêm a confirmar ou soluções que, à posteriori, acabam por ser aplicadas.

Talvez por isso valha a pena prestar atenção às suas mais recentes declarações. Ainda que aterradoras.

Doutorado pela Universidade de Edinburgo, Escócia, e professor, agora emérito do Policy Studies Institute, este londrino entende que o aquecimento global é irreversível. Apesar de todos os esforços que têm sido encetados e de todos os acordos climáticos que têm sido firmados, Mayer Hillman afirma que “não há forma de reverter o processo [de alteração climática] que está a derreter as calotas polares. E muito poucos parecem estar preparados para dizê-lo”. Mayer Hillman não tem pejo em assumir em papel, dizendo mesmo: “Estamos condenados”.

Hillman declara, sem rodeios, que “o resultado é a morte e é o fim da maior parte da vida no planeta pelo facto de sermos tão dependentes da queima de combustíveis fósseis”.

Em entrevista ao The Guardian, este cientista dá conta da sua sombria previsão a respeito das consequências das alterações climáticas.

“Com o abismo diante de nós, defender a utilização das bicicletas como o principal meio de transporte é quase irrelevante”, diz. “Temos que parar de queimar combustíveis fósseis. Há muitos aspectos da vida que dependem de combustíveis fósseis, excepto a música, o amor, a educação e a felicidade. Essas coisas, que dificilmente precisam de combustíveis fósseis, são aquilo em que nos devemos focar”.

Embora o cerne do pensamento de Hillman no último quarto de século tenha sido sobre as alterações climáticas, este autor é mais conhecido no Reino Unido pelo seu trabalho na área da segurança rodoviária e nos efeitos da utilização massiva dos automóveis.

Ele, por exemplo, em 1971, observou que 80% das crianças inglesas de sete e oito anos deslocavam-se para a escola sozinhas; hoje é praticamente impensável que uma criança de sete anos vá a pé até a escola sem a companhia de um adulto, nota este autor. Hillman frisa que removemos as crianças do perigo em vez de remover o perigo das crianças, tendo enchido as estradas com carros poluentes a caminho das escolas. Este cientista social calculou que o acto de levar as crianças de carro para a escola por parte dos encarregados de educação exigiu, no ano 1990, um total de 900 milhões de horas aos adultos que as levaram, custando à economia 23 mil milhões de euros por ano.

Dependência do automóvel

Para Hillman, o fracasso da nossa sociedade em compreender o verdadeiro custo dos veículos está na génese desta dificuldade de combater as alterações climáticas.

Temperaturas positivas no Polo Norte no inverno foram registadas quatro vezes entre 1980 e 2010. Mas agora ocorreram em quatro dos últimos cinco Invernos

O mais curioso na entrevista publicada pelo The Guardian é este cientista ter insistido com o jornalista que o entrevistou que ele não deveria apresentar o seu pensamento sobre as alterações climáticas como “uma opinião”.

Segundo Hillman, os dados são claros; o clima está a aquecer exponencialmente.

De resto, o Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (IPCC) estima que o mundo, no seu curso actual, irá aquecer até 3ºC até 2100. Modelos revistos ​​recentemente sugerem uma estimativa mais favorável de 2,8ºC, mas Hillman recorda que os cientistas ainda estão confrontados com a dificuldade de prever o real impacto total que terão no futuro situações como as da libertação de metano pelo derretimento dos permafrost.

Hillman mostra a sua surpresa pelas análises nos media raramente se estenderem para lá do horizonte de 2100. “Isso é o que eu acho extraordinário quando os cientistas alertam que a temperatura pode subir para 5ºC ou 8ºC. E vão parar aí? Que legado estamos a deixar às futuras gerações? No início do século 21, não fizemos nada de bom para dar resposta à mudança climática no planeta. Os nossos filhos e netos serão extraordinariamente críticos”.

Hillman afirma que a concentração de dióxido de carbono na atmosfera foi confirmada em mais de 400 partes por milhão, o nível mais elevado em, pelo menos, três milhões de anos (quando o nível do mar era 20 metros mais alto do que agora).

“Mesmo supondo que o mundo tivesse hoje uma pegada zero-carbono, isso não nos salvaria porque passámos do ponto sem retorno”, diz Hillman para quem mesmo que não emitíssemos, em absoluto, dióxido de carbono, daqui em diante, o que se conseguiria era uma redução do ritmo de subida das emissões, não a redução das emissões.

Nos últimos mais de vinte anos, Hillman não viajou de avião como parte de um compromisso pessoal de reduzir as emissões de carbono. Contudo, ele mostra desdém pelo contributo das acções individuais que ele descreve como “tão boas quanto fúteis”. Aliás, pela mesma lógica, clarifica Hillman, a acção nacional também é irrelevante “porque a contribuição da Grã-Bretanha é diminuta. Mesmo se o governo fosse para zero carbono, isso não faria quase diferença alguma”.

Que solução haverá? Hillman diz que a população mundial deve passar a ter, em todos os campos, zero emissões, desde a agricultura, às viagens aéreas, da navegação, ao aquecimento de casas. Para abrandar o ritmo de aumento da temperatura global. Outro pressuposto apontado por este cientista é o da redução da população humana. Isso pode ser feito sem um colapso da civilização? “Eu não penso assim”, responde Hillman. “Consegue ver todas as pessoas do mundo numa democracia a voluntariarem-se para desistir de voar? Consegue ver a maioria da população a tornar-se vegetariana? Consegue ver a maioria a concordar em restringir o tamanho dos seus agregados familiares?”, lança em tom provocatório.

Visão catastrofista

O cenário futurista traçado por Hillman é assustador, quase roçando um argumento dos típicos filmes-catástrofe.

“As pessoas ricas serão mais capazes de se adaptar, mas a população mundial deslocar-se-á para regiões do planeta, como o norte da Europa, que será temporariamente poupado dos efeitos extremos da mudança climática. Como vão essas regiões responder? Isso já se vê agora. Os migrantes serão impedidos de chegar”.

O The Guardian lembra que um pequeno grupo de artistas e escritores, como o projecto Dark Mountain de Paul Kingsnorth, abraçou a ideia de que a “civilização” terminará numa catástrofe ambiental, mas apenas alguns cientistas sugeriram isso. A visão de Hillman é consequência da velhice e da doença?, pergunta o jornal: “Eu há trinta anos que venho afirmando este tipo de coisas, quando era forte e saudável”, responde.

Hillman acusa todos os tipos de líderes – desde os religiosos aos cientistas, passando pelos políticos – de não discutir honestamente o que devemos fazer para passarmos para emissões zero de carbono.

“Eu não acho que eles podem, porque a sociedade não é organizada para permitir que eles façam isso. O enfoque dos partidos políticos é no emprego e no PIB, os quais dependem da queima de combustíveis fósseis”.

Diário de Notícias
30 DE ABRIL DE 2018 11:03
Motor 24

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