4688: Cientistas descobrem chimpanzés selvagens infectados com lepra pela primeira vez

CIÊNCIA/BIOLOGIA/GENÉTICA

Kimberley Hockings / Tai Chimpanzee Project
Woodstock, chimpanzé macho do Parque Nacional de Taï, infectado com Lepra

A lepra é uma doença particularmente perturbadora e dolorosa que, até agora, foi encontrada sobretudo em humanos. Mas uma equipa internacional de investigadores detectou recentemente a doença em chimpanzés selvagens.

Kimberley Hockings, um cientista que trabalha no Parque Nacional de Cantanhez, na Guiné-Bissau, reparou que vários chimpanzés selvagens daquele local apresentavam lesões no rosto.

“Nunca vi isto em chimpanzés”, escreveu Fabian Leendertz, veterinário de vida selvagem, a quem Hockings enviou um e-mail a pedir ajuda.

O veterinário decidiu, então, examinar amostras fecais de Woodstock, um chimpanzé selvagem do Parque Nacional Taï que apresentava os mesmos sintomas, e encontrou traços de Mycobacterium leprae, a bactéria que provoca a Lepra.

Além disso, os investigadores sequenciaram o genoma do patógeno e descobriram que era de um genótipo raro chamado 2F. Já na Guiné-Bissau, os chimpanzés estavam infectados com outro genótipo chamado 4N/O.

A lepra é uma doença sobre a qual não existe muita informação, mas que já afectou milhões de pessoas em todo o mundo. Depois de ter sido descoberta uma combinação de antibióticos que tratava a doença, o interesse científico diminuiu e, durante anos, os investigadores pensaram que afectava apenas humanos.

Mas, nas últimas duas décadas, o patógeno foi descoberto em tatus-galinha e esquilos vermelhos, onde se observou o mesmo genótipo bacteriano, denominado 3I, associado a infecções humanas na Europa medieval – o que indica que este terá passado dos humanos para os animais.

Agora, o novo estudo mostra que os chimpanzés selvagens sofrem de lepra, uma doença nunca antes documentada nestes animais. As estirpes da doença não parecem, no entanto, relacionadas e é improvável que tenham origem no contacto com humanos, argumentam os autores. O que significa que a descoberta pode indicar uma fonte desconhecida de lepra.

De acordo com a Science Magazine, as doenças humanas podem transmitir-se para os chimpanzés, com consequências devastadoras, mas Leendertz acredita que uma transmissão recente entre humanos e chimpanzés é improvável.

Além disso, os genótipos responsáveis ​​por ambos os surtos são raros em humanos, diz o estudo. “O cenário mais provável é que haja algum reservatório de lepra não identificado”, disse o veterinário.

Anne Stone, uma geneticista evolucionista na Universidade Arizona State, disse que suspeita há muito tempo que a bactéria da lepra possa prosperar noutro reservatório, em parte por causa do tamanho pequeno do seu genoma.

Além disso, Stone sugere que a bactéria poderia ter outro hospedeiro antes de passar para os humanos. “Os dados apontam cada vez mais para a possibilidade de que algo que não os humanos seja realmente o hospedeiro principal”, diz Stone, explicando que esse hospedeiro tanto poderia ser um animal caçado pelos chimpanzés como o meio ambiente.

Mas os roedores são os principais candidatos a hospedeiro, diz a cientista, que não descarta a hipótese de alguns insectos também terem sido infectados pela doença.

É um novo caminho interessante para a pesquisa da lepra, diz Charlotte Avanzi, outra autora do artigo. “Qualquer pista que possamos obter de animais ou de qualquer lugar é muito, muito útil”, acrescenta.

Até ao momento, os chimpanzés infectados parecem estar a lidar bem com a doença, embora um esteja a perder peso, diz Hockings. Mas tratá-los não é uma opção, “os humanos precisam de tomar antibióticos durante meses para tratar a lepra. Não se pode fazer isso com animais selvagens”, explica acrescenta Leendertz.

Por enquanto, a doença não parece colocar em risco os grupos como um todo, “mas é uma ameaça adicional, claro, além da caça ilegal, perda de habitat e outras doenças”, diz.

