3009: Centenas de sismos no Faial em oito dias. O que explica este fenómeno?

VIDA

Todos no mesmo local, sempre de baixa magnitude, entre os quais nove sentidos pela população. Não há um dia sem sismos nos Açores e esta é a terceira crise registada este ano.

Esta é a terceira crise sísmica sentida nesta zona dos Açores
© Reuters

Não é um, nem são dois. São já centenas os sismos registados desde as 16:00 do dia 3 de Novembro, numa zona localizada aproximadamente entre os 25 e os 30 quilómetros a oeste da freguesia de Capelo, na Ilha do Faial, Açores. Entre estes, apenas nove foram sentidos pela população, todos eles com baixa magnitude, mas com diferença de poucas horas. Afinal, o que se passa no arquipélago? O fenómeno “não é fora do normal”, explica o presidente do Centro de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos Açores (CIVISA), Rui Marques.

O número de tremores pode ser assustador, mas “esta é uma zona que recorrentemente tem incrementos de actividade sísmica”, diz o investigador. O facto de o arquipélago se encontrar “numa zona geodinamicamente muito activa” torna frequente esta actividade sísmica. Rui Marques explica que os Açores encontram-se “entre três placas tectónicas que aqui se conjugam, que é a placa americana, a placa euro-asiática e a placa africana” e “mesmo na fronteira de placas euro-asiática e africana que está constantemente em movimentação”.

“Todos os dias há sismos nos Açores. Não se ouve falar muito, porque as pessoas acabam por não sentir grande parte destes sismos – e ainda bem, senão causava algum pânico”, conta. Só no ano corrente, esta é a terceira crise sísmica, depois de uma ocorrida em Abril e outra em Setembro. Todas elas com “mais ou menos as mesmas características e sempre no mesmo local”.

Foi entre as 3:00 e as 14:00 desta quinta-feira, 7 de Novembro, que mais sismos se registaram por hora nesta zona. Mas o sismo mais energético desta crise atingiu uma magnitude de 4,4 na escala de Ritcher, no dia 5 de Novembro, às 6:22 (hora local), e foi sentido em toda a ilha.

O presidente do CIVISA diz que “para um sismo ser sentido não é só a magnitude (relacionada com a libertação de energia) que importa calcular”. Para tal, há “uma outra escala que nos ajuda a perceber o impacto do sismo, que é a intensidade”. O que esta escala diz é que, “à distância em que estes sismos ocorreram, basta uma magnitude de 3,1 para ser sentido“. “Se fosse mais próximo, nem era necessário tanta magnitude”, remata.

Bombeiros no Faial, após o sismo de 9 de Julho de 1998
© Marcos Borga

Para o investigador, a memória sísmica é uma constante no arquipélago, onde recorrentemente se registam “episódios com capacidade destruidora”. O último, lembra, foi na madrugada de 9 de Julho de 1998. Às 05:19 (hora local), um sismo de magnitude 5,8 (na escala de Richter) assolou as ilhas do Faial, Pico e São Jorge, provocando nove vítimas mortais, aproximadamente 100 feridos e deixando um rasto de destruição em mais de 70% do parque habitacional – 20% das casas ficaram totalmente destruídas e 53,8% danificadas, segundos dados do CIVISA.

Não é possível prever quando é que o arquipélago poderá voltar a sofreu um novo capítulo sísmico de grande dimensão, nem quando a actual crise sísmica terá fim. Segundo Rui Marques, “estamos numa altura em que se registam menos sismos por hora”, mas tal “não significa que esta crise esteja perto de terminar”.

Diário de Notícias
Catarina Reis
08 Novembro 2019 — 15:45