534: ASTERÓIDE EXILADO DESCOBERTO NOS CONFINS DO SISTEMA SOLAR

Esta imagem artística mostra o asteróide exilado 2004 EW95, o primeiro asteróide que se confirma ser rico em carbono a existir na Cintura de Kuiper e uma relíquia do Sistema Solar primordial. Este curioso objecto formou-se muito provavelmente na cintura de asteróides situada entre Marte e Júpiter e foi depois lançado a milhares de milhões de quilómetros de distância, instalando-se assim na Cintura de Kuiper.
Crédito: ESO/M. Kornmesser

Com o auxílio dos telescópios do ESO, uma equipa internacional de astrónomos investigou uma relíquia do Sistema Solar primordial. A equipa descobriu que o invulgar objecto da Cintura de Kuiper 2004 EW95 se trata de um asteróide rico em carbono, o primeiro deste tipo que se confirma existir nos frios confins do Sistema Solar. Este curioso objecto formou-se muito provavelmente na cintura de asteróides situada entre Marte e Júpiter e foi depois lançado a milhares de milhões de quilómetros de distância, instalando-se assim na Cintura de Kuiper.

Os primórdios do nosso Sistema Solar foram muito tempestuosos. Modelos teóricos desse período predizem que depois da formação dos gigantes gasosos, estes planetas assolaram o Sistema Solar, ejectando pequenos corpos rochosos das regiões internas para órbitas mais externas, muito afastadas do Sol. Em particular, os modelos sugerem que a Cintura de Kuiper — uma região fria situada para lá da órbita de Neptuno — deveria conter uma pequena fracção de corpos rochosos originários do Sistema Solar interno, tais como asteróides ricos em carbono, os chamados asteróides carbonáceos (ou do tipo C).

Agora, um artigo científico recente apresenta evidências sólidas para a existência do primeiro asteróide do tipo C observado na Cintura de Kuiper, apoiando assim fortemente os modelos teóricos dos primórdios turbulentos do nosso Sistema Solar. Após medições difíceis obtidas por vários instrumentos montados no VLT (Very Large Telescope) do ESO, uma pequena equipa de astrónomos liderada por Tom Seccull da Queen’s University Belfast no Reino Unido, conseguiu obter a composição do objecto anómalo da Cintura de Kuiper 2004 EW95 e determinar que se trata de um asteróide carbonáceo. Este facto sugere que o asteróide se formou originalmente no Sistema Solar interno, tendo depois migrado mais para o exterior (foram igualmente detestados nos confins do Sistema Solar outros objectos do Sistema Solar interior, no entanto este é o primeiro asteróide do tipo C a ser descoberto tão longe de casa, na Cintura de Kuiper).

A natureza peculiar de 2004 EW95 foi inicialmente observada durante observações de rotina obtidas pelo Telescópio Espacial Hubble da NASA/ESA por Wesley Fraser, também astrónomo na Queen’s University Belfast e igualmente um dos membros da equipa responsável por esta descoberta. O espectro de reflexão do asteróide — um padrão específico de comprimentos de onda da luz reflectida por um objecto — era diferente dos espectros de pequenos objectos da Cintura de Kuiper semelhantes, os quais apresentam tipicamente espectros pouco interessantes sem estruturas, que revelam pouca informação sobre a sua composição.

“O espectro de reflexão de 2004 EW95 era claramente distinto dos outros objectos observados no Sistema Solar externo,” explica o autor principal do trabalho, Seccull. “Era de facto suficientemente estranho para merecer uma segunda observação mais detalhada.”

A equipa observou 2004 EW95 com os instrumentos X-Shooter e FORS2 montados no VLT. A sensibilidade destes espectrógrafos permitiu aos investigadores obter medições mais detalhadas do padrão de luz reflectida pelo asteróide e consequentemente inferir a sua composição.

No entanto, mesmo com o impressionante poder colector do VLT, 2044 EW95 era ainda difícil de observar. Apesar do objecto ter uma dimensão de 300 km, encontra-se actualmente à colossal distância da Terra de 4 mil milhões de km, o que faz com que a obtenção de dados da sua superfície escura rica em carbono se torne um desafio científico bastante grande.

“É um pouco como observar uma montanha gigante de carvão sobre o fundo negro do céu nocturno,” explica o co-autor Thomas Puzia da Pontificia Universidad Católica de Chile.

“Para além de se movimentar, 2004 EW95 é também muitíssimo ténue,” acrescenta Seccull. “Tivemos que usar técnicas de processamento de dados muito avançadas para retirar a maior informação possível dos dados.” Duas estruturas nos espectros do objecto eram particularmente notórias e correspondiam à presença de óxidos de ferro e filos-silicatos. A presença destes materiais nunca tinha sido confirmada anteriormente num objecto da Cintura de Kuiper e sugere fortemente que 2004 EW95 se formou no Sistema Solar interior.

Seccull conclui: “Dada a localização actual de 2004 EW95, nos confins gelados do Sistema Solar, podemos dizer que o objecto foi lançado para a sua órbita actual por um planeta migratório durante os primórdios do Sistema Solar.”

“Apesar de já ter havido referências anteriores a outros espectros de objectos da Cintura de Kuiper ‘atípicos’, nenhuma foi confirmada com este nível de certeza,” comenta Olivier Hainaut, astrónomo do ESO que não fez parte da equipa. “A descoberta de um asteróide do tipo C na Cintura de Kuiper é uma das verificações chave de uma das previsões fundamentais dos modelos dinâmicos do Sistema Solar primordial.”

Astronomia On-line
11 de Maio de 2018

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