“A natureza está a diminuir a taxas sem precedentes em milhões de anos”

CIÊNCIA/ANTROPOCENO

De acordo com o relatório da WWF, o índice global do planeta vivo continua em declínio, com uma redução média de 68% na população de mamíferos, aves, anfíbios, répteis e peixes entre 1970 e 2016.

“A natureza está a diminuir globalmente a taxas sem precedentes em milhões de anos. A forma como produzimos e consumimos alimentos e energia e o flagrante desprezo pelo meio ambiente, enraizado no nosso modelo económico actual, levou o mundo natural aos seus limites”, escreve Marco Lambertini no documento intitulado Planeta Vivo 2020.

A covid-19, considera, é “uma manifestação clara” da ruptura na relação com a natureza.

“É hora de respondermos ao SOS da natureza. Não apenas para garantir o futuro de tigres, rinocerontes, baleias, abelhas, árvores e toda a incrível diversidade de vida que amamos e com a qual temos o dever moral de conviver, mas porque ignorá-lo também coloca a saúde, o bem-estar e a prosperidade, na verdade o futuro, de quase oito mil milhões de pessoas em jogo”, adverte o responsável pela WWW (World Wide Fund for Nature).

O relatório foi apresentado em Portugal na quarta-feira, numa conferência ‘online’ sob embargo até hoje, em parceria com a ANP (Associação Natureza Portugal), para a qual a única forma de reduzir o impacto humano no planeta é “consumir menos” e procurar alcançar o objectivo zero na extinção de espécies.

De acordo com o relatório, o índice global do planeta vivo continua em declínio, com uma redução média de 68% na população de mamíferos, aves, anfíbios, répteis e peixes entre 1970 e 2016.

“Uma redução de 94% para as sub-regiões tropicais das Américas é a maior queda observada em qualquer parte do mundo”, lê-se no relatório anual da organização de conservação da natureza WWF.

Para os anfíbios, as doenças e a perda de habitat são as maiores ameaças.

A Mata Atlântica no Brasil perdeu 87,6% da vegetação natural desde 1500, principalmente durante o século passado, o que levou a pelo menos duas extinções de anfíbios e 46 espécies ameaçadas de extinção.

Mais de 2.000 espécies de anfíbios estão ameaçadas de extinção, segundo os números apurados pela WWF.

Quase uma em cada três espécies de água doce estão igualmente ameaçadas de extinção.

Em 3.741 populações monitorizadas – representando 944 espécies de mamíferos, aves, anfíbios, répteis e peixes – o Índice do Planeta Vivo em Água Doce diminuiu em média 84%, o equivalente a 4% ao ano desde 1970.

“A maioria dos declínios observam-se em anfíbios de água doce, répteis e peixes e são registados em todas as regiões, particularmente na América Latina e nas Caraíbas”, lê-se no relatório.

“A influência da humanidade no declínio da natureza é tão grande que os cientistas acreditam que estamos a entrar numa nova época geológica, a Antropoceno”, frisa a WWF

Diário de Notícias

Lusa
10 Setembro 2020 — 08:45

 

 

317: Árvore mais solitária do mundo registou “o princípio do fim da humanidade”

Um abeto isolado, conhecido como “a árvore mais só do mundo”, contém o marcador geológico que assinala o início do Antropoceno, época que alguns definem como “o princípio do fim da humanidade”.

Se se quiser definir o Antropoceno como o momento em que “a humanidade inventou a tecnologia para se tornar extinta”, então “a árvore mais só do mundo” diz que tudo começou em 1965.

Esta é a conclusão dos investigadores Chris Turney e Jonathan Palmer, da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália, e Mark Maslin, da Universidade do Colégio de Londres, no Reino Unido, destacam num artigo no The Conversation.

O Antropoceno ou Antropocénico, também descrito como “a idade recente do homem”, é um termo ainda controverso, sendo usado por cientistas para definir a fase actual da história da Terra, assinalando aquele que terá sido o momento em que os humanos assumiram domínio absoluto sobre a natureza.

Há cientistas que defendem que a intervenção humana na Terra, fruto do desenvolvimento tecnológico, teve um impacto tão importante no planeta que originou uma ruptura com o passado e um novo começo, à semelhança do que terá acontecido quando um asteróide aniquilou os dinossauros, acabando com o período Cretáceo e dando início ao Paleogeno, constata o Live Science.

Chris S. M. Turney, et al / Scientific Reports

Esse momento, do fim do Cretáceo, é detectável nos registos geológicos como um “pico no elemento iridium“, substância provavelmente originária do asteróide que colidiu com a Terra.

Assim, uma “assinatura” geológica semelhante teria que existir para “definir o Antropoceno como uma época real”, salienta esta publicação. O caminho para essa “assinatura” pode estar nos testes nucleares realizados acima do solo, durante o período mais tenso da Guerra Fria.

“Potencial marcador para o início do Antropoceno”

Já se especulou que o aumento dos gases com efeitos de estufa ou do carbono na atmosfera, ou ainda o boom populacional do pós-II Guerra Mundial, seriam marcadores dessa nova época.

Mas, afinal, o Antropoceno terá começado em 1965, concluem estes investigadores no artigo científico publicado no Scientific Reports. É um abeto isolado, da espécie Sitka, que fica na Ilha Campbell, a sul da Nova Zelândia, que aponta para aquela data, explicam os autores do estudo.

Localizado a mais de 275 quilómetros de qualquer outra árvore, este abeto é descrito como “a árvore mais só do mundo” e não é nativa da ilha. Foi plantada no local, no início do Século XX, pelo Governador da Nova Zelândia Lord Ranfurly.

“A madeira da árvore registou o radio-carbono produzido por testes de bombas atómicas acima do solo”, que foram realizados nos anos de 1950 e 1960, explicam os investigadores.

As “análises detalhadas do crescimento ano a ano da árvore mostram que o pico nos elementos radioactivos teve lugar algures entre Outubro e Dezembro de 1965, o que coincide com o mesmo sinal no Hemisfério Norte”, acrescentam.

Assim, os investigadores acreditam que o abeto nos dá “um potencial marcador para o início do Antropoceno“, demonstrando “inequivocamente que os humanos deixaram um impacto no planeta”, que ficará “preservado no registo geológico por dezenas de milénios e para além disso”.

Os arbustos da ilha também registaram o aumento do radio-carbono na atmosfera a partir de 1954, atingindo o seu pico entre 1965 e 1966.

SV, ZAP //

Por SV
25 Fevereiro, 2018

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