1843: “Choveu” no Sol (e o fenómeno pode resolver dois mistérios antigos)

Por que motivo a coroa do Sol – a camada mais externa do nosso astro – atinge temperaturas muito mais altas do que a superfície solar? Esta é a questão que há anos intriga cientistas, configurando um dos maiores e mais duradouros mistérios da nossa estrela. Uma equipa de cientistas da NASA pode ter resolvido a questão.

De acordo com uma nova investigação, cujos resultados foram publicados na passada semana na revista científica especializada The Astrophysical Journal Letters, a chave para resolver este mistério da Física solar pode estar nas “chuvas” de plasma do Sol.

A equipa, liderada pela cientista Emily Mason, sugere que os gases muito quentes e electricamente carregados – o chamado plasma – do Sol elevam-se através de loops à medida que a superfície do Sol atinge temperaturas mais altas. Ao afastar-se, sustentam os especialistas em comunicado, o plasma arrefece e volta à superfície da estrela.

Os cientistas comparam este processo, que a Ciência baptizou como “chuvas coronais”, às chuvas que ocorrem na Terra. A diferença, apontam, é que no segundo caso a precipitação ocorre sob a forma de chuva e não de plasma. Na Terra, quando a temperatura sobe, a água evapora, sobe e forma nuvens onde, quando arrefece, condensa, caindo sob a forma de chuva – que, por sua vez, arrefece a superfície do nosso planeta.

Noutra palavras, os cientistas defendem que tanto a Terra como o Sol estão de forma semelhante sujeitos a “chuvas”, o que muda são os tipos de condensação e arrefecimento.

“A Física é literalmente a mesma“, afirmou Emily Mason, especialista da Universidade Católica da América, no estado norte-americano de Washington, em declarações ao portal Science News, descrevendo os resultados da investigação preliminar.

Um segundo mistério resolvido no horizonte

Mason passou meses a procurar “chuvas coronais” em enormes estruturas magnéticas, conhecidas como “serpentinas de capacete”. “Provavelmente analisei três ou cinco anos de dados”, afirmou. Mas todas as suas tentativas foram em vão até que se debruçou em estruturas solares menores – a questão não era o que procurar, mas onde procurar.

E foi precisamente nas estruturas menores, que até então não tinham sido analisadas, que a especialista encontrou a “chuva” de plasma – que pode resolver não só um mistério do Sol, mas dois. “[Estas estruturas pequenas] eram realmente brilhantes (…). Quando finalmente olhei para [os seus dados], tive a certeza que ocorreram dezenas de horas de chuva de uma só vez”, explicou Mason, citada pela mesma nota de imprensa.

Até então, e de acordo com os dados da Ciência moderna, acreditava-se que as “chuvas coronais” apenas poderiam ocorrer em loops fechados, sendo que o plasma não podia escapar destas chuvas. Contudo, a nova investigação sustenta o oposto: o plasma inicia o seu “movimento” em circuito fechado, mas pode ser dividido – enquanto um parte do plasma participa na formação das “chuvas”, o restante pode, à luz do novo estudo, encontrar uma saída e fugir do loop, formando vento solar.

As “chuvas” de plasma encontradas nas estruturas menores do sol podem justificar as elevadas temperaturas da coroa, mas também a fonte do vento solar lento – dois dos maiores mistérios do nosso sistema planetário.

Os resultados da investigação indicam que o processo de aquecimento da coroa é extremamente localizado e ocorre apenas em condições particulares. Apesar de o seu trabalho não explicar exactamente por que motivo a coroa aquece tanto, fornece importantes pistas sobre o lugar onde este processo pode ocorrer, frisou Mason.

“Tendo em conta que a compreensão do aquecimento coronal é, sem dúvida, o problema mais importante por resolver da Física solar, as medidas detalhadas da chuva coronal são extremamente importantes”, pode ainda ler-se na publicação.

SA, ZAP //

Por SA
13 Abril, 2019