ZAP //

Por ZAP
20 Novembro, 2020


1023: Gestos e linguagem. Crianças e chimpanzés são macaquinhos de imitação

CIÊNCIA

(cc) KISSPNG

Segundo uma nova investigação, crianças ainda na fase pré-fala e chimpanzés usam cerca de 90% dos mesmo gestos físicos. A descoberta lança uma nova luz sobre a origem da comunicação dos primatas.

A investigação, publicada a 8 de Setembro na Animal Cognition, é a primeira a classificar os gestos criados por crianças através da mesma técnica usada na classificação de gestos de outros primatas, nomeadamente de chimpanzés.

Os resultados demonstraram que crianças entre os 12 e os 24 meses usam cerca de 90% dos mesmos gestos utilizados por chimpanzés jovens e adultos. Os gestos incluem os abraços, os saltos ou pulos, o pisar e o arremesso de objectos.

Segundo os investigadores, a existência desta similitude nos gestos sugere que os gestos das crianças são comportamentos inatos – um legado da partilha comum na história evolutiva.

Os autores do estudo esperavam expor as semelhanças e as diferenças na forma como as crianças humanas usam os gestos em comparação com os primatas, na esperança de desvendar novos caminhos no desenvolvimento da comunicação humana.

“Sabendo que os chimpanzés e os humanos partilharam um ancestral comum há cerca de 5 ou 6 milhões de anos, quisemos saber se a nossa história evolucionária de comunicação também se reflectiu no desenvolvimento humano”, afirmou Verena Kersken, investigadora na Universidade de Gottingen e autora do estudo.

No estudo, os investigadores observaram os gestos das crianças nas suas próprias casas ou nas creches juntos dos seus pares, familiares ou educadoras.

Na observação foram analisadas 13 crianças no total, 6 na Alemanha e 7 no Uganda. O facto de terem sido escolhidas culturas tão diferentes não é casual, e o objectivo neste método serviria para “diminuir a predisposição do impacto cultural e da língua nativa nos primeiros gestos”, lê-se no documento.

Já os chimpanzés analisados tinham idades compreendidas entre 1 e 51 anos, e foram observados no seu habitat natural na floresta Budongo, no Uganda.

Os macacos selvagens, não sendo portadores de uma linguagem vocal, utilizam cerca de 80 gestos diferentes que foram recolhidos num dicionário online, Great Ape Dictionary, que ajuda a desvendar o significado da linguagem destes mamíferos.

“Chimpanzés, gorilas e orangotangos, todos usam gestos para comunicar no seu dia-a-dia, mas até ao momento faltava um primata em toda a equação: nós“, explicou Catherine Hobaiter, autora sénior da investigação e cientista na Escola de Psicologia e Neuro-ciência da Universidade de St. Andrews.

“Usamos a mesma abordagem para estudar chimpanzés e crianças, o que faz sentido – as crianças são apenas pequenos macacos“, revelou.

Os gestos documentados nas crianças incluem levantar braços, pisões, palmas, abraços, abanar de cabeça, agarrar entre outros num total de 52 diferentes gestos dos quais 46, ou 89%, também foram documentados nos chimpanzés. Tal como os macacos, as crianças usaram os gestos isoladamente ou numa sequência para exprimir os seus anseios.

“Achávamos que iríamos encontrar um ou outro gesto semelhante, mas estamos fascinados por encontrar tantos gestos de macacos nos gestos das crianças”, contou Hobaiter.

Quanto às diferenças, o estudo indica que as crianças terão usado com mais frequência gestos de apontar – coisa que os macacos têm muita dificuldade e até cães e lobos o fazem com mais distinção. Curiosamente, o gesto de abanar a mão em forma de cumprimento ou de despedida aparentou ser um gesto distintamente humano.

Apesar das grandes diferenças entre o Homem e o macaco, esta investigação demonstra que o ser humano reteve algum dos comportamentos partilhados anteriormente com o macaco e que são visíveis no início do nosso desenvolvimento.

Os investigadores também adiantaram que estes gestos desempenham uma importante tarefa naquilo que será, depois, o desenvolvimento da linguagem verbal.

No futuro, a equipa que desenvolveu o estudo afirma que gostaria de repetir a investigação mas com um maior número de crianças num espectro ainda mais diversificado de culturas.

Importa ainda sublinhar que, independentemente do passado comum, estes comportamentos semelhantes poderão estar relacionados com o facto de as crianças e os chimpanzés terem corpos similares, o que resulta numa igual linguagem corporal.

Por ZAP
15 Setembro, 2018

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