239: Os buracos negros também arrotam. E este arrotou duas vezes

ESO/WFI, MPIfR/ESO/APEX/A. Weiss et al., NASA/CXC/CfA/R. Kraft et al.
O poder de um buraco negro super-massivo pode ser visto nesta imagem de Centauro A, um dos núcleos galácticos activos mais próximos da Terra.

Quando o gás cósmico se aproxima de um buraco negro, acaba por ser sugado pela força gravitacional – mas parte da energia é devolvida ao espaço sob a forma de um “arroto”.

Os telescópios espaciais Hubble e Chandra, da NASA, identificaram um novo “arroto” a emergir de um buraco negro localizado a 800 milhões de anos-luz de distância da Terra. E viram também os resíduos de outro “arroto” que ocorreu há 100 mil anos.

“Os buracos negros são comedores vorazes, mas não têm boas maneiras à mesa”, afirmou Julie Comerford, da Universidade do Colorado Boulder, nos Estados Unidos, durante a 231ª reunião da Sociedade Americana de Astronomia, em Washington à BBC.

“Há muitos exemplos de buracos negros a soltar ‘arrotos’ individuais, mas descobrimos uma galáxia com um buraco negro gigantesco que não solta um, mas dois arrotos”. O “arroto”, em si, consiste num fluxo de partículas de alta energia que é lançado para fora do buraco negro.

Os buracos negros “super-massivos”, considerados os maiores, são encontrados nos centros de quase todas as grandes galáxias. A emissão de raios-X da galáxia em questão – a SDSS J1354 + 1327 – foi captada pelo telescópio Chandra, que permitiu aos cientistas identificar com precisão a localização do buraco negro.

O Hubble mostrou, por sua vez, uma nuvem de gás azul esverdeado que se distanciava do buraco negro, um rescaldo do “arroto” anterior.

Os astrónomos descobriram que electrões tinham-se largado dos átomos da massa de gás, e supõem que isso foi causado por uma explosão de radiação na vizinhança do buraco negro. Enquanto isso, a radiação expandia-se para 30 mil anos-luz de distância do próprio buraco negro.

Mas os cientistas identificaram uma pequena circunferência nas imagens: o sinal de um novo “arroto” a emergir do buraco cósmico.

“Esse novo ‘arroto’ está em movimento, na verdade, como uma onda de choque que se desloca muito rápido”, disse Comerford.

“Pensei numa metáfora para isso, e estava a decidir se deveria usá-la ou seria um pouco demais… mas imagine alguém a jantar na mesa da cozinha, come e arrota, come e arrota. até que você percebe que ainda tem um ‘arroto’ antigo suspenso no ar na direcção do aperitivo. Enquanto isso, eles comeram o prato principal e soltaram um novo ‘arroto’”.

Segundo ela, o buraco negro estava a passar por um ciclo de “refeição, arroto e soneca” antes de recomeçar o ciclo.

As observações, publicadas no Astrophysical Journal, são importantes uma vez que sustentam teorias anteriores – não demonstradas até agora – de que os buracos negros devem passar por esses ciclos.

Esperava-se que ficassem brilhantes durante o processo de comer e arrotar e, na fase da soneca, escurecessem.

“A teoria previa que os buracos negros deveriam acender e apagar muito rapidamente. E a prova dos buracos negros dessa galáxia é que eles ‘reluzem’ com hiatos de 100 mil anos – o que é muito lento em prazos humanos, mas muito rápido quando se trata de intervalos de tempo cosmológicos”, conta Comerford.

Os cientistas acreditam que o buraco negro “arrotou” duas vezes porque fez duas refeições separadas.

A explicação pode estar no fato de que a galáxia em que se encontra colidiu com outra galáxia próxima. O impacto teria gerado uma abundância de gás cósmico – um verdadeiro “banquete” para o buraco negro.

“Há uma corrente de estrelas e gás que ligam essas duas galáxias. A colisão levou o gás a vazar para o buraco negro super-massivo e alimentá-lo com duas refeições separadas, que levaram a esses dois ‘arrotos’ isolados”, acrescenta Comerford.

ZAP //

Por ZAP
13 Janeiro, 2018

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