1665: Primeira evidência de sistema global de águas subterrâneas em Marte

Exemplo de características identificadas numa bacia profunda em Marte que mostram que pode ter sido influenciada por água há milhares de milhões de anos. Clique aqui para ver versão anotada e mais informações.
Crédito: NASA/JPL-Caltech/MSSS

A Mars Express revelou a primeira evidência geológica de um sistema de antigos lagos interligados situados por baixo da superfície do Planeta Vermelho, cinco dos quais podem conter minerais cruciais para a vida.

Marte parece ser um mundo árido, mas a sua superfície mostra sinais convincentes de que grandes quantidades de água já existiram por todo o planeta. Nós vemos características que só podem ter sido formadas por água – canais e vales, por exemplo – e, no ano passado, a Mars Express detectou um reservatório de água líquida sob o pólo sul do planeta.

Um novo estudo revela agora a extensão de água subterrânea no passado de Marte, que anteriormente era apenas prevista pelos modelos.

“Marte já foi um mundo com água, mas à medida que o clima do planeta mudava, a água recuou para baixo da superfície e formou poços e ‘águas subterrâneas’, diz o autor principal Francesco Salese, da Universidade de Ultrecht, nos Países Baixos.”

“Nós rastreámos esta água no nosso estudo, já que a sua escala e papel são uma questão em debate, e encontrámos a primeira evidência geológica de um sistema de águas subterrâneas em Marte.”

Salese e colegas exploraram 24 crateras profundas e fechadas no hemisfério norte de Marte, com pisos cerca de 4000 metros por baixo do “nível do mar” marciano (um nível que, dada a ausência de mares no planeta, é arbitrariamente definido em Marte com base na elevação e pressão atmosférica).

Eles encontraram características no chão dessas crateras que só podem ter sido formadas na presença de água. Muitas crateras contêm múltiplas características, todas a profundidades entre os 4000 e 4500 metros – indicando que algumas destas crateras já contiveram reservatórios e fluxos de água que mudaram e recuaram ao longo do tempo.

As características incluem canais gravados nas paredes das crateras, vales esculpidos pela água subterrânea, deltas curvos e escuros que se pensa terem sido formados à medida que os níveis de água subiram e desceram, “terraços” acidentados nas paredes das crateras formados por água parada e depósitos de sedimentos em forma de leque associados a fluxos de água.

O nível de água está alinhado com as linhas costeiras propostas de um oceano marciano que se pensa ter existido em Marte há 3-4 mil milhões de anos atrás.

“Nós pensamos que este oceano pode estar ligado a um sistema de lagos subterrâneos espalhados por todo o planeta,” acrescenta o coautor Gian Gabriele Ori, director da Escola Internacional de Pesquisa de Ciências Planetárias da Università D’Annunzio, Itália.

“Estes lagos teriam existido há aproximadamente 3,5 mil milhões de anos, de modo que podem ter sido contemporâneos de um oceano marciano.”

A história da água em Marte é complexa e está intrinsecamente ligada a entender se a vida alguma vez surgiu ou não – e, em caso afirmativo, onde, quando e como o fez.

A equipa também avistou sinais de minerais em cinco das crateras que estão ligados com a origem da vida na Terra: várias argilas, carbonatos e silicatos. A descoberta suporta a ideia de que estas bacias em Marte podem ter tido os ingredientes para albergar vida. Além disso, eram as únicas bacias profundas o suficiente para cruzar com a parte saturada de água da crosta de Marte durante longos períodos de tempo, com evidências talvez ainda hoje enterradas nos sedimentos.

A exploração de locais como estes pode, portanto, revelar as condições adequadas para vida passada e, assim sendo, são altamente relevantes para missões astrobiológicas como a ExoMars – um esforço conjunto da ESA e da Roscosmos. Embora o ExoMars TGO (Trace Gas Orbiter) já esteja a estudar Marte a partir de órbita, a próxima missão será lançada no ano que vem. É composta por um rover – recentemente baptizado com o nome Rosalind Franklin – e por uma plataforma científica de superfície e vai explorar locais marcianos considerados essenciais na busca de sinais de vida em Marte.

