1814: Descoberta misteriosa religião nas profundezas de um lago dos Andes

CIÊNCIA

(dr) Teddy Seguin

Há centenas de anos, a costa oeste da América do Sul era governada pelos Incas – um misterioso império considerado a sociedade mais avançada existente nas Américas antes da chegada de Colombo.

Porém, muito tempo antes de os Incas deterem o domínio sobre as vastas terras que se estendiam da Colômbia ao Chile, uma sociedade ainda mais misteriosa habitava na região dos Andes. Este império mais antigo foi chamado o estado de Tiwanaku, sobre o qual se sabe menos ainda. No seu auge, poderá ter tido entre 10 mil a 20 mil pessoas.

Os detalhes escassos que se sabe sobre o estado de Tiwanaku vêm de achados arqueológicos, descobrindo uma trilha de pistas sobre o povo Tiwanaku e a sua cultura há muito desaparecida. Agora, os cientistas acabam de anunciar a descoberta de uma grande peça nova do quebra-cabeça.

No primeiro mergulho e escavação arqueológica sistemática realizado nas águas do recife de Khoa, perto da Ilha do Sol no Lago Titicaca, na Bolívia, os investigadores encontraram evidências submersas de ofertas rituais feitas a divindades sobrenaturais – o que significa que a religião existia nesta parte do mundo – muito mais cedo do que se pensava.

“As pessoas costumam associar a Ilha do Sol aos Incas porque era um local de peregrinação importante para eles e porque deixaram para trás numerosas construções cerimoniais e ofertas na e em redor desta ilha”, disse o antropólogo José Capriles, da Pennsylvania State University.

“A nossa investigação mostra que o povo Tiwanaku, que se desenvolveu no Lago Titicaca entre 500 e 1.100 a.C, foi o primeiro a oferecer objectos de valor a divindades religiosas da região”, explicou.

Capriles e a sua equipa usaram sonar e fotogrametria 3D subaquática para monitorizar e mapear o recife durante uma visita de estudo de 19 dias ao Lago Titicaca durante 2013. Nos sedimentos no lago, encontraram queimadores de incenso em forma de puma, com fragmentos de carvão presentes nos depósitos escavados, e vários ornamentos de ouro, conchas e pedras.

(dr) Teddy Seguin
A equipa encontrou ofertas rituais, como queimadores de incenso; lamas sacrificados; e ornamentos de ouro, conchas e pedras

Acredita-se que o puma tenha sido um importante símbolo religioso para os Tiwanaku. Um motivo com um rosto com raios representado em dois medalhões de ouro sugere que as ofertas deveriam ser explicitamente para a principal figura mítica na sua iconografia religiosa, às vezes chamada de Viracocha.

Os investigadores dizem que as peças de oferta – datadas entre os séculos VIII e X a.C – não foram parar ao lago por acidente, mas parecem que foram projectadas para ficarem submersas. “A presença de âncoras perto das ofertas sugere que as autoridades oficiais podem ter depositado as ofertas durante rituais realizados em barcos”, referiu Capriles.

Os arqueólogos também encontraram evidências de peixes, anfíbios e ossos de aves, que, segundo a equipa, provavelmente se depositaram naturalmente no ecossistema submerso.

Mas há um animal na mistura que não é como os outros. Os ossos de quatro lamas também foram descobertos. Pensa-se que terão sido mortos no local ou perto dele e enterrados no mar como ofertas de sacrifício no antigo ritual.

Embora não se possa saber com certeza exactamente o que estes actos de oferta significaram para o povo Tiwanaku, o facto de que tais elaborados ritos foram realizados diz-nos algo mais sobre o estado e a sofisticação dos Tiwanaku.

Mais do que um mero culto num local extremo, as cerimónias em Khoa refletem uma interacção complexa de estar situado no centro do lago enquanto são realizadas por um pequeno grupo de elite”, escrevem os autores no artigo, publicado na revista PNAS.

“Eles também enfatizam a exibição de forças poderosas, como a disseminação de rituais focados na representação de uma divindade de rosto com raios e pumas cheios de fumo, o sacrifício de lamas e a disposição conspícua da riqueza.”

Os arqueólogos dizem que estes gestos simbólicos são todos os pilares de uma sociedade complexa emergente, que se poderia estar a expandir e talvez a procurar cooperar com outros grupos na região andina. Esses esforços podem ter valido a pena no curto prazo, até cerca de meio milénio depois.

ZAP // Live Science

Por ZAP
6 Abril, 2019

 

1283: Descoberto o segredo da sobrevivência dos antigos povos dos Andes

CIÊNCIA

(CC0/PD) etifae / Pixabay
Cordilheira dos Andes

Uma nova investigação, baseada nos antigos assentamentos das populações que viveram na Cordilheira dos Andes, revelou que estes povos sofreram mutações genéticas que lhes permitiram sobreviver em condições tão adversas.

De acordo com o novo estudo, publicado na semana passada na revista Science Advances, estas populações que viviam em territórios de elevada altitude foram modificando e adaptando os seus organismos ao longos dos anos.

E foi graças a estas alterações genéticas – que incluem corações maiores e pressão arterial ligeiramente mais alta – que conseguiram resistir e sobreviver às condições adversas dos Andes, evitando também certas doenças.

“Apesar das duras condições ambientais, os Andes foram povoados relativamente cedo após a entrada no continente [sul-americano]. As características adaptativas necessárias para a ocupação permanente podem ter sido seleccionadas por um período de tempo relativamente curto, na ordem dos milhares de anos“, pode ler-se na publicação.

Segundo o artigo, uma das mutações foi identificada foi no gene DST, que fez com que a anatomia dos corações da população dos Andes fosse mudando. A análise genética notou que os ventrículos direitos deste povo eram maiores comparativamente a um coração normal, melhorando assim o fornecimento de sangue oxigenado.

Outro sinal de adaptação foi encontrado no gene MGAM (maltase-glucoamilase), uma enzima intestinal. Os ancestrais do Andes, que habitaram estas terras altas há cerca de 7.000 anos, consumiam muito milho e batatas – produtos tradicionalmente consumidos naquela zona da América de Sul – e a evolução do MGAM permitiu-lhe fazer uma melhor digestão do amido.

A presença do MGAM produziu “uma mudança significativa na dieta” deste povo. Apesar de estas populações ingerirem muito amido, os seu genomas não produziram cópias adicionais do gene da amilase, como aconteceu nas áreas rurais da Europa.

No que respeita ao sistema imunológico, os povos dos Andes mostraram também ser mais resistentes. Durante a a epidemia de varíola na América Latina, causada pela chegada dos espanhóis, as taxas de mortalidade nos Andes foram entre 23% e 27%. No resto das Américas, as taxas de mortalidade ascenderam a 90%.

A análise genética, que analisou os vestígios mortais de vários ancestrais que viveram nos Andes, revelou que a adaptação foi o grande segredo para a prosperidade desta população.

ZAP // RT / LiveScience

Por ZAP
14 Novembro, 2018