1974: Conferência de terraplanistas acusa “poderosos” de tentar “negar existência de Deus”

 

Kevin Carden / Deviant Art

Este domingo, terraplanistas italianos reuniram-se numa conferência em Palermo, na Sicília. Três oradores abordaram o tema, referindo argumentos para sustentar a crença de que a Terra é realmente plana.

Agostino Favari, Calogero Greco e Albino Galuppini foram os três palestrantes que deram início à conferência com a seguinte frase: “Não vamos adiantar as nossas profissões. A única coisa que importa é que a Terra é plana.” Para assistir à palestra, as pessoas tinham de pagar vinte euros, incluindo os jornalistas. “Se quiserem ouvir as nossas teorias, terão que pagar”, avisaram logo no início da conferência.

Greco abriu a palestra explicando que iria sustentar que a Terra é plana através da descoberta de novos territórios que vão além do pólo Norte. Segundo os palestrantes, o pólo Norte não passa de uma invenção geográfica, uma vez que, segundo eles, está localizado no centro da Terra plana e não no extremo.

“Como explicar, então, a possibilidade de viajar entre um pólo e outro? A prova é que não se pode fazer esta viagem porque o Tratado da Antárctida proíbe. Portanto, há algo escondido nesta proibição. Outro exemplo é o facto de afirmarem ser possível voar verticalmente, mas ninguém pode descolar sem uma autorização da torre de controlo”, sustentou Favari.

Para convencer o mundo das suas convicções de terraplanismo, os palestrantes mencionaram constantemente “as teorias conspiratórias organizadas por poderes fortes”.

Os astronautas são actores, a NASA é como a Disneylândia. A circum-navegação da Terra é uma ilusão. A força da gravidade não existe. A prova de que a Terra é plana está numa garrafa cheia: basta colocá-la horizontalmente para perceber que a água nunca se curva”, frisaram. “Essa história de que a Terra é esférica foi engendrada por um movimento subterrâneo que quer negar a existência de Deus.”

Que o tema desperta muita curiosidade, não é novidade. Por esse motivo, a conferência italiana reuniu mais jornalistas do que participantes. Das 50 pessoas que se inscreveram, apenas cindo afirmaram acreditar que a Terra é realmente plana. Os demais eram jornalistas e curiosos que vieram de diversa regiões de Itália para passar o fim de semana na Sicília ou apenas para se divertir.

Eliana Urbano Raimondi, de 24 anos, formada em educação artística e curadora de exposições, escolheu passar o domingo na conferência em Palermo. “As teorias sobre a Terra plana sempre me fascinaram. Eu gosto de ir contra a corrente, contra argumentos preestabelecidos que o sistema nos propõe”, disse a jovem, explicando que “o nosso planeta pode ser como o pingente plano do colar”.

Na sala de conferências do Hotel Garibaldi, havia também muitos cépticos, como Marco Guzzio, de 38 anos, formado em História e Filosofia. “Eu ouvi estes boatos há anos, como uma realidade distante, mas uma vez que tive a oportunidade de ver de perto, acho que é meu dever dar uma oportunidade a estas palavras.”

Apesar de o matemático e astrónomo grego Eratóstenes de Cirene ter calculado que a Terra é esférica, em 240 a.C, muitas pessoas ainda acreditam no terraplanismo.

Andrea Aparo von Flüe, docente de Física na Universidade de Roma, explicou alguns motivos que levam os terraplanistas a negar as evidências. “Aceitar as principais descobertas científicas requer a rejeição de uma narrativa existente. Este é o caso da evolução no contexto das interpretações fundamentalistas da Bíblia. Para aqueles que acreditam literalmente na história de Génesis, aceitar a evolução requer a rejeição da visão de mundo ditada pela Bíblia”, explicou.

“É essencial manter a coerência e a integridade da narrativa ortodoxa, num esforço de purificação ideológica. Não importa quão esmagadora seja a evidência científica. Por exemplo, é desnecessário explicar a Daniel que o leão vai matá-lo, porque ele sabe que Deus está com ele. É a fé contra as evidências experimentais. A teologia versus a ciência. A teologia e a fé vencem sempre”, afirmou o físico.

Segundo o professor, outra razão para rejeitar as narrativas científicas é não considerar qualquer valor científico que não pertença à comunidade que as originou. “No mundo de hoje, há muito conhecimento e nós temos tão pouco conhecimento individual que não nos consideramos significativos, com um sentimento de falta de controlo que alimenta a crença em teorias da conspiração”.

Aparo alertou ainda para os perigos desta vertente, como o movimento anti-vacinas. “Este movimento tem levado milhares de pessoas a deixar de vacinar os seus filhos, causando o ressurgimento de doenças, como o sarampo. Outro grande dano em negar as provas científicas são os efeitos colaterais das mudanças climáticas”, rematou.

ZAP // RFI

Por ZAP
13 Maio, 2019


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