“Descobertas como esta são extremamente importantes; ajudam-nos a identificar as regiões de Marte que são mais promissoras para encontrar sinais de vida passada,” diz Dmitri Titov, cientista do projecto Mars Express da ESA.

“É especialmente emocionante que uma missão tão frutífera no Planeta Vermelho, a Mars Express, seja agora fundamental para ajudar futuras missões como a ExoMars a explorar o planeta de uma maneira diferente. É um óptimo exemplo de missões que trabalham juntas com grande sucesso.”

Astronomia On-line
5 de Março de 2019

 

1521: Há uma “bomba-relógio” oculta por baixo da superfície do nosso planeta

martin_heigan / Flickr

As gerações futuras enfrentam uma “bomba-relógio” ambiental, à medida que os sistemas de águas subterrâneas do mundo precisam de décadas para responder ao impacto actual das mudanças climáticas.

Encontrado no subsolo, em fendas no solo, areia e rocha, o lençol freático é a maior fonte utilizável de água doce do planeta e mais de dois mil milhões de pessoas dependem dele para beber ou irrigar as plantações.

É lentamente abastecido pelas chuvas – um processo conhecido como recarga – e é descarregado em lagos, rios ou oceanos para manter um equilíbrio geral entre a entrada e a saída de água.

As reservas de água subterrânea já estão sob pressão à medida que a população global cresce de forma exponencial e a produção agrícola cresce em sincronia. No entanto, os eventos climáticos extremos, como secas e chuvas recordes – ambos agravados pelo aquecimento do planeta – podem ter um impacto duradouro na rapidez com que as reservas se reabastecem, segundo um estudo publicado na Nature Climate Change.

Uma equipa internacional de investigadores utilizou a modelagem computacional de conjuntos de dados de águas subterrâneas para fazer um cronograma sobre como as reservas podem responder às alterações climáticas.

“A água subterrânea está fora da vista e da mente, esse enorme recurso oculto sobre o qual as pessoas não pensam muito, mas sustenta a produção global de alimentos”, disse Mark Cuthbert, da Escola de Ciências da Terra e do Oceano da Universidade de Cardiff.

Cuthbert e a equipa descobriram que apenas metade de todos os suprimentos de água subterrânea provavelmente será totalmente reabastecida ou reequilibrada nos próximos cem anos – levando potencialmente à escassez de áreas mais secas.

Contamos com a chuva para manter as águas subterrâneas, o que significa que as áreas com um clima mais quente e menos chuvas vão acender o pavio de uma futura “bomba-relógio” em que o abastecimento de água não consegue acompanhar a procura. O atraso de tempo faz com que essa escassez “oculta” seja ainda mais perigosa.

O processo pelo qual a água da chuva é filtrada através do leito de rocha e acumulado no subsolo pode demorar séculos e varia muito por região. À medida que as mudanças climáticas proporcionam secas mais longas e tempestades maiores, os extremos de chuvas tornam-se mais pronunciados, impactando as reservas de água subterrânea para as gerações futuras.

A equipa descobriu que as reservas em áreas áridas demoravam muito mais tempo – vários milhares de anos em alguns casos – para responder a alterações no clima do que reservas em partes mais húmidas.

“Partes da água subterrânea que está sob o Saara actualmente ainda estão a responder à mudança climática de há dez mil anos, quando estava muito mais húmida”, disse Cuthbert. “Sabemos que existem esses atrasos enormes“.

O estudo mostrou um dos impactos “ocultos” da mudança climática e pede acções imediatas. “Algumas partes do mundo podem ficar mais húmidas, algumas podem ficar mais secas, mas não é apenas a quantidade total de chuvas que é importante, mas também a intensidade das chuvas”, acrescentou Cuthbert.

ZAP // Phys

Por ZAP
25 Janeiro, 